Eu conheci Ahmad Safi, um dos fundadores da Palestinian Animal League (PAL – Liga Animal Palestina), em 2015. Sou uma grande admiradora do trabalho que a PAL, a primeira Organização de Proteção aos Animais atuando dentro dos Territórios Palestinos Ocupados, está fazendo e tinha vontade de entrevistar Ahmad desde então. No final de abril deste ano, finalmente marcamos uma data e nos encontramos na hora do almoço no Sudfeh, o primeiro restaurante vegano/vegetariano da Palestina, localizada na Universidade Al Quds, em Abu Dis.

Ahmad chegou dizendo que não estava se sentindo tão bem. Na noite anterior soldados israelenses invadiram o campo de refugiados de Jalazone, onde ele vive com sua família, e atiraram nos moradores. “Ontem à noite eu encontrei um amigo e decidimos sair para nos divertir. Quando chegamos na entrada do campo vimos dois garotos feridos. Olhei pro que estava mais perto de mim e tinha tanto sangue que não o reconheci, mas me disseram que era meu vizinho. Eu coloquei o garoto no meu carro e meu amigo me ajudou a levá-lo ao hospital. Ele tinha ferimentos muito graves, parte do seu cérebro estava exposto. Não levamos o outro rapaz porque ele já estava morto. Outras pessoas no campo também estavam feridas. Infelizmente, meu vizinho morreu no hospital. Ele só tinha 16 anos. Hoje de manhã alguém estava grelhando carne. Durante a primeira intifada algumas pessoas do campo morreram queimadas e é exatamente o mesmo cheiro de carne sendo grelhada. Eu já senti o cheiro de muitos cadáveres na minha vida, mas na noite passada foi terrível. Eu me senti realmente mal. Vim trabalhar hoje pra tirar esses pensamentos da cabeça.”

 Esse é o dia a dia dos palestinos. Não foi a primeira vez que Ahmad presenciou alguém que ele conhecia, um vizinho, um amigo, sendo morto pelas forças de ocupação. A vida continua, mas não consigo não me sentir estranha perguntando a ele sobre veganismo depois de ouvir os terríveis eventos que aconteceram há poucas horas.

Mas durante a entrevista, Ahmad me lembrou que todas as lutas estão conectadas e que não podemos separar a luta por direitos humanos da luta por direitos animais. Especialmente agora que a comunidade vegana está crescendo dentro de Israel e o movimento está sendo usado como mais uma ferramenta do kit de propaganda israelense. Trata-se do chamado “veganwashing”, que usa a crescente popularidade do veganismo dentro da sociedade israelense pra apresentar uma imagem “progressista” do estado e tirar o foco da violência perpetrada contra os palestinos pelo projeto colonialista israelense. Até mesmo o exército israelense entrou nessa e tem oferecido a possibilidade de optar por refeições veganas e botas de couro sintético aos soldados que se declarem veganos, em uma tentativa de melhorar sua imagem.

O veganismo não é o único movimento de justiça social usado pelo governo israelense para “lavar” seus crimes. A comunidade LGBTQ frequentemente é usada para vender a imagem de país progressista e esconder as violações a direitos humanos praticadas por Israel, o que é conhecido como “pinkwashing”.

 

Como você se tornou vegano?

Assim que comecei a visitar matadouros. Quando eu vi o que acontecia lá, me tornei vegano.

 

O que é o método de abate halal? Como ele se diferencia dos métodos tradicionais de abate de animais?

Nós temos um ditado em Árabe que diz: “não importa quanta misericórdia você tenha, matar é matar”. Então não importa se é halal, se você fez com essa ou com aquela máquina, se a faca é afiada… matar é matar. Esse é um ponto muito importante que as pessoas costumam esquecer.

Quando nós precisamos comer carne? Quando não temos nada mais para comer e nossa sobrevivência depende disso, mas atualmente temos várias alternativas. Muitas alternativas.

Quando comecei a me dar conta disso, pensei: “preciso me tornar vegano”, mas dentro da PAL não temos uma regra que diz que você precisa ser vegano para participar, porque as pessoas vão aprender por conta própria e, quando tiverem informações suficientes, vão mudar.

