Quase doze anos depois

Antes do veganismo entrar na minha vida eu adorava comer peixes e um dos meus preferidos era sardinha. Serei eternamente grata às latinhas de sardinha que eu comprava na mercearia da esquina e que me sustentaram durante parte da adolescência, quando eu estudava e trabalhava ao mesmo tempo. Durante mais de um ano eu almocei pão com sardinha (e café!) todo santo dia. Mais tarde, quando fui fazer faculdade em Paris, as pobres sardinhas continuaram sendo meu almoço, quase diariamente, durante os meus seis primeiros meses na cidade luz. Há anos deixei de comer sardinhas e agora minha alimentação, além de vegetal, é (felizmente) muito mais variada. Posso fazer como Franz Kafka e contemplar os peixes em paz. Vocês conhecem essa história? Dizem (dizem, porque naquela época a polícia vegana ainda não existia e não tinha nenhum representante pra comprovar o fato) que Franz Kafka, ao se tornar vegetariano, olhou pros peixes de um aquário e disse: “Agora posso contemplar vocês em paz: não os como mais”. Eu não fico em paz diante de aquários, pois lugar de peixe não é em caixas de vidros, mas vamos ignorar esse detalhe pra agradar os vegs que gostam de citar frases de outros vegs famosos (presente!).

Voltemos ao almoço que me alimentou durante meus seis primeiros meses em Paris. Cheguei por lá com muita coragem no peito e pouco dinheiro no bolso e espaguete com molho de tomate e sardinha era uma das refeições mais baratas que eu podia preparar na minha mini cozinha. Esse foi um dos primeiros pratos que aprendi a fazer, junto com a variação ‘cuscuz com tomate e sardinha’ e o meu amado sanduíche de sardinha (eu já disse que adorava sardinha? A população desse peixe quase desapareceu por minha causa). Uns tempos atrás lembrei desse espaguete e decidi fazer uma versão vegana. Não que eu use o meu precioso tempo pra tentar imitar pratos à base de animais, longe disso. Ultimamente passo meu tempo fazendo coisas muito mais úteis: tomando café, escutando Chico César e acariciando todos os gatos que cruzam o meu caminho. Mas de volta ao espaguete.

 espaguete com tomate e algas2

Desde que as algas entraram na minha dieta uma nova categoria de pratos se tornou possível. Agora posso preparar receitas com um leve, ou acentuado, sabor marinho e apesar delas não terem o mesmo gosto/textura de peixe o resultado é original e muito saboroso. Ainda não uso algas tanto quanto gostaria, mas aos poucos vou aumentando o meu repertório de receitas com esse ingrediente, que além de delicioso é cheio de proteínas e minerais. Estou adorando explorar o mundo dos vegetais marinhos.

Na versão vegana daquele espaguete uso alga dulse, uma das mais saborosas que já provei. Descobri que apesar do ‘sabor de mar’ estar presente em todas, cada alga tem um gosto único. Umas são mais fortes, outras mais delicadas, então aconselho que você prove todas que encontrar pela frente pra ver qual é a sua preferida. Outra mudança que fiz aqui, quando comparo com a receita original, foi o uso de ingredientes de melhor qualidade. O espaguete é de farro integral (um tipo de trigo antigo), a polpa de tomate é orgânica e pura (nenhum outro ingrediente entrou na sua composição), uso sal marinho e azeite extra virgem… Mas o espírito do prato continua o mesmo. Ele é uma refeição rápida e prática, capaz de alimentar grandes fomes por um preço módico (o uso de espaguete comum e tomates frescos deixam a receita ainda mais barata, claro). Algas podem até ser mais caras do que sardinhas, mas você só vai precisar de uma quantidade pequena pra perfumar todo o prato.

