Por que o movimento vegano deve apoiar o MST – parte III

Preciso começa dizendo que recebi várias mensagens de pessoas que leram os posts anteriores e , ao começarem a entender a atuação do MST, passaram a ver o Movimento com outros olhos. Nem sei dizer o quanto isso conta pra mim. São essas mensagens que me fazem acreditar que é possível quebrar preconceitos e que o meu trabalho, apesar de no momento ser uma militância de sofá, é capaz de produzir uma mudança positiva na sociedade. Continuemos lutando de punho erguido.

O terceiro post da série é, provavelmente, o mais esperado. Sabe aqueles mitos que você cresceu ouvindo? Aqueles comentários feitos pelo seu tio ou pai (ou professora, ou apresentador do jornal) que fizeram com que você sempre visse o MST com maus olhos? Vim aqui desmistificar isso tudo e também reponder as perguntas que me fazem com mais frequência.

Mitos e Perguntas sobre o MST

1- Os sem terra são vagabundos que invadem as terras de cidadãos de bem que trabalharam muito pra conquistar seu patrimônio. Propriedade privada é sagrada. Invadiu? Merece bala!

Difícil não ter uma atitude extremamente hostil com relação ao MST quando o próprio presidente eleito do nosso país vomita preconceito e incentiva a violência em rede nacional, né? Mas vamos lá.

O MST não “invade” terras, o termo apropriado é “ocupar”.

O direito à propriedade privada está garantido pela nossa Constituição, mas essa mesma Constituição também diz que toda terra deve cumprir a função social, ou seja, deve estar produzindo dentro da sua capacidade, respeitando o meio ambiente e sem trabalho análogo à escravidão. Caso contrário ela pode ser desapropriada pelo Incra e utilizada pra reforma agrária. Trabalhadores e trabalhadoras sem terra ocupam somente grandes propriedades improdutivas que não cumprem a função social.

Mas se você concorda que invadir terras é um crime terrível que justificaria uma resposta tão violenta quanto a sugerida pelo presidente eleito, então vamos falar de invasão. Sabe quem realmente invade terras? Os grandes latifundiários que praticam grilagem. “Grilagem” é quando um proprietário privado invade terras de terceiros, geralmente terras públicas, criando documentos falsos pra se apropriar das mesmas. O maior latifúndio que já existiu no Brasil tinha 4,7 milhões de hectares e fazia parte do grupo C.R. Almeida. A fazenda Curuá, em Altamira (PA), tinha trechos que pertenciam ao Estado, outros à União e alguns faziam parte de territórios indígenas. O título da fazenda foi cancelado pela Justiça Federal em 2011 e ela foi considerada pelo Iterpa (Instituto de Terras do Pará) como a maior área grilada do país.

Um estudo de 2006 realizado por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e do Museu Emílio Goeldi, a pedido do Ministério do Meio Ambiente, descobriu 30 milhões de hectares grilados somente no estado do Pará. Mas espera, por que esses invasores aí não merecem bala? Será que tem alguma coisa a ver com o fato desses grandes latifundiários/grileiros se organizarem na maior bancada do Congresso, a Bancada Ruralista, e apoiarem o novo governo?

Os 10 maiores latifundiários do país, de acordo com dados do INCRA, tem juntos 16.694.648 hectares de terra. Sim, mais de 16,6 milhões de hectares na mãos de um pequeno punhado de pessoas. Você acha justo ter tanta terra nas mão de tão pouca gente, enquanto ali do lado milhões de camponeses e camponesas se vêem sem acesso à terra e sem a possibilidade de sustentar suas famílias?

É revoltante ver pessoas desejarem a morte de agricultoras e agricultores sem terra, principalmente quando sabemos que essa violência é uma realidade. Pessoas sem terra são frequentemente vítimas das balas dos grandes latifundiários, muitas vezes com o apoio de políticos e da polícia. O massacre mais sangrento que se tem conhecimento foi no acampamento do MST em Eldorado dos Carajás (PA), não por acaso o estado com os maiores latifúndios do país. Em 1996, enquanto 3500 famílias esperavam pra serem assentadas, 155 policiais participaram da ação, sem identificação no uniforme e com armas e munições que não tinham sido anotadas nas fichas que comprovam quem estava no local. O resultado foi 21 sem terras assassinados e outros 56 feridos/mutilados. Segundo o médico legista Nelson Massini, houve tiros na nuca e na testa, indicando o assassinato premeditado de sete vítimas. Os culpados pelo massacre seguem impunes. E esse foi somente um dos muitos massacres e assassinatos de lideranças sofridos pelo MST desde que o Movimento foi criando, no início dos anos 80.

2- O MST rouba as terras dos fazendeiros.

O MST não rouba a terra de ninguém. Quem faz a desapropriação da grande propriedade improdutiva é o Incra e vale repetir que o Incra não toma a terra do fazendeiro. Na desapropriação, o Incra tem que pagar uma indenização ao proprietário em valores de mercado, determinados pela vistoria de avaliação.

3- Reforma Agrária tudo bem, mas ela deve ser controlada pelo governo, não feita por um bando de criminosos como o MST.

O Incra, Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, é um órgão federal da Administração Pública brasileira.

É o Incra, não o MST, que determina se uma terra cumpre ou não a função social, ou seja, se é improdutiva e pode ser usada na reforma agrária. O MST tem o direito, no entanto, de indicar terras improdutivas pra serem vistoriadas pelo Incra. O Incra explica: “A participação das entidades representativas dos movimentos sociais de luta pela terra na indicação de áreas é prevista pelo Decreto 2.250/97, que também garante a presença de representante técnico dos movimentos durante a realização da vistoria.”

Também é o Incra, não o MST, que desapropria terras improdutivas (depois de pagar a indenização ao proprietário da terra em valores do mercado) e instala os assentamentos. Ou seja, absolutamente todos os assentamentos do MST foram criados pelo Governo. Se coubesse aos agricultores e agricultoras sem terra fazer a reforma agrária o campo já teria sido democratizado há muito tempo.

4- Tem “sem terra” rico, cheio de imóveis, que continua invadindo terras!

O mito de que tem pessoas ricas que fingem ser sem terras pra ganhar terras do governo é absurdo! E impossível. Somente agricultores e agricultoras sem terra, posseiros, assalariados ou arrendatários podem entrar pro cadastro das famílias do Incra e ter, eventualmente, acesso a um lote em um assentamento. E só é possível ser assentada(o) UMA VEZ!

Pra se inscrever no Programa Nacional da Reforma Agrária, agricultores devem entrar no cadastro das famílias do Incra, um banco de dados com informações sobre candidatos que se inscreveram pra serem beneficiados com lotes em assentamentos. Ao adquirir um imóvel rural, o Incra utiliza o cadastro pra selecionar as famílias que poderão ser assentadas no local. O cadastro por si só não não dá direito a ser assentada nem é garantia de que a candidata receberá de fato a terra. A inscrição e cadastro destinam-se a identificar e quantificar a real demanda por terra.

Não pode ser assentada(o):

1 – Funcionário público federal, estadual ou municipal – a regra também se aplica ao cônjuge ou parceiro (ou seja, cônjuge de funcionário público não pode ser assentado);

2 –  Candidato com renda familiar proveniente de atividade não agrícola superior a três salários mínimos mensais;

3 – Agricultor que for dono, sócio ou cotista de empresa ou indústria – a proibição também se aplica a cônjuge ou companheiro;

4 – Qualquer pessoa que já foi assentada anteriormente – regra vale para o cônjuge ou companheiro;

5 – Proprietário de imóvel rural superior a 01 módulo rural do município – o mesmo vale para o cônjuge;

6 – Portador de doença física ou mental, cuja incapacidade o impossibilite totalmente para o trabalho agrícola – afora os casos em que um laudo médico garante que a deficiência apresentada não prejudique o exercício da atividade agrícola;

7 – Estrangeiro não naturalizado;

8 – Aposentado por invalidez -não se aplica a cônjuge ou parceiro;

9 –  Condenado pela Justiça ( por sentença final definitiva transitado em julgado ) com pena pendente de cumprimento ou não prescrita.

As famílias selecionadas passam por um processo de classificação assim que surgem vagas em terras recém adquiridas pelo Incra. Entre os critérios pra classificação das famílias cadastradas, estão: tamanho da família, força de trabalho da família, idade da candidata(o), tempo de atividade agrícola, moradia no imóvel desapropriado,  moradia no município, tempo de residência no imóvel e a renda anual familiar. Se a pessoa tem uma renda alta, se  é rica, ela NÃO tem direito a um lote em um assentamento, minha gente!

Somente famílias sem terra, capazes de trabalhar na terra e sem condições de comprar terra podem se tornar assentadas. E, vou repetir, somente uma vez! (regra válida pro cônjuge do assentado, que não pode pedir outro lote de terra pra si).

5- Esses vagabundos dos sem terras só querem terras pra em seguida vende-las e ficar com o dinheiro, depois recomeçam o mesmo processo em outro lugar.

Lotes em assentamentos do Incra não podem ser vendidos, arrendados, alugados, emprestados ou cedidos por particulares. Não estou afirmando, no entanto, que nunca nenhum assentado negociou seu lote, mas essa é uma prática ilegal, combatida pelo próprio Movimento. O que acontece com mais frequência é o abandono dos lotes por falta de infraestrutura, pois nenhuma família quer ficar em um local onde ela não possa viver dignamente.

Após a criação do assentamento, o Incra inicia a fase de instalação das famílias no local. É o Incra que escolhe, através de sorteio, o lote que irá pra cada família. Isso garante as mesmas condições de participação de todos os beneficiários.

Em seguida os beneficiados assinam o Contrato de Concessão de Uso (CCU) com o Incra. Esse documento dá direito ao assentado de morar e explorar um pedaço de terra pelo tempo que ele desejar e de receber sua posse, se cumpridas todas as exigências constante na legislação. O CCU também é o documento que assegura o cumprimento das exigências legais pra que a família possa permanecer no assentamento. Esse documento tem caráter provisório e até que possuam a escritura do lote, os lotes nos assentamentos estão vinculados ao Incra, não pertencem aos assentados. Por isso não é impossível que famílias assentadas sejam expulsas das terras onde moram há vários anos. E enquanto o assentado ou assentada não tiver a escritura do lote em seu nome, a terra não pode ser vendida, alugada, doada, arrendada ou emprestada a terceiros. Por isso o mito de que os sem terras vendem as terras adquiridas assim que as recebem e vão “invadir” outra terra logo em seguida, e repetem isso várias vezes, não passa disso: um mito.

