Quando conheci Anne ela era onívora. Quando começamos a namorar eu propus um trato: eu não cozinharia nada não-vegano e não queria que ela preparasse carne em casa, mas ela poderia ter laticínios e ovos na geladeira e sempre que quisesse comer carne iríamos a um restaurante. Como ela não consumia laticínios e raramente comia ovos, Anne propôs ir ainda mais longe: ela decidiu que a alimentação em casa seria sempre vegana e só comeria carne em restaurantes e nas casas dos amigos. E nunca mais falamos no assunto. Menos de quatro meses depois ela decidiu (por livre e espontânea vontade) se tornar vegana. Esse mês faz cinco anos que ela abraçou o veganismo, então achei que seria o momento ideal pra convidá-la pra participar da série ‘Porque me tornei vegano’.

Então ontem, depois do jantar, conversamos sobre as razões que a levaram a tomar essa decisão, as dificuldades que ela encontrou pelo caminho e as vantagens e desvantagens de ser casada com uma cozinheira vegana. Queridos leitores, com vocês Anne Paq (em versão lusófona).

Podemos fazer a entrevista agora? (Adoro conversas post refeições. Os pratos sujos na minha frente me relaxam e ficar brincando com as migalhas de pão sobre a mesa estimula o meu lado filosófico).

 Você quer mesmo me entrevistar? Então tá certo. Mas isso terá um preço.

Quer dizer que você não vai lavar a louça do jantar? (olhares aflitos na direção da pia, que estava coberta de panelas sujas)

(Silêncio)

 OK. Passemos à entrevista. O que fez você se tornar vegana?

Eu cresci acreditando que carne e laticínios eram indispensáveis pra nossa saúde, que só tinha proteína na carne… Eu tinha assimilado essa noção cultural de que o certo era comer de tudo. A minha região é famosa por fazer alguns dos melhores queijos da França, então comer queijos era quase uma parte da minha identidade. Nunca questionei essas afirmações, em nenhum momento desconfiei que isso não passava de crenças, de hábitos puramente culturais. Mas desde que fui morar no exterior (Anne morou na Austrália, Irlanda e Palestina antes de vir pra Bélgica alguns meses atrás) comecei, sem nenhuma razão especial, a comer menos produtos de origem animal. Quase nunca preparava carne em casa, raramente comia ovos, parei de tomar leite quando saí da infância e os únicos laticínios que me interessavam eram os queijos franceses, que eu só degustava quando ia visitar a minha família. Em casa eu quase sempre comia macarrão, verduras, arroz… Eu comia ratatouille umas três vezes por semana. Carne só aparecia no meu prato quando eu comia fora.

Quando fui morar na Palestina comecei a encontrar vegetarianos e veganos. Muitos ativistas estrangeiros e a maioria dos ativistas israelenses que conheci por lá eram veganos/vegetarianos e fui exposta à uma nova realidade. Quando entrei pro coletivo de fotógrafos Activestills, todos eram veganos. Não tivemos conversas sobre esse assunto, mas ao mesmo tempo não achei estranho o fato deles terem uma alimentação diferente da minha. Quando começamos a namorar você não falava sobre veganismo diretamente comigo, mas lembro que o assunto sempre vinha à tona durante os jantares com os amigos. Todos queriam saber por que você tinha se tornado vegana, o que leva alguém a fazer uma escolha tão ‘radical’. Eu escutava as suas explicações e aquilo fazia sentido pra mim, seus argumentos ecoavam com os meus princípios. Eu lutava por direitos humanos e confesso que tinha problemas em aceitar o pessoal que lutava por direitos animais. Tinha tanta coisa mais grave, séria e urgente acontecendo no mundo. Eu achava que a prioridade eram os direitos humanos. Mas aos poucos fui percebendo que aquele discurso, que você era obrigada a repetir pacientemente a cada jantar, fazia muito sentido pra mim. Se eu não queria que meus atos causassem sofrimento, se queria viver respeitando a natureza e se queria lutar por um mundo mais justo, o veganismo me pareceu como uma maneira de alinhar minhas convicções com os meus atos.

Houve um momento preciso em que o veganismo deixou de ser somente algo que você compreendia e até concordava, mas não praticava e passou a ser uma escolha óbvia pra você?

Teve o episódio do peru de Thanksgiving. Aquele foi um momento decisivo pra mim.

(Explicação. Em novembro de 2008 Anne fez uma exposição no QG da ONU em Nova York, comemorando o Dia Internacional de Solidariedade à Palestina, e aproveitamos pra passar uns dias na cidade. Ficamos hospedadas na casa de uma amiga americana dela. A família da amiga nos convidou pro meu primeiro e até hoje único Thanksgiving – dia de Ação de Graças. Nesse dia os americanos comemoram coisas duvidosas e fazem uma orgia gastronômica que tem como prato principal um peru assado. Eu era a única vegana do grupo, mas a família de Trish foi extremamente atenciosa comigo, preparando alguns pratos veganos e até um bolo de chocolate 100% vegetal só pra mim! Enfim, chegamos lá no momento em que a mãe de Trish tirava o peru assado do forno. Perus assados nunca fizeram parte dos jantares da minha família, nem no natal, e a cena que vi me deixou paralisada: uma ave gigante, que parecia que tinha tomado esteroides durante todos os dias da sua curta vida, extremamente bronzeada e brilhante e com as perninhas amarradas. A mãe de Trish cortou o fio que unia as perninhas do peru, separou as coxas dele, o que expôs um buraco enorme que supurava a mistura estranha que eles chamam de recheio e, segurando uma colher, inseriu a mão na cavidade localizada entre as pernas do animal e começou a retirar colheradas da mistura marrom fumegante. Eu via a mão daquela senhora elegante desaparecer e reaparecer entre as coxas do peru, enquanto ela sorria candidamente e nos desejava as boas vindas, e fiquei extremamente chocada com a cena. Eu, que nunca faço comentários com relação aos animais mortos que aparecem na mesa da minha família e amigos, virei pra Anne, que assistia a tudo com cara de quem estava tão perturbada quanto eu, e disse: “Essa foi a cena mais obscena que já vi.” Naquela noite Anne decidiu não comer o peru obsceno e alguns dias depois, enquanto comia o que viria a ser seu último hamburguer, ela tomou a decisão de se tornar vegana.)

 Como foi a transição?

Foi muito fácil, pois eu já estava comendo comida vegana diariamente há alguns meses e o fato de ter acesso à uma culinária vegetal super variada e extremamente saborosa facilitou enormemente o processo. O teste de fogo foi ter ido visitar minha família três semanas depois de ter me tornado vegana. Lá eu fui confrontada com a comida que mais tinha significado emocional pra mim, os maravilhosos queijos da minha região. E como era natal, a mesa estava sempre repleta de pratos não-veganos que até então tinham feito parte da minha história. Mas minhas convicções eram profundas e nem precisei resistir aos intermináveis banquetes de final de ano: eu não tinha mais vontade nenhuma de comer aquilo.

O que mais te ajudou nesse período?

Ver documentários sobre a exploração animal e ter acesso à mais informações sobre o assunto reforçaram a minha escolha. Quanto mais coisas eu descobria, mais eu me dava conta a que ponto eu era ignorante sobre essa questão e mais certeza eu tinha de ter feito a escolha certa. Ter a sorte de morar com uma cozinheira maravilhosa e ter acesso à comida vegana saborosa diariamente deixou tudo muito mais fácil. E o fato de não me sentir sozinha, pois alguns dos meus amigos e meus colegas de trabalho israelenses eram veganos.

Qual foi a reação da sua família quando você anunciou que tinha se tornado vegana?

Eu segui um caminho diferente da maioria das pessoas ao meu redor, então eles já estavam acostumados com as minhas escolhas originais. Ninguém julgou a minha decisão. Eles não só respeitam a minha escolha como sempre fazem questão de preparar opções veganas quando estou por lá. Só meu pai ficou um pouco desorientado no início. Logo depois de ter anunciado o meu veganismo ele perguntou se eu ainda comia tomate. Desconfio que o choque fez com que ele esquecesse por alguns segundos o que era vegetal e o que era animal. Mas ele se acostumou rápido com minha mudança de regime e tirando uma ou outra piada sobre tofu ele aceita minha escolha sem problemas. (No início, sempre que o pai de Anne nos via comendo -podia ser um pedaço de pão com geleia, uma salada ou uma papa de aveia- ele perguntava se era tofu. Mas com o tempo ele acabou percebendo que a gente comia outras coisas também.) Minha saúde melhorou desde que me tornei vegana, perdi uns quilos supérfluos sem precisar fazer regime, então isso fez com que eles respeitassem minha decisão ainda mais.