Hoje almocei esse espaguete com algas na varanda do meu novo lar em Bruxelas. Quase doze anos depois, cá estou eu na Europa, mais uma vez com muita coragem e pouco dinheiro (a melhor fórmula pra viver aventuras incríveis, garanto). Mas aprendi umas coisinhas desde a primeira vez que pus os pés no velho mundo. Deixar as sardinhas em paz foi uma delas.

 espaguete com tomate e algas

Espaguete com molho de tomate e algas

Nessa receita gosto de usar alga dulse (palmaria palmata), uma das minhas preferidas. Mas wakame e nori também são boas opções. Se não encontrar algas em flocos, use uma tesoura pra cortar a alga desidratada (em tiras ou folhas) em pedaços miúdos. Usei polpa de tomate porque onde moro não tem mais tomates nessa época do ano, mas nada te impede de fazer seu próprio molho com tomates frescos.

200g de espaguete cru (usei de farro, um trigo antigo, integral, mas qualquer tipo funciona aqui)

1 cebola, picada

4 dentes de alhos, picados/amassados

300g de polpa de tomate (feita com tomate e nada mais)

2cs de algas marinhas desidratadas em flocos (veja conselhos acima)

Uma pitada generosa de orégano desidratado (ou manjerona)

2cs de azeite

sal e pimenta do reino a gosto

Ferva uma grande quantidade de água salgada e cozinhe o espaguete. Enquanto isso aqueça 1cs de azeite e doure a cebola. Junte o alho e cozinhe mais alguns instantes. Acrescente a polpa de tomate, a alga em flocos e o orégano e deixe ferver. Tempere com sal e pimenta do reino a gosto. Despeje o molho sobre o espaguete cozido, regue com 1cs de azeite e misture bem. Sirva imediatamente, polvilhado com mais pimenta do reino (de preferência moída na hora). Rende duas porções.

Pra acalmar grandes apetites

Esse será um post relâmpago, pois ando correndo de um compromisso pra outro e tenho exatos 23 minutos pra escrever esse texto, comer, tomar banho e sair novamente.

Na categoria de comida vegana, barata, simples e capaz de satisfazer os apetites mais vorazes tem essa massa com feijão e tomate. Tempos atrás descobri que na Itália o pessoal gosta de servir macarrão com feijão e embora eu tenha achado a ideia estranha no início, resolvi experimentar, fazendo minha própria versão do clássico italiano, e adorei o resultado. Certo, não é exatamente uma receita sofisticada, daquelas que a gente faz pra impressionar futuros sogros, mas ela quebra um tremendo galho quando você precisa de algo gostoso pra reconfortar o estômago.

Se você faz parte do grupo de veganos que come macarrão com molho de tomate com frequência, por falta de opção ou preguiça de cozinhar, essa é a versão mais nutritiva e saborosa desse clássico (feijão e macarrão formam um proteína vegetal completa).

pasta com feijão e tomate

Pasta com feijão e tomate

Esse é um prato simples, rústico e barato, perfeito pra acalmar grandes apetites (adolescentes, estudantes, trabalhadores braçais, voluntárias em campos de refugiados e toda pessoa em fase de crescimento- independente da direção). Se quiser deixar o prato mais especial, veja algumas sugestões no final da receita.

1 cebola, picada

4-6 dentes de alho, ralados/picados

4 tomates maduros, picados

2cs de extrato de tomate

2x de feijão branco cozido (na água com sal e umas folhinhas de louro)

1/2cc de raspas de limão (cuidado pra não raspar a parte branca dos limão, pois o sabor é amargo)

Azeite, sal e pimenta do reino a gosto

200g de macarrão (idealmente uma massa curta, como penne, gravata ou parafuso)

Aqueça 1cs de azeite e doure a cebola. Junte o alho e deixe cozinhar mais alguns segundos.  Acrescente o tomate picado e o extrato de tomate e deixe cozinhar, coberto, até a mistura se transformar em um molho espesso. Tempere com sal, pimenta do reino e as raspas de limão. Junte o feijão cozido e, se o molho estiver muito espesso, um pouco de água (ou, melhor ainda, do caldo de feijão). Deixe ferver, prove e corrija o tempero, se necessário. Reserve.

