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Uns anos atrás eu entrevistei minha amiga Bárbara Bastos, que mora em Recife, como parte de uma mini série sobre alimentação saudável pra crianças. Se você ainda não leu as entrevistas, recomendo muitíssimo. Elas oferecem a perspectiva de três mulheres que se alimentam de maneiras diferentes (onívora/macrobiótica, vegetariana e vegana), com estilos de vida variados e que moram em cidades (países!) diferentes, mas que têm uma coisa em comum: decidiram oferecer uma alimentação integral e natural pros seus filhos. Se você acha que é impossível criar uma criança sem ‘danoninhos’, achocolatados, queijos processados, sucos de caixinha e biscoitos entupidos de açúcar e produtos químicos, as explicações delas farão você mudar de opinião. Elas mostram com exemplos concretos que é totalmente possível e que o impacto na saúde da criança é tão grande que faz a mudança valer muito a pena, apesar das dificuldades. Pra ler as entrevistas clique aqui, aqui e aqui.

Mas hoje eu gostaria de dar a palavra a Mateus, o filho de Bárbara. Ano passado passei alguns meses no Brasil e fui várias vezes a Recife. Na minha última visita entrevistei Mateus em um restaurante japonês, enquanto nos fartávamos com um rodízio totalmente vegano (Recife tem dessas maravilhas). Ele é vegano e apaixonado pela causa animal. Bárbara me contou que um dia ele voltou da escola muito triste porque tinha descoberto que um amiguinho tomava o leite de Bombom. Bombom é um bezerro, o personagem principal do livro infantil “Bezerro escritor”, de Igor Colares. O livro, lindamente ilustrado, explica como Bombom foi separado da mãe pra que as pessoas pudessem ficar com o seu leite.

Tiago, pai de Mateus e também um amigo querido, me contou que ele vez ou outra quer fazer açōes diretas de libertação animal. “Ele quer derrubar a cerca das fazendas, devolver os ovos pras galinhas…Recentemente a mãe de uma criança da escola dele nos disse que a filha não quer mais comer ovo porque Mateus disse que o ovo é da galinha. A gente já teve algumas dificuldades com relação a isso. Falamos pra ele que não adianta fazer certas coisas, pois isso não vai resolver o problema. A gente fala ‘Olha, vão colocar a cerca de novo. A gente precisa que as pessoas entendam, se conscientizem.’ Conversamos sobre isso dele falar com as outras crianças e sempre explicamos que não é pra ele criticar ou dizer que elas estão erradas, porque assim as crianças acabam ficando com raiva dele. O que ele pode fazer é tentar recorrer à sensibilidade que elas têm com relação aos animais. Crianças gostam dos animais. A gente tenta deixar claro pra ele que por mais que ele tente convencer as pessoas a mudarem, e não somos contra isso, vai ter pessoas que não vão se importar, que não vão mudar e a gente não vai deixar de ser amigo dessas pessoas porque elas não são veganas como ele.”

Conheço Mateus há anos, mas ele tem o hábito engraçado de me chamar sempre pelo meu nome e sobrenome juntos. Ele me cumprimenta dizendo “Oi, Sandra Guimarães” e se despede com “Tchau, Sandra Guimarães”. Em outubro participei do Veg Jampa, o primeiro festival vegano de João Pessoa e dei uma oficina de culinária ensinando a fazer nhoque com pesto. Como é o prato preferido de Mateus ele se empolgou e pediu pra ser meu assistente. Foi a primeira vez que dei uma oficina acompanhada. E por uma criança! Foi muito lindo e guardo uma lembrança preciosa desse dia.

Com vocês Mateus, o menino de sete anos com as preferências gastronômicas mais variadas e sofisticadas que conheço e que me ensinou uma verdade profunda de uma maneira tão óbvia que ficou gravada no meu coração pra sempre.

 

Mateus, eu vou gravar a conversa no meu telefone. Tudo bem?

Por que você vai gravar a voz?

Pra não esquecer. Aí quando eu chegar em casa eu escuto e digito no computador. Entendeu? Vamos lá. Qual o seu nome?

Mateus.

Quantos anos você tem?

Seis. (Hoje ele tem sete)

Você tem irmã ou irmão ?

Daqui a pouco eu vou ter porque a minha mãe tá grávida. (Olívia, a irmã de Mateus, nasceu em maio.)

O que você mais gosta de estudar na escola?

Matemática.

Qual é o seu prato preferido?

Comida japonesa.

Qualquer uma?

Uhum. Menos gyosa. E rolinho primavera. Essas coisas que eu não gosto.

Você sabe cozinhar alguma coisa?

Sei. Esfirra de za’atar.

Esfirra de za’atar? Você precisa fazer pra mim um dia.

(silêncio)

Mas Mateus seu prato preferido não era nhoque com pesto?

(Mateus me mostrou dois dedos)

É o segundo preferido?

A comida japonesa é a segunda preferida.

Comida árabe você gosta também, né?

Adoro.

Esfirra de za’atar, hummus, falafel…

Eu sei disso.

Por que você é vegano?

Porque eu quero.

Sua família é vegana?