6- Querem terras? Pois deviam trabalhar honestamente e comprar terras com seus rendimentos, ao invés de roubarem terras alheias!

Os assentados pagam pela terra que receberam do Incra e pelos créditos contratados. Tá lá no site do Incra, pode conferir se não acredita em mim. A terra recebida não é um presente pros assentados, é a possibilidade de ter onde trabalhar pra ganhar seu sustento dignamente e pagar ao Incra pelo seu pedaço de terra no assentamento.

Só quando o Incra verifica que as cláusulas do CCU foram cumpridas e que o assentado ou assentada tem condições de cultivar a terra pode ser iniciado o processo de titulação. O título de domínio é o documento que transfere o imóvel rural ao beneficiário da reforma agrária (assentado) em caráter definitivo. O Incra estipula o valor do lote no assentamento, de acordo com os valores de mercado, e o assentado ou assentada paga esse valor em 20 parcelas anuais.

Mas sabe quem não paga pelas terras que ocupa? As 729 pessoas físicas e jurídicas que possuem propriedades rurais com dívidas acima de R$ 50 milhões cada e que juntas devem aproximadamente R$ 200 bilhões à União! (fonte: Incra).  A área total de suas propriedades é de mais de 6,5 milhões de hectares, o suficiente pra assentar quase 215 mil famílias cadastradas no Programa de Reforma Agrária. Em 2015, de acordo com o Incra, 120 mil famílias estavam acampadas demandando reforma agrária. Somente com as terras dos maiores devedores do Estado brasileiro seria possível assentar praticamente o dobro de famílias.

Mas ao invés de cobrar as dívidas desses grandes latifundiários, o governo Temer editou em 2016 a Medida Provisória nº 733, concedendo mais privilégios aos grande devedores, digo, proprietários. Essa MP permite que produtores rurais inscritos em Dívida Ativa da União e com débitos originários das operações de securitização e Programa Especial de Saneamento de Ativos liquidem o saldo devedor com bônus entre 60% a 95%. Por exemplo, dívidas acima de 1 milhão de reais devem ter descontos de 65%.

Quem são os “vagabundos” que se aproveitam do governo, mesmo?

7- Como você se sentiria se o MST invadisse a sua casa? O seu sítio? Aí eu queria ver se você continuaria apoiando esse movimento.

O MST não “invade” casas nem o sítio de ninguém. MST ocupa somente as grandes propriedades improdutivas, que podem servir pra reforma agrária. São 228 milhões de hectares abandonados ou que produzem abaixo da capacidade, segundo o Incra. Então pode dormir tranquila que o MST não está interessado em “tomar” aquele seu pedacinho de terra em Santo Antônio dos Milagres.

8- O MST, ao invadir fazendas, deixa milhares de trabalhadores desempregados.

Já expliquei que o MST não “invade” fazendas, o movimento ocupa terras improdutivas. Logo, se as terras eram improdutivas, não tinha pessoas trabalhando ali e ninguém perde seu emprego com ocupações de sem terras.

O caso do Quilombo Campo Grande, em MG, mostra que a situação é na verdade a oposta. A usina que existia ali, da Companhia Agropecuária Irmãos Azevedo, decretou falência em 1996, deixando muitos desempregados e mais de 300 milhões de reais de dívidas trabalhistas. Em 1998 criou-se o assentamento Quilombo Campo Grande nas terras abandonas. Vinte anos depois o local abriga 450 famílias. São 1.200 hectares de lavoura de milho, feijão, mandioca e abóbora, 40 hectares de horta agroecológica e 520 hectares de café (que produzem 500 toneladas de café por ano), gerando emprego e renda pra 2 mil trabalhadores, além de alimentos pras famílias. No início de novembro a existência do Quilombo Campo Grande foi ameaçada, pois apesar de ser extremamente produtivo, o Juiz Walter Zwicker Esbaille Junior mandou despejar as 450 famílias. Após 24 dias de resistência, o pedido de despejo foi suspenso, mas essa não é, infelizmente, um vitória definitiva. Por trás do pedido de reintegração de posse está o interesse dos grandes produtores de café da região, que cobiçam as terras do assentamento pra expandir seus latifúndios.

É a expansão do latifúndio que causa desemprego e expulsa as famílias do campo, não os assentamentos.

9- O que são assentamentos?

Assentamento rural é um conjunto de unidades agrícolas independentes entre si, instaladas pelo Incra onde originalmente existia um imóvel rural que pertencia a um único proprietário. Cada uma dessas unidades é entregue pelo Incra a uma família sem condições econômicas pra adquirir e manter um imóvel rural por outras vias. Os trabalhadores rurais que recebem o lote comprometem-se a morar na parcela e a explorá-la para seu sustento, utilizando exclusivamente a mão de obra familiar.

O assentamento é um espaço pro conjunto de famílias camponesas viver, trabalhar e produzir, dando uma função social à terra e garantindo um futuro melhor pra população. A vida no assentamento garante às famílias direitos sociais que não são garantidos a todo o povo brasileiro, como casa, escola e comida.

O impacto da criação de um assentamento marca a vida de um município, tanto do ponto de vista social como econômico. Em primeiro lugar, a terra ganha uma função social. Em segundo lugar, um conjunto de famílias ganha instrumentos pra sua sobrevivência. Depois de um período, as famílias constroem suas casas, às vezes também constroem escolas, e começam a produzir. A produção garante o abastecimento de alimentos aos moradores das pequenas cidades próximas aos assentamentos e gera renda às famílias assentadas.

Em cada assentamento o MST procura “desenvolver uma mentalidade e uma atitude de Soberania Alimentar, compreendendo que a nossa função social é produzir alimentos, sendo esta a nossa primeira tarefa histórica, eliminando a fome do meio das famílias camponesas”.

10- É verdade que o MST destrói propriedades e esquarteja animais nas fazendas que invadem?

Não. Acusações infundadas como essas são espalhadas com o intuito de incitar o ódio de setores conservadores da sociedade contra as formas legitimas de manifestação pelos direitos sociais garantidos pela constituição brasileira. Quem ganha se não houver reforma agrária? Os grandes latifundiários. Por isso eles se opõem à democratização da estrutura fundiária brasileira e lideram uma campanha de demonização dos movimentos sociais que lutam pelo direito à terra. E repetindo: o MST não “invade”, só ocupa grandes propriedades improdutivas.

11- Se é verdade que os sem terras são pessoas de bem lutando por justiça no campo, então por que o presidente eleito quer criminalizar o MST e disse que suas ações serão consideradas “terrorismo”?

Existe um esforço organizado pra criminalizar movimentos sociais e a luta pela terra e por Reforma Agrária no Brasil. Também vemos um esforço pra acabar com o pluralismo político, um dos pilares da democracia.

O MST é uma das principais forças políticas de combate ao agronegócio (a galera da Bancada Ruralista, lembra?), então enquadrar o MST como organização criminosa visa tornar crime toda e qualquer luta organizada dos movimentos, como o MST e o MTST. Há anos vemos uma campanha mediática tentando influenciar negativamente a opinião pública sobre o MST e movimentos sociais em geral. Por trás disso está, mais uma vez, os interesses dos latifundiários. Medidas como a tentativa de criminalização do MST é um esforço da parte do novo governo eleito pra proteger os interesses de seus aliados e conservar o apoio deles.

O MST luta desde 1984 por Reforma Agrária e transformações sociais no país. Conquistou assentamentos pra mais de 1 milhão de pessoas e ajudou a construir e/ou implementar o Programa Nacional de Habitação Rural (PNHR), o Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), o reconhecimento da profissão de agricultora, o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), entre outras políticas. Sua luta é pelo cumprimento da função social da terra, que é produzir alimentos, pela diminuição da desigualdade social e por um planeta mais sustentável, com mais oportunidades para homens e mulheres. Na sua opinião, o que isso tem a ver com terrorismo?

12- Depois de conquistar a terra, o que os sem terra fazem?

Se organizam, constroem escolas (são mais de 2 mil escolas públicas construídas em acampamentos e assentamentos) e plantam alimentos.

Uma das principais contribuições do MST pra sociedade brasileira é cumprir o compromisso de produzir alimentos saudáveis. São 100 cooperativas, 96 agroindústrias e 1,900 associações, melhorando a renda e as condições do trabalho no campo.

O MST está comprometido com a transição pra agroecologia e muitos dos assentamentos produzem unicamente alimentos sem veneno (agrotóxicos). O MST luta pra construir uma nova sociedade, com soberania alimentar e agroecologia como modelo agrícola.

As famílias assentadas e acampadas são as maiores produtoras de alimentos orgânicos do Brasil e pioneiras no cultivo de sementes de hortaliças agroecológicas. São as maiores produtoras de arroz orgânico da América Latina, segundo o Instituto Rio Grandense de Arroz (IRGA). O MST tem centenas de feiras agroecológicas e promove anualmente a Feira Nacional da Reforma Agrária, a maior em diversidade de produtos no território brasileiro. Possui centenas de cooperativas, associações e agroindústrias que produzem alimentos in natura e industrializados, muitos com certificação orgânica. Isso movimenta a economia dos municípios, gera trabalho e renda.

13- O MST doutrina crianças?

Os estudantes do MST têm acesso às mesmas grades curriculares das escolas municipais e estaduais. A diferença é que as disciplinas são trabalhadas de acordo com a realidade das acampada(o)s e assentada(o)s. O Movimento luta pelo acesso à educação pública, gratuita e de qualidade em todos os níveis pra suas crianças, jovens e adultos. Já conquistou mais de 2 mil escolas públicas e 320 cursos via Pronera em 40 instituições, onde já se formaram 165 mil educandos no ensino fundamental e médio e em cursos técnicos e de nível superior, como agronomia, agroecologia, medicina veterinária, história, direito, serviço social e cooperativismo.