Cozinhe o macarrão al dente em bastante água salgada. Aqueça o molho, se necessário. Misture o macarrão com o molho e regue com bastante azeite e mais pimenta do reino (de preferência moída na hora) antes de servir.  Rende 2-4 porções, dependendo do apetite.

*Sugestões: se quiser incrementar essa receita junte um punhadinho de tomate seco ou manjericão fresco picado ao molho (ou os dois) e polvilhe a massa pronta com castanha do Pará ralada.

 

O que eu serviria

pasta com couve flor assada e molho de nozes

Lavar louça produz um efeito curioso na minha pessoa. Enquanto minhas mãos estão ocupadas, minha mente levanta voo. Impressionante como encarar fixamente a parede em cima da pia funciona como um trampolim pra minha imaginação. E olha que estou falando de uma parede coberta de azulejos beges sem graça. Nem ouso imaginar o tipo de devaneio que uma janela (com uma paisagem) desencadearia.

Por exemplo, outro dia estava eu a pensar, entre espuma de detergente e pratos sujos, o seguinte absurdo: se eu pudesse convidar qualquer pessoa pra jantar aqui em casa, quem eu convidaria? Pro exercício ficar ainda mais interessante me dei o direito de escolher entre vivos e mortos. Tem quem pense no que levaria pra uma ilha deserta, ou quem levaria pra cama… Eu, graças à minha obsessão com comida, penso em quem convidaria pra jantar.

Primeiro pensei em grandes personalidades, ídolos e heróis. Clarice Lispector sempre me fascinou, mas seu jeito arisco (que descobri em uma antiga entrevista da TV Cultura) me assusta. E jantar assustada deve dar indigestão. Por mais que eu admire Gandhi, seus votos de frugalidade fazem dele a pessoa menos recomendada pra dividir um jantar gourmet. Ivan Illich, meu herói absoluto, diria coisas tão incríveis que meu interesse pela comida desapareceria completamente.

Depois pensei em convidados que fazem parte da minha lista dos mais atraentes. Adriana Calcanhotto, por quem eu cultivei uma paixão platônica durante toda a adolescência, Chico Buarque, e sua voz absolutamente deliciosa, Jodie Foster, que fala Francês com um sotaque irresistível… Todos têm em comum a inteligência, que pra mim é o maior afrodisíaco. Só tem um problema aqui: pessoas extremamente inteligentes me fascinam, me atraem e… me intimidam. Dos três citados acima só cheguei perto de Adriana Calcanhotto e fiquei completamente paralisada. Se a cozinheira estiver paralisada o jantar será um desastre. E a última coisa que quero nessa vida é que Chico Buarque volte pro Rio falando mal da minha comida. O que aconteceria com a minha reputação de cozinheira?

A solução seria convidar uma pessoa bacana e divertida, mas que não fizesse parte nem da lista dos heróis nem da lista dos mais atraentes. Então pensei em Jessier Quirino, um poeta/contador de causos que acho fantástico. E ele é da Paraíba, então é um vizinho meu no Brasil. Imaginei ele chegando aqui em casa…

-Opa! Então você é de Natal? Imagino que preparou algo da terrinha. Adoro carne de sol, camarão…

– Jessier, eu sou vegana.

-Você é o quê, minha filha?

-Vegana. Sabe como é, não como nenhum animal, nem leite, nem ovos…

-Agora pronto! Vim parar nesse fim de mundo pra jantar vento?

Então desisti de convidar Jessier Quirino. Zeca Baleiro é um moço bacana. Não é tão engraçado quanto Jessier, mas tem uma das vozes mais lindas que já ouvi e tenho certeza que seria uma boa companhia. E além de ser outro vizinho do Nordeste (ele é do Maranhão), ele é descendente de libaneses.

– Seja bem-vindo, Zeca!

– É um prazer estar aqui na Palestina. Sabia que meus avós eram libaneses?

-Sim, sim.

-Gosto muito do Oriente Médio. Acho a comida daqui fantástica! Essa ruma de carneiro assado, hum… A propósito, qual é o menu?

-(Suspiro…) Francamente, Zeca, tanto problema aqui no Oriente Médio e você fica aí pensando em comida! Esperava mais sensibilidade da sua parte.

E assim acabaram meus sonhos de convidar alguém famoso pra jantar aqui em casa. Não acredito que pessoas onívoras gostariam de ser tele-transportadas pra Palestina pra dividir um jantar com uma brasileira vegana.

Mas de uma coisa eu tenho certeza: o prato que serviria nessa ocasião absurda seria essa massa com couve-flor assada e molho de nozes. Essa é a minha arma (comestível) infalível pra quando onívoros vêm comer aqui em casa. Mesmo os onívoros que antipatizam com a culinária vegetal adoram. Então pensei que seria legal dividir essa receita com vocês. Se por acaso algum dia Chico Buarque bater na sua porta na hora do jantar, você estará preparado(a).

pasta com couve flor assada e molho de nozes2

Massa com couve-flor assada e molho de nozes

Esse molho de nozes foi inspirado de uma receita tradicional italiana. Usar pão pra fazer um molho pra macarrão pode parecer uma ideia maluca, mas confie em mim (e nos italianos). O pão se mistura com o azeite e a água e se transforma em uma emulsão extremamente cremosa. Todo mundo pensa que tem creme no molho. As nozes casam maravilhosamente bem com a couve-flor e o tomate seco deixa tudo ainda mais irresistível. Não se assuste com a quantidade de couve-flor. Acho que assim fica mais gostoso e a textura fica mais interessante. E acreditem quando digo que esse prato amolece o coração de qualquer onívoro (ou não).

1kg de couve-flor, cortada em pedaços pequenos (buquês e talos)

1/2x de nozes

1x de pão picado (de preferência um pão rústico, sem a casca. Pode ser integral ou não)

1-2 dentes de alho, de acordo com o seu gosto

3cs de azeite extra virgem

2cs de tomate seco picado (de preferência do tipo que não é conservado no óleo)

1/2cs de levedo de cerveja maltado (opcional. Não use levedo comum!)

Sal e pimenta do reino a gosto

Um punhado generoso de salsinha fresca

250g de macarrão (tagliatelle e penne são os meus preferidos aqui)

-Em uma travessa grande, regue a couve-flor picada com 2cs de azeite, sal e pimenta do reino a gosto e leve ao forno quente até ficar ligeiramente dourada e macia, mais ainda ligeiramente crocante (al dente). O tempo de cozimento vai depender do seu forno (aqui em casa leva de 25 a 35 minutos). Mais explicações sobre como assar couve-flor aqui.

-Toste as nozes em uma frigideira seca até ficarem douradas dos dois lados.

-Coloque o pão, nozes tostadas, alho, 3cs de azeite, 1cs de tomate seco picado, a levedura de cerveja maltada (se estiver usando), 1/2x de água, sal e pimenta do reino a gosto no liquidificador e triture até ficar bem cremoso. Prove e corrija o sal, se necessário. Junte o resto do tomate seco, misture com uma colher (não triture) e reserve.

-Quando a couve-flor estiver assada baixe o fogo e coloque uma panela grande com água salgada pra ferver. Cozinhe o macarrão al dente. Antes de escorrer reserve 1/2x do líquido de cozimento. Coloque o macarrão escorrido de volta na panela junto com a couve-flor assada. Junte a água do macarrão ao molho (ainda no liquidificador), misture bem e distribua sobre o macarrão/couve-flor. Misture bem e sirva polvilhado com bastante salsinha fresca picada e mais pimenta do reino (melhor se for moída na hora). Rende 4 porções.