Uhum. Bom, só o meu pai e a minha mãe.

Faz muito tempo que você é vegano?

Não.

Não faz muito tempo?

Faz.

Quantos anos?

Sete. Desde que eu nasci. (Na verdade Mateus nasceu vegetariano, de mãe vegetariana. Até os dois anos ele consumiu alguns poucos derivados de animais, principalmente queijo, mas nunca tomou leite de vaca. O único leite que tomou foi o da própria mãe, até os dois anos. A alimentação dele se tornou totalmente vegana aos dois anos, quando Bárbara se tornou vegana. Mas claro que ele não lembra dessa época da vida dele.)

O que você faz quando vai pra uma festa de aniversário e não tem comida vegana?

(silêncio) Eu não com nada.

Mas você come em casa antes?

Uhum.

Leva comida de casa?

Às vezes.

Você tem amigos ou amigas veganas? Da sua idade?

Não.

Só adultos, né?

Uhum. Você…

Que conselho você pode dar pra uma criança que quer ser vegana, mas não sabe o que fazer?

É só perguntar os ingredientes da comida pra ver se é vegana.

É isso que você faz quando vai comer fora?

Uhum.

Você gosta de ser vegano?

Adoro.

Por que?

Porque assim nasce mais animais. E quanto mais vida, melhor.

Você já sofreu bullying por ser vegano? Já te disseram coisas como: “Você vai ficar doente”?

Não.

Nunca?

Nunca.

Sempre te respeitaram.

Uhum.

E os seus amigos perguntam pra você: “Por que você não toma leite?”, etc?

Não.

Você tem uns amigos muito bacanas. Qual o nome do seu melhor amigo ou melhor amiga?

Tenho vários.

Você leva bolo vegano pra escola às vezes, né? Todo mundo gosta?

Uhum. Quando tem aniversário na minha escola minha mãe faz bolo. Ela fez dois bolos pro aniversário na minha escola. Eu não ajudei ela a fazer os bolos. Ela fez um de chocolate e eu não lembro o sabor do outro bolo.

Você tem algum recado pras pessoas que lêem o Papacapim?

Uhum. Se você virar vegano não se esqueça de ouvir esses conselhos que eu disse na entrevista com Sandra Guimarães.

 

Quando mostrei a entrevista pra Tiago, pai de Mateus, ele me explicou melhor essa história dos bolos veganos na escola. Perguntei se podia compartilhar aqui no blog porque é uma lição extremamente importante.

“Mateus mudou de escola esse ano. Ele estava falando dos bolos na escola anterior, onde ele estudou até o ano passado. Ele saiu do jardim e está na escola fundamental, ainda numa escola Waldorf. Sobre o bolo na escola, foi bem complicado. O ritual de aniversário das escolas Waldorf é a coisa mais linda que existe. É uma cerimônia onde os pais participam, a história da criança é contada e os amiguinhos são escolhidos pra ajudar. É muito bonito, mesmo. E ele participava do ritual, mas não comia o bolo depois porque não era vegano. Então a gente conversou com as pessoas da escola. No começo foi muito difícil porque achavam que a gente queria impor o veganismo a eles. Aí a gente se ofereceu pra fazer os bolos a preço de custo pras famílias que quisessem. Mateus ficava muito triste por não participar e também tinha um coleguinha dele intolerante à lactose, então explicamos que o mais inclusivo seria que o bolo fosse vegano. No começo não tivemos sucesso nenhum, mas Mateus ficou vários anos na escola e isso foi mudando. Quando ele saiu da escola basicamente 70% dos bolos de aniversário, das comemorações, eram veganos. E além de nós fazermos alguns bolos, algumas famílias pediam receitas pra nós e faziam bolos veganos em casa. Elas ficavam felizes da vida por Mateus também poder participar da comemoração. Na escola que ele está agora a professora é vegana e ele ama isso. E o melhor amigo dele, que veio da antiga escola, já foi lacto-vegetariano e agora está voltando a ser vegetariano e está super ativista com Mateus.”

Se você decidir parar de fazer parte do sistema de exploração e crueldade contra animais e se tornar vegana aparecerão várias dificuldades no seu caminho. Porque vivemos numa sociedade carnista e recusar seus valores ou criticar o sistema é uma ameaça à sua existência. Então você terá duas opções. A primeira é decidir que é muito trabalhoso viver de acordo com a sua ética o tempo todo e aceitar passar por cima dela “pra não causar transtorno/constrangimento” ou “pra facilitar a vida”. Nesse caso você voltará a patrocinar uma indústria cruel e a normalizar os hábitos carnistas. Mas essa não é a sua única opção. Você pode ter uma atitude completamente diferente e decidir que sua ética não é negociável.  Você pode lutar pra mudar o status quo, aceitando que vai ter um período de desconforto e dificuldades até que a mudança aconteça. Sei que muita gente acha o preço desse desconforto alto demais, mais alto do que o custo moral de passar por cima da própria ética. Mas se você aceitar o desconforto como um preço pequeno pra ser a mudança que você quer ver no mundo você terá a alegria de saber que participou ativamente da construção de uma nova realidade, mais inclusiva e com mais compaixão. Além de facilitar a sua vida de verdade a longo termo, você terá aberto o caminho pras veganas que virão depois. Por isso achei o exemplo de Tiago e Bárbara tão inspirador. A próxima criança vegana, ou intolerante à lactose, que entrar na escola de Mateus encontrará um ambiente bem mais receptível e acolhedor e com certeza será mais fácil pra ela participar das comemorações e comer os bolos de aniversário com as coleguinhas. Além, claro, de ter sensibilizado as mães e os pais das outras crianças e o pessoal que trabalha na escola ao veganismo. E é assim que a gente faz a sociedade evoluir.

No dia que entrevistei Mateus tinha um grupo grande de adultos ao redor da mesa. Mateus era a única criança. O assunto era comida e não lembro como chegamos lá, mas em um momento as palavras “comida vegana” e “comida não vegana” foram pronunciadas. Mateus declarou: “Só existe comida vegana.” Explicações se faziam necessárias, então ele acrescentou, do alto dos seus (na época) seis anos: “Só existe comida vegana. Se não for vegana, não é comida.”

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Deixo vocês com a sabedoria de Mateus. E com esse vídeo lindo onde ele ensina a fazer um “Bolo vulcão de limão” (vegano, obviamente). Aproveite e veja os outros vídeos de Cecília, que também é de Recife e tem um canal cheio de receitas incríveis chamado “Bora Veganizar” .

Ela apareceu aqui no blog muitas luas atrás, em um dos meus posts preferidos de todos os tempos, que eu acho que todos deveriam ler. Mas Sahar é uma das pessoas mais interessantes que eu tive a sorte de conhecer e eu poderia entrevistá-la todo mês e ela sempre teria coisas inspiradoras e corajosas pra contar. E como ela é vegana há anos, ela tinha que aparecer na série “Porque me tornei vegano/a”.

Eu já escutei tantas pessoas dizerem “Eu nunca poderia ser vegetariano/vegano porque ADORO carne”, como se a razão que nos leva a seguir esse caminho fosse um suposto despreço pelo sabor de carnes. Por isso eu acho que a história de Sahar com o veganismo é particularmente interessante. Ela conta que carne sempre foi sua comida preferida, mas que o imenso prazer gustativo que ela sentia ao comer animais não a impediu de enxergar as razões morais por trás do veganismo e adotar uma dieta que respeitasse seus valores mais profundos. Eu sei que isso pode surpreender alguns onívoros que se declaram (uns com orgulho, outros com desconforto) adoradores de carne, mas pra veganos preferência gastronômica não é um argumento moral.

Quando e por que você se tornou vegana?

Aos 13 anos eu entrei em um grupo político de jovens e nesse meio tinha muitos veganos e vegetarianos. Ser carnívoro então se tornou um ato ideológico e eu comecei a dar desculpas pra justificar minha paixão por carne. Mas os argumentos que eu usava (“É assim que as coisas são na natureza”, “Nós estamos no topo da cadeia alimentar” etc) começaram a soar fracos e não convenciam nem mais a mim mesma. Então me tornar vegetariana me pareceu lógico, era uma continuidade ao ato político no qual eu tinha me engajado. Se eu não quero machucar outros seres, então não quero machucar nem seres humanos nem animais em geral. Eu escolhi minha luta e pra mim ser ativista pelos direitos dos palestinos é mais importante, mas isso não me dá o direito de continuar ferindo animais, de continuar participando desse sistema. Então me tornei vegetariana no meu aniversário de 14 anos. Cortar a carne foi muito difícil, pois era algo que eu sempre adorei. Eu sabia que depois desse primeiro passo me tornar vegana seria muito mais fácil. Decidi fazer uma aposta com amiga: eu tentaria ser vegana e ela tentaria parar de fumar.

Você se tornou vegana no início da adolescência e muitos jovens que escolheram o mesmo caminho tiveram dificuldades pra fazer a família aceitar suas escolhas. Como foi a reação dos seus pais?

A esposa do meu pai não come carne (mas come peixe), então aceitar a minha escolha não foi difícil pra ele. A única preocupação dele era com a minha saúde, então prometi fazer exames de sangue de 6 em 6 meses até os 18 anos pra ter certeza que estava tudo bem. Eu prometi que se descobrisse que estava com algum tipo de deficiência eu cuidaria da saúde, tomando suplementos ou voltando a comer carne. Acabei desenvolvendo carência de ferro no início e tomei suplementos.

Qual foi a maior dificuldade que você enfrentou durante a transição?

Parar de comer carne. Definitivamente essa foi a parte mais difícil.

E quais são os aspectos mais difíceis do veganismo pra você hoje?

Não me incomodo com os comentários que as pessoas fazem sobre o meu veganismo. E faço sempre questão de deixar as pessoas à vontade com esse aspecto da minha vida. Antes eu achava que pra comer fora de casa eu tinha que procurar restaurantes especiais, que oferecessem comida vegana, mas agora sei que em qualquer lugar eu vou achar o que comer, nem que seja uma salada. Então comer em restaurantes com onívoros não é um problema. Isso é importante pra mim pois não quero ser um peso pras outras pessoas nessas situações.

Então o mais difícil pra mim é resistir a tentação, saber que posso entrar em um restaurante e pedir carne. Acabei me acostumando, mas ainda é algo difícil. Sempre me pergunto por que não estou comendo carne. E a resposta é: porque é imoral, porque um animal seria assassinado pro meu prazer. Eu sei que comer carne vai me dar prazer, mas isso não justifica o ato. Comer um bife não seria o fim do mundo pra mim. Eu ia me sentira mal depois, mas ia acabar superando. A razão que me faz não ceder à tentação é que tenho medo de provar esse sabor novamente e não conseguir mais parar. Comer carne tem um preço: alguém vai pagar com a vida pelo prazer que eu vou sentir. E eu não tenho direito de tirar a vida de um ser.

Quais são as pessoas ou organizações que te inspiraram e continuam te inspirando no terreno do veganismo ?

Meus amigos, meus colegas de escola e minha família eram todos onívoros, mas algumas pessoas da esquerda radical me inspiraram. Esses ativistas, que lutavam por direitos animais, contra a ocupação israelense na Palestina, por direitos LGBT, consideravam importante viver de acordo com suas convicções. Eles tinham feito a conexão entre todas essas lutas e decidiram agir. Foi isso que realmente me inspirou.

(O grupo ao qual Sahar se refere se chamava Maavak Ehad, que significa “Uma só luta” em Hebraico. Era um grupo de ativistas israelenses da esquerda radical anarquista que lutava por direitos animais e ressaltava a conexão entre os diferentes tipos de luta: feminismo, anti-chauvinismo, contra a ocupação militar israelense na Palestina, por justiça, liberdade, igualdade… O grupo acreditava que toda opressão é enraizada na mesma base ideológica e que o estado, governo e sistema militar existem não pra nos proteger ou nos servir, mas pra preservar a ordem social que permite aos que estão no poder de continuar nos utilizando.)

Depois de ter se tornado vegana, teve algum momento em que você duvidou que esse era o caminho certo pra você?

A produção de carne em Israel é terrível e a produção de laticínios é ainda pior. As vacas são manipuladas pra produzir quantidades absurdas de leite. Não existe uma indústria de carne/laticínios gentil. As etiquetas ‘orgânico’ ou ‘criado em liberdade’ não mudam isso. Aliás muitos dos produtos de origem animais que são ‘orgânicos’ e ‘criados em liberdade’ são produzidos nas colônias ilegais dentro Palestina e na parte do Golan ocupada por Israel.  Eu tenho amigos que têm frangos e consumem seus ovos, mas leite e ovos não me interessam de todo jeito. Honestamente o que sempre me interessou foi carne e não existe carne sem assassinato. Eu sou uma pessoa muito dogmática.

Então você não acredita que seja possível ter uma ‘carne feliz’ ou ‘produzida humanamente’?

Nos dois casos você vai matar o animal do mesmo jeito. Os animais são tratados como uma mercadoria, algo que vai te dar dinheiro ou prazer. Eu não vejo animais como instrumentos que estão ali pra servir os meus interesses pessoais.

Que conselhos você daria pras pessoas que gostariam de se tornar veganas, principalmente pros adolescentes lendo esse blog?

Pros jovens: tentem convencer os adultos a te darem a permissão pra se tornarem veganos mostrando que seu interesse e compromisso com o veganismo é sério. Aprendam a cozinhar, procurem receitas na internet (como nesse blog que você está lendo agora), façam esforços concretos pra que essa opção se torne possível. No meu caso também tive que fazer exames de sangue regularmente pra tranquilizar o meu pai.

É importante aumentar a variedade de alimentos que você consume. Eu tirei alguns alimentos da dieta, então precisei acrescentar outros.  Quando me tornei vegana meu pai não sabia o que cozinhar pra mim, então comecei a cozinhar. Na época eu praticamente só cozinhava tofu. Mais tarde comecei a preparar novos alimentos e me tornar vegana fez com que eu aprendesse a gostar de muitas coisas: abacate, berinjela, tahina, lentilha, falafel. Ainda penso em todo o abacate que deixei de comer, grande erro!  Graças ao veganismo comecei a cozinhar e descobri que é muito divertido. Eu recomendo demais.

Como já falei, pra mim é importante deixar os amigos à vontade quando saímos pra comer juntos, explicando que não precisamos ir a um restaurante especial, que estarei ok em qualquer lugar, que não me importo se eles comerem carne na minha frente. Muitos veganos não concordam com isso e eu respeito, mas pra mim não ser um peso pros outros é mais importante. De todo jeito tem sempre gente comendo carne ao meu redor, que seja na rua ou na minha família.

Eu acredito que devemos tranquilizar as pessoas, deixando claro pros seus pais que não está faltando nada na sua alimentação, que você não está colocando a saúde em risco, que está acrescentando novos alimentos na dieta, participando da preparação das refeições… Tente se cercar de pessoas que te apoiam, virtualmente ou pessoalmente. É muito útil encontrar pessoas que te apoiam.

Como você fala de veganismo com os onívoros com quem convive?

Entre os 15 e 17 anos eu participei ativamente do movimento de defesa dos direitos animais. Eu participava de protestos, panfletava toda semana, tentava convencer as pessoas ao meu redor… Eu não escondo meu veganismo, mas hoje quando onívoros tentam me convencer das suas razões pra comer animais (na verdade eles estão tentando convencer eles mesmos) eu dou respostas frias porque sei que não vou fazer eles mudarem de ideia. No momento eu me interesso mais pelo ativismo que oferece alternativas. Alguns anos atrás trabalhei como voluntária num espaço ativista que tinha uma cozinha vegana. Na época era o único lugar vegano em Jerusalém. Acho importante criar um lugar pra comunidade da esquerda radical, LGBT e feminista e oferecer alternativas. Me sinto mais a vontade com esse tipo de ativismo.

O veganismo em Israel cresceu absurdamente nos últimos anos e em nenhum lugar que visitei encontrei tantos veganos e tantas opções vegetais nos restaurantes. Como você explica esse fenômeno?

Pra comunidade ativista radical em Israel é muito importante fazer a conexão entre as diferentes lutas. Talvez justamente porque a comunidade ativista é muito pequena lá as ideias se espalharam rápido. Tem as colônias de férias alternativas pros jovens de 14 à 20 anos (uma semana durante o verão, todos os anos), os objetores de consciência (que se recusam a servir o exército), os ativista contra a  ocupação, os ativistas pelos direitos LGBT… A maioria dessas pessoas são veganas e nos espaços alternativos a comida é sempre vegana.  Então mesmo os onívoros têm que comer comida vegana nesses lugares. Nós realizamos workshops sobre feminismo, identidade de gênero, liberação animal e contra a ocupação que oferecem informação, mas também formas de resistência. Eu cresci nesse meio, frequentando esses lugares, então o veganismo acabou se tornando algo natural. Nos centros e lugares onde os ativistas se encontram tentamos criar um espaço que seja o mais seguro possível pra todos. E isso significa não machucar ninguém, o que inclui não machucar animais.

(Isso é algo que sempre admirei nos ativistas israelenses. No Brasil e nos países europeus onde morei os ativistas pelos direitos humanos geralmente não veem a conexão entre as lutas, são completamente cegos pra opressão e injustiça por trás da indústria da carne.)

Então o veganismo se tornou popular primeiro dentro da comunidade radical e aos poucos foi se espalhando pelo resto da sociedade. E uns anos atrás um vídeo de Gary Yourofsky se tornou incrivelmente popular entre israelenses e acabou convencendo muita gente, que não fazia parte da comunidade ativista, a adotar o veganismo.

Falando em Gary Yourofsky (ativista americano pelos direitos animais), em uma entrevista concedida à televisão israelense em 2013, ele declarou que a razão da popularidade do veganismo em Israel é porque “povos que foram oprimidos, como os judeus (…), respondem melhor a esse tipo de revolução pois eles entendem o que é opressão.” E qual não foi a minha surpresa ao ouvir a mesma frase da boca de veganos de outros países! O que você, que é israelense e judia, tem a dizer sobre isso?

Que se a ocupação israelense na Palestina nos ensinou alguma coisa foi que o fato de ter sido oprimido no passado não impede um povo de oprimir outro povo.

À medida que o veganismo cresce em Israel a gente vê uma utilização cada vez maior desse movimento pra conquistar a simpatia dos veganos mundo afora e encobrir as violações dos direitos humanos cometidas pelo governo. Depois do ‘pink washing‘ (a utilização dos direitos LGBT pelo governo israelense pra desviar a atenção dos crimes cometidos contra os palestinos e normalizar a ocupação, colonialismo e apartheid), a nova estratégia de marketing de Israel é o ‘vegan washing’. O que você tem a dizer sobre isso?

Existe essa tendência em Israel e em outros lugares onde têm movimentos de justiça social (direitos LGBT, direitos animais etc.)… Quando Israel se mostra progressivo em alguns desses campos isso é usado como uma maneira de legitimar a ocupação. O fato de que nós somos morais em uma coisa não significa que nós temos uma justificativa pra sermos imorais em outras coisas. “Se nós somos bons pros animais, obviamente nós somos bons pros palestinos e é impossível que a ocupação seja algo errado.” E Israel usa isso com bastante frequência agora que o veganismo está se tornando muito popular no país. Direitos animais aqui se tornou algo importante, o que é uma grande conquista pra um movimento que trabalha há muitos anos pra que isso aconteça e é importante reconhecer essa conquista. Mas tem pessoas, principalmente pessoas no governo, que estão usando isso ao seu favor. Tel Aviv foi eleita a cidade mais ‘vegan friendly’ do mundo e algumas pessoas estão usando isso pra dizer: “Vejam o quão liberal e democrático é esse país e fechem os olhos pras coisas menos liberais e democráticas que esse país faz, como a ocupação.” Então é um discurso problemático. De um lado nós precisamos ter muito cuidado pra não destruir os esforços do movimento vegano e de direitos animais em Israel. Eles são realmente impressionantes e é muito bacana ver o que aconteceu por aqui nos últimos anos. Mas por outro lado dizer que isso é algo bom e positivo e que deve continuar não pode encobrir o fato de que a ocupação ainda exite e é algo ruim e negativo.

Num dia normal, o que aparece no seu prato?

Eu não tomo café da manhã. Geralmente almoço restos do dia anterior. Ou então como hummus e falafel ou comida etíope. Pro jantar eu gosto de preparar receitas rápidas porque nunca lembro de deixar ingredientes de molho no dia anterior. Macarrão com abobrinha, stir fry com os vegetais que eu encontrar na geladeira, tofu e arroz. Gosto muito de rechear legumes. Outro dia eu recheei um jerimum pequeno com triguilho, folhas do jardim e tomates secos. Também cozinho muita lentilha. E todas as refeições que preparo têm que ter uma salada crua.

Você está no corredor da morte e tem direito a pedir qualquer coisa, vegana ou não, pra sua última refeição. O que você pediria?

Abacate com cogumelos refogados, costelas, ervilha torta e os seus aspargos grelhados. E de sobremesa um cheesecake de frutas vermelhas.

Pode dividir a receita do abacate com cogumelos com os meus leitores?

Claro. Pique os cogumelos que você mais gostar (eu uso portobello e champignons) e refogue em um pouco de azeite. Tempere com tomilho fresco ou seco, sal e pimenta do reino. Corte um abacate ao meio e retire caroço. Faça cortes na polpa (criando um jogo da velha na diagonal), mas sem cortar a casca. Tempere o abacate com limão, sal e pimenta do reino. Recheie cada metade com os cogumelos quentes (preenchendo a cavidade antes ocupada pelo caroço e cobrindo toda a polpa) e sirva com uma colher. A colher é importante!

Ano passado os participantes do tour Papacapim na Palestina tiveram a sorte de conversar com Sahar. Ela fez uma palestra ultra VIP sobre a militarização da sociedade israelense e ainda preparou um almoço vegano delicioso pra nós  (a moça cozinha muito bem). Espero que os grupos desse ano tenham a mesma oportunidade.  (Anúncio: Ainda tem vaga nos tours desse ano! Interessados, por favor escrevam pra papacapimveg@gmail.com)

 E se você perdeu os outros post da série ‘Porque me tornei vegana/o’, aqui estão:

“Me tornar vegana foi uma maneira de me tornar politizada”- Johanna

“Hoje eu acho fácil ser vegano, o difícil mesmo é amar, respeitar e aceitar a minha própria espécie” -João

“O veganismo foi uma maneira de alinhar minhas convicções com os meus atos” – Anne

“O veganismo talvez seja a alimentação do futuro” – Samira

“Manter a serenidade diante de tanta crueldade e indiferença é um desafio, mas é necessário” – Lobo

Estou atualmente no interior da França, passando alguns dias de férias com a família francesa. Quem me procurar essa semana vai me encontrar entre a cozinha e o imenso e delicioso jardim do meu sogro. Mas vou deixar vocês em boa companhia: tenho mais uma entrevista da série ‘Porque me tornei vegano’ pra dividir com vocês. Samira Menezes faz parte do meu grupo de ‘amigos virtuais’ e é uma flor. Ela é paulistana mas mora em Milão e ando torcendo pros nossos caminhos se cruzarem aqui no velho mundo. Samira é jornalista e tem um blog, o Miscelânea Milanesa, onde ela divide suas descobertas “culinárias, animalistas e mundanas”. Fiquei super feliz quando ela aceitou ser entrevistada aqui no blog, pois ela tem coisas interessantíssimas pra dividir conosco.

Quando você se tornou vegana e o que te levou a adotar esse estilo de vida?

Me tornei vegetariana em 2006 e vegana em 2008. O empurrão inicial veio da Revista dos Vegetarianos. Em novembro de 2006 comecei a trabalhar nesta publicação e me pareceu sensato praticar o vegetarianismo, já que dali em diante eu deveria escrever sobre esse estilo de vida. Então, em dezembro daquele ano parei de comer carnes por pura curiosidade. Queria ver como meu corpo reagiria, quais situações eu vivenciaria sendo uma vegetariana, mas, principalmente, o que eu poderia comer de diferente praticando o vegetarianismo. O fato é que sempre fui muito gulosa e até hoje adoro saborear bem os alimentos e os temperos. Na verdade eu estava mais interessada nisso do que em outra coisa.

Com o tempo, percebi que não só o vegetarianismo era muito gostoso, como também me ajudou a “curar” alguns probleminhas chatos de saúde, como intestino preso e acne leve, que me atormentavam bastante. Nesse meio tempo, a curiosidade se transformou em convicção graças ao acesso à informação, pois todo mês eu precisava buscar notícias, entrevistar ativistas, conversar com nutricionistas… Então, saber como os animais vivem e morrem para chegar até o prato de alguém e entender melhor sobre nutrição vegetariana foram dois fatores essenciais para o passo seguinte, ou seja, o veganismo.

Quais foram as maiores dificuldades que você enfrentou durante a transição?

Não tive uma fase de transição propriamente dita, porque acordei um dia e falei “agora não como mais carne”. A maior dificuldade foi ser paciente com gente pentelha que teimava em meter o bedelho no meu prato, depois que anunciei publicamente meu vegetarianismo. Ouvi um monte de previsão furada: de que eu ficaria doente, que depois de dois meses eu voltaria a comer carne e outras. Certo, pelo tempo que demorei para me tornar vegana, dá pra deduzir que a maior dificuldade, para uma gulosa como eu, foi tirar o queijo e o ovo do cardápio. Mas, considerando que queijo brasileiro é ruim demais e que ninguém em sã consciência come ovo todo dia, nem sei por que eu demorei tanto pra tirar aquele horroroso queijo minas da minha vida, por exemplo.

Se pudesse voltar no tempo em que você ainda estava engatinhando no veganismo, que conselho daria a si mesma? Quais foram os erros que você cometeu e que poderiam ter sido evitados?

Não me daria nenhum conselho porque acho que não errei em nada. Levei o tempo que achei necessário para me tornar vegana e, mesmo depois de ter me tornado uma, já comi queijo porque não queria deixar meu anfitrião desapontado. Nem isso eu considero errado. A anfitriã era uma pessoa muito especial, muito anciã, viveu a Segunda Guerra Mundial – período em que a fome estava sempre à sua espreita – e tinha preparado uma receita com queijo e tomate porque sabia que eu não comia carne. Não gosto de inflexibilidade na vida. Sem maleabilidade, objetos, ideias e relações podem se romper com muito mais facilidade. Então, eu vejo esse episódio específico assim: a anfitriã foi maleável e fez uma receita sem carne só para mim e cabia a mim, naquele momento, também ser maleável e receber aquele agrado. Comi, elogiei sinceramente o prato, porque estava bom mesmo, e vi o quanto ela ficou satisfeita por ter conseguido agradar uma vegetariana. Hoje, infelizmente, essa pessoa já faleceu e aquele dia que passei com ela é uma boa lembrança.

Qual a parte mais difícil do veganismo pra você (equilibrar dieta, comer fora, eventos sociais…)? 

Sem dúvida os eventos sociais. Às vezes não dá para avisar que sou vegana ou até dá, mas a pessoa não tem noção nenhuma do que isso quer dizer. Então, ou eu como antes ou me viro com um pão e uma salada na ocasião. Mas acho que ninguém vai morrer por passar algumas horas sem comer algo mais substancioso. O máximo que pode acontecer é você ficar de mau humor, como eu fico quando estou com fome.

O que te inspira (pessoas/organizações/ações/movimentos) no terreno do veganismo/direitos dos animais?

O que me inspira é comida boa, saúde, amor e cultura. Por isso, e sem querer ficar puxando a salsinha pro seu lado, digo publicamente que você é um dos veganos que me inspira. Sei que a gente não se conhece pessoalmente, mas tenho a sensação de que o Papacapim é uma Sandra em palavras. Seus textos são bem escritos, coerentes, interessantes e sempre trazem uma mensagem positiva embutida. Além, é claro, de receitas apetitosas e dicas valiosas.  (Prometi um jantar à Samira caso ela aceitasse participar dessa série e dissesse coisas legais sobre a minha pessoa. Eu compro os meus entrevistados 🙂 

Desde que você se tornou vegana, teve algum momento (ou vários) em que você duvidou da pertinência do veganismo? Algum tipo de pensamento ou experiência que te deu vontade de jogar a toalha? Se sim, o que fez com que você continuasse achando o veganismo o melhor caminho pra você?

O veganismo é sempre pertinente e talvez seja a alimentação do futuro, caso as pessoas queiram realmente ter um futuro decente. Eu particularmente nunca duvidei disso. Se alguém duvida, sugiro que leia mais e busque os fatos. O meio ambiente está sendo destruído, principalmente por essa gula que as pessoas têm por carne. Os oceanos estão virando um deserto azul por essa mania de comer peixe. E muita gente está morrendo por causa de doenças provocadas pelo excesso de gordura saturada, proveniente de produtos de origem animal, como ovos e laticínios. Um livro que achei bem interessante e que já está traduzido para o português é Comer Animais, do Jonathan Safran Foer. Para quem lê inglês, Beyond beef, do Jeremy Rifkin, e The China Study, do Dr. T. Collin Campbell também foram muito esclarecedores e só fortaleceram meu ideal vegano.

Qual a sua opinião sobre laticínios orgânicos, happy meat, matar animais de maneira ‘humana’ e ovos de galinhas criadas em liberdade?

Uma maneira de as empresas cobrarem mais caro dos consumidores e, consequentemente, ganharem mais dinheiro. Quanto ao conceito de matar animais de maneira humana, eu, sinceramente, gostaria que alguém me explicasse isso direito, porque para mim as palavras “matar” e “humana” na mesma frase não faz muito sentido. Quer ver um exemplo? Ele matou o amigo de maneira humana, pois deu à vítima o direito a um banho relaxante e a massageou antes de cortar sua garganta. Esse assassinato é menos cruel porque o assassino se preocupou com o bem-estar da sua vítima? Eu acho que não. Mas, como estamos falando de animais coisificados pela cadeia de alimentação industrializada, é muito cômodo usar isso para permanecer naquela zona de conforto, alienada e preguiçosa.

Quais os conselhos que você daria pra quem está pensando em se tornar vegano?
Comece hoje.

Como você lida com o fato ter um marido onívoro? Como você se sente, como organiza o dia-a-dia (compras, refeições)? Uma dica pra quem está em um relacionamento com um não vegano/a?

Uma dica pra um vegano que está num relacionamento com um não-vegano é: ame sem preconceitos. Se a coisa estiver ruim demais ou insuportável para você, significa uma coisa só: o amor acabou ou nunca existiu. Se de um lado o amor me inspira, do outro a flexibilidade me ajuda a ter uma convivência pacífica com onívoros que amo, como meu marido e toda a minha família. Então, acho que lido com o fato de o meu marido ser onívoro de maneira normal. Eu não como carne, ele sim e é assim que é. Claro, tem dias em que os nervos estão à flor da pele e daí ele reclama do cheiro de pum que o brócolis solta quando vai para a panela e eu reclamo de ele não se importar com os bichos e da grelha suja de carne. Mas não é todo dia que faço brócolis e também não é todo dia que ele come carne. Aliás, recentemente fizemos uma espécie de lua-de-mel na Sicília e ele não comeu carne durante os 12 dias que ficamos por lá. Não por minha causa, mas porque não estava com vontade. Isso, porém, não mudou o amor que sinto por ele.

Em casa, acho que somos bem civilizados e respeitamos algumas regrinhas: eu faço a feira e preparo os pratos vegetarianos. Aliás, graças aos vegetais, que ele aprendeu a gostar depois de me conhecer, em 2008, ele ganhou mais saúde. Duas amigas nossas (onívoras) já mencionaram que de uns tempos pra cá a aparência dele está mais saudável e rejuvenescida. Na cabeça dele o crédito disso é meu, porque eu preparo muitos legumes e verduras pra nós. Se ele está com vontade de comer carne, é ele que deve ir ao açougue, comprar o produto, preparar e lavar o que estiver sujo por causa do preparo, inclusive o fogão. Até agora tem funcionado dessa maneira, mas acredito que casais com pontos de vista muito diferentes podem colocar o amor à prova com a chegada dos filhos. Como eu não tenho nenhum filho e, no momento, não morro de amores pela ideia de ser mãe, prefiro não pensar nisso. Só sei que se eu engravidar, enquanto o bebê estiver na barriga, ele será vegano.

Se eu pudesse passar um dia na sua cozinha o que encontraria no seu prato (da hora que você acorda até a hora de ir pra cama)?

De manhã você ia encontrar alguma fruta (hoje foi pêssego), pão integral tostado com húmus ou tahine e uma xícara de café preto adoçado com açúcar mascavo, mas sei que tomaria o café sozinha, porque sei que você odeia essa bebida e açúcar. (Samira, habibti, eu adoro café com todas as minhas forças. A única diferença é que café com açúcar é pra mim tão intragável quanto café com sal.) Umas duas horas depois você ia me ver comendo castanhas e frutas secas, acompanhadas de meio litro de água ou de suco de laranja. Na hora do almoço eu te ofereceria arroz integral feito com cenoura ralada, gergelim, curry e salsinha; tempeh feito com patê de azeitona e cebola roxa; uma saladinha de alface e rúcula temperada com azeite extra virgem, ervas de Provence e limão siciliano. Para beber, água à vontade. No meio da tarde eu te convidaria pra tomar um shake feito com leite de aveia enriquecido com cálcio, semente de linhaça, banana, morango e canela. E, à noite, exigiria que você deixasse de ser tão saudável e saísse comigo para comer uma pizza vegetariana ou que ficássemos em casa mesmo, para você saborear minha massa ao sugo, acompanhada de vinho Nero D´Avola e de berinjela ou abobrinha grelhada, regada com azeite de oliva extra virgem. (Quem te disse que eu não como pizza, menina? Pode ter certeza que o cardápio da sua casa me agradaria por demais!) 

Você está no corredor da morte. Qual a sua última refeição (pode ser vegana ou não. Você vai morrer, então a polícia vegana te perdoa:)? 

Que pergunta macabra! Por que eu estaria no corredor da morte? Mas enfim, se eu soubesse que teria direito a uma última refeição, pediria um prato generoso de aspargos frescos (cozidos obviamente), acompanhados de coração de alcachofra, de couve refogada com alho, de berinjela grelhada e de um punhado de azeitonas doces – um tipo de azeitona que tem aqui na Itália. Ela se chama “doce” não porque tem açúcar, mas porque tem bem menos sal do que as outras azeitonas. Para beber, eu ia querer um vinho tinto de altíssima qualidade e uma garrafa de água fresquinha.

Alguma receita simples e saborosa pra dividir com os meus leitores?

Aquela do shake que a gente tomaria a tarde se você passasse um dia comigo. Bata no liquidificador um copo de leite de aveia gelado, uma banana madura, seis a dez morangos, uma colher de sopa de linhaça e canela em pó a gosto. Bata bem e beba em seguida.