14- Mas o agronegócio gera empregos e produz alimentos! Sem ele não teremos comida, já que o modelo agroecológico não é capaz de alimentar toda a população brasileira. 

De acordo com o relatório “Perspectivas da Agricultura e do Desenvolvimento Rural nas Américas 2014: uma visão para a América Latina e Caribe” publicado pela FAO, no Brasil a agricultura familiar representa 77% dos empregos do setor agrícola. Mesmo recebendo boa parte do incentivo do governo, o agronegócio gera poucos empregos (comparado à agricultura familiar) e produz principalmente as chamadas commodities voltadas pra exportação (soja, milho, laranja, eucalipto, cana-de-açúcar e carne bovina).

Quem realmente alimenta o povo brasileiro é a agricultura familiar. Dados da Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário (Sead), mostram que a agricultura familiar é responsável por 70% do alimento que chega na mesa das brasileiras e brasileiros.

A agroecologia não é somente a maneira mais ecológica de produzir alimentos, ela também pode ser a mais eficaz. Um relatório do Alto-Comissariado de Direitos Humanos da ONU publicado em 2011 confirma essa declaração. O belga Olivier de Schutter, relator especial da ONU sobre direito à alimentação afirma: “Para poder alimentar nove bilhões de pessoas em 2050, necessitamos urgentemente adotar as técnicas agrícolas mais eficientes conhecidas até hoje. Neste sentido, os estudos científicos mais recentes demonstram que ali onde reina a fome, especialmente nas zonas mais desfavorecidas, os métodos agroecológicos são muito mais eficazes para estimular a produção alimentar do que os fertilizantes químicos.”

Além de já ter sido demonstrado que o modelo baseado em grandes monoculturas, onde a utilização de agrotóxicos e fertilizantes químicos é massiva, não é o mais eficaz pra produzir alimentos, esse modelo acelera o processo de aquecimento global, destrói o meio ambiente, polui fontes de água e empobrecem o solo, o que por sua vez vai dificultar cada vez mais a produção de alimentos. É um círculo vicioso. A FAO declarou em 2016 que o solo foi tão empobrecido pela pecuária e monocultura (utilizada em grande parte pra alimentar animais de abate) que se continuarmos com o modelo atual a Terra só terá capacidade de produzir mais 60 colheitas. Se nada for mudado, em menos de 60 anos não será possível produzir alimentos e a população mundial morrerá de fome ou vítima dos conflitos violentos causados por ela. A agroecologia é capaz de recuperar o solo e é a única chance de sobrevivência pras gerações futuras.

15- Se agroecologia é tão maravilhosa, por que as grandes empresas do agronegócio não a praticam?

As empresas privadas não investirão em práticas que não podem ser protegidas com patentes e que não criam novos mercados pra novos produtos químicos ou sementes melhoradas. Simples, e revoltante, assim. O objetivo do agronegócio não é produzir alimentos saudáveis e acessíveis pro povo, é lucrar o máximo possível. E o modelo atual do agronegócio é muito lucrativo… pros ruralistas. Mas na verdade os lucros só são tão elevados porque não são os ruralistas que pagam pelos desgastes que produzem: é o meio ambiente, os povos originários, a Amazônia, nossos rios, nossa saúde…  A proposta da agroecologia é justamente sair desse modelo gigante e trazer a agricultura pra uma escala humana, onde é possível cultivar a terra sem destruir-la, onde é possível produzir alimentos saudáveis e preservar a floresta ao mesmo tempo. Não faz sentido praticar agroecologia em escala industrial . O que é ótimo, pois assim o campo não é controlado por um punhadinho de grandes latifundiários, que é o que vemos hoje. Agroecologia passa por reforma agrária e democratização do campo, tudo que o agronegócio quer impedir.

16- Agroecologia precisa de muita mão de obra no campo e isso é atraso! Você quer voltar pra Idade Média se quiser que todo mundo volte pro campo. O agro é mais moderno, é o futuro.

No modelo atual já é a agricultura familiar que produz 70% do alimento que chega na mesa do povo brasileiro, segundo dados do Governo. Pra atingir os 100% e produzir alimentos suficientes pra alimentar toda e qualquer pessoa no Brasil, você não vai precisar largar seu emprego de engenheira, design ou de professora universitária e ir pro campo virar agricultora. Tem muita gente, mais de 4 milhões de famílias sem terra, pra ser exata, que esperam atualmente ter acesso à terra pra plantar e produzir alimentos. Não vai ser preciso forçar ninguém a largar sua vida na cidade e ir morar em uma comunidade rural.

Mas algo me diz que muitas pessoas que hoje moram em grandes centros urbanos prefeririam morar no campo, se tivessem a garantia de melhores condições de vida lá. Imagino que várias pessoas aceitariam de bom grado trocar seu emprego precário, junto com as duas horas diárias espremidas nos transportes públicos pra chegar até ele, pela chance de ser agricultora em sua própria terra.

E democratizar o campo não é atraso, não é “querer voltar pra Idade Média”. Sei que nos foi ensinado que “progresso” e “sucesso” são medidos unicamente em matéria de acumulação de dinheiro (capital), sem nunca incluir a destruição do planeta, a opressão humana e o sofrimento animal na conta. Mas e se a maneira de medir o progresso fosse diferente? E se ter comida sem veneno, educação gratuita de qualidade, saúde, lazer, justiça e liberdade fosse o verdadeiro progresso? Nesse caso, um Brasil sem desigualdade, com um campo cheio de camponesas e camponeses praticando técnicas de agricultura que respeitam o humano e os não-humanos (a fauna e a flora), colocando alimentos sem veneno na mesa de todas, protegendo nossos bens comuns (as florestas, a água, o ar) e respeitando os povos originários não seria um Brasil muito mais avançado do que o que temos atualmente?

O modelo predominante hoje, as monoculturas em grandes latifúndios, gera concentração de terras nas mãos de poucos, desigualdade social, desemprego, pobreza, trabalho em condições análogas à escravidão, destruição da natureza e violência contra os povos originários e o campesinato. Só os ruralistas ganham com esse modelo, enquanto todo o resto da população paga a conta. Esse sim é o verdadeiro atraso que faz com que continuemos parados no tempo. No tempo do Brasil Colônia.

17- Como posso apoiar o MST? 

Primeiro de tudo: se eduque sobre o MST. Desconfie do que a mídia dominante publicar sobre o Movimento e se informe diretamente com quem faz parte dele. O site do MST explica toda a história do Movimento, as bandeiras levantadas (cultura e educação, combate à violência sexista, saúde pública, diversidade étnica, soberania nacional e popular, entre outras), os projetos e ainda traz reportagens e notícias relacionadas à luta por justiça no campo.

Segundo: ajude a combater o discurso de ódio e a campanha de difamação contra o MST. Converse com pessoas ao seu redor e use suas redes sociais pra divulgar notícias (verdadeiras) sobre o Movimento e compartilhar a informação com o maior número de pessoas possível. E se ouvir os mitos expostos acima serem repetidos por alguém que você conhece, use a oportunidade pra educar essa pessoa, já que agora você conhece a realidade por trás dessas mentiras.

Terceiro: procure feiras da Reforma Agrária (as feiras agroecológicas do MST) na sua região e apoie agricultores que produzem alimentos sem veneno. Leve as amigas, a família. Aproveite pra conversar com os agricultores e agricultoras e se informar diretamente com essas pessoas sobre a realidade do movimento, as dificuldades que elas enfrentam…

Quarto: veja se tem acampamentos ou assentamentos do MST na sua região ameaçados de expulsão e leve seu apoio até eles. Acompanhe as notícias nas redes sociais do MST ou pergunte diretamente às assentadas durante as feiras da Reforma Agrária. As 350 mil famílias que fazem parte do MST estão em perigo e precisam urgentemente da nossa solidariedade. E ofereça seu apoio na hora de votar! Não vote em candidatos e candidatas que demonizam a luta do MST. Vote em quem apoia a reforma agrária.

E a pergunta valendo um milhão de reais…

O que o MST tem a ver com o movimento vegano?

O MST não é um movimento que luta por direitos de animais não-humanos e nunca levantou a bandeira vegana. E apesar da maior parte da produção do MST ser vegetal, animais também são explorados pro consumo e existem cooperativas de laticínios e de carnes em alguns assentamentos. Sem contar que a prática de criar animais pra consumo próprio, como galinhas, está presente em praticamente todos os acampamentos e assentamentos. O que, nesse caso, é uma relação com o animal completamente diferente da exploração animal praticada pela agropecuária, mas que, como militante anti-especista, eu também gostaria que não mais existisse.

Mas uma coisa é certa. A agropecuária destrói nosso patrimônio ambiental, explora humanos, compromete nossa segurança alimentar e assassina não-humanos aos bilhões. O Brasil já é o segundo maior exportador de carne de vaca no mundo e a empresa mais poderosa do setor, a JBS, é a maior processadora de carne do mundo, abatendo 80 mil vacas, 110 mil porcos e 12 milhões de aves POR DIA! O único compromisso do agronegócio é com o lucro e não se responsabiliza pelo desastre ambiental que causa e que afeta absolutamente todas nós.

No modelo imposto pela agropecuária a injustiça reina e milhões de pessoas passam fome. E não podemos ignorar que a exploração animal é o pilar mais importante que sustenta a agropecuária. Não é por acaso que a Bancada Ruralista também é chamada de Bancada do Boi. Enquanto esse for o modelo dominante, não poderemos sonhar com a conquista de direitos animais, nem com um crescimento considerável do veganismo, principalmente na população mais pobre, que é a maior no nosso país.

Já o modelo de sociedade que o MST luta pra construir tem como objetivos a justiça social, a democratização das terras, a soberania alimentar, a equidade de gênero, a preservação do meio ambiente e a agroecologia. Além de produzir alimentos sem veneno, ao alcance de todas, o MST se compromete com a reflorestação de áreas destruídas pela agropecuária, garantindo a proteção de animais silvestres. A visão de mundo do MST defende a preservação do nosso patrimônio ambiental e incorpora a noção de justiça não somente pra nossa geração, mas pra todas as outras que virão.