Quais foram as maiores dificuldades que você encontrou pelo caminho?

Abandonar os queijos franceses, que eu sempre associei aos bons momentos passados com a minha família, às minhas raízes. Além do sabor, pra mim eles tinham uma conotação afetiva muito forte. Mas com o tempo descobri alimentos que hoje me fazem salivar tanto quanto os queijos que eu costumava comer. Isso me ajudou muito. Queijo de castanha fermentado, por exemplo, me dá tanto prazer hoje quanto os queijos que eu comia antigamente.

Outra dificuldade foi perceber que eu não teria mais tanto prazer ao comer em restaurantes. Antes de me tornar vegana eu ia pra restaurantes quando queria comer algo especial e delicioso. Depois que o veganismo entrou na minha vida percebi que as únicas opções veganas dos menus eram salada, hummus e batata frita. Tive que aceitar que a partir dali frequentar restaurantes significaria passar momentos agradáveis na companhia dos amigos, mas que na maior parte do tempo o prazer gastronômico não estaria presente. Claro que isso não é exatamente um problema quando você tem a possibilidade de comer pratos saboroso em casa, diariamente, como é o meu caso. O prazer gastronômico continua fazendo parte da minha vida, mas agora eu como muito melhor em casa do que em restaurantes.

A terceira maior dificuldade que encontrei foi ter que encarar a resistência e a ignorância de algumas pessoas que insistem em tirar sarro e fazer piadas com o meu veganismo. Tem sempre aquele momento em que você precisa escolher entre confrontar essas pessoas e correr o risco de se lançar numa discussão desgastante e vã, ou ficar calada e fingir que não é com você. Dependendo do contexto escolho a primeira ou a segunda opção, mas às vezes, quando me calo, fico com um gosto amargo na boca. Por que algumas pessoas sentem a necessidade de ridicularizar as minhas escolhas se eu respeito as escolhas delas?

Quais foram os erros que você cometeu quando ainda estava engatinhando no veganismo e que poderiam ter sido facilmente evitados?

No início eu não me preparava o suficiente durante viagens, principalmente na França. No meu país é impossível encontrar comida vegana pela estrada, não existe nenhum sanduíche vegano nas lanchonetes. Outro erro que eu cometia assim que me tornei vegana: quando era convidada pra jantar na casa de alguém eu pensava ‘Ela já sabe que sou vegana, então não preciso relembra-la’. Eu ficava com receio de parecer desagradável e muitas vezes a pessoa acabava esquecendo o meu veganismo e me recebia com um prato de origem animal e nada mais. O constrangimento era muito maior do que se eu tivesse ligado pra pessoa na véspera pra refrescar a memória dela. Hoje eu sempre converso com as pessoas antes, explico o que como e o que não como e até dou sugestões de pratos se elas confessarem que não têm ideia do que preparar pra mim, o que acontece com frequência. É mais simples pra todos e você não corre o risco de constranger seu anfitrião.

Que pessoas ou organizações te inspiram no terreno do veganismo?

Fica muito piegas se eu responder ‘você’? Você me inspira todos os dias com a sua comida, que é deliciosa, variada e surpreendente. Eu adoro a maneira que você vive o seu veganismo, sem dar lições de moral e sem dizer como as pessoas devem se comportar, mas compartilhando o seu amor e entusiasmo pela culinária vegetal com os outros. Saber que você conseguiu fazer o meu pai, um francês do interior da França que se alimenta de maneira super tradicional, comer tofu e gostar me enche de esperanças. Fico pensando que é possível fazer as pessoas se abrirem à culinária vegetal e se convencerem que podemos comer muito bem sem precisar de produtos de origem animal.

O que faz você se manter vegana num mundo onde comer carne é uma opção muito mais fácil? 

A partir do momento em que descobri que podemos comer bem e manter a saúde sem consumir produtos de origem animal e que de quebra essa escolha era coerente com os meus valores mais profundos, não tinha como eu não me tornar vegana.  Eu não vejo como eu poderia voltar atrás hoje, isso iria radicalmente contra os meus princípios, seria uma violência contra mim mesma.