 

O que você acha dos ativistas por direitos animais que diminuem o sofrimento humano ou que dizem que basta as pessoas se tornarem veganas pra obter justiça em todos os lugares e pra todo mundo?

É loucura. Essas pessoas são especistas se acham que animais valem mais do que humanos. Eu odeio isso. Humanos e animais são iguais. Todos os seres vivos têm o direito à vida. Você escolheu nascer? Você está aqui agora e você tem o direito de viver. Quem decide quem tem e quem não tem o direito à vida? Somente o ódio. Ódio. E ganância.

E, por isso, o que pensamos sobre animais é o mesmo que pensamos a respeito de humanos e vice-versa. Devíamos nos chamar apenas de “seres”. Somos todos seres e somos todos iguais.

 

Eu achei o seu artigo sobre o Islã e o veganismo muito interessante.

Comer animais era permitido porque nós vivíamos no deserto. Você tem que lembrar que era uma outra época. Se você está no deserto, os únicos alimentos disponíveis são trigo e tâmaras. Hoje importamos coisas de Portugal, da Espanha! É um mundo diferente. Agora eu posso encontrar milhares de alternativas para comer.

(Ahmad pede licença pra falar com uma pessoa que estava passando na hora. Quando ele volta à conversa ele percebe que uma outra estrangeira, que veio comigo, havia se sentado à mesa. Ele perguntou, em Árabe, como ela estava. Ela respondeu usando o masculino, pois em Árabe o gênero é expresso em todos os adjetivos. Eu apontei o erro, mas Ahmad riu e disse que não tinha importância. “Somos contra essa coisa de gênero. É uma construção social.” Começamos então uma conversa sobre o absurdo que é o gênero nas gramáticas das nossas línguas maternas).

 

Como começou a PAL?

Para ser honesto nós não pensávamos em direitos animais quando iniciamos. Criamos a PAL para educar as crianças sobre violência. Para quebrar o ciclo de violência. (Eu ouvi Ahmad explicando isso algumas vezes em apresentações. Um homem palestino apanha de um soldado israelense, vai para a prisão sem nenhuma razão, é torturado na prisão… então quando é solto, ele começa a reproduzir a violência da qual foi vítima dentro de casa, com sua esposa, que então a reproduz com os seus filhos; as crianças mais velhas reproduzem com as mais novas, e no final desse ciclo de violência estão os animais, que são abusados pelas crianças.) Mas então começamos a refletir sobre muitos problemas.

Uma das coisas que são realmente importantes para nós é empoderar as pessoas para que elas se ajudem. Nós fazemos muitas atividades. Por exemplo, voluntários nos ajudaram a limpar as ruas dos campos de refugiados. Queríamos ter o envolvimento das pessoas, que as crianças estivessem envolvidas. Todas as pessoas que são parte da sociedade deveriam se sentir responsáveis. Nós encorajamos as pessoas a questionar. “Por que nós existimos? ” Eu quero mudar as antigas ideias delas sobre serem ajudadas, sobre serem apenas consumidoras. Eu quero que elas (as pessoas) pensem: “Qual o meu lugar na sociedade? Qual a contribuição que eu sou capaz de fazer? ”

Quando recrutamos voluntários, a única pergunta que fazemos é: “Você gosta de animais? ” Se você acredita em bem-estar animal ou em direitos animais, tudo bem. Nós precisamos de sua ajuda, então você pode vir e ajudar da forma como puder. E ao mesmo tempo em que eles fazem o trabalho voluntário com a gente, eles aprendem. Essa é a maneira como trabalhamos.

Na minha opinião a PAL é um movimento, não uma organização ou uma instituição. Ela é um movimento, um movimento interseccional. Nós lutamos. Onde houver a necessidade de lutar para ajudar pessoas, nós iremos e lutaremos. Nós não paramos nos direitos animais. Atualmente nós estamos dando aulas aos estudantes com dificuldades na escola e temos voluntários ensinando inglês a eles. Por quê? Porque eles precisam. Por que deveríamos dizer: “Nós só trabalhamos com direitos animais? ” Isso não é certo.