Em qual desses dois mundos você acha que a semente do veganismo tem mais chances de brotar?

Sim, pessoas sem terra fazem churrascos em seus assentamentos, mas sabe quem também faz? Os pais, amigos e até companheiras da maioria das pessoas veganas que conheço. Enquanto o especismo for a ideologia dominante, pessoas continuarão comendo corpos de animais e achando isso “normal, natural e necessário”. O problema está nessa ideologia, não em uma suposta tendência particularmente cruel das militantes do MST. E não posso não chamar a atenção das ativistas veganas que me criticam por apoiar os “fazedores de churrasco/exploradores de animais do MST”, mas que não vêem problemas em incentivar o consumo de produtos “veganos” produzidos por grandes multinacionais como a Nestlé, que exploram animais não-humanos (e humanos) em uma escala incomparavelmente maior, afirmando que se trata de uma aliança estratégica pra “tornar o veganismo mais acessível”.

Pois a minha aliança é com quem luta pra construir o mundo onde quero viver e onde a emancipação animal tem uma chance de acontecer. Se luto do lado do Movimento é porque os inimigos do MST são os mesmos inimigos da libertação animal: o agronegócio, a pecuária, a bancada ruralista. O MST está comprometido com a construção de um mundo mais justo e, por produzir comida vegetal sem veneno, muitas vezes em lugares onde antes só tinha capim e gado, agricultoras sem terra fazem  com que comida vegetal se torne acessível pra população. E, consequentemente, excluir a exploração animal no prato passa a ser algo possível nessas comunidades. A luta do MST é por soberania alimentar e somente com soberania alimentar poderemos tornar o veganismo verdadeiramente acessível.

O MST não integrou a noção de direitos animais na sua cartilha (ainda), mas estou convencida que o mundo que o Movimento está atualmente lutando pra construir trás nele o embrião da libertação animal. E pra ilustrar esse sentimento que carrego no peito, aqui vai o refrão de uma música de Zé Pinto, um poeta sem terra, que aprendi com Joelson, da liderança do assentamento Terra Vista (assunto do próximo post), no interior da Bahia.

“E assim já ninguém chora mais

Ninguém tira o pão de ninguém

O chão onde pisava o boi, é feijão e arroz

Capim já não convém”

Por que o movimento vegano deve apoiar o MST – parte II

Depois de entender a formação do espaço agrário brasileiro e os problemas criados pelo latifúndio, nesse segundo post da série a conversa é sobre reforma agrária e a atuação do MST. Pela quantidade de comentários preconceituosos que escuto e leio por aí, a maioria das pessoas sabe pouco sobre reforma agrária e menos ainda sobre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST. Quem são? Onde vivem? O que comem? Querem invadir sua casa de praia?

Mas pra entender a luta do MST é preciso saber o que significa Reforma Agrária e é por aqui que vamos começar.

Reforma agrária

Se a desigualdade no Brasil é estrutural, então pra combate-la é preciso mexer na estrutura e a reforma agrária vem mexer na estrutura fundiária do país.

De acordo com o INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) “Reforma agrária é o conjunto de medidas para promover a melhor distribuição da terra mediante modificações no regime de posse e uso, a fim de atender aos princípios de justiça social, desenvolvimento rural sustentável e aumento de produção” (Estatuto da Terra – Lei nº 4504/64).

Por que a reforma agrária é importante? Na prática, ela proporciona:

1-Desconcentração e democratização da estrutura fundiária.

2-Produção de alimentos básicos.

3-Geração de ocupação e renda.

4-Combate à fome e à miséria.

5-Interiorização dos serviços públicos básicos.

6-Redução da migração campo-cidade.

7-Promoção da cidadania e da justiça social.

8-Diversificação do comércio e dos serviços no meio rural.

9-Democratização das estruturas de poder.

Com a reforma agrária o Incra busca a implantação de um modelo de comunidade rural (assentamento) baseado na viabilidade econômica, na sustentabilidade ambiental e no desenvolvimento territorial.

A aquisição de terras pra reforma agrária pode ser feita de diversas maneiras. A mais utilizada e conhecida é a desapropriação, seguida do processo de compra e venda. Toda aquisição começa com pesquisas cartoriais e locais feitas pelo Incra, bem como a partir de indicações, apresentadas pelos movimentos sociais, de fazendas que seriam passíveis de desapropriação.

E que terras podem ser desapropriadas? Terras que não cumprem a função social. Foi a Constituição de 1946 que primeiro trouxe o conceito de desapropriação por necessidade ou utilidade pública, mediante prévia e justa indenização em dinheiro.

A ideia de que a propriedade deveria ser usada pra promover o bem-estar social marcou o reconhecimento do princípio da função social da propriedade. Mais tarde a Lei nº 4.132/62 regulamentou as hipóteses de desapropriação por interesse social como forma de promover a justa distribuição da propriedade. O texto constitucional de 1988 positivou, por fim, a união indissociável entre propriedade e sua função social.

Perceba que o direito à propriedade privada é protegido e que no nosso país essa propriedade pode ter qualquer tamanho, milhares de hectares, inclusive. Mas é crucial entender que o direito à propriedade privada vem com o dever de usar essa propriedade pra promover o bem-estar social, mesmo esse “bem-estar social” sendo simplesmente você explorar a terra e ficar rica, sozinha, com isso. O problema, pra nossa Constituição, é quando uma pessoa possui enormes propriedades que não servem pra coisa alguma (além de esperar a especulação imobiliária aumentar o seu valor), pois ali do lado tem milhares de famílias que não só dependem da terra pra sobreviver, como fariam melhor uso dessa terra, gerando empregos e produzindo alimentos pra comunidade. Enquanto o latifúndio improdutivo só beneficia uma pessoa (o proprietário, que um dia venderá a terra pelo dobro do valor que comprou), ele causa desemprego e pobreza pra toda a comunidade. Uma pessoa ganha e milhares perdem. Ao desapropriar o latifúndio, indenizar seu proprietário (ele ganhará dinheiro com esse terra de todo jeito, meu povo!) e repartir a terra entre várias famílias, ou seja, ao promover a Reforma Agrária, todo mundo ganha.

O Incra é o órgão competente pra fiscalizar o cumprimento da função social da propriedade rural, prevista no Artigo 186 da Constituição Federal. É ele que determina se uma grande propriedade rural vistoriada pode ser usada pra reforma agrária. A pouca ou nenhuma exploração econômica do imóvel é um dos itens preconizados pela Constituição Federal como indicador de que o imóvel rural em questão não cumpre a função social e pode ser desapropriado. O imóvel cumpre a função social se for explorado adequadamente, se utiliza adequadamente os recursos naturais e preserva o meio ambiente, se observa as disposições que regulam as relações de trabalho e não utiliza mão de obra em condição análoga à escravidão e se a exploração da terra tem por objetivo o bem estar dos trabalhadores e proprietários.

É importante que esse ponto fique bem claro: o Incra só pode desapropriar GRANDES PROPRIEDADES que não cumprem a função social. Sua casa de praia fica fechada a maior parte do ano? Sua chácara no interior só é usada durante as férias? Pode relaxar que o Incra não pode desapropriar seu terreno e usa-lo pra reforma agrária. Só é considerada uma “grande propriedade” fazendas que tem mais de 15 módulos fiscais. O módulo fiscal é uma unidade de medida agrária no Brasil e seu tamanho varia muito de acordo com o município, indo de 5 ha (perto de grandes áreas urbanas) a 110 ha.

Esse é o passo-a-passo da desapropriação, de acordo com o INCRA.

1- Processo

Quando o imóvel é classificado como improdutivo, o Incra dá sequência ao processo de desapropriação, independentemente da concordância do proprietário.

2- Decreto

O passo seguinte é a publicação de um decreto presidencial (conhecido como Decreto de Desapropriação) que declara o imóvel como de interesse social para fins de reforma agrária.

3-Ação

Com o Decreto de Desapropriação publicado, o Incra ajuíza uma Ação de Desapropriação, após ter depositado em juízo o montante da indenização da terra nua e apresentar os títulos emitidos para pagamento da terra nua.

4- Indenização

O Incra não toma a terra do fazendeiro.

Na desapropriação, o Incra tem de pagar uma indenização ao proprietário em valores de mercado, aferidos pela vistoria de avaliação. A indenização pela terra nua é paga em Títulos da Dívida Agrária (TDA), títulos do Governo Federal emitidos pelo Tesouro nacional. As benfeitorias (edificações, cercas, pastos, etc) são pagas em dinheiro. Os recursos para as indenizações vêm do orçamento do Incra/MDA.

5- Imissão da posse

Assim que o Incra apresenta os títulos emitidos e faz o depósito do dinheiro em juízo, a Justiça Federal imite a autarquia (o Incra) na posse do imóvel.

Quando consegue a posse do imóvel o Incra inicia os procedimentos pra selecionar as famílias cadastradas e criar o projeto de assentamento no local.

Além das famílias assentadas, que podem agora tirar seu sustento da terra, os assentamentos trazem algum outro aspecto positivo pra sociedade? O estudo “Impactos econômicos dos assentamentos rurais no Brasil: análise das suas dimensões regionais”, publicado na revista Economia Ensaios, em 2006, analisou assentamentos em diferentes regiões do Brasil e concluiu que eles dinamizam a vida econômica nos municípios onde eles são criados. O estudo também mostra que os assentamentos trazem grande diversidade de produtos em áreas que antes praticavam a monocultura, contribuindo pra riqueza do solo e melhora na alimentação da comunidade. Por isso a reforma agrária é fundamental pra construir um outro modelo de desenvolvimento no campo, que beneficia um número muito maior de pessoas.

Além da reforma agrária, existe algo mais a ser feito pra combater a concentração de terras e a desigualdade social? Sim, limite de tamanho da propriedade da terra.