E embora seja mais fácil ser onívoro do que vegano, eu só tive a ganhar com a transição. Eu não só não precisei abrir mão do prazer gastronômico como vi o mesmo se multiplicar. Minha saúde está muito melhor hoje, tenho um peso mais saudável, me sinto mais leve e com mais energia. Sempre fico chocada nessa época do ano, quando a minha família prepara banquete atrás de banquete, e vejo meus familiares reclamarem do peso no estômago, problemas com a digestão e todo o mal estar causado pelo consumo exagerado de carnes e queijos. Eu era exatamente assim, mas hoje atravesso as festas de final de ano bem alimentada, leve e feliz. Meu corpo está mais leve, mas a minha consciência também. Foi uma das decisões mais importantes da minha vida.

Algumas dicas pra quem gostaria de se tornar vegano?

Primeiro de tudo: leia o blog Papacapim. Se informar é crucial. Nos últimos anos houve uma explosão de sites veganos e é possível encontrar todo tipo de informação importante na internet. A comunidade vegana virtual não para de crescer. Outra coisa importante: substituir a carne por tofu e o leite de vaca por leite de soja não é suficiente. Não abuse dos produtos veganos industrializados, como burguers, salsichas e outros embutidos, pois eles não são bons pra sua saúde. Você precisa sair do velho modelo de alimentação e repensar a maneira como se alimenta.  É possível ter uma alimentação variada e saborosa só com produtos naturais, então explore novos ingredientes e procure expandir seus horizontes gastronômicos. Na França, por exemplo, não temos costume de comer leguminosas nem aveia e hoje eu adoro as duas. (Antes de me conhecer, Anne nunca tinha comido feijão e achava que aveia era comida pra cavalo. Juro.)

Como é viver com uma cozinheira vegana?

Me sinto muito sortuda por ser sua cobaia e ser ‘obrigada’ a testar suas receitas todos os dias. Ter visto o seu talento passar de algo secreto pra algo público me enche de alegria. Fico muito feliz em ter testemunhado essa evolução. Teve uma época em que você tentava me convencer que era um micróbio e se contentava em criar receitas sozinha no seu cantinho, mas felizmente você decidiu ir mais além e dividir o seu talento e receitas com os outros. Eu tenho muito orgulho de ser sua esposa. E mais ainda quando leio os comentários que seus leitores escrevem no blog, pois vejo a que ponto você inspira e ajuda as pessoas.

(Eu ainda tenho certeza absoluta que não passo de um micróbio e isso não é complexo de inferioridade, pois estou convencida que somos todos micróbios. Quando penso no meu tamanho comparado à imensidão do universo e no tempo que vai durar a minha vida comparado aos bilhões de anos das galáxias, acho ridiculamente megalomaníaco pensar que sou algo mais que um micróbio. Mas sou um micróbio extremamente ativo 🙂 )

Quais são as desvantagens de viver comigo?

Tem sempre muita louça pra lavar, mas isso é um preço pequeno pra degustar os pratos que você faz. Acontece muito de você fazer um prato maravilhoso e nunca mais repetir, pois está sempre criando receitas novas. Isso é cruel. Mas a maior desvantagem de viver com uma cozinheira é que você passa muito tempo na cozinha e no final do dia está sempre cansada demais pra aproveitar a noite, ver um filme… Às vezes eu gostaria que a gente jantasse algo simples e rápido pra ter mais tempo pra ficar juntas à noite.

Qual o cardápio típico da casa Papacapim?

Os pratos são muito variados, estou sempre descobrindo coisas novas. Não tem cardápio típico, mas eu sei que todo dia vai ter algo que eu vou gostar. Em cinco anos talvez só duas vezes não gostei muito de algo que você preparou. Começamos o dia com um bom café (orgânico e fair trade), às vezes com um café de cereal, mais papa de aveia, pão com queijo de castanha ou hummus, ou só com azeite e levedo maltado. No almoço tem sempre uma salada crua e um prato mais consistente. Às vezes almoçamos restos do jantar, mas quase sempre é um prato novo. No jantar, porque é inverno agora, quase sempre tem sopa. Às vezes a sopa é o prato principal, às vezes tomamos uma sopa leve como entrada e outro prato quente. A gente tenta comer legumes de época e produzidos localmente, então no momento comemos muita abóbora, couve, beterraba, repolho, maçã…

 Qual é o seu prato preferido?

Macarrão. O molho varia de acordo com o dia. Nisso eu tenho muita sorte, pois suas receitas de macarrão são ótimas. Acho que seu molho carbonara é o meu preferido.

Você está no corredor da morte e pode pedir qualquer coisa, vegana ou não, pra sua última refeição. O que você pede?

Antipasto tricolor (com manjericão), aquela massa com creme de trufas e sálvia que você preparou na Itália (mais uma delícia que você preparou uma única vez e nunca mais tive o prazer de comer!) e, como sobremesa, crumble cru de pêssego ou seu sorvete de banana e amêndoas tostadas. Mas você concorda que eu não preciso ir pro corredor da morte pra ter direito a esse menu, não é?

 (Ah, essa massa com creme de trufas e sálvia… Anos atrás Anne e eu alugamos uma casinha na Toscana e passamos duas semanas deliciosas, visitando feiras, comendo pratos suculentos, enchendo a pança de gelato e admirando os girassóis. Durante uma das nossas andanças vespertinas, que sempre incluía visitas à mercearias locais, achei um potinho minúsculo com uma quantidade ridícula de trufa negra, aquele fungo mega caro e mega saboroso, e levei pra casa. Não tinha como fazer um jantar com aqueles míseros gramas de trufa, então tive a ideia de usar o ingrediente pra perfumar um molho cremoso e misturar com macarrão. Num relampo de inspiração resolvi acrescentar ao prato umas folhinhas da sálvia que crescia no jardim da nossa casa italiana. A mistura ficou sublime, mas tenho certeza que o fato de estar de férias, curtindo uma noite morna e perfumada em um vilarejo perdido na Toscana e do jantar ter sido servido à luz de velas e sob um teto de estrelas contribuiu muito pra transformar aquele prato em algo inesquecível. A mesma massa servida sem todo aquele romantismo, na cozinha do nosso apartamento em Bruxelas, teria um sabor muito inferior.)

Obrigada por ter se dado o trabalho de vir até aqui me dar essa entrevista. Foi muita gentileza sua.

O prazer foi todo meu. Adorei o seu apartamento. Mas ficamos falando, falando e agora está tarde demais pra voltar pra casa. Posso passar a noite aqui?

Só se você lavar a louça.

 anne

Sempre peço pros meus entrevistados dividirem uma receita simples conosco. Como Anne adora macarrão, ela tinha que dividir uma receita de massa com vocês. Outro dia ela teve que fazer o jantar, o que acontece quando estou muito atarefada ou muito cansada (ou doente), e decidiu fazer macarrão com brócolis. Eu, sem tirar os olhos da tela do computador, disse: “Não vai dar certo.” Porque outra desvantagem de morar com uma cozinheira é que sempre acho que minhas ideias são melhores do que as delas. Ela respondeu que ia dar certo, sim. E realmente deu, só que a receita podia ser melhorada. Mais uma desvantagem de morar comigo: eu sempre acho que posso melhorar as receitas dela (e de todo mundo). Então uns dias depois usei a receita dela como base, mas mudei a técnica, acrescentei um tiquinho disso e outro daquilo… No final ela concordou que minha versão era melhor (HÁ!) e é essa que vamos dividir com vocês.

Macarrão com pesto de brócolis

Lave e corte um buquê médio de brócolis: o talo deve ficar bem picado e as flores devem ser cortadas em pedaços maiores. Cozinhe no vapor até o brócolis ficar extremamente macio e se desintegrando. Reserve. Em uma panela grande aqueça 1cs de azeite e doure 6 dentes de alho grandes picados (ou mais, se seu alho for pequeno). Não tenha medo de usar bastante alho, ele é indispensável aqui. Coloque o brócolis cozido na panela do alho frito, deixe aquecer alguns instantes e esmague com um garfo, formando um purê (alguns pedaços inteiros são bem-vindos). Desligue o fogo e junte um punhado de manjericão fresco picado e mais 4cs de azeite. Tempero com sal e bastante pimenta do reino moída na hora.

Cozinhe (em bastante água salgada) macarrão suficiente pra duas pessoas, de preferência do tipo espaguete ou linguine. Reserve 1/2 xícara da água de cozimento e escorra a massa cozida. Jogue imediatamente o macarrão na panela onde está o molho de brócolis, junte a água de cozimento que foi reservada e misture bem. Prove e acrescente mais sal, pimenta, azeite e/ou manjericão, se achar necessário. Sirva polvilhado com castanhas do Pará raladas e levedo de cerveja maltado, se você tiver a sorte de ter esse ingrediente em casa (se não tiver, não tem problema, ainda assim seu prato ficará delicioso). Rende 2 porções grandes.