Sobre inspiração

Na palestra sobre veganismo que fiz em Recife me perguntaram de onde vinha minha inspiração pra criar receitas. Foi difícil responder essa pergunta, pois quando a gente vive mergulhada no processo de criação (e, acreditem, eu penso em comida na cama e até sonho com receitas enquanto durmo), parece que as ideias brotam por todos os lados. De onde vem a inspiração? Às vezes de um artigo sobre um determinado ingrediente que li em alguma revista, às vezes do menu de um restaurante (adoro ler menus de restaurantes bacanas, sempre encontro combinações nas quais não tinha pensando ainda), às vezes de algo que comi na casa de um amigo ou parente…

Mas na maior parte do tempo minha inspiração vem dos próprios ingredientes. Se estou na feira e vejo uma sinfonia de cores e aromas, ideias começam a pipocar na minha cabeça. Se trago pra casa uma fruta suculenta, gosto de apalpa-la, acaricia-la e cheira-la (eu tenho uma relação muito íntima com a minha comida) e minha imaginação é invadida por ideias de como prepara-la. Quando abro a geladeira tenho a impressão que os vegetais sussurram coisas pra mim, me dão dicas de como prepara-los. Não sei se é assim com todos os cozinheiros, ou se tenho uma imaginação fantasiosa demais, mas essa é a minha resposta pra pergunta acima.

Então antes de ontem um melão bem maduro e extremamente perfumado atravessou o meu caminho, junto com um maço de mini rabanetes que precisavam ser utilizados naquele dia, e achei que a doçura do melão era tudo que o rabanete precisava pra equilibrar o seu picante. Pois não é que eu estava certa? Nunca fui fã de rabanete, acho o gostinho de wasabi dele meio desagradável, mas essa foi a salada me fez mudar de opinião.

E como o último artigo do Guia Papacapim de Alimentação Saudável foi sobre saladas cruas, e algumas pessoas comentaram que ainda acham estranho misturar frutas com verduras, achei interessante compartilhar algumas receitas de saladas salgadas com frutas. Se você der uma olhada nas receitas de saladas que já apareceram aqui no blog (é só clicar na seção ‘receitas’ que você vai ver que já misturei rúcula com morango, melancia com azeitona, batata com maçã…) vai perceber que adoro usar frutas em receitas salgadas e aqui vão mais quatro criações inéditas pra mostrar que as possibilidades são infinitas. Em cada uma dessas receitas a doçura da fruta complementa muito bem os outros ingredientes e tem uma vantagem dupla: quem não gosta de comer frutas puras geralmente acha mais fácil consumi-las misturadas à verduras e quem não gosta de verduras acha mais gostoso comer saladas que levam frutas.

Então aqui vão algumas saladas ultra simples e ultra saborosas pra inspirar vocês.

Salada de melão e rabanete

(Foto acima) Misture uma xícara de melão bem maduro em cubinhos com a mesma quantidade de rabanete em fatias finíssimas. Meus rabanetes eram minúsculos, então cada fatia era menor que uma moeda de 5 centavos. Se os seus forem maiores corte as fatias ao meio, ou em quatro. Junte 1cs de salsinha fresca picada e tempere com 2cs de azeite, 1cs de vinagre balsâmico, uma pitada de sal e uma pitada de pimenta do reino. Doure 2cs de semente de girassol (sem casca) em uma frigideira seca e polvilhe sobre a salada antes de servir. Rende duas porções.

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Salada de toranja, abacate e azeitonas pretas

Descasque uma toranja média e corte a pele dos gomos (veja o passo-a-passo nesse post). Reserve a membrana. Misture os gomos de toranja (retire os caroços) com a mesma quantidade de abacate em fatias finas e um punhado de azeitonas pretas sem caroço, picadas grosseiramente (de preferência azeitonas gregas). Esprema (com a mão) a membrana da toranja sobre a salada, pra rega-la com o suco que restou ali, e tempere com sal, pimenta do reino e um fio de azeite. Se você não encontrar toranjas onde mora, pode substituir por laranja. Rende 2 porções.

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Salada de acelga, abacaxi e rúcula

 Misture duas xícaras de acelga branca picadinha (folhas e talos) com uma xícara de rúcula. Lave bem a casca de um abacaxi maduro, descasque (reserve a casca) e corte uma parte em cubinhos (com ou sem o talo, de acordo com os seus gostos). Você vai precisar de uma xícara de abacaxi pra essa salada, então reserve o resto. Coloque o abacaxi em cubinhos sobre as folhas e esprema a casca por cima da salada, pra rega-la com um pouco de suco. Tempere com 2cs de azeite e misture bem com as mãos. Eu não coloco sal nem pimenta, pois gosto de apreciar plenamente a doçura dessa salada e acho que a rúcula deixa a mistura apimenta o suficiente, mas nada te impede de juntar uma pitada de sal e outra de pimenta do reino. Rende 2 porções generosas.

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Salada de folhas com manga e gergelim

Disponha quatro xícaras de uma mistura de folhas (na foto usei: alface roxa, alface americana, alface comum e rúcula) em uma saladeira. Junte uma xícara bem cheia de manga em cubos e tempere com um pouco de suco de limão, bastante azeite, sal e pimenta do reino a gosto. Polvilhe com 1cs de gergelim (cru ou tostado na hora) e sirva. Rende 2 porções.

Amor verde

Salada de espinafre com abacate e tomate

Essa semana estarei mais ocupada do que nunca. Além dos projetos (inúmeros e todos voluntários) que coordeno normalmente, estou substituindo um professor da escola maternal francesa de Belém. Passar cinco dias tomando conta de crianças de três anos não me empolga nem um pouco, mas eu já falei que o trabalho que faço aqui é voluntário?  Pois bem, quando aparece um emprego pago eu não posso recusar, mesmo quando o emprego em questão envolve acompanhar criancinhas ao banheiro de cinco em cinco minutos.

Então, pra simplificar minha semana difícil, a receita de hoje é simples: salada de espinafre. Uma das comidas que mais adoro são folhas verdes. Me refiro aqui às folhas verde escuro, como espinafre, couve e cia, não aos diferentes tipos de alface. Sou capaz de comer uma bacia inteira de folhas em segundos, achando aquilo a coisa mais deliciosa do mundo. Agora é inverno na Palestina e as feiras estão cheias dessas maravilhas. Duas vezes por semana volto pra casa com uma montanha de folhas embaixo do braço. Nas compras de ontem trouxe seis tipos diferentes! Minha geladeira anda tão parecida com a selva amazônica que não me surpreenderia se um macaquinho saísse lá de dentro um dia desses.

Não vou entrar nos detalhes nutricionais de folhas verdes pois acredito que todos sabem que esses são provavelmente os alimentos com a maior concentração de vitaminas, minerais, fibras e anti-oxidantes que existe. Sei no entanto que, apesar de todas essas qualidades, folhas verdes não fazem a maioria das pessoas salivar. Mas estamos em janeiro, todo mundo exagerou nas festas de fim de ano e estamos precisando de algo mais leve (e nutritivo) pra nos recuperarmos. Essa salada é tudo que você precisa.

 

Salada de espinafre com abacate e tomate

Aviso importante: essa receita só agradará os amantes de espinafre (e “mato” em geral). Se você não gosta muito da coisa, essa não é a receita que vai fazer você começar a apreciar folhas verdes. Espinafre cozido é mais aconselhado nesse caso, pois o sabor fica mais suave. Depois não digam que não avisei.