Quando percebemos que a concentração fundiária (sendo o latifúndio produtivo ou improdutivo) gera pobreza, desigualdade e violência, não seria mais justo ter uma lei que impedisse justamente a concentração de terras? Adotar um limite de propriedade buscaria concretizar um dos objetivos fundamentais do Governo, inscrito no artigo 3 da Constituição Federal que é “erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais”.

A ideia não é nova e alguns países do mundo fixaram um limite da propriedade muitas décadas atrás. O Japão fez uma reforma agrária em 1946 e isso incluiu o limite da propriedade (12 ha), o que  foi um dos fatores que contribuiu pra reconstrução e enriquecimento do país depois da segunda guerra mundial. Alguns dos países que adotaram um limite da propriedade de terra: Coreia do Sul (3 ha) e Itália (300 ha) em 1950, Indonésia em 1962 (20 ha), Síria em 1963 (300 ha), Peru em 1969 (150), Índia em 1972 (21,9 ha),  Tailândia em 1989 (8 ha).

O limite da propriedade de terra é um mecanismo de garantia da cidadania e do desenvolvimento econômico e social, pois significa disponibilizar as áreas excedentes pra reforma agrária. Além de garantir a soberania alimentar do país, já que é a agricultura familiar, e não o agro-negócio, que produz a maior parte dos alimentos consumidos no Brasil.

Em 2000 o Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo lançou uma Campanha pelo Limite da Propriedade da Terra no Brasil. Infelizmente no cenário político atual, com a bancada ruralista mais fortalecida do que nunca, adotar uma mudança jurídica dessas parece impossível. Mas conjunturas políticas mudam e nada nos impede de esperar que, num futuro com democracia popular, o limite da propriedade da terra possa ser integrado na nossa Constituição.

Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)

Agora que entendemos o que é e por que ela é essencial, vamos falar então do maior agente político de promoção da Reforma Agrária no país.

O MST é um movimento social que luta pela democratização do acesso à terra, organizado em 24 estados nas cinco regiões do país. No total, 350 mil famílias conquistaram a terra por meio da luta e da organização dos trabalhadores e trabalhadoras rurais.

A semente do MST começou a germinar no final dos anos 70, com lutas pelo direito à terra e os primeiros acampamentos, em plena ditadura militar. Em 1984 os trabalhadores rurais que protagonizavam lutas pela democratização da terra e da sociedade realizam o 1° Encontro Nacional, em Cascavel, no Paraná. Ali, decidiram fundar um movimento camponês nacional, o MST, com três objetivos principais: lutar pela terra, lutar pela reforma agrária e lutar por mudanças sociais no país.

“Não apenas nos sentimos herdeiros e continuadores das lutas anteriores, mas também somos parte das lutas que nos forjaram no nosso nascimento. Do sindicalismo combativo, da liberdade política e das Diretas-Já em 1984, quando já em nosso primeiro Congresso afirmávamos que ‘Sem Reforma Agrária não há democracia’.” (MST)

O movimento é extremamente organizado e tem uma estrutura horizontal.

“Com esta dimensão nacional, as famílias assentadas e acampadas organizam-se numa estrutura participativa e democrática para tomar as decisões no MST. Nos assentamentos e acampamentos, as famílias organizam-se em núcleos que discutem as necessidades de cada área. Destes núcleos, saem os coordenadores e coordenadoras do assentamento ou do acampamento. A mesma estrutura se repete em nível regional, estadual e nacional. Um aspecto importante é que as instâncias de decisão são orientadas para garantir a participação das mulheres, sempre com dois coordenadores, um homem e uma mulher. E nas assembléias de acampamentos e assentamentos, todos têm direito a voto: adultos, jovens, homens e mulheres. Da mesma forma nas instâncias nacionais. O maior espaço de decisões do MST são os Congressos Nacionais que ocorrem, em média, a cada 5 anos. Além do Congresso, a cada dois anos o MST realiza seu Encontro Nacional, onde são avaliadas e atualizadas as definições deliberadas no Congresso. Além desses espaços, as famílias também se organizam por setores para encaminharem tarefas específicas, que são organizados desde o nível local até nacionalmente, de acordo com a necessidade e a demanda de cada assentamento, acampamento ou estado.”

Ficou surpresa com tanta organização? E te falaram que o MST era formado por um bando de baderneiros que só sabiam tocar fogo em pneus, né?

Há 13 anos foi formado o Coletivo de Jovens do MST e em 2018 houve o primeiro Acampamento Nacional da Juventude Sem Terra, em GO, com 500 jovens sem terra de 11 estados. Poucas semanas antes tinha acontecido o primeiro Encontro Nacional das crianças Sem Terrinha, em Brasília, reunindo mil crianças de 24 estados. Sob o lema “Sem Terrinha em Movimento: Brincar, Sorrir, Lutar por Reforma Agrária Popular!”, foi um encontro de caráter político, pedagógico e lúdico- cultural.

Durante os primeiros anos de luta, a prioridade do MST era a conquista da terra. Mas logo compreenderam que se a terra representava a possibilidade de trabalhar, produzir e viver dignamente, faltava um instrumento fundamental: educação. “A continuidade da luta exigia conhecimentos tanto para lidar com assuntos práticos, como para entender a conjuntura política econômica e social. Arma de duplo alcance para os Sem Terra, a educação tornou-se prioridade do Movimento.”

Em 2017 tive a honra de visitar a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), em Guararema (SP). Ela foi construída entre 2000 e 2005 por mais de 1.000 militantes do MST, que fabricaram até os tijolos utilizados nas edificações. Foi a venda do livro e disco Terra, com fotos de Sebastião Salgado, texto de José Saramago e músicas de Chico Buarque que levantou recursos pra construção da escola.

A ENFF é voltada pra formação política de militantes de movimentos sociais do Brasil e de todo o mundo, onde o ensino é visto de uma perspectiva que engloba não só o estudo formal, mas também o trabalho, as relações humanas, a cultura e a arte.

Lá se estuda Filosofia Política, Teoria do Conhecimento, Sociologia Rural, Economia Política da Agricultura, História Social do Brasil, Conjuntura Internacional, Administração e Gestão Social, Educação do Campo, Estudos Latino-americanos.… A ENFF também oferece cursos superiores e de especialização, em convênio com mais de 35 universidades e instituições como a Unesco. Mais de 24 mil alunos passaram por lá.

Voluntários da escola me guiaram num tour pelo local e explicaram o funcionamento. Descobri que as tarefas pra manutenção do espaço são dividas entre as alunas e alunos, que cuidam da limpeza e das hortas. 42 militantes trabalhadores residem no local e cuidam da estrutura da escola, desde tarefas administrativas, pedagógicas até infraestrutura sanitária e elétrica, por exemplo. Os alimentos consumidos pelos estudantes são produzidos nas hortas da própria escola. Almocei com estudantes lá e foi uma felicidade ver que, apesar de ter animal no cardápio, o feijão, arroz e verduras eram veganos, atendendo as demandas de eventuais alunas/professoras veganas (ou a visitante de passagem, como eu).

A escola possui mais de 50% de participação feminina e a “Ciranda Infantil Saci Pererê” é um espaço com ações educativas pras crianças que liberam pais e mães pras aulas.

No dia que estive lá encontrei pessoas vindas de mais de 15 países pra fazer um curso na escola e foi um dos espaços de educação mais inspiradores que já vi. Confesso que desde então nutro o sonho de organizar um curso de veganismo como ferramenta de luta na ENFF.

Outro aspecto positivo que encheu meu coração LGBT de esperança foi descobrir que a pauta da diversidade existe e está cada vez mais forte dentro do movimento. O debate começou a permear o MST por volta de 2005 e dez anos depois, em agosto de 2015, houve o primeiro Encontro LGBT do MST (“O MST e a Diversidade Sexual”) na ENFF.

Para Kelli Mafort, da coordenação nacional do MST, o seminário representa um marco histórico nos 30 anos de organização do Movimento Sem Terra.  “Esse encontro visibiliza o LGBT, sujeito da luta no campo. Esse é um passo fundamental no sentido de reconhecer que na nossa base social, na nossa militância e na direção política do Movimento eles estão presentes. E mais do que isso, demonstra uma postura concreta de luta contra a face conservadora que fortalece o racismo, a homofobia, o machismo e todo o tipo de preconceito. Por isso, esse  é um marco histórico dentro do MST, é uma marcha que avança e que não pode retroceder”.

Passo a palavra pra um participante do encontro.

“Meu nome é Eduardo, sou membro da coordenação nacional do MST no Ceará, atuo no setor de formação, sou assentado da Reforma Agrária, sou gay e militante da diversidade sexual. Fui assentado juntamente com o meu companheiro, somos o primeiro casal LGBT do Ceará a ser reconhecido legalmente no Incra. Anteriormente os LGBTs só podiam se cadastrar como solteiros. A partir de 2014, baseados na alteração da portaria n° 35 do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), tivemos a possibilidade de nos cadastrar e, posteriormente, ser assentados como um casal. Dentro do MST o debate da diversidade sexual está atrelado ao enfrentamento do capital e a luta de classes. Com esse seminário estamos trazendo o debate para o seio das opressões, compreendendo que o sujeito camponês, trabalhador tem especificidades. No Movimento Sem Terra, assim como em outros movimentos sociais do campo, existe um estranhamento em torno desse debate. O MST por natureza não é homofóbico, até porque essa seria uma contradição dentro de uma organização que tem entre um dos seus principais pilares a construção de uma sociedade justa e igualitária baseada no socialismo. Porém, essa premissa não isenta a organização de lidar com algumas práticas homofóbicas. Existe um grande mito que diz que a base camponesa não está preparada para o debate entorno das questões LGBTs. Essa é uma grande falácia utilizada por algumas pessoas para barrar o debate. São opiniões pautadas em uma postura ortodoxa da esquerda, um marxismo engessado, que reforçou até meados dos anos 80 a ideia de que a diversidade sexual era a expressão de um desvio burguês, ou seja, um grande equívoco. O MST não pode e não vai mais se isentar desse debate, caso contrário, ficaremos isolados na história. Esse é um Movimento construído por homens, mulheres e LGBTs. E ao mesmo tempo em que agitamos a lona preta, empreendendo a luta pela Reforma Agrária Popular e contra o agronegócio, temos que começar a agitar a bandeira colorida, na perspectiva de pensar o campo como um território de diversidade e, por ser um território de diversidade, consequentemente, é também um campo que também tem que lidar com a homofobia, lesbofobia e a transfobia, males que, assim como o machismo, precisam ser combatidos e vencidos.”

