Vez ou outra uma mãe me escreve pedindo dicas de como fazer os filhos comerem melhor e/ou aceitarem mais vegetais na alimentação. Como não tenho filhos e tive poucas oportunidades de cozinhar pra crianças, fico sem saber o que responder. Claro que tenho algumas ideias, que podem se resumir em duas frases. 1- Crianças aprendem imitando os pais e se você quiser que seus filhos comam bem, vai ter que dar o exemplo. 2- Não deixe entrar na sua casa o que você não quer que entre no estômago dos seus filhos. Mas não posso pregar algo que eu mesma não pratico e fico imaginando que as mães responderiam: “É fácil pra você falar isso, mas queria ver se tivesse um filho torcendo o nariz pras suas sopas e pedindo biscoito recheado”.  Verdade. Mas como gostaria de ajudar as mães que me escrevem regularmente, decidi perguntar pra quem realmente entende do assunto: outras mães. Então pedi pra amigas que têm filhos e que estão criando os meninos de uma maneira extremamente saudável (pouco ou nenhum açúcar refinado, pouco ou nenhum produto industrializado, muitas frutas e verduras…) responderem algumas perguntas. Espero que a experiência delas inspire e ajude as mães e os pais que acompanham o blog.

A primeira entrevistada dessa mini série é Ingrid Graebner Prouvot. Ingrid é uma leitora do blog que virou amiga e tive o prazer de dividir um almoço com ela no Rio ano passado (e com Susana, outra leitora-amiga que conheci pessoalmente naquele dia) e um café da manhã em Natal esse ano. Fico imaginando em que cidade e qual refeição dividiremos no nosso próximo encontro.

Pão-ursinho

Ela mora em Petrópolis-RJ, tem 39 anos e dois filhos: Bruno (17 anos) e Daniel (3 anos). Ela trabalhou como gerente de banco durante 17 anos e há 5 decidiu sair e mudar de vida. “Não tinha tempo pra cuidar de mim, do meu filho e via minha vida pessoal indo por água abaixo. Inicialmente, montei um pequeno buffet onde fazia doces, bem-casados e pães de mel para festas e eventos. Confesso que naquela época não tinha muita preocupação com alimentação. Sempre adorei cozinhar, desde pequena, mas comia mal: muito açúcar e refinados, sem nenhum peso na consciência, por não saber mesmo o que estava por trás disso. Na mesma época eu estava namorando meu atual marido e 1 ano após sair do Banco descobri que estava grávida. Uma gravidez não planejada e que me assustou, pois o mais velho na época estava com 13 anos, mas que me alegrou imensamente!”

Quando conheci Daniel, o filho mais novo dela, fiquei impressionada com a excitação dele diante de um copo de suco de limão sem açúcar. A prova de que nenhuma criança nasce gostando de refrigerante e que paladar se educa. O que acho mais interessante na história de Ingrid é que ela criou o primeiro filho com uma alimentação ‘convencional’, então quando ela afirma que o tipo de comida que você escolhe dar pra criança tem um impacto enorme na saúde dela, ela sabe do que está falando.

Como é a alimentação na sua casa e, mais especificamente, do seu filho? O que o seu filho come no dia a dia (café, almoço, lanches e jantar), em ocasiões especiais e o que ele não come nunca?

No início da segunda gravidez, por incentivo do meu marido, Sérgio, comecei a ler e a me preocupar em relação ao que comia e logo vi que precisava mudar. Eu estava com 35 anos e queria ter uma gravidez saudável e assim, gradativamente, fui tirando coisas e acrescentando outras no meu cardápio. O Sérgio foi criado desde a adolescência com base numa dieta macrobiótica e aos poucos fui introduzindo isso na minha vida. Assim, o trabalho com doces no buffet se tornou totalmente incoerente com a minha nova alimentação e no meio da gravidez decidi parar. Atendi aos pedidos que já estavam combinados e não aceitei mais nenhum.