Eu preparo o espinafre usando uma técnica que aprendi nos livros de culinária viva. A vantagem de massagear folhas é que elas ganham uma conscistência quase cozida, enquanto que todos os nutrientes são preservados. Se você preferir usar espinafre baby, de gosto mais suave, não precisa massageá-lo. O abacate acrescenta gorduras boas e, junto com o tomate, equilibra o sabor marcante do espinafre. Sempre faço essa salada sem medir os ingredientes, então as proporções aqui são aproximadas. Sinta-se livre pra adaptá-las aos seus gostos.

2 punhados generosos de espinafre (use as duas mãos pra medir)

1 abacate pequeno em cubinhos (cerca de 1x)

2 tomates picados

2 cebolinhas (parte branca e um pouco do verde) picadinhas (cerca de 1/3x)

suco de meio limão pequeno

1cs de azeite

sal marinho e pimenta do reino moída na hora

Lave as folhas de espinafre e pique em pedaços pequenos. Em uma bacia grande, regue o espinafre com metade do suco de limão e uma pitada generosa de sal. Massageie com as mãos até o espinafre muchar e adquirir uma aparencia de cozido (um ou dois minutos são suficientes). Junte o abacate, os tomates, as cebolinhas, regue com o azeite  e tempere com sal (lembre-se que o espinafre já está salgado) e pimenta do reino. Misture bem e prove o tempero. Junte  o resto do suco de limão e/ou mais azeite se achar necessário. Rende… depende do seu amor por espinafre. Eu como essa porção sozinha e pode me chamar de Popeye que eu respondo.

Um prato de poesia

Salada de repolho roxo, beterraba e maçã

 

Depois da lasanha, do festival de comida vegana e da batata gratinada, achei que esse blog estava precisando de algo mais leve.

Eu gostaria de ter uma história interessante pra explicar como criei a receita de hoje, mas a verdade não poderia ser mais sem graça: um dia abri a geladeira, encontrei repolho, beterraba e maçã e nasceu essa salada. Felizmente a salada em si não tem nada de “sem graça”. Não vou perder tempo explicando o quanto ela é saudável, vou me concentrar no sabor porque todo mundo sabe que salada é  ótimo pra saúde. Eu adoro repolho cru e descobri que ele fica ainda melhor se cortado bem fininho. Se isso tem explicação científica eu desconheço. Também adoro beterraba (crua, cozida, na rua, na chuva, na fazenda…) mas junto com o repolho o sabor fica bem intenso. Não que eu esteja reclamando. Eu tomo suco de espinafre com lentilha germinada no café da manhã alisando a barriga e fazendo “huuuum”. Mas tem gente que não gosta de sabores fortes quando o assunto é verdura. Aí é que está toda a beleza dessa salada! Ao misturar maçã aos legumes tudo fica perfeitamente balanceado. O molho cremoso de tahina (tahini, tahine, pode chamar do que quiser que ela responde) completa a união e o resultado é uma sinfonia de sabores, um pedacinho de repolho cantando aqui, um palitinho de maçã respondendo ali… Uma salada refrescante, crocante, de sabor marcante mas delicado, com notas doces de fruta.

Não vou mentir dizendo que esse prato é tão delicioso que acordo no meio da noite com desejo de comê-lo. Mas afinal, quem acorda no meio da noite com desejo de comer salada? Porém, justiça seja feita, no terreno das saladas essa daqui é um pequeno poema. E linda, com vários tons de lilás e rosa. Poesia pros olhos e pras papilas.

 

Salada de repolho roxo, beterraba e maçã com molho de tahina

Pra que a maçã não escureça depois de cortada, pingue algumas gotas de suco de limão por cima. Repolho roxo é mais bonito (alguns acham mais gostoso também), mas se você só encontrar repolho branco, nada te impede de fazer a salada com ele.

2x de repolho roxo finamente picado

1x de beterraba ralada (ralo grosso) ou cortada em palitinhos

1 maçã cortada em palitinhos (com casca)

Molho

3cs (rasas) de tahina

2cs de suco de limão

2cs de água

uma pitada generosa de sal

No recipiente em que for servir a salada misture o repolho, a beterraba e a maçã e reserve. Em uma xícara (ou outro recipiente pequeno) misture a tahina e o suco de limão e bata vigorosamente com uma colherinha. A tahina vai ficar ainda mais espessa (é normal). Junte a água (1 cs por vez) e misture bem. O molho deve ficar  bem cremoso. Dependendo da tahina usada (algumas são mais espessas, outras mais líquidas) será necessário acrescentar um pouco mais de água pra atingir a conscistência desejada. Despeje o molho sobre a salada e mexa bem. Sirva imediatamente. Serve 2-4 pessoas (como acompanhamento, claro).

 

 

 

 

 

Inovações

Guacamole com maçã

Algumas semanas atrás falei do meu patê preferido. Na verdade eu tenho dois patês preferidos: mutabal e guacamole.

Eu nasci em uma cidade pobre em diversidade gastronômica. Tirando os restaurantes italianos (e dezenas de pizzarias), e alguns restaurantes chineses e japoneses, a Natal onde cresci só oferecia comida regional e muito, muito churrasco. Hoje a cidade conta com mais opções de comida estrangeira, incluindo um ótimo restaurante tailandês, mas quando, aos vinte anos, arrumei as malas e fui estudar na Europa, eu não tinha provado muita coisa além de tapioca, cuscuz e umas comidas pseudo-italianas que prefiro não comentar. A comida do nordeste, principalmente macaxeira, ainda tem um lugar especial no meu coração, mas confesso que depois de ter descoberto delícias de outras cozinhas senti um pouco por ter sido privada delas por tanto tempo. Comida mexicana, por exemplo. Como pude ter vivido tantos anos sem guacamole?

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Melhorando o que já era bom

Patê de falafel (cru)

Há algum tempo comecei um « restaurante ocasional ». Duas vezes por mês transformo minha casa em restaurante very privê, só pra amigos e amigos dos amigos. Sábado passado servi um menu completamente cru, da entrada à sobremesa. Os dias que antecedem a comilança são preenchidos com tensão, expectativa e muito trabalho. Sou naturalmente insegura e extremamente perfeccionista na cozinha, uma combinação nem um pouco feliz. Sempre fico com medo dos convidados não gostarem da comida. Às vezes esse medo, como aconteceu sábado passado, chega perto de “pavor”. A grande maioria dos meus clientes é onívora, mas são pessoas gastronomicamente abertas e curiosas, que gostam de descobrir novos sabores. Porém um menu completamente vegano e cru talvez fosse demais pra eles. Ledo engando! Estou descobrindo a culinária viva (crua) e apesar da minha pouca experiência nessa área o jantar foi um sucesso. Não tenho a intenção de me tornar crudívora mas como cozinheira gourmet que sou, estou sempre tentando expandir meus horizontes culinários, descobrir novos ingredientes e técnicas e nesse sentido a culinária viva é uma mina de inspiração.

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Comida pra entreter

Patê de tomate seco com amêndoa e semente de girassol

Minha amiga Lílian, que acompanha o blog, me pediu pra postar receitas de patês e pastinhas pra comer como aperitivo. Lílian é casada com Cédric, meu melhor amigo francês, e eles moram em Marselha, a segunda maior cidade da França. Continuar lendo “Comida pra entreter”

Revolução crua

Espaguete cru de abobrinha com pesto de tomate

Ouvi falar em culinária crua há alguns anos e não sei porque a idéia de comer pratos feitos com ingredientes exclusivamentes crus não me pareceu atraente. Todos nόs comemos pratos crus (ou deveríamos) diariamente e não tem nada de “exόtico” nisso. Por ser vegana, muitas vezes fui obrigada a me contentar de um prato de salada crua (alface, tomate, pepino) porque o menu do restaurante não dispunha de nada vegano. Acho que de tanto escutar “Não come nada de origem animal? Podemos fazer uma salada pra você.” fui ficando com raiva de salada. Continuar lendo “Revolução crua”