 

Eu gostei do que você disse, que a PAL não deveria ser uma organização, mas sim um movimento. Quais são os objetivos desse movimento?

Direitos para todos os seres vivos. Qualquer ser vivo. Mas também criar a sociedade onde queremos viver. Há muita capacidade dentro da sociedade palestina, muitos jovens. 51% da sociedade palestina tem menos de 18 anos. Isso é poder e precisamos usá-lo. Este é nosso grande poder. E se nós o utilizarmos da maneira correta, nós teremos um Estado e estaremos prontos para esse Estado. Eu não nego que nós estamos também lutando por nosso país. Porque nós não podemos nos separar da luta de nosso povo, porque essa é nossa batalha diária. Nós não podemos estar alheios à situação atual.  A luta é pra mudar os estereótipos sobre a Palestina. Mudar a maneira como as pessoas olham para a Palestina. Mudar a forma que as pessoas pensam sobre os palestinos, porque não é da forma correta. As pessoas vêem os palestinos somente de duas maneiras: como vítimas ou como terroristas. Nós não precisamos de sua pena. Se alguém não tem direitos então você também não tem direitos. Se alguém está lutando, então você deve sentir que esta luta também é sua. Não precisamos de ajuda. Precisamos que as pessoas vivam conosco, entre nós e que acreditem que a nossa luta é a luta delas. O contrário também é verdadeiro. Nós pensamos que sua luta é a nossa luta. É assim que as coisas são. Então, se você quer vir aqui e se juntar a nós, fazer parte desse movimento, você é bem-vindo.

Tenho esperanças e planos de tornar esse movimento internacional. Neste momento nós temos a solidariedade de grupos na Europa, mas também nos EUA. Nós precisamos tornar esse movimento internacional. Estamos prestando atenção às lutas dentro da Palestina, mas também olhamos para fora. O povo palestino é ignorado pela mídia. Venham e convivam conosco, depois voltem pros seus países e digam ao seu povo o que viram, não o que a Fox News, a CNN e os outros meios de comunicação mostram pra vocês.

 

Você acha que essa é a nossa missão como estrangeiras? O que você espera das ativistas solidárias estrangeiras?

Eu tenho muitas missões pras pessoas de fora. Sua primeira missão é vir pra a Palestina. Venha, demonstre seu apoio e nos ajudem como iguais. Direitos iguais, lutas equivalentes. Venha e lute conosco. Então, volte e compartilhe sua experiência. Escreva sobre isso. Escreva sobre a Palestina a partir da sua perspectiva, sobre o que você  viu com seus próprios olhos. Entre em contato conosco, nos pergunte o que quiser. Nós recebemos muitos e-mails de estrangeiros com as mais diferentes perguntas e não ignoramos nenhum deles; nós respondemos todas as pessoas que nos escrevem fazendo perguntas.

E eu preciso de vocês para nos ajudar com algo. Sameh e eu estamos pensando em fazer a primeira reunião internacional de direitos dos animais na Palestina. E isso será uma tapa na cara do “veganwashing” dos ocupantes. Nós já estamos pensando nisso há um tempo. Essa será uma boa maneira de trazer as pessoas para cá, convidá-las pra trabalhar conosco, pra ir ao campo conosco, ver como vivemos.

Se tem um checkpoint, as pessoas verão o que significa atravessá-lo. Se tem uma marcha, você estará nela. E se o exército atirar gás lacrimogêneo em nós, você terá que correr com a gente. Você respira gás lacrimogêneo e depois vai lutar pelos animais. Isso é o que o povo palestino tem que atravessar e as pessoas não tem ideia do quão difícil é, para nós, ser ativistas pelos direitos dos animais sob uma ocupação militar. Não será como conferencias de direitos animais em outros lugares do mundo, onde você relaxa, se diverte… Pessoas virão, verão por si mesmas e se tornarão embaixadoras. Muitas pessoas entram em contato comigo para saber como se tornar voluntárias. Existe muito trabalho para fazer aqui. Muito.

