Em junho, quando eu fiz aquele mini-retiro entre o rio e o mar, a proprietária da cabana onde fiquei hospedada deixou um mimo na cozinha pra mim: um potinho com pedaços de cocada. Agradeci o presente e perguntei se ela tinha colocado leite condensado na receita. Apesar da receita original de cocada ter só coco e açúcar, a norma hoje em dia é usar leite condensado. Ela respondeu que sim e eu agradeci mais uma vez, mas falei que não consumia leite animal. “E leite de coco?”, ela perguntou. Falei que leite de coco, sim, então ela contou que uma das cocadas no pote era de maracujá e tinha sido feita com leite de coco. “Só com leite de coco?”, perguntei animada. Como ela repetiu que sim, que só tinha leite de coco, dei uma mordida tímida na cocada de maracujá depois que ela saiu. Não sou chegada em doces, muito menos doces muito doces, e cocada entra nessa categoria. Mas amo maracujá e a ideia de misturar essa fruta deliciosa com coco atraiu meu paladar. Infelizmente o micro pedaço de cocada que comi foi suficiente pra me fazer entender que tinha leite condensado de vaca ali. Poxa!
Não foi a primeira vez que alguém mentiu numa situação dessas. Outro dia minha irmã do meio chegou em casa toda feliz com um dindin (ou sacolé ou geladinho, dependendo de onde você mora) de coco que ela tinha comprado especialmente pra mim porque o vendedor jurou de pés juntos que não tinha leite de gado ali, só leite de coco. Bastou eu sentir o cheiro do dindin pra entender que tinha leite em pó – de vaca- na composição. Minha irmã provou e confirmou.
Depois que a frustração de ter sido enganada no caso da cocada passou, fiz uma nota mental: fazer minha própria cocada com maracujá. E eu a faria mole, pra comer de colher, porque as duras têm tanto açúcar que não consigo comer. Outra razão pra fazer cocada de colher era testar usar macaxeira cozida na receita. Eu já fiz uma sobremesa com macaxeira no passado (preciso aperfeiçoa-la antes de compartilhar) e achei que tinha muito potencial. A ideia de usar macaxeira cozida em receitas doces não saiu da minha cabeça. Vi várias pessoas usarem essa técnica (e nem sempre pessoas veganas!) e a primeira sobremesa que fiz usando macaxeira foi inspirada numa receita que aprendi com João, um amigo vegano (e sócio de um restaurante delicioso) em Recife. Isso foi há alguns anos e hoje não entendo por que demorei tanto pra explorar mais essa técnica.
Não se assuste, garanto que a macaxeira vai dar a cremosidade levemente elástica que associamos ao leite condensado animal sem alterar o sabor. Consegui fazer a cocada do jeito que eu tinha desejado e, pra mim, o maracujá é o que deixou essa receita realmente excepcional.

Cocada cremosa com maracujá
O pulo do gato aqui é a macaxeira cozida. É ela que vai dar a textura cremosa, bem parecida com o adorado-idolatrado-salve-salve leite condensado. Confie, ninguém adivinha que tem macaxeira aqui. Uso uma quantidade até modesta de açúcar, considerando que isso é uma cocada. Prove e deixe seu paladar te guiar. Eu só fiz essa receita com coco fresco, mas tenho certeza que dá certo com coco ralado desidratado também (só atente pra usar uma quantidade menor de coco, já que ele vai absorver líquido e expandir quando entrar na panela). No dia que eu fizer, volto aqui pra contar. Use essa receita como base e faça os ajustes que quiser pra ficar perfeita pra você (mais ou menos açúcar, mais ou menos maracujá…)
3 1/2 xícaras de coco seco ralado (fresco, não o desidratado)
2 1/2 xícaras de leite de coco fresco (receita aqui)
1 1/2 xícara de macaxeira cozida, bem mole
1 1/2 xícara de açúcar
1 maracujá (grande ou pequeno, dependendo do seu gosto)
Pitada de sal
Coloque a polpa do maracujá no liquidificador (o tamanho do maracujá vai depender do seu gosto – quanto maior, mais forte o sabor azedinho da cocada. Bata por alguns segundos (sem acrescentar água), pra soltar a polpa dos caroços. Usando uma peneira, coe o sumo e reserve.
Bata a macaxeira cozida (sem o pavio!) com o leite de coco e o açúcar no liquidificador, até ficar bem cremoso e lisinho. Aqui está o seu leite condensado;)
Despeje esse creme de macaxeira e coco em uma panela grande e, idealmente, com o fundo grosso. Junte o coco ralado e o sumo de maracujá. Leve ao fogo alto, mexendo sem parar com uma colher de pau (ou de silicone) até apurar bem, reduzir 1/3 do volume e ficar com a textura mais espessa. Aqui em casa levou uns 20-25 minutos. Deixe esfriar e coloque na geladeira por algumas horas antes de degustar (a textura e o sabor ficarão ainda melhor).
Rende uma quantidade boa de cocada, então aproveita pra compartilhar com as vizinhas, amigas e crushes.

Olá! Sou fã do seu blog há anos. Comecei a ver quando você morava ainda na Palestina e o seu blog não me permitia copiar, rsrsrs. Salvei todas as suas receitas, de todas as categorias, usando um recurso bem simples do Chrome. Hoje, vi uma receita de geleia de morango com chia antiga e nela você dizia que o açúcar já não fazia mais parte de sua vida: “Descobri que alguns dos meus leitores também cortaram, ou estão tentando cortar, o açúcar do seu dia-a-dia, então hoje me sinto à vontade pra fazer esse anúncio: de agora em diante o açúcar virou persona non grata (eu deveria dizer ‘ingrediente non grato’?) nesse blog e não aparecerá mais no Papacapim (tirando, talvez, alguma rara exceção)”. O que aconteceu? Muitas de suas receitas atuais levam açúcar, a mais recente foi a do bolo de cenoura. Sinceramente, acho que naquela época as questões de saúde eram bem mais importantes para você do que talvez sejam hoje. Não seria o caso de o ativismo ter acabado por se sobrepor à questão da saúde?
É sempre uma alegria ver uma leitora das antigas! Se você continua lendo o blog, deve ter visto que as questões de saúde se tornaram ainda mais importantes no meu trabalho desde que comecei a trabalhar com cozinhas solidárias e educação popular nutricional. Então a verdade é que aconteceu o oposto do que você supôs. Acredito que alimentação saudável é algo que deve ser considerado de maneira mais abrangente e sistêmica e hoje me interessa mais usar o meu blog pra incentivar um padrão de alimentação com comida fresca, vegetal, agroecológica e sem ultraprocessados do que uma abordagem que foca em ingredientes específicos, como o açúcar, por exemplo. Mesmo assim, dos 700 posts publicados aqui no blog, apenas 56 são receitas de sobremesa e dessas 56 receitas, muitas são sem açúcar. Então posso dizer que não me afastei tanto assim do que prometi naquele post sobre a geleia de morango e chia: açúcar continua aparecendo pouco aqui 😉 E sigo sem consumir açúcar no dia-a-dia (como apenas em ocasiões especiais), por questão de gosto, mesmo. Um último esclarecimento importante: o Papacapim, desde sua criação, em 2010, nunca foi um blog dedicado à questão da saúde. Esse assunto aparece com frequência, porque faz parte do meu trabalho e das minhas reflexões, mas assim como o veganismo não é sobre saúde (é sobre libertação animal), meu blog também não é. Muito gente chega aqui (e fica) pelas receitas, e essas pessoas são muito bem-vindas, mas o Papacapim é um blog militante, assim como a sua autora <3