Melancia

As primeiras melancias do ano apareceram na feira algumas semanas atrás e desde então tem sempre uma na minha geladeira. Acho melancia perfeita como ela é, mas de tanto dar de cara com essa fruta (sempre que abro a geladeira, o que acontece dezenas de vezes por dia), acabei tendo umas ideias. Por exemplo, descobri que ao juntar um pouquinho de hortelã picada e um fio de suco de limão sobre cubos de melancia, a fruta ganha um sabor todo especial e se torna uma sobremesa ainda mais refrescante. A inspiração veio da minha limonada rosa (se você ainda não experimentou aqui vai um conselho: prepare essa delícia assim que as melancias aparecerem na sua cidade) e acabei criando a versão sólida dessa receita. Mas minha vontade de inovar não parou por aí.

Aqui na Palestina o pessoal adora servir melancia com um queijo de ovelha bem salgado e embora nunca tenha provado a mistura (por razões óbvias), achei a ideia de misturar melancia com um ingrediente de sabor marcante e salgado ótima. Só faltava encontrar um ingrediente vegetal que tivesse essas características e depois de matutar um pouco resolvi fazer uma salada de melancia com azeitonas. Como eu gosto muito de juntar hortelã fresca às minhas saladas cruas, essa erva também entrou na receita, assim como um pouco de suco de limão e uma pitada de pimenta moída na hora. Confesso que a primeira garfada entrou na minha boca com uma certa hesitação, mas minhas papilas só precisaram de um segundo pra aprovar a combinação inusitada. Preparem-se pra uma explosão de sabores na boca: doce, salgado, ácido, fresco (da hortelã) e levemente apimentado.

salada de melancia

Não precisa de receita, basta cortar sua melancia em cubos médios, retirar os caroços, juntar um punhadinho de azeitona verde (de ótima qualidade) picada, um punhadinho de hortelã fresca picada, temperar com uma pitada de pimenta do reino (melhor se for moída na hora) e regar com um fio de suco de limão. Depois é só se deliciar.

Se vocês gostam de melancia tanto quanto eu e quiserem testar maneiras mais criativas de degustar essa fruta, ficam aqui minhas sugestões.

Essa é a minha preferida

salada de beterraba e nozes1

Vocês sugeriram que eu publicasse mais receitas de sobremesas e cá estou eu com uma receita de salada (e isso logo depois de ter publicado uma receita de sopa!)… Mas o que posso fazer? Tem gente que saliva com tortas de chocolate e cheesecakes, outros com beterraba e sopas.

Essa é a minha salada de beterraba preferida, uma receita que faço regularmente aqui em casa. Já publiquei outras saladas de beterraba aqui no blog, como essa salada de beterraba e rúcula e essa outra de beterraba e laranja, ambas simples e deliciosas. Mas a salada de hoje é mais que deliciosa, é maravilhosa! Sei que sou suspeita pra falar, pois sou louca por beterraba e adoro nozes com todas as minhas forças, mas se você gosta dos ingredientes dessa receita separados, pode ter certeza que a soma deles é uma explosão de sabores e texturas. O macio e doce da beterraba, o sabor marcante e o crocante das nozes, o frescor verde da salsinha… sublime!

Mas, amantes de sobremesas, não se desesperem! A receita de torta de chocolate e café que fiz pro almoço de natal ainda está esperando pra aparecer aqui. Achei que seria indecente publicar algo do tipo numa segunda-feira, mas na quarta-feira já me parece totalmente aceitável… Porém não deixem a perspectiva da torta distrair vocês. Essa salada também merece atenção e com um look lindo desses deveria aparecer na sua mesa em ocasiões especiais (e em segundas-feiras chuvosas).

 salada de beterraba e nozes3

Salada de beterraba com nozes

Beterrabas, assim como todo legume, absorvem melhor os sabores se você tempera-las ainda quentes. Por isso o ideal é despejar o molho sobre os cubos de beterrabas quentes, deixar esfriar e só então juntar os outros ingredientes. O sal com salsão, ou qualquer outro sal com ervas, deixa essa salada ainda mais saborosa. Pra quem não sabe como cozinhar beterraba: coloque as beterrabas inteiras e com casca em uma panela de pressão, cubra com água e cozinhe entre 20-40 minutos (a partir do momento em que a panela pegar pressão), dependendo do tamanho das suas beterrabas.

