Bolinho de aveia e passas

Quando vim morar com Anne tivemos dificuldades em achar um café da manhã que agradasse as duas. Eu comia papa de aveia, ela estava acostumada a tomar café preto, sem açúcar, e nada mais. Até me conhecer, Anne achava que aveia era comida pra cavalo. Antigamente na França os cavalos eram alimentados com aveia e até hoje os franceses, principalmente no interior, não têm o hábito de comer esse cereal. Eu gosto de café, também preto e sem açucar (o que deixa minha família horrorizada, já que eles acham que só quem está de ressaca toma café sem açúcar), mas gosto de café com alguma coisa. Pão, de preferência. Mas o pão mais popular aqui, o pita, é péssimo: branco, sem fibra, sem nutriente e sem gosto. O que fazer? Anne começou a comer papa de aveia comigo, depois de ter sido convencida que não, ela não corria nenhum risco de sair por aí rinchando e dando coice. Eu gosto de comer minha papa com café, um costume que adquiri ainda pequena, quando era minha mama que preparava a papa pra nós. Assim nossos cafés da manhã se aproximaram. Mas de vez em quando eu sentia falta de algo mais sólido, algo pra mastigar. Então um belo dia eu me deparei com uma penca de bananas explodindo de madura na minha cozinha e esses bolinhos nasceram. Nossos cafés da manhã estavam perfeitos: de vez em quando comíamos bolinho de aveia com café e nesses dias eu não sentia falta de pão nem de papa.

Essa é a versão curta da história, a verdade é que precisei de várias tentativas antes de chegar a um resultado satisfatório. Como meu ponto de partida foi uma receita de scone (uma especialidade inglesa), passamos a chamar esses bolinhos de “scone do café da manhã”.  Achei melhor rebatizá-los de “Bolinhos de aveia e passas” pra ficar mais fácil de entender do que se trata. Eles são feinhos, eu sei. Mas não se deixe enganar pelas aparências: eles são ligeiramente crocantes por fora, macios e úmidos por dentro, deliciosamente perfumados com banana e especiarias, ricos em fibras e ferro, sem gordura e sem açúcar. Embora eu os chame de “bolinhos” eles não são doces a ponto de ser considerado sobremesa e estão mais perto de um pão doce, mas um pão doce saudável. Digamos que eles são uma espécie de cruzamento entre pão e granola, com banana no meio. Gosto de partir um ao meio, ainda quentinho, e espalhar um pouco de margarina antes de degustá-lo. Aconselho que você faça o mesmo. Acompanhado de uma xícara de café, com ou sem açúcar, é uma maneira deliciosa de começar o dia.

Bolinho de aveia e passas

Esses bolinhos são melhores quando degustados quentinhos, na saída do forno. Se sobrar algum pra mais tarde, esquente um pouco no forno antes de comê-lo. Depois de frios, eles podem ser congelados. Aí é só transferir o bolinho diretamente do congelador pro forno (sem descongelar) e esquentar alguns minutos. O gérmen de trigo é opcional, mas aconselho fortemente o seu uso pois ele é muito rico em vitamina B e vai deixar seu bolinho ainda mais nutritivo. A mesma coisa é válida pras nozes ou castanhas do Pará. E embora eu goste de comê-los de manhã, eles também são perfeitos pro lanche da tarde.

1x de farinha de trigo

¾ x de farinha-ou farelo-de aveia (eu coloco aveia em flocos grossos no liquidificador e trituro até virar pó, mas farelo de aveia também funciona)

1cs de gérmen de trigo (opcional)

1/2 cc de bicarbonato de sódio

1/2 cc de fermento

1cc de canela

½ cc de gengibre em pó

¼ x de passas

¼ x de nozes ou castanha do Pará em pedacinhos (opcional)

3 bananas bem maduras (já com algumas manchas pretas)

1/3 x de leite vegetal (soja, amêndoa, aveia)

2cs de linhaça moída*

6cs de água

margarina e farinha de aveia pra untar/polvilhar placa

Aqueça o forno em temperatura média. Em uma xícara, misture a linhaça moída com a água, mexa bem e deixe descansar alguns minutos. Misture os ingredientes secos (da farinha ao gengibre em pó) e junte as passas e nozes, se estiver usando. A parte, amasse as bananas com um garfo, junte o leite vegetal e misture bem. A essa altura a linhaça deve estar com uma consistência gelatinosa, como clara de ovo. Junte a linhaça à banana e bata um pouco com um garfo pra incorporar os ingredientes. Despeje essa mistura sobre os ingredientes secos e mexa com uma colher de pau. Não bata a massa, misture delicadamente até que tudo fique homogêneo. Unte uma placa (dessas de fazer biscoito), ou uma fôrma grande e rasa, com margarina e polvilhe farinha de aveia. Coloque colheradas de massa na placa, deixando um pouco de espaço entre cada bolinho. Se quiser, decore cada bolinho com um pitada de aveia em flocos grossos. Asse até ficar dourado.  O tempo de cozimento vai depender do tamanho dos bolinhos e do seu forno. Eu faço bolinhos pequenos (1cs cheia) e asso durante uns 25 minutos. Enfie uma faca fina e com ponta em um bolinho e se ela sair limpa está pronto. Deguste ainda quentinho, cortado ao meio e com um pouco de margarina. Rende 12 bolinhos pequenos.

*Linhaça se oxida facilmente, então nunca compre “farinha de linhaça”. Compre as sementes inteiras e moa em casa, no liquidificador. É importante moer só a quantidade que você precisar e guardar o resto na geladeira inteiro, mais uma vez pra evitar a oxidação. Outra alternativa é moer toda a linhaça de uma vez e guardar em recipiente fechado no congelador. Linhaça não congela em um bloco sólido, ela continua soltinha. Quando precisar, é só tirar a quantidade necessária (sem descongelar) e colocar o resto de volta no congelador.

OBS Acabo de fazer uma correção na receita. O certo é 1/2 cc de bicarbonato e 1/2 cc de fermento, e não 1cc de bicarbonato, como tinha postado antes. Embora o resultado em termos de crescimento da massa seja o mesmo, bicarbonato é salgado e usando 1cc na receita os bolinhos saem ligeiramente salgados. Não que isso me incomode, mas achei melhor avisar.