Quando o Dani nasceu, aqui na nossa casa, pelas mãos do Sérgio, eu vi o quanto tinham sido importantes e acertadas as minhas mudanças. A gravidez foi maravilhosa e o parto foi a experiência mais sublime que vivi. E eu não tenho dúvida alguma que isso se deve muito ao fato de eu ter mudado meus hábitos a tempo.

O Dani mamou no peito exclusivamente até os 6 meses e, enquanto ele mamava, eu pesquisava sobre como seria quando ele começasse a comer alimentos sólidos.

Diferente do que a maioria das pessoas faz, que é começar dando papinhas de frutas, eu dava uma papinha de arroz integral, cozida lentamente, que depois passava por uma peneira e dava para ele, sem sal. Com o passar do tempo acrescentava outros ingredientes na papinha: aveia em grãos, gergelim, lentilha. Depois sim entraram as frutinhas e à medida em que os dentinhos iam nascendo ele começou a comer o que nós comíamos, só que, claro, amassadinho de forma que ele conseguisse engolir. Ele comia os sólidos e ainda mamava no peito. Mamou até os 2 anos e 7 meses, uma imensa alegria para mim!

O nosso almoço do dia a dia consiste em arroz integral (90% das vezes), uma raiz (inhame, cenoura, beterraba, aipim, bardana etc), uma verdura e uma leguminosa. O Dani adora feijão preto, mas faço também lentilha, grão de bico, azuki e outros. Uma vez ou outra faço macarrão, porque o Sérgio adora. E no máximo uma vez por semana, faço algum tipo de carne, normalmente frango caipira ou algum peixe. Atualmente o Dani está com 3 anos, então fica mais fácil oferecer opções porque ele come praticamente tudo.

Quase nunca faço sobremesas, então ele come muitas frutas. No café da manhã e no lanche à tardinha, ele costuma comer mingau de aveia ou uma fatia de pão integral ou chapati (que aprendi com meu sogro, que morou na Índia alguns anos). Ele gosta de comer com mel ou geleia de damasco que faço com frutas secas, sem usar açúcar. Eventualmente ele come com um pouco de manteiga, mas não gosta muito. Uma vez ou outra come queijo meia-cura, mas também não curte muito, então não insisto. Faço iogurte integral que ele come com granola e mel ou até puro, porque também gosta do azedinho (eu também!).

Em ocasiões especiais, como festinhas, gosto de fazer eu mesma o que vou servir: bolo, pãezinhos, salgadinhos, cookies etc e as bebidas, que normalmente são limonada (que ele toma sem açúcar), suco de uva integral ou mate geladinho. Quando faço alguma coisa com chocolate em casa uso sempre o amargo e ele adora!

Passo a maior parte do tempo em casa, mas quando preciso sair ele sempre vai comigo, então levo de casa um pãozinho, uma fruta ou um pouquinho de passas e água, sempre água. Em situações em que não dê pra levar nada pronto de casa, paro numa padaria e compro um pãozinho francês pra ele e às vezes um suco de laranja. É o máximo.

E ele nunca tomou refrigerantes e fórmulas prontas de leite, nem papinhas industrializadas, por mais atolada que eu estivesse para cozinhar! Quando estamos viajando sempre dou um jeito de levar de casa farinha de trigo e arroz (integrais) e procuramos ficar hospedados onde haja uma cozinha, mesmo pequena, porque vi que é bem difícil comer na rua todos os dias. Eu sempre procurei escolher um restaurante mais natural, mas nem sempre há. Então, tendo arroz ou uma massa de pão e apenas uma panelinha, consigo evitar gastos exagerados e sei que ele está comendo bem. Nesses lugares compro frutas frescas da região, algum legume ou verdura e assim temos um almocinho quase igual ao de casa!

Fazendo a massa

Quando e como você decidiu dar uma alimentação saudável pro seu filho? Conte um pouco da sua história com a alimentação: quem ou o que te inspirou no início, como foi a transição…

Como disse acima, o Daniel já nasceu num novo momento na minha vida, onde eu já havia começado a mudar primeiro a minha alimentação, depois a do meu filho mais velho e quando o Daniel nasceu pude proporcionar a ele uma alimentação saudável desde sempre, pois até o meu leite que ele mamava era resultado dos meus cuidados com o que eu comia.