Pequeno guia do macarrão perfeito

Espaguete com abobrinha grelhada, espinafre e alho

Graças ao amor incondicional que Anne tem por macarrão, pude criar infinitas receitas de massas. Já que sou obrigada a comer macarrão pelo menos uma vez por semana, procuro criar pratos que me agradem, acrescentando sempre uma dose generosa de legumes. O bom de comer algo que não gosto muito é que sou extremamente exigente com essas receitas e acabei me tornando uma expert em macarrão, o que nem de longe eu sonhava em ser antes de Anne entrar na minha vida. Sabe como é, quando a gente adora um tipo de comida qualquer versão dela (bem preparada ou não) agrada. Eu sou louca por sopa e, independente do que coloco na panela, dificilmente acho o resultado final ruim. Sopa pra mim é uma delícia de qualquer jeito. Já macarrão, que raramente sinto vontade de comer, precisa ser muito, muito bom pra me empolgar.

Pensando nisso resolvi dividir com vocês algumas dicas pra preparar macarrão capaz de empolgar até quem torce o nariz pra ele. Sei que todo mundo sabe como cozinhar esse cereal e ele é um dos primeiros pratos que aprendemos a preparar (em alguns casos, o único). Mas vi tanto macarrão sendo massacrado por aí que achei que algumas dicas seriam mais que úteis. Lá vai:

-Os italianos costumam dizer que fora da Itália cozinhamos o macarrão demais e salgamos a água do cozimento de menos. Pra cozinhar o macarrão nas regras da arte, leve uma grande quantidade de água ao fogo e quando começar a ferver junte uma dose generosa de sal (se você acrescentar o sal no início, a água demorará mais pra ferver). O que significa “uma dose generosa de sal”? Na Itália é costume dizer que a água onde cozinhamos o macarrão deve ser tão salgada quanto o mar Mediterrâneo. Nunca deixo minha água tão salgada quanto o mar, pois tenho pena de estruir tanto sal (afinal aquela água toda vai embora pela pia depois que escorremos o macarrão), mas chego perto. Prove um pouco da água e se não estiver quase tão salgada quanto o mar, junte mais sal.

– Cozinhe o macarrão al dente. Isso significa que ele deve ficar macio, mas ainda ligeiramente firme. Não precisa ter medo de comer macarrão cru no jantar. Durante o processo de escorrer a massa, misturar com o molho (que também deve estar quente) e servir, ela continua cozinhando e quando você começar a comer estará perfeitamente cozida. Pode confiar. Se, ao contrário, você esperar o macarrão cozinhar totalmente antes de escorrer, ele vai acabar passando do ponto. E nada menos apetitoso do que papa de macarrão.

– Antes de escorrer a massa, retire uma xícara da água do cozimento e reserve. Essa água, rica em amido, ajuda o molho a “colar” na massa e também serve pra afinar um molho que ficou espesso demais. Nem sempre uso a água reservada, mas às vezes ela é extremamente útil (principalmente quando uso molhos à base de creme).

– Outra regra de ouro: sempre prepare o molho antes de cozinhar o macarrão. O molho pode esperar (e ser requentado sem problemas), já o macarrão, não. A exceção aqui é macarrão ao alho e óleo, já que o molho fica pronto em segundos e não pode ser requentado.

– A única maneira de fazer com que sua massa não grude é escorrer o macarrão e misturá-lo imediatamente ao molho. Mais uma razão pra fazer o molho antes de cozinhar a massa. Esqueça essa história de colocar óleo na água do cozimento e nem pense em “enxaguar” seu macarrão depois de cozido (além de esfriar o macarrão, o enxague retira o amido que envolve a massa e o molho não vai aderir).

– Cada forma de macarrão casa melhor com um certo tipo de molho, mas acho que é importante levar em consideração suas preferências. Aqui em casa gostamos de usar espaguete com molhos de tomate leves e com legumes ao azeite (como a receita de hoje). Usamos massas longas e chatas, como fettuccini e linguini, com molhos à base de creme e molhos brancos. Já massas curtas, como pene, parafuso e concha, ficam ótimas em saladas frias e em gratinados. Mas se suas preferências são diferentes, siga seu instinto. Minha dica aqui é: esqueça os manuais e escolha a massa que preferir. O mais bacana de fazer a própria comida é que podemos deixa-la exatamente do jeitinho que a gente gosta e garanto que a polícia do macarrão não vai bater na sua porta se você servir espaguete com molho branco.