Historicamente o MST tem se mostrado disposto a evoluir e a incorporar pautas de minorias sociais na seu discurso. E é exatamente isso e o compromisso do MST com a agroecologia, diretamente ligado à busca por soberania alimentar, que me fazem acreditar na possibilidade de uma aliança entre o movimento vegano e o MST. Mas pra esse artigo não ficar ainda mais longo do que já está, vou tratar desse assunto no próximo post.

Minha esperança é que depois de ter lido até aqui os mitos cheios de ignorância sobre o MST tenham se dissipado da sua mente. Mas se o papel do MST não ficou totalmente claro pra você, não perca o próximo post, onde tentarei responder as perguntas feitas com mais frequência sobre a luta no campo e a atuação do Movimento. E explicarei, claro, o que tudo isso tem a ver com veganismo.

Por que o movimento vegano deve apoiar o MST – parte I

Faz 11 anos que me comprometi com a luta por libertação animal e foi mais ou menos na mesma época que a militância por direitos humanos entrou na minha vida. Esse compromisso se manifesta de várias maneiras, tanto na esfera digital quanto no mundo real.

2018 foi o ano em que meu ativismo tomou um rumo diferente. Primeiro senti necessidade de sair do mundo virtual por um tempo e conversar com pessoas no mundo real. A motivação principal foi perceber a que ponto o movimento vegano, pelo menos nos espaços virtuais, tinha se tornado algo que não me contemplava e que me parecia desconectado da luta por libertação animal. Pretendo escrever mais sobre isso no futuro, mas por hoje digo apenas que a abordagem liberal do veganismo, o que facilitou a sua cooptação pelo capitalismo, suprime todo potencial revolucionário desse movimento e foi isso que me levou a fazer uma turnê política pelo Brasil. Eu queria encontrar veganas de diferentes regiões e ver se o veganismo “estilo de vida”, vivido de maneira individualista e focado no consumo, era tão popular quanto parecia, visto pelo prisma das figuras veganas de destaque da atualidade.

Então em agosto caí na estrada e passei por 12 cidades diferentes, dando palestras e participando de rodas de debate com veganas, de Fortaleza à Joinville. Felizmente a resposta à pergunta que fiz no parágrafo acima é “não”. O veganismo continua sendo, pra muita gente, um posicionamento político e é exatamente sobre isso vou escrever no post que prometi publicar mais pra frente.

Mas enquanto esse post não chega, vim aqui falar de um assunto de extrema importância que fez parte das discussões por todas as cidades por onde passei durante a turnê pelo Brasil. Sempre que falo do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no meu trabalho, seja nas palestras ou no Instagram, chove perguntas. Infelizmente também chove comentários cheios de ignorância e ódio, de gente que só ouviu falar do MST na mídia e que reproduz, sem procurar se informar, a campanha de demonização contra as pessoas que lutam por reforma agrária popular.

Como o assunto é extenso e cada detalhe é importante, vou criar uma série com 4 posts pra ficar mais digesto e você conseguir assimilar melhor as informações compartilhadas aqui. Pra entender onde estamos, é preciso saber de onde viemos, então esse primeiro post explica a criação do espaço agrário brasileiro, o que são latifúndios e por que eles representam uma ameaça à nossa soberania alimentar, ao meio ambiente e à justiça social.

O segundo post tratará de Reforma Agrária e explicará o que é o MST e pelo que essas pessoas lutam. No terceiro post responderei às dúvidas mais frequentes, as que recebo sempre, sobre o MST (“É vagabundo?” “Rouba terra?” “Merece bala?” etc) e como podemos apoiar esse movimento. Também é nesse post que você encontrará a resposta pra pergunta que provavelmente apareceu na sua cabeça assim que você leu o título desse post: “E o que o MST tem a ver com veganismo e direitos animais?” Muito mais do que você imagina, cara leitora.

O quarto e último post será sobre um assentamento no sul da Bahia, uma das paradas na minha turnê pelo Brasil desse ano, que conseguiu, em 20 anos, reflorestar uma área que tinha sido devastada pela pecuária e pela monocultura usando a agrofloresta. Vou falar sobre como é a vida num assentamento e dar a palavra às assentadas, porque precisamos ouvir a voz dessas pessoas. Principalmente nesse momento onde a vida das 350 mil famílias que fazem parte do MST estão em perigo, pois o governo recém-eleito quer criminalizar os movimentos sociais e declara que lutar pra que a lei seja cumprida (sim, reforma agrária está na nossa constituição) é terrorismo. Nesse post falarei sobre a aula de agroecologia que tive nesse assentamento e de como essa prática tem o potencial de nos salvar da catástrofe ambiental que já começou a bater na nossa porta.

Nesse último post também falarei sobre como o MST entrou na minha vida quando eu ainda era criança.

Vai ser uma jornada transformadora e no final da série espero ter feito você enxergar muita coisa com um olhar novo e mais inclusivo. Sim, porque no final das contas essa é a questão, como Paulo Freire explicou quando disse “Não existe imparcialidade. Todos são orientados por uma base ideológica. A questão é: sua base ideológica é inclusiva ou excludente?”

Então segura na minha mão e vamos começar o aprendizado com uma base ideológica verdadeiramente inclusiva.

Entendendo o espaço agrário brasileiro

Pra entender a estrutura fundiária (fundiária = que diz respeito à terra) no Brasil precisamos voltar ao início da invasão portuguesa e falar das capitanias hereditárias. A formação do espaço agrário brasileiro pelos colonizadores foi baseada no roubo e concentração de terras. Além da espoliação das terras dos povos originários, a produção colonial só foi possível com o roubo da liberdade e da dignidade dos africanos, trazidos como escravos.

Em 1822, com a independência do país, a troca de donos das terras se deu sob a lei do mais forte, em meio a grande violência, não entre camponeses, pois na época quase todo trabalho no campo era feito por pessoas escravizadas, mas entre proprietários e grileiros apoiados por bandos armados. Em 1850 entrou em vigor a Lei das Terras. A partir dali a terra seria adquirida através da compra. Essa lei consolidou a concentração fundiária e fez com que a população escravizada continuasse excluída, mesmo depois da abolição da escravidão (1888), pois ex-escravizados não tinham recursos financeiros pra adquirir terras.

A instauração da República, em 1889, não democratizou a distribuição de terras. O poder político continuou nas mãos dos latifundiários, os coronéis. Apenas no final dos anos 50 e início dos anos 60, com a industrialização do país, a questão fundiária começou a ser debatida pela sociedade.

Em 1962, durante o governo de João Goulart, foi criada a Superintendência de Reforma Agrária (SUPRA). Em 1970, em plena ditadura militar, foi criado o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), substituindo a SUPRA. Na época, mais do que reforma agrária, o governo incentivava a colonização da Amazônia. A redemocratização, em 1984, trouxe de volta o tema da reforma agrária, mas a falta de apoio político e a pobreza orçamentária mantiveram a reforma agrária quase paralisada.

A invasão e ocupação histórica do nosso território facilitou, desde o início, a concentração fundiária e o Brasil é hoje um dos países com maior concentração de terras no mundo.

O problema do latifúndio

Latifúndio é uma propriedade rural de grande extensão, onde frequentemente as terras não são cultivadas. Segundo o Censo Agropecuário de 2006, realizado pelo IBGE, grandes propriedades rurais, com mais de mil hectares, eram menos de 1%, mas ocupavam 45% da área rural. Enquanto isso, pequenas propriedades de menos de 10 hectares representavam mais de 49% do total de propriedades do país, mas ocupavam apenas 2,3% da área rural total. Ou seja, quase 50% das terras agrárias brasileiras estão nas mãos de menos de 1% dos proprietários.

Existem latifúndios por todo o país, mas o Mato Grosso é de longe o estado que mais tem propriedades acima de 10 mil hectares, com 868 fazendas. Em segundo lugar vem o Mato Grosso do Sul, com 341 grandes latifúndios, seguido do Pará, com 188 latifúndios. No entanto, o Pará registra os maiores latifúndios do país, com uma média de tamanho de 300 km² por latifúndio (o equivalente a 42 mil campos de futebol). Esses dados foram publicados pelo último Censo Agropecuário, feito pelo IBGE em 2017.

Muitos dos grandes latifundiários, hoje chamados de ruralistas, também são grandes devedores à União. Dados da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional mostram que 4.013 pessoas físicas e jurídicas detentoras de terra devem, juntas, 906 bilhões de reais à União. Sim, você leu certo: 906 BILHÕES de reais.

De um lado temos os grandes latifundiários, muitos dos quais devedores de bilhões, controlando a maior parte das terras agrárias. Do outro lado estão mais de quatro milhões de famílias sem terra que buscam a terra pra poder viver com dignidade.

Em 2010 as terras improdutivas representavam 40% das grandes propriedades rurais brasileiras, de acordo com dados do Incra. Isso corresponde a 228 milhões de hectares abandonados ou que produzem abaixo da capacidade. Já a Comissão Pastoral da Terra (CPT) – entidade ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) – considera que 62,4% da área do total dos imóveis rurais no país é improdutiva. Terra tem importância por seu valor de mercado, então deixa-la parada e esperar a especulação imobiliária aumentar o valor do hectare pode ser tão lucrativo quanto produzir.

Os latifúndios produtivos praticam a monocultura, o que provoca inúmeros problemas graves. A monocultura fragiliza a biodiversidade, homogeneizando o ecossistema e aumentando o risco de pragas, o que leva a um uso maior de agrotóxicos. A monocultura também afeta o valor do alimento no mercado, colocando em risco a segurança alimentar, já que produz voltada pra exportação, estimulando produções que nem sequer são destinadas a alimentação humana. Além de privar camponeses do acesso à terra, esse sistema aumenta o êxodo rural, pois na monocultura há uma redução do uso da mão de obra, responsável pelo inchaço demográfico das grandes cidades e do aumento da violência como um todo. Os empregos gerados no latifúndio representam uma parte pequena dos trabalhos no campo, além de serem frequentemente precários. Não é raro ver condições de trabalho análogas à escravidão nas grandes monoculturas e na pecuária.