(Ahmad interrompe a entrevista para dizer a um cliente que ele não precisa pagar pelo hummus. “Esse é por minha conta! Você paga na próxima vez.” ele diz. Chamo à atenção de que o restaurante não dará muito lucro se ele agir dessa forma e sua resposta é “Nós temos que encontrar uma forma de fazer as pessoas virem pro restaurante. Nós queremos que elas venham, tenham uma experiência agradável, façam suas atividades aqui… O que é lucro? Se for dinheiro, não é lucro. O lucro são as pessoas. Eu convido as pessoas pra cá, elas trazem mais pessoas, esse é o maior lucro para nós.”)

 

O grupo do meu último tour político – as pessoas que eu trouxe aqui em março – foi embora há menos de um mês e já organizou dois eventos em solidariedade à luta pelos direitos do povo palestino, no Brasil.

Está vendo? Eu não quero usar o termo “manpower” porque ele é sexista (sugiro “human power”). Human power. Quando pensamos em “human power” estou pensando nisso. É por isso que eu tenho que trazer as pessoas para cá.

 

Vocês estão tentando criar leis de proteção animal na Palestina. Como isso está indo?

Nesse momento nós estamos fazendo muitas reuniões com o Instituto de Leis na Universidade de Bierzeit e com o Ministério da Agricultura. Nós começaremos com o básico e isso se dará em quatro estágios. Primeiro nós estudaremos as leis antigas e prepararemos uma introdução para as novas leis. O segundo estágio será redigir as leis; o terceiro será o lobbying e o quarto será de avaliação e implementação. Isso toma muito tempo. Mas se nós fizermos isso, alcançaremos o objetivo principal de nossa estratégia de curto prazo: fazer leis de proteção animal na Palestina e elas serão as primeiras desse tipo.

(Sameh Arekat chega. Ele é o outro fundador da PAL)

(Ahmad) Eu fiz legumes com tahine pra nós. Está muito gostoso. Mas onde estávamos?

(Sameh e Ahmad, fundadores da Palestinian Animal League)

Quais são os maiores desafios que você enfrenta com esta missão?

Um dos maiores desafios é obter fundos pro nosso trabalho que não venham com uma agenda atrelada. Não temos uma agenda política, então os doadores não terão nenhum benefício político ao nos financiar. Algumas organizações e até embaixadas nos disseram que nos financiariam se assinássemos um documento dizendo que trabalharíamos com organizações israelenses. Alguns doadores nos disseram: “Vocês não precisam trabalhar diretamente com os israelenses, mas vamos fazer um projeto dual, um na Palestina e um em Israel”. Nós não vamos nos submeter à normalização. Mesmo se isso nos custar dinheiro, não faremos.

(De acordo com a Campanha Palestina para o Boicote Acadêmico e Cultural de Israel, “normalização” refere-se à “uma colonização da mente, em que o sujeito oprimido acredita que a realidade do opressor é a única realidade ‘normal’ a qual se deve subscrever e que a opressão é um fato da vida que deve ser aceitado. Aqueles que se envolvem na normalização ou ignoram essa opressão, ou a aceitam como o status quo no qual é possível viver. Contrapor-se à normalização é um meio pra resistir a opressão, seus mecanismos e estruturas “. No contexto dos Territórios Palestinos Ocupados, a normalização é definida como “a participação em qualquer projeto, iniciativa ou atividade, na Palestina ou internacionalmente, que visa (implicita ou explicitamente) reunir palestinos (e/ou árabes) e israelenses (pessoas ou instituições) sem colocar como objetivo a resistência e exposição da ocupação israelense e todas as formas de discriminação e opressão contra a povo palestino”. Quando financiam projetos na Palestina a maioria das instituições internacionais impõe aos palestinos a condição de trabalhar com israelenses, pessoas ou organizações. Recusar essa condição significa não ter acesso a financiamentos. Não participar da normalização significa reconhecer que enquanto os palestinos viverem sob a colonização e ocupação israelense, não existe a possibilidade de um diálogo entre iguais, pois a dinâmica de forças entre palestinos e israelenses é fundamentalmente injusta. Palestinos acreditam que somente quando conseguirem sua liberdade e autodeterminação poderá haver um dialogo justo e entre partes iguais com israelenses.)

O segundo maior desafio que enfrentamos é as pessoas pensarem que se fizerem uma doação pra PAL podem nos controlar, nos dizer como trabalhar, da maneira que costumam trabalhar. Mas os sapatos das outras pessoas não cabem nos nossos pés. Não somos o tipo de pessoas dispostas a comprometer princípios pra obter fundos. Não vamos comprometer nossos princípios. Tem pessoas que nos ajudam com boas intenções, mas às vezes boas intenções podem fazer o oposto de ajudar. Às vezes se transformam em “eu sei qual é a melhor maneira de ajudar vocês”. Não, nós sabemos qual é a melhor maneira de nos ajudarmos. Sugira idéias pra serem discutas, mas não nos diga como fazer o nosso trabalho. Se o seu dinheiro vem com condições e temos que seguir o que você considera a melhor maneira de trabalhar, você pode pegar seu dinheiro e ir embora. Não precisamos dele. Mas, em geral, sempre encontramos as pessoas certas para trabalhar com a gente.

Dentro da sociedade palestina, nosso maior desafio é criar leis de proteção animal. Precisamos conscientizar a população, mas precisamos da proteção da lei. E somente a lei pode proteger nosso movimento. Se eu vejo animais sendo mal tratados eu só posso dizer: “Não faça isso!”. Mas se tivéssemos leis, eles teriam proteção.

 

O que você acha que é o conceito mais errado que as pessoas têm com relação aos palestinos? Em geral, mas também dentro da comunidade de direitos animais?

Estereótipos. Algumas pessoas sentem simpatia por nós e querem nos apoiar, mas … percebi que havia esse problema quando estava no exterior. Nós temos uma abordagem intersseccional, mas descobri que a maioria dos ativistas não tem. Então estamos em um lugar radicalmente diferente dos outros ativistas de direitos dos animais. Estamos sempre trabalhando pela igualdade, mas esses ativistas dos direitos dos animais, eles não pensam em igualdade. Igualdade não é a palavra certa. Por exemplo, eu sou mais alto que Sameh. Se não podemos ver além do muro e pensarem que, em nome da igualdade, devemos receber um banco cada um que seja do mesmo tamanho, isso não é igualdade. Eu ainda serei mais alto e ele ainda pode não ser capaz de ver o que está do outro lado do muro. Levamos ajuda onde é necessário. Pras pessoas, pros animais … Quando fiz o tour pela Europa no ano passado, levei a conversa sobre a ocupação da Palestina pra mesa dos ativistas de direitos animais. Eles nem quiseram ouvir sobre a Palestina, escolheram fechar os olhos para a opressão das pessoas aqui.

(Sameh) Ele começava as palestras dizendo: “Eu não quero ser político, mas …”

(Eu) Mas veganismo é político.

(Ahmad) Eles pensam que se eles alimentam um cachorro e um gato e resgatam uma galinha, é isso, eles são pessoas boas. Dormirão bem à noite.

 

O que você acha do Banksy Hotel?

Gostei da idéia, mas tem alguns problemas. Você viu o filme Avatar? A ironia é que em filmes os americanos sempre salvam o mundo. Eles salvam o mundo, mesmo dos alienígenas ou do Armagedon, do julgamento final. Agora, eles podem salvar at é outros planetas. Eles ajudaram a plantar essa semente na mente dos brancos, que eles são nossos salvadores, que eles são as melhores pessoas do mundo e sua missão é nos salvar. Está no filme, está na cultura.

(Ahmad escreveu um excelente artigo sobre o ‘complexo do branco salvador’, a “idéia de que pessoas não brancas são ‘ incapazes’ e precisam de um branco pra salva-las, ao mesmo tempo em que o branco se mantém separado delas e ocupa uma posição de autoridade ou poder, ou seja, privilégio. Essa idéia, que antes justificava as conquistas brutais dos primeiros colonializadores, agora alimenta um sistema desequilibrado de ajuda em que os países desfavorecidos são obrigados a confiar na riqueza e na tomada de decisões de nações poderosas e muitas vezes predominantemente brancas. Embora haja boa vontade envolvida, o complexo do branco salvador está profundamente enraizado na premissa destrutiva de que um grupo é incapaz de se governar ou se ajudar. “)

(Sameh, Ahmad e Dahoud, o chef do restaurante Sudfeh)

Sameh, você pode responder a última pergunta? Qual é o seu sonho para a Palestina?

É uma pergunta muito difícil. Porque mesmo quando sonhamos, temos limitações pros nossos sonhos. Então temos que sonhar logicamente. Talvez o sonho mais louco seja viver em liberdade, porque só ouvimos falar sobre ela, nunca experimentamos. Nós tocamos a liberdade durante alguns dias da nossa vida, quando estávamos viajando no exterior. Nós vimos o quão fácil é pras pessoas se locomover de um lugar pra outro. Você pode morar na Alemanha, por exemplo, e decidir jantar na Holanda. Quando eu comparo com o quão difícil é para nós … Até pra ir daqui pra Ramallah. É o mesmo país, mas a ocupação pode impedir a gente de ir daqui pra lá.

(O prato de legumes com tahine chega à mesa. “Eu não deveria ter colocado beterraba no prato.” Diz Ahmad. “Ficou tudo cor-de-rosa. Eu fiz ‘pinkwashing’ na comida!”)

Depois do almoço Ahmad me deu uma carona pra Ramallah. Se você tiver sorte, o que significa “se o exército não bloquear as estradas ou te prender nos pontos de controle”, é uma viagem curta. Perguntei a Ahmad sobre a vida em Jalazone, o campo de refugiados onde ele mora. Ele me contou muitas histórias sobre o que significa viver em um campo de refugiados sob uma ocupação militar violenta. O que significa viver sob um sistema injusto e racista criado pra te oprimir e colonizar suas terras. Nesse momento passamos por um lugar que criava galinhas, o tipo de pequena empresa que você encontra em toda a Palestina, com galinhas doentes e sem penas presas em pequenas gaiolas nas calçadas. Por causa da colonização israelense da Palestina, a terra é escassa e as galinhas são criadas em gaiolas. Ahmad apontou pras gaiolas e disse: “Na sociedade em que quero construir e viver, isso será proibido. Nós tornaremos essa crueldade ilegal”.

Defendendo a Palestina: libertando o povo, a terra e os animais“, a conferência internacional organizada pela PAL acontecerá do 3 ao 6 de maio de 2018. “O foco da conferência será a luta compartilhada por terra e libertação pra todas as espécies na Palestina ocupada. Reforçaremos o trabalho de solidariedade internacional e as interseções com o movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções. A conferencia desafiará a narrativa de que Estados coloniais podem oferecer algo além do que destruição pros animais e pra terra, e fornecerá uma visão do trabalho específico de libertação animal nos contextos coloniais. Ela desafiará a propaganda de Brand Israel e o fenômeno internacional de veganwahsing, que justifica a ocupação brutal da Palestina em nome da defesa animal. Isso combaterá a islamofobia, a xenofobia e o racismo anti-árabe no movimento de direitos dos animais. Ela irá demonstrar como a supremacia branca e o colonialismo estão ligados à exploração animal e à devastação ecológica no mundo todo.”

Pra participar do evento e apoiar o trabalho da PAL, visite a página pal.ps

*Agradecimentos especiais pra Rosana, Diego, Marcelo e Thiago, que me ajudaram a traduzir a entrevista pro Português. Essas pessoas lindas participaram dos meus tours políticos na Palestina e se tornaram exatamente o que Ahmad pediu: embaixadoras e ativistas por justiça, liberdade e auto-determinação do povo palestino. Muito obrigada.