– Mais uma dica que vai contra a tradição. Sabe como os italianos vivem dizendo que nós (os não italianos) colocamos molho demais no macarrão? É verdade e eu serei a primeira a concordar que isso estraga um pouco o prato. Pra mim três fios de macarrão nadando em uma piscina de molho está mais pra sopa do que outra coisa. Porém macarrão é algo tão pobre em nutrientes (a composição da maioria das massas secas vendidas em supermercados é farinha de trigo e água, ou seja, carboidrato com pouca proteína e praticamente nenhuma vitamina nem mineral) que acho importante juntar uma quantidade boa de ingredientes nutritivos. Não precisa afogar sua massa no molho, mas não tenha medo de carregar nos legumes, leguminosas e ervas. Sua saúde e suas papilas vão agradecer.

– Nem só de parmesão vive o macarrão. Se você é vegano e está a procura de um substituto vegetal saboroso pra esse queijo, ou se você é onívoro/vegetariano, mas gostaria de ampliar seus horizontes em matéria de cobertura pra massas, experimente meu mix de sementes ou meu parmepão. Outra maneira simples e de aumentar o sabor e os nutrientes da sua massa é polvilhá-la com castanhas do Pará raladas.

– E já que estamos falando de ingredientes pra “finalizar” o macarrão pronto, pimenta do reino moída na hora e sal marinho (de preferência em flocos) polvilhados diretamente sobre o prato, no momento de servir, fazem uma imensa diferença no produto final. Pimenta do reino em pó perde seu aroma rapidamente e se você ainda não tem um moinho de pimenta, corra e compre um. E se você tem um azeite extra virgem especial (aquela garrafinha que custou uma fortuna), um fio sobre o prato pronto realçará bastante o sabor de suas massas (com uma exceção: molhos brancos cremosos não precisam da dose extra de azeite).

Agora passemos à receita de hoje. Esse espaguete com abobrinha e espinafre foi a minha adaptação de uma ideia simples que Anne teve outro dia. Lembram que passei duas semanas com o pé enfaixado, com o tendão de Aquiles do pé direito inflamado? Anne acabou preparando vários jantares durante minha convalescência e um deles foi macarrão com abobrinha. Confesso que quando ela anunciou o menu desconfiei que aquilo não ia ser muito bom, mas pra minha surpresa o prato era uma delícia. Desde então preparei esse espaguete várias vezes, mas não pude resistir à tentação de fazer algumas melhoras. Como a criadora do prato aprovou a minha versão, e que esse blog tem poucos pratos com massa, fiquei com vontade de publicar a receita aqui.

Imaginem que um espaguete no alho e óleo se juntou com abobrinhas grelhadas e espinafre cozido. O prato é suculento, perfumado e extremamente saboroso. Eu, que nunca gostei de macarrão no azeite e exigia sempre molho de tomate ou molho branco cremoso na minha massa, estou encantada com essa receita.

Espaguete com abobrinha grelhada, espinafre e alho

Cozinho os legumes na mesma frigideira, em etapas, por isso é importante usar a maior e mais funda que você tiver. Pra transformar essa receita em um prato completo, junte 1x de grão de bico cozinhado (escorrido e temperado com sal) aos legumes antes de acrescentar o macarrão. Também gosto de polvilhar esse prato com castanhas do Pará raladas: fica ainda mais gostoso e nutritivo.

2 abobrinhas pequenas (aproximadamente 5x depois de cortadas)

200g de espinafre

4-8 dentes de alho (de acordo com o seu gosto)

200g de espaguete cru

Azeite, sal e pimenta do reino

Prepare os legumes. Lave as abobrinhas e corte cada uma ao meio, no sentido do comprimento. Em seguida corte cada metade em fatias finas, criando meia luas.  Corte o alho em fatias finíssimas. A quantidade vai depender do seu gosto, mas acho que quanto mais alho você usar, mais saboroso ficará o prato. Lave o espinafre e pique finamente. Aqueça 1cs de azeite em uma frigideira grande e doure as fatias de abobrinha em fogo alto. Mexa bem pra dourar as fatias do outro lado. Esse processo é bem rápido e a abobrinha pode passar de dourado pra queimado em poucos segundos, logo não saia de perto do fogão. Baixe o fogo e deixe cozinhar mais alguns minutos, até ela ficar bem macia. Empurre pros lados da frigideira, despeje um pouquinho de azeite no centro e doure o alho em fogo baixo. Mais uma vez, fique de olho, pois o alho só precisa de alguns segundos pra dourar e queima muito facilmente. Misture o alho frito com as fatias de abobrinha e empurre tudo pra um cantinho da frigideira, deixando espaço pra cozinhar o espinafre. Despeje o espinafre picado (não precisa acrescentar mais azeite) e cozinhe até ele murchar e quase toda a água evaporar. Misture todos os legumes, tempere com sal e pimenta do reino a gosto e reserve, coberto, enquanto cozinha o espaguete. Ferva bastante água em uma panela grande. Quando começar a ferver, junte um dose generosa de sal e o espaguete cru. Cozinhe até ficar al dente (macio, mas ainda ligeiramente firme). Pouco antes do macarrão ficar pronto, aqueça os legumes. Escorra o espaguete e despeje na frigideira com os legumes. Regue com 1cs de azeite e misture bem. Prove e corrija o tempero. Sirva imediatamente, polvilhado com mais pimenta do reino (melhor se for moída na hora) e, se quiser, castanhas do Pará raladas. Rende 2 porções como prato principal.

O prato preferido dela

Macarrão gratinado com brócolis

Já expliquei aqui no blog que não sou muito chegada a macarrão, mas acontece que a senhora papacapim, aquela fotógrafa francesa que casou comigo, adora. Ela poderia comer macarrão todos os dias e ser feliz. A única coisa que a impede de fazer isso é que a cozinha é o meu território (ela só tem direito de entrar lá pra lavar a louça) e quem escolhe o que a gente come aqui nessa casa sou eu (e tenho dito!). Mas, pra ninguém me chamar de tirana (não que ela esteja reclamando dos meus quitutes, longe disso!), o cardápio da sexta é ela que escolhe. E adivinha o que ela escolhe s-e-m-p-r-e? Pois é, sexta é dia de macarrão aqui em casa. Por que sexta? Porque é o dia mais puxado pra ela, quando ela cobre várias ações (pense nos fotógrafos sem fronteiras) e depois de passar horas tentando fotografar dentro de nuvens de gás lacrimogêneo, desviando das  bombas de som e se protegendo das balas, bem, ela merece um pratão de macarrão. E minha tirania gastronômica amansa quando a senhora papacapim precisa de reconforto.

Dentre todas as massas que criei especialmente pra essas ocasiões, minha versão vegana e melhorada de um prato americano chamado macaroni and cheese (mac and cheese pros íntimos) é provavelmente a sua preferida.  A receita original usa leite, creme e dois tipos de queijo, resultando em uma quantidade obscena de gordura saturada e colesterol. Sei que esse tipo de bomba agrada muita gente, mas eu prefiro pratos onde minhas papilas possam sentir claramente os sabores e não se afogar em uma piscina de gordura.  Na minha versão uso um molho a base de castanha de caju e levedo de cerveja maltado, que lembra vagamente o sabor de queijos fortes, e junto bastante brócolis pra deixar o sabor ainda melhor (essa é a parte “melhorada” da receita). Confesso que inicialmente a ideia era aumentar os nutrientes do prato, mas descobri que brócolis misturado com um molho cremoso é divino.

Sei que na receita uso uma xícara inteirinha de castanha de caju (aproximadamente 120g) e que a quantidade de gordura das oleaginosas assusta muita gente. Mas essa gordura é boa e totalmente isenta de colesterol (só existe colesterol em produtos de origem animal).  Não aconselho meu macarrão gratinado pra quem estiver de regime, claro (mas quem comeria macarrão com queijo e creme pensando em perder peso?), mas quando a gente precisa de uma comida que reconforta, super saborosa e cremosa, esse prato é mais do que indicado. Mesmo se você tem um trabalho menos perigoso e estressante do que a senhora papacapim.

 

Macarrão gratinado com brócolis

Na hora de gratinar, use uma travessa pequena, pois se a camada de macarrão ficar muito fina (o que aconteceria em uma travessa grande) ele vai ressecar. O levedo de cerveja maltado é o que deixa a mistura com gostinho de queijo, mas já fiz só com um pouquinho de levedo não maltado e o resultado também ficou bom. Tradicionalmente o mac and cheese é coberto com pão torrado esmigalhado, mas eu prefiro polvilhar meu parmepão na hora de comer. Sirva acompanhado de uma salada verde pra balancear tanta cremosidade.

250g de macarrão curto (maccheroni  ou penne)

4x de brócolis picado

2 dentes de alho picados

1cs de azeite

Parmepão pra servir

Molho

1x de castanha de caju, de molho por 6 horas ou mais

1cc de amido de milho (ou araruta, ou polvilho)

1cc rasa de levedo de cerveja (se for maltado, use 1cs cheia)

1cs de suco de limão

1/4cc de cúrcuma* (açafrão da terra)

1/2cc de alho em pó

1cs de cebola desidratada (opcional)

1/2cc rasa de noz moscada ralada

Sal e pimenta do reino a gosto

1 1/2x de água

Aqueça o azeite e refogue o brócolis durante alguns minutos. Não precisa deixar amolecer totalmente, pois ele ainda irá pro forno. Junte o alho picado e refogue mais alguns segundos, só o suficiente pro alho dourar levemente. Tempere com sal e reserve. Cozinhe o macarrão em bastante água salgada, separe 1/2x da água de cozimento e escorra. O macarrão deve ficar ainda bem firme, pois terminará de cozinhar no forno.  Reserve. Enquanto o macarrão cozinha prepare o molho. Bata todos os ingredientes no liquidificador até as castanhas se dissolverem completamente. Seja paciente, pois isso pode levar alguns minutos. Cozinhe o molho em fogo baixo, até engrossar um pouco. Desligue o fogo, despeje o macarrão, o brócolis e a água reservada na panela e misture bem. O molho vai ficar bem líquido, mas isso é importante pro macarrão não ficar seco enquanto assa no forno. Prove e corrija o tempero, se necessário. Transfira pra uma travessa que possa ir ao forno e asse em forno alto até ficar ligeiramente dourado. Cuidado pra não cozinhar demais. Prove um macarrão: se ele estiver macio e o molho borbulhante e espesso o prato está pronto. Pra conseguir um efeito realmente gratinado você precisa de um forno com a função “grill”. Meu forno tem, então depois de cozido deixo gratinar 4-5 minutos. Sirva acompanhado de uma grande salada verde e de parmepão (polvilhe as porções diretamente sobre o prato). Rende 3-4 porções.

 *Cúrcuma não é indispensável, mas é responsável pela cor amarelada do prato. Sem ela o sabor é o mesmo, mas o visual fica mais pálido.

Você merece lasanha

Minha lasanha preferida

Foi uma semana difícil. Daquelas em que nada dá certo e os problemas não param de se multiplicar. A nuvem negra foi tão pesada que atingiu até minha cozinha. Fiz um bolo de maçã que foi parar no lixo (apesar da minha consciência ter doído, como acontece sempre que desperdiço comida) e almocei paratha (um pão indiano) cru, pois a receita não deu certo e a massa não assou direito (depois do episódio do bolo, não tive coragem de estragar comida pela segunda vez na mesma semana). Torço pra que o culpado disso tudo seja o tal do inferno astral, já que meu aniversário está próximo. Mas sem querer esperar a mudança de idade pra ver o fim dessa onda de acontecimentos negativos, resolvi tomar meu destino em mãos e melhorar a situação imediatamente. Fazendo lasanha. Continuar lendo “Você merece lasanha”