Latifúndio gera pobreza. O relatório “Terrenos da desigualdade: terra, agricultura e desigualdades no Brasil rural”, publicado pela OXAM, em novembro de 2016, explica que  em termos de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), os melhores indicadores se encontram nos municípios com menor concentração de terra e os piores nos municípios com maior concentração. Correntina, na Bahia, é um exemplo disso: o latifúndio ocupa 75,35% da área total da propriedade agropecuária e a pobreza atinge 45% da população rural e 31,8% da população geral. O IDH é de 0,603, bem inferior à média brasileira.

E apesar da ruralista Kátia Abreu ter afirmado em 2015, quando assumiu o Ministério da Agricultura, que “latifúndio não existe mais”, ele não só existe como continua crescendo. Os dados do último Censo Agropecuário mostram um aumento da concentração de terras. Entre 2006 e 2017 houve um aumento no número de estabelecimentos com 1.000 hectares ou mais, passando de 45% para 47,5% a participação na área total. Nos últimos 30 anos a área das propriedades com mais de 100 mil hectares cresceu 372%, de acordo com o Relatório DataLuta Brasil do Núcleo de Estudos, Pesquisas e Projetos de Reforma Agrária (NERA) da Unesp.

A expansão não se dá somente pela compra de terras, mas principalmente pela ocupação de áreas indígenas, zonas sob proteção ambiental ou por meio da grilagem de terras que pertencem à União.

Grilagem de terras é uma prática comum no interior do Brasil, principalmente na região Norte e Centro-Oeste. Grileiro é um proprietário privado que se apossa de terras públicas e/ou de terceiros. Pra isso cria títulos de posse falsos, colocados em uma gaveta com grilos (daí o nome), que vão desgastar o papel com seus detritos, dando aos mesmos um aspecto antigo. É comum a grilagem de terras estar associada a outros crimes. Jagunços e pistoleiros são contratados pra expulsar antigos proprietários, camponeses e indígenas que vivem ali e não é raro as terras griladas serem usadas pra extrativismo ilegal e práticas criminosas. Os grileiros são hoje uma das maiores ameaças aos pequenos produtores, trabalhadores sem terra e indígenas no Brasil.

Um exemplo da violência causada pelos grileiros pode ser visto na comunidade camponesa Tauá, localizada no município de Barra do Ouro (TO). As famílias vivem em situação de conflito violento há vários anos. Várias vezes as casas e roças das famílias camponesas foram destruídas por pistoleiros supostamente a mando do grileiro catarinense Emílio Binotto e seu filho, Edilson Binotto, empresários cuja família tenta expulsar há mais de uma década trabalhadores e trabalhadoras da comunidade tradicional. Não havia nenhuma ordem judicial que permitisse a destruição de barracos ou despejo de qualquer morador da comunidade. Muito pelo contrário: a criação de dois assentamentos foi publicada em portaria oficial do Incra no início de 2018 e outras 10 áreas estão passando por processos administrativos dentro do Incra pra também serem criados assentamentos que atenderão às demandas das famílias camponesas. A terra de Tauá tem sido o alvo constante de desmatamento do Cerrado realizado por Binotto, o qual grilou essa área pra plantar soja, milho e criar gado. A área total desmatada desde a chegada de Binotto pode atingir 11 mil hectares. Acompanhadas pela CPT de Araguaína (TO), cerca de 20 famílias tradicionais (que vivem há mais de 50 anos nessa terra) e outras 66 famílias que passaram a ocupar as terras na última década estão ficando ilhadas diante da força brutal do desmatamento e da violência exercida pelos funcionários de Binotto. Rios, córregos e nascentes estão desaparecendo devido ao assoreamento ocasionado pela devastação da natureza. Em muitos casos, o abate de árvores beira as casas das famílias, deixando o local impróprio pra desenvolver qualquer tipo de agricultura familiar. “Essa prática serve também como forma de pressionar as famílias para que elas saiam dali, pois nota-se que o grileiro desmatou, mas não plantou nada. Mas o pior vem depois, quando a soja ou o milho são plantados nos arredores e são despejados os diversos tipos de agrotóxicos”, aponta o agente e coordenador da CPT, Pedro Ribeiro.

Infelizmente essa situação pode piorar muito. Em 2017 Temer sancionou a Medida Provisória 759, que prevê a regularização fundiária de áreas urbanas e rurais e também altera a legislação da reforma agrária. Conhecida como “MP da grilagem”, por permitir a legalização massiva de áreas públicas invadidas (áreas griladas), ela agravará a concentração fundiária, assim como o desmatamento e conflitos de terra.

A expansão do agronegócio, um novo nome pro velho latifúndio, está diretamente ligada ao alto índice de violência no campo. O Brasil é o país que mais mata defensores da terra e do meio ambiente, de acordo com a ONG Global Witness e a CPT. Só em 2017 foram 57 assassinatos, fazendo do Brasil o país mais perigoso no mundo pra lideranças indígenas, camponesas e comunidades tradicionais. E como a maior parte dos conflitos acontece em lugares de difícil acesso, o número real de mortes pode ser muito mais elevado. O agronegócio se tornou o setor mais perigoso pra quem defende o meio ambiente.

Gerson Teixeira, presidente da Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA), explica que grandes proprietários procuram áreas em processo de demarcação indígena e destinadas à reforma agrária pra conseguir preços mais baixos. “Hoje, os empresários e o agronegócio vão em busca de terras públicas ou baratas, criando uma nova fronteira agrícola nas regiões Norte e Centro-Oeste do País”, afirma. “É justamente onde se encontram comunidades tradicionais, como índios ou posseiros que aguardam a reforma agrária, e é por isso que vemos muitos conflitos agrários nestas regiões”

A PEC 215, que transfere a responsabilidade pela demarcação das terras indígenas da União pro Congresso, ameaça ainda mais a existência dos povos indígenas e a preservação da floresta. Kátia Abreu defendeu a PEC 215, proposta em discussão no Congresso, alegando que a emenda constitucional é necessária pois “as populações indígenas saíram da floresta e passaram a descer nas áreas de produção”.

O Conselho Missionário Indigenista (Cimi), no entanto, tem uma opinião bem diferente. As comunidades indígenas não estão saindo das florestas, é o agronegócio  que está invadindo tudo. “São os agentes do latifúndio, do ruralismo, do agronegócio que invadem e derrubam as florestas, expulsam e assassinam as populações que nela vivem”, afirmou a entidade em carta aberta.

O relatório da Oxam conclui que “a concentração da terra está ligada ao êxodo rural, à captura de recursos naturais e bens comuns, à degradação do meio ambiente e à formação de uma poderosa elite associada a um modelo agrícola baseado no latifúndio de monocultivo, voltado à produção de commodities para exportação e não para a produção de alimentos. É preciso reconhecer que a desigualdade é um grave e urgente problema no Brasil e que sua solução passa por transformações em suas causas estruturais.”

Apesar do cenário desesperador, existe uma maneira de lutar contra a concentração de terras, a destruição do meio ambiente, a violência, o desemprego e a desigualdade social e é sobre isso que falarei no próximo post.

“Comer carne tem um preço: alguém vai pagar com a vida pelo prazer que eu vou sentir” – entrevista com Sahar Vardi

Ela apareceu aqui no blog muitas luas atrás, em um dos meus posts preferidos de todos os tempos, que eu acho que todos deveriam ler. Mas Sahar é uma das pessoas mais interessantes que eu tive a sorte de conhecer e eu poderia entrevistá-la todo mês e ela sempre teria coisas inspiradoras e corajosas pra contar. E como ela é vegana há anos, ela tinha que aparecer na série “Porque me tornei vegano/a”.

Eu já escutei tantas pessoas dizerem “Eu nunca poderia ser vegetariano/vegano porque ADORO carne”, como se a razão que nos leva a seguir esse caminho fosse um suposto despreço pelo sabor de carnes. Por isso eu acho que a história de Sahar com o veganismo é particularmente interessante. Ela conta que carne sempre foi sua comida preferida, mas que o imenso prazer gustativo que ela sentia ao comer animais não a impediu de enxergar as razões morais por trás do veganismo e adotar uma dieta que respeitasse seus valores mais profundos. Eu sei que isso pode surpreender alguns onívoros que se declaram (uns com orgulho, outros com desconforto) adoradores de carne, mas pra veganos preferência gastronômica não é um argumento moral.

Quando e por que você se tornou vegana?

Aos 13 anos eu entrei em um grupo político de jovens e nesse meio tinha muitos veganos e vegetarianos. Ser carnívoro então se tornou um ato ideológico e eu comecei a dar desculpas pra justificar minha paixão por carne. Mas os argumentos que eu usava (“É assim que as coisas são na natureza”, “Nós estamos no topo da cadeia alimentar” etc) começaram a soar fracos e não convenciam nem mais a mim mesma. Então me tornar vegetariana me pareceu lógico, era uma continuidade ao ato político no qual eu tinha me engajado. Se eu não quero machucar outros seres, então não quero machucar nem seres humanos nem animais em geral. Eu escolhi minha luta e pra mim ser ativista pelos direitos dos palestinos é mais importante, mas isso não me dá o direito de continuar ferindo animais, de continuar participando desse sistema. Então me tornei vegetariana no meu aniversário de 14 anos. Cortar a carne foi muito difícil, pois era algo que eu sempre adorei. Eu sabia que depois desse primeiro passo me tornar vegana seria muito mais fácil. Decidi fazer uma aposta com amiga: eu tentaria ser vegana e ela tentaria parar de fumar.

Você se tornou vegana no início da adolescência e muitos jovens que escolheram o mesmo caminho tiveram dificuldades pra fazer a família aceitar suas escolhas. Como foi a reação dos seus pais?