A transição para mim não foi difícil, embora muitas vezes eu tenha me espantado com as “novidades” que o meu marido trazia. Eu li muitos livros e muitos artigos sobre alimentação de verdade e conversava muito com o Sérgio, querendo aprender cada dia mais. Não fiquei presa numa dieta macrobiótica rígida, mas a base vem dela. Hoje olho para trás e quase não acredito em como eu era desligada sobre isso. Confesso que muitas vezes até ironizava quem eu achasse xiita demais e hoje me vejo exatamente assim e tão feliz!

Você vê os benefícios dessa alimentação na saúde do seu filho? 

O Daniel nasceu em casa, num parto natural lindo, sem nenhuma interferência externa, por decisão única e exclusivamente minha. O Sérgio foi quem esteve comigo o tempo todo e foi quem viu e segurou o Dani pela primeira vez!

Ele foi um bebê muito saudável e assim é até hoje. Nunca teve uma doença grave, nunca precisou tomar remédio (nenhum!!!), nunca foi a um hospital. Suas gripes e resfriados nós cuidamos, tratamos e curamos em casa, sempre com o equilíbrio de sua alimentação.

Ele ainda não vai à escola, fica comigo o dia todo e eu procuro adequar meus afazeres, que não são poucos, ao ritmo dele. Eu trabalho em casa, ajudando ao meu marido na empresa dele, mas faço praticamente tudo pelo computador, então até nisso estamos juntos. Mas dedico um pedacinho do dia somente pra ele, onde desenhamos, brincamos, jogamos alguma coisa ou até vemos um filminho juntos.

Quais os maiores obstáculos/críticas que você enfrentou (e ainda enfrenta) nessa jornada? 

Quando a mudança se restringia a mim, ouvia apenas piadinhas do tipo: “Ihhh, virou hippie”, “Agora só come mato” ou “Cuidado, vai ficar verde!”. E olha que eu nem tinha virado vegetariana. Quando o Dani começou a comer, inicialmente não tive grandes problemas, mas volta e meia ouvia a mesma pergunta: “Mas qual leite você dá a ele como complemento?”. Ao ouvir como resposta que era o meu próprio leite, às vezes vinha outra pergunta: “Mas e o cálcio, como você vai suprir?”

À medida em que ele ia crescendo, via que as pessoas se preocupavam, porque eu não dava Mucilon, Sustagem, gelatinas e (pasmem!) nem Danoninho!!! Imagino que elas deviam pensar: “O que será que essa criança come, meu Deus?”

Sei que quando ele vai na casa da minha mãe, ou das tias, acontece dele comer o que eu não dou aqui em casa, porque nem sequer compro, como biscoitos e alguma outra guloseima. Mas como eu levo coisas prontas daqui de casa, ele come muito pouco o que oferecem a ele. Minha mãe conta com orgulho para as amigas dela que ele toma chá  e limonada sem açúcar! Mas sempre rola um “tadinho!”.

Ainda vejo que muitos acham que essa alimentação é só pra quem tem grana e eu procuro mostrar o outro lado, que muitos não se dão conta: eu gasto com comida e não com remédio e planos de saúde. Meu “plano de saúde” é saber o que estou dando para minha família em cada refeição que preparo aqui em casa. Isso não quer dizer que não me preocupo com preços. Claro que pesquiso e sempre vou aos lugares que sei que tem bom preço e bons produtos. E ainda tem muita coisa que compramos em grupo, porque conseguimos preço de atacado e todo mundo sai ganhando.

Fazendo chapati1

Como você lida com situações sociais em que tem menos controle sobre o que o seu filho come (escola, festas de aniversário, restaurantes)?

Eu evito bastante sair com o Dani em horário de almoço especialmente, porque ele não come muito bem nos restaurantes. Quando não tem jeito, sempre vamos a um restaurante vegetariano aqui da cidade, onde a comida é mais parecida com a nossa e tem um suco verde que ele adora. Se estivermos num restaurante “comum”, procuro pedir o que parecer melhor no cardápio, mas sempre incluo um verdinho no meio.

As festinhas em que ele já foi eram mais de família, então ou eu mesma tinha feito a comida, ou sabia que o que estava sendo servido era de confiança. Ainda não passei pela experiência de colégio, onde sei que os lanches que as crianças levam são absurdamente açucarados, refinados e sem nada de bom, mas sempre converso muito com ele e explico que tudo o que ele vê e acha atraente nas prateleiras de um supermercado eu faço para ele em casa. E ele ainda me ajuda!

O que mais te ajudou a superar as dificuldades? Você teve o apoio de amigos, da família, de um pediatra?

Não tenho muito apoio de muita gente e às vezes até meu marido acha que sou exagerada nesses cuidados, mas o que me impulsiona a seguir nesse caminho é o resultado que vejo no Dani: uma criança alegre, extrovertida, falante, carinhosa, saudável e feliz. (Eu conheço Daniel e posso garantir que não é corujice de mãe, ele é realmente tudo isso:)

E uma outra coisa: meu filho mais velho foi uma criança linda e feliz também, mas por outro lado estava sempre doentinho, sempre com alguma alergia e tomando remédios constantemente. E eu infelizmente não soube cuidar de sua alimentação como sei cuidar agora do Dani. E eu não quero que ele passe por isso!

Pratinho do almoço

Qual são as suas motivações pra continuar nesse caminho? O que faz com que você continue longe da facilidade que a alimentação convencional oferece? 

Como disse acima, a minha maior motivação é ver os resultados imediatos nele e, depois de um tempo de prática, vi também que cuidar da alimentação não é nenhum bicho de sete cabeças e a alimentação natural, criteriosa, não dá tanto mais trabalho assim do que a convencional. Só precisa de um pouquinho de organização e disciplina.

Que dicas você daria pros pais que gostariam de oferecer uma alimentação natural e saudável pros filhos, mas têm medo de ser trabalhoso demais, caro demais, inviável, ou simplesmente da criança rejeitar?

Existem muitos mitos por aí rondando a alimentação natural, como dizer que a comida é sem graça, sem variedade e cara. E eu acho que existe muito mais resistência por parte dos pais do que da própria criança.

Se quiserem mudar os hábitos de seus filhos, os pais tem que mudar também. Não faz sentido dizer que a criança não pode tomar refrigerante e os pais continuarem tomando, mesmo “escondidos”.

Se a criança está acostumada a comer mal, seja pelo motivo que for, escolha um cardápio que permita aguçar sua curiosidade, invista na aparência também e convide-a para fazer junto. É muito gostoso quando a criança põe a mão na massa, literalmente.

Se a criança ainda estiver presa a marcas e produtos com apelo de marketing (personagens infantis), sugira fazer igual em casa. É relativamente fácil achar receitas de quase tudo na internet e vá criando um livrinho de receitas só de vocês, onde as experiências vão sendo anotadas pra repetir depois.

Outra dica: quando a criança for à escola ou a festinhas, faça lanchinhos a mais para ela dividir com os amigos. Com o tempo, ele vai perdendo o interesse nas comidinhas dos amigos e eles (os amigos) vão se interessar pela dele, que é novidade.

chacara vegana

Ingrid, muitíssimo obrigada por ter usado o seu precioso tempo pra responder minhas perguntas e dividir sua experiência conosco. Eu não tenho respostas pra todas as perguntas que vocês me fazem, mas tenho amigos que podem responder por mim (quem tem amigo, tem tudo!). Espero que essa mini série de posts inspire vocês e sintam-se livres pra dividir as próprias experiências com alimentação infantil (natural, integral e cheia de vegetais) nos comentários.

 *Todas as fotos foram feitas por Ingrid, menos a última , que foi feita por Anne (Susana, eu, Daniel e Ingrid no famoso almoço carioca).