2 beterrabas médias cozidas, descascadas e cortadas em cubos pequenos

1/2x de nozes

1 punhado generoso de salsinha, picada

Molho:

3cs de azeite

2cs de vinagre balsâmico

1cc de mostarda de Dijon (opcional)

1/2 dente de alho, ralado

1cs de chalota* ou 1/2cs de cebola roxa, picadinha

Sal com salsão (receita aqui) ou sal marinho

Pimenta do reino

Misture o azeite, vinagre, mostarda de Dijon, alho e chalota (ou cebola roxa) e despeje sobre os cubos de beterraba quentes (leia explicações acima). Tempere com sal de salsão (ou outro) e pimenta do reino a gosto. Enquanto a beterraba esfria, toste as nozes a seco em uma frigideira grande. Sacuda a frigideira algumas vezes pras nozes tostar dos dois lados. Quando as nozes estiverem bem douradas e perfumadas, retire do fogo, deixe esfriar um pouco e pique grosseiramente.  Junte as nozes e a salsinha à beterraba e misture bem. Prove e corrija o tempero. Sirva em temperatura ambiente. Rende 4 porções como acompanhamento.

*Chalota é um tipo de cebola mais suave e menor do que cebolas comuns. A casca é dourada, mas o interior é lilás, elas são alongadas e geralmente têm dois gomos. Gosto muito de chalotas, pois elas têm um sabor mais delicado mesmo quando consumidas cruas. Se usar cebola roxa, que é mais intensa, use só 1/2cs.

A salada de Lila

Salada de batata com maçã e azeitona, ou “a salada de Lila”.

Eu já falei muito da minha irmã caçula aqui no blog, mas acho que nunca mencionei que tenho mais duas irmãs. Ao contrário de Lu e eu, elas não sentem nenhum afeto pela cozinha e a mais velha, Lila, é famosa pela falta de talento nesse departamento (ela tem vários outros talentos, garanto). Na hora de preparar comida, o que ela faz cada vez mais raramente, Lila junta a falta de interesse com a falta de paciência, mistura o que vir pela frente, corta as verduras em quatro (e se justifica dizendo “estilo chinês!”) e o resultado, embora comestível, nunca impressiona ninguém. Como eu disse, ela tem outros talentos e nem todo mundo faz questão de brilhar na cozinha como eu.

Mas Lila tem uma especialidade: salada de batata com maçã e azeitona. Não faço ideia da origem da receita, nem como ela foi parar nas mãos da minha irmã, mas faz muitos anos que essa salada tem presença obrigatória na nossa mesa. Nenhuma celebração é completa sem ela e um jantar só é especial se contar com a salada de Lila.

A versão de Lila tem batata, maçã, azeitona e o molho é uma mistura de maionese e creme de leite. Há tempos venho pensando em fazer a versão vegana da especialidade da minha irmã, mas meu desejo era deixa-la mais nutritiva, além de 100% vegetal.  Eu poderia ter usado um molho à base de tofu, como na minha salada de batata preferida. Além de delicioso, esse molho tem uma textura parecida com a mistura maionese/creme de leite usada na receita original. Mas nem sempre tenho tofu em casa e sei que muitos leitores têm dificuldade de encontrar tofu de qualidade em suas cidades. Como sempre tenho um potinho do meu hummus na geladeira, decidi incorporar essa pasta na salada. E como nenhum prato é completo pra mim sem pelo menos um tiquinho de verde, acrescentei salsinha picada à minha versão.

Pode até parecer estranho usar hummus como molho aqui, mas ele casou perfeitamente com os outros ingredientes e o sabor, misturado com os vegetais, ficou bem mais discreto. Sem contar que hummus é uma das coisas mais nutritivas, e deliciosas, que existe. O que faz dessa salada algo realmente especial é a combinação de texturas (a batata macia e a maçã crocante) e de sabores (o doce da fruta misturado ao salgado das azeitonas). E como adoro ervas frescas, a salsinha era a nota que faltava pra ficar realmente perfeito.

Confesso que não sou fã de batata e se tiver que escolher, prefiro sempre saladas à base de folhas (como essa aqui, por exemplo), mas tenho que reconhecer que essa salada é muito gostosa. Se você gosta de saladas com legumes cozidos e maionese, experimente essa versão original e muito mais nutritiva. Ainda não tive a oportunidade de servir minha versão pra Lila, mas tenho certeza que ela aprovaria.

A salada de batata de Lila (modificada por mim)

Uso um hummus tradicional nessa salada. A receita está aqui. As outras saladas de batata que apareceram aqui no blog: salada de batata com azeitona preta e azeite e salada de batata com tofu defumado e uva (com vídeo!).

4 batatas médias

3 maçãs

1/2x (bem cheia) de azeitonas verdes, picadas grosseiramente

Um punhado de salsinha

5cs de hummus

1cs de azeite

Sal e pimenta do reino

Descasque e corte as batatas em cubos médios. Cozinhe na água salgada, ou no vapor, até ficar macia (cuidado pra não cozinhar demais, senão os cubos de batata virarão purê quando você misturar com os outros ingredientes). Transfira a batata cozida pra uma saladeira grande e deixe esfriar completamente. Se você cozinhou a batata no vapor, salgue a gosto. Corte as maçãs com casca em cubos médios, do tamanho dos cubos de batata. Coloque as maçãs cortadas, as azeitonas e a salsinha picadas na saladeira. À parte misture o hummus com o azeite e bata com um garfo pra incorporar. Se seu hummus for bem espesso, junte 1 ou 2cs de água pra afinar um pouco. O ideal é atingir uma consistência parecida com maionese: cremosa e não muito densa. Despeje sobre os vegetais, tempere com pimenta do reino (melhor se for moída na hora) e misture delicadamente pra não amassar as batatas. Prove e corrija o tempero. Sirva em temperatura ambiente ou, como fazemos na minha família, gelada. Rende 4 porções como acompanhamento.

Antes das férias… saladas

Panzanella

Todo ano vejo o mesmo fenômeno se repetir: as quatro semanas que antecedem as férias são as mais ocupadas do ano inteiro. Parece que as atividades vão se acumulando lentamente e discretamente, pra não chamar minha atenção, durante os outros onze meses do ano e um mês antes das férias, bum!, elas explodem na minha cara. Acredito que isso aconteça com a maioria das pessoas, às vezes mais de uma vez por ano (eu também estava nesse estado antes do natal). Mas eu aguento caladinha porque no final tem uma super recompensa: férias. Só eu, minhas olheiras e meus músculos doloridos sabemos o quanto preciso de descanso. Sem contar que minha cabeça cheia precisa ser esvaziada, pelo menos parcialmente, do seu conteúdo pra deixar espaço pra idéias novas se instalarem.

Esse mês meu projeto no campo de refugiados cresceu e agora, além das aulas de culinária tradicional, eu organizo hospedagem pros estrangeiros que queiram morar algumas semanas com uma família palestina no campo. Assim os estrangeiros têm a oportunidade de mergulhar na cultura local e aprender um pouco de Árabe, além de ter hospedagem mais barata do que em qualquer hotel da cidade, e as famílias que participam do projeto ganham uma fonte de renda suplementar. No campo onde trabalho a situação econômica é crítica e o desemprego atinge mais de 70% da população. O mais difícil quando montei o projeto foi explicar o conceito às famílias. As mulheres acharam absurdo cobrar dinheiro pra acolher estrangeiros, queriam hospedá-los e alimentá-los de graça! A famosa hospitalidade árabe ainda é onipresente aqui, mesmo nas famílias mais humildes. Mas acabei convencendo as mulheres que os estrangeiros pagariam muito mais em um hotel e que no final elas estavam fazendo um favor a eles, não o contrário. O nosso segundo hóspede, um rapaz francês, chegou ontem e está sendo tratado a pão de ló. Agora preciso explicar pras famílias que não precisa tirar os móveis da sala pra mobiliar o quarto do estrangeiro, que não precisa gastar todo o dinheiro deles pra preparar um café da manhã super caprichado (com coisas que eles quase nunca comem), nem preparar jantar pro rapaz às dez da noite, principalmente quando ele acabou de comer no restaurante.

Isso me lembra um projeto parecido que minha irmã Lu tentou organizar no interior do RN, quando ela ainda estava na faculdade. As famílias que participavam do projeto piloto também trataram os hóspedes como se fossem filhos e até compraram presentes pra eles no final da estada. Lu gastou muita saliva explicando que não precisava daquilo tudo, mas os brasileiros também são muito hospitaleiros. Os palestinos têm muita coisa parecida com os brasileiros (tanto boas quanto ruins) e acho que por isso me senti em casa desde o primeiro dia em que cheguei aqui.

Juntando minhas inúmeras atividades com o terrível calor do verão palestino, minhas passagens pela cozinha têm sido breves. Gostaria de oferecer pratos mais elaborados, queridos leitores, mas acho que durante os próximos dias vocês terão que se contentar com saladas. Quando a temperatura aumenta meu estômago só quer saber de legumes crus, frutas, saladas e smoothies. Ele fica tão pouco exigente no verão que ano passado sobrevivi um mês inteiro almoçando exatamente a mesma salada todos os dias. Anne estava trabalhando em Gaza então não tinha ninguém pra reclamar da repetição, mas esse ano ela está aqui e tenho que ser mais criativa. Com a feira estourando de produtos frescos de ótima qualidade, essa não é uma tarefa difícil. A vantagem de comer tanta salada, além do óbvio (uma avalanche de vitaminas, sais minerais e fibras), é que meu repertório de receitas aumentou consideravelmente. Houve uma época, em um passado não muito distante, em que salada pra mim significava alface, tomate e pepino. Perdoem se estou sendo repetitiva, mas o veganismo trouxe tantos alimentos novos pra minha dieta que hoje minhas saladas são mil vezes mais interessantes que as que costumava preparar, um verdadeiro festival de cores e sabores.

Essa panzanella é um exemplo disso. Confesso que me afastei um pouco da receita tradicional (broto de brócolis em uma receita italiana!?!), mas garanto que o resultado final é harmonioso. Porém nada te impede de adaptar a salada aos seus gostos e ao conteúdo da geladeira. Saladas com pão não são exclusividade da cozinha italiana. Aqui no Oriente Médio tem o fatush, que também é uma delícia (postarei a receita um dia), mas os ingredientes da panzanella têm um forte sotaque italiano e é isso que dá personalidade à salada. Se quiser fazer adaptações, lembre-se de utilizar produtos que sigam a mesma linha. Outro detalhe importantíssimo: só pão rústico, aqueles densos e da casca grossa, têm o direito de entrar nessa salada. Se você usar um pão mole (tipo francês ou pão de forma) ele vai absorver a umidade da salada, amolecer demais e ganhar uma textura desagradável.

Agora preciso voltar à labuta, mas enquanto trabalho sonho com paisagens mais verdes, brisas mais frescas, siestas, muitas siestas e tempo pra cozinhar algo que não envolva pepinos.

 Minha Panzanella

Essa é minha última versão da panzanella italiana, usando o que encontrei na geladeira no dia em que preparei, mas a salada pode, e deve, ser personalizada. Mantenha a base (pão, tomate, pepino, pimentão vermelho e mangericão) e varie os outros ingredientes. Algumas sugestões: alcaparras, rúcula, alcachofas, pimentão vermelho grelhado, cebola vermelha, tomates cereja (no lugar do tomate convencional), tomates secos… mas não tudo junto, claro. Lembre-se: use um pão rústico e se ele tiver dormido um ou dois dias na sua cozinha, melhor ainda. Se quiser transformar essa salada em um prato completo junte um pouco de feijão branco ou grão de bico cozido.

Salada

2x de pão rústico em cubos (de preferência integral, cheio de sementes e feito com fermento natural, como esse aqui)

2cs de azeite

4 tomates, cortados em pedaços pequenos

1 pepino pequeno, cortado em pedaços pequenos

1 pimentão vermelho, cortado em pedaços pequenos

1/2x de mangericão fresco

15 azeitonas pretas (melhor se forem conservadas no azeite, não enlatadas, dessas compradas no peso nas lojas de produtos italianos)

2 punhados de espinafre jovem (baby)

1 punhado de broto de brócolis

Molho

4cs de azeite

2cs de vinagre balsâmico

1 dente de alho pequeno picado

sal e pimenta do reino a gosto

Em uma frigideira grande, aqueça 1cs de azeite. Despeje os cubos de pão e regue com mais 1cs de azeite. Frite, mexendo de vez em quando, até ficar crocante e dourando de todos os lados. Reserve. Misture os ingredientes da salada na vasília em que for servir. À parte, misture os ingredientes do molho. Regue a salada com o molho, tempere com sal e pimenta do reino a gosto e mexa bem. Na hora de servir, junte os cubos de pão fritos e misture. Sirva imediatamente. Você pode preparar a salada e misturar com o molho meia hora antes, pro sabor se desenvolver um pouco e todos os ingredientes ficarem em temperatura ambiente (caso seus legumes estejam gelados), mas deixe pra acrescentar o pão segundos antes de servir: assim ele não tem tempo de absorver o molho e continua crocante. Serve 2-4 pessoas.

De amor e de veganismo

Salada de lentilha e pera

Quando comecei a cozinhar pra Anne, no início do nosso relacionamento, eu me deparei com o problema que muitos veganos enfrentaram (ou enfrentarão) algum dia: eu tinha me apaixonado por uma onívora e não sabia o que preparar pro jantar. Minha amada não era só onívora, ela era francesa. Na França uma refeição só é digna desse nome se nadar na manteiga e no creme, tiver pelo menos dois tipos de bicho morto e terminar com uma bandeja de queijos. Pior ainda, minha amada onívora francesa vinha da Auvergne, uma região no coração da França, famosa por transformar porquinhos indefesos em um número inimaginável de produtos comestíveis. Lá os bebês passam do mingau diretamente pro salame (Só Jesus Cristo salva!). Pensei: “Onde fui amarrar o meu bode?” (Se você não tem família morando na caatinga e desconhece o palavriado local, aqui vai a tradução: “Onde fui me meter?”)

Mas o amor é uma força extremamente criativa e ao invés de sair correndo e pedir pra namorar o primeiro herbívoro que eu encontrasse, o que aqui seria inevitavelmente uma cabra, decidi preparar pratos capazes de agradar à nós duas. Lembro muito bem dos nossos primeiros jantares juntas, da minha tensão ao preparar a comida, da expectativa na hora da primeira garfada. Pra minha grande surpresa, e pra dela também, ela adorou tudo. Tanto que três meses depois minha francesa onívora auvergnate se tornou vegana. Vale salientar que foi por livre e espontânea vontade, embora ela afirme que minha comida foi um fator decisivo.

Dos pratos criados naquela época, um dos que preparo até hoje é salada de lentilha com pera. Eu procurava usar ingredientes conhecidos, nada de seitan ou tofu pra não assustar a moça, e salada de lentilha é um prato muito apreciado na França. A receita tradicional usa lardon, um tipo de bacon, mas fiz várias adaptações e cheguei a um resultado que as duas veganas daqui de casa achamos delicioso. Ela é rica em proteínas, ferro e ômega 3, podendo ser o prato principal de um almoço ou jantar leve. Você também pode servi-la como acompanhamento (com tofu assado fica ótimo). Adoro lentilhas porque, além de serem super nutritivas, elas dão saciedade sem no entanto pesar no estômago. Perfeito pra servir pra onívoros que acham que é impossível encher a barriga comendo só vegetais.

Não garanto que essa salada vai trasformar aquele(a) onívoro(a) que você ama em vegano(a), mas com certeza ela vai agradar vegs, não vegs e simpatizantes. Aprendi que, quando o assunto é veganismo, o estômago é o melhor atalho pra chegar ao cérebro. Garanto que um prato vegano saboroso vale mais que mil discursos na hora de convencer um onívoro que existe prazer gastronômico no reino vegetal. E se entre o estômago e o cérebro você antingir o coração, como aconteceu comigo, então você ganhou na loteria.

Salada de lentilha e pera*

Uso uma variedade de lentilha bem pequena e verde claro que conserva a forma depois de cozida, perfeita pra usar em saladas. Na França tem um tipo de lentilha parecido, a lentilha Puy (pequenina e escura). Se não encontrar lentilha Puy, ou algo parecido, você pode usar lentilha comum, mas pra evitar que ela se transforme em purê tome cuidado pra não cozinhá-la demais e misture a salada delicadamente. Acho que nozes combinam perfeitamente com lentilha e pera, mas se você não gostar (ou não encontrá-las) pode substituí-las por outra oleaginosa ( castanhas do Pará, avelãs, sementes de girassol, de jerimum…).

5 cebolinhas picadas (parte branca mais um pouco do verde)

1x de salsão** (aipo) picadinho (só o talo)

1 dente de alho grande picado/amassado

3x de lentilha cozida, mas ainda firme (de preferência lentilha Puy ou outra variedade pequena e firme)

2 peras pequenas, descascadas e cortadas em cubos pequenos

1 punhado de nozes

2cs de shoyu mais uma pitada de tomilho desidratado

2cs de vinagre balsâmico

2cs de azeite

sal e pimenta do reino a gosto

Em uma frigideira (de preferência de ferro), toste as nozes a seco (fogo médio) durante alguns minutos. Mexa de vez em quando pra tostar dos dois lados e tome cuidado pra não queimá-las. Desligue o fogo, transfira as nozes pra uma tábua de cortar legumes e, usando uma faca grande ou as mãos, quebre-as em pedaços menores. Reserve.

Na mesma frigideira ou em uma panela média, aqueça 1cs de azeite e refogue a cebolinha (reserve um punhadinho da parte verde pra decorar a salada), o alho e o salsão durante 3 minutos. Junte a lentilha, tempere com sal com o molho shoyu, tomilho e vinagre balsâmico. Mexa delicadamente pra não quebrar as lentilhas. Quando as lentilhas estiverem mornas desligue o fogo, junte 1cs de azeite e pimenta do reino a gosto. Prove e corrija o tempero (se estiver usando  o molho shoyo, talvez seja necessário juntar um pouco de sal). Acrescente as peras em cubinhos, as nozes tostadas e misture bem (mais uma vez, delicadamente pra não quebrar as lentilhas). Decore com a cebolinha restante (só a parte verde) e sirva ainda morno.

Serve 4 porções como acompanhamento.

*Alguém já se acostumou com a ausência de acento na palavra “pera”?

**A salada da foto não tem salsão pois há meses que esse legume desapareceu da feira que frequento.