A esposa do meu pai não come carne (mas come peixe), então aceitar a minha escolha não foi difícil pra ele. A única preocupação dele era com a minha saúde, então prometi fazer exames de sangue de 6 em 6 meses até os 18 anos pra ter certeza que estava tudo bem. Eu prometi que se descobrisse que estava com algum tipo de deficiência eu cuidaria da saúde, tomando suplementos ou voltando a comer carne. Acabei desenvolvendo carência de ferro no início e tomei suplementos.

Qual foi a maior dificuldade que você enfrentou durante a transição?

Parar de comer carne. Definitivamente essa foi a parte mais difícil.

E quais são os aspectos mais difíceis do veganismo pra você hoje?

Não me incomodo com os comentários que as pessoas fazem sobre o meu veganismo. E faço sempre questão de deixar as pessoas à vontade com esse aspecto da minha vida. Antes eu achava que pra comer fora de casa eu tinha que procurar restaurantes especiais, que oferecessem comida vegana, mas agora sei que em qualquer lugar eu vou achar o que comer, nem que seja uma salada. Então comer em restaurantes com onívoros não é um problema. Isso é importante pra mim pois não quero ser um peso pras outras pessoas nessas situações.

Então o mais difícil pra mim é resistir a tentação, saber que posso entrar em um restaurante e pedir carne. Acabei me acostumando, mas ainda é algo difícil. Sempre me pergunto por que não estou comendo carne. E a resposta é: porque é imoral, porque um animal seria assassinado pro meu prazer. Eu sei que comer carne vai me dar prazer, mas isso não justifica o ato. Comer um bife não seria o fim do mundo pra mim. Eu ia me sentira mal depois, mas ia acabar superando. A razão que me faz não ceder à tentação é que tenho medo de provar esse sabor novamente e não conseguir mais parar. Comer carne tem um preço: alguém vai pagar com a vida pelo prazer que eu vou sentir. E eu não tenho direito de tirar a vida de um ser.

Quais são as pessoas ou organizações que te inspiraram e continuam te inspirando no terreno do veganismo ?

Meus amigos, meus colegas de escola e minha família eram todos onívoros, mas algumas pessoas da esquerda radical me inspiraram. Esses ativistas, que lutavam por direitos animais, contra a ocupação israelense na Palestina, por direitos LGBT, consideravam importante viver de acordo com suas convicções. Eles tinham feito a conexão entre todas essas lutas e decidiram agir. Foi isso que realmente me inspirou.

(O grupo ao qual Sahar se refere se chamava Maavak Ehad, que significa “Uma só luta” em Hebraico. Era um grupo de ativistas israelenses da esquerda radical anarquista que lutava por direitos animais e ressaltava a conexão entre os diferentes tipos de luta: feminismo, anti-chauvinismo, contra a ocupação militar israelense na Palestina, por justiça, liberdade, igualdade… O grupo acreditava que toda opressão é enraizada na mesma base ideológica e que o estado, governo e sistema militar existem não pra nos proteger ou nos servir, mas pra preservar a ordem social que permite aos que estão no poder de continuar nos utilizando.)

Depois de ter se tornado vegana, teve algum momento em que você duvidou que esse era o caminho certo pra você?

A produção de carne em Israel é terrível e a produção de laticínios é ainda pior. As vacas são manipuladas pra produzir quantidades absurdas de leite. Não existe uma indústria de carne/laticínios gentil. As etiquetas ‘orgânico’ ou ‘criado em liberdade’ não mudam isso. Aliás muitos dos produtos de origem animais que são ‘orgânicos’ e ‘criados em liberdade’ são produzidos nas colônias ilegais dentro Palestina e na parte do Golan ocupada por Israel.  Eu tenho amigos que têm frangos e consumem seus ovos, mas leite e ovos não me interessam de todo jeito. Honestamente o que sempre me interessou foi carne e não existe carne sem assassinato. Eu sou uma pessoa muito dogmática.

Então você não acredita que seja possível ter uma ‘carne feliz’ ou ‘produzida humanamente’?

Nos dois casos você vai matar o animal do mesmo jeito. Os animais são tratados como uma mercadoria, algo que vai te dar dinheiro ou prazer. Eu não vejo animais como instrumentos que estão ali pra servir os meus interesses pessoais.

Que conselhos você daria pras pessoas que gostariam de se tornar veganas, principalmente pros adolescentes lendo esse blog?

Pros jovens: tentem convencer os adultos a te darem a permissão pra se tornarem veganos mostrando que seu interesse e compromisso com o veganismo é sério. Aprendam a cozinhar, procurem receitas na internet (como nesse blog que você está lendo agora), façam esforços concretos pra que essa opção se torne possível. No meu caso também tive que fazer exames de sangue regularmente pra tranquilizar o meu pai.

É importante aumentar a variedade de alimentos que você consume. Eu tirei alguns alimentos da dieta, então precisei acrescentar outros.  Quando me tornei vegana meu pai não sabia o que cozinhar pra mim, então comecei a cozinhar. Na época eu praticamente só cozinhava tofu. Mais tarde comecei a preparar novos alimentos e me tornar vegana fez com que eu aprendesse a gostar de muitas coisas: abacate, berinjela, tahina, lentilha, falafel. Ainda penso em todo o abacate que deixei de comer, grande erro!  Graças ao veganismo comecei a cozinhar e descobri que é muito divertido. Eu recomendo demais.

Como já falei, pra mim é importante deixar os amigos à vontade quando saímos pra comer juntos, explicando que não precisamos ir a um restaurante especial, que estarei ok em qualquer lugar, que não me importo se eles comerem carne na minha frente. Muitos veganos não concordam com isso e eu respeito, mas pra mim não ser um peso pros outros é mais importante. De todo jeito tem sempre gente comendo carne ao meu redor, que seja na rua ou na minha família.

Eu acredito que devemos tranquilizar as pessoas, deixando claro pros seus pais que não está faltando nada na sua alimentação, que você não está colocando a saúde em risco, que está acrescentando novos alimentos na dieta, participando da preparação das refeições… Tente se cercar de pessoas que te apoiam, virtualmente ou pessoalmente. É muito útil encontrar pessoas que te apoiam.

Como você fala de veganismo com os onívoros com quem convive?

Entre os 15 e 17 anos eu participei ativamente do movimento de defesa dos direitos animais. Eu participava de protestos, panfletava toda semana, tentava convencer as pessoas ao meu redor… Eu não escondo meu veganismo, mas hoje quando onívoros tentam me convencer das suas razões pra comer animais (na verdade eles estão tentando convencer eles mesmos) eu dou respostas frias porque sei que não vou fazer eles mudarem de ideia. No momento eu me interesso mais pelo ativismo que oferece alternativas. Alguns anos atrás trabalhei como voluntária num espaço ativista que tinha uma cozinha vegana. Na época era o único lugar vegano em Jerusalém. Acho importante criar um lugar pra comunidade da esquerda radical, LGBT e feminista e oferecer alternativas. Me sinto mais a vontade com esse tipo de ativismo.

O veganismo em Israel cresceu absurdamente nos últimos anos e em nenhum lugar que visitei encontrei tantos veganos e tantas opções vegetais nos restaurantes. Como você explica esse fenômeno?

Pra comunidade ativista radical em Israel é muito importante fazer a conexão entre as diferentes lutas. Talvez justamente porque a comunidade ativista é muito pequena lá as ideias se espalharam rápido. Tem as colônias de férias alternativas pros jovens de 14 à 20 anos (uma semana durante o verão, todos os anos), os objetores de consciência (que se recusam a servir o exército), os ativista contra a  ocupação, os ativistas pelos direitos LGBT… A maioria dessas pessoas são veganas e nos espaços alternativos a comida é sempre vegana.  Então mesmo os onívoros têm que comer comida vegana nesses lugares. Nós realizamos workshops sobre feminismo, identidade de gênero, liberação animal e contra a ocupação que oferecem informação, mas também formas de resistência. Eu cresci nesse meio, frequentando esses lugares, então o veganismo acabou se tornando algo natural. Nos centros e lugares onde os ativistas se encontram tentamos criar um espaço que seja o mais seguro possível pra todos. E isso significa não machucar ninguém, o que inclui não machucar animais.

(Isso é algo que sempre admirei nos ativistas israelenses. No Brasil e nos países europeus onde morei os ativistas pelos direitos humanos geralmente não veem a conexão entre as lutas, são completamente cegos pra opressão e injustiça por trás da indústria da carne.)

Então o veganismo se tornou popular primeiro dentro da comunidade radical e aos poucos foi se espalhando pelo resto da sociedade. E uns anos atrás um vídeo de Gary Yourofsky se tornou incrivelmente popular entre israelenses e acabou convencendo muita gente, que não fazia parte da comunidade ativista, a adotar o veganismo.

Falando em Gary Yourofsky (ativista americano pelos direitos animais), em uma entrevista concedida à televisão israelense em 2013, ele declarou que a razão da popularidade do veganismo em Israel é porque “povos que foram oprimidos, como os judeus (…), respondem melhor a esse tipo de revolução pois eles entendem o que é opressão.” E qual não foi a minha surpresa ao ouvir a mesma frase da boca de veganos de outros países! O que você, que é israelense e judia, tem a dizer sobre isso?

Que se a ocupação israelense na Palestina nos ensinou alguma coisa foi que o fato de ter sido oprimido no passado não impede um povo de oprimir outro povo.

À medida que o veganismo cresce em Israel a gente vê uma utilização cada vez maior desse movimento pra conquistar a simpatia dos veganos mundo afora e encobrir as violações dos direitos humanos cometidas pelo governo. Depois do ‘pink washing‘ (a utilização dos direitos LGBT pelo governo israelense pra desviar a atenção dos crimes cometidos contra os palestinos e normalizar a ocupação, colonialismo e apartheid), a nova estratégia de marketing de Israel é o ‘vegan washing’. O que você tem a dizer sobre isso?

Existe essa tendência em Israel e em outros lugares onde têm movimentos de justiça social (direitos LGBT, direitos animais etc.)… Quando Israel se mostra progressivo em alguns desses campos isso é usado como uma maneira de legitimar a ocupação. O fato de que nós somos morais em uma coisa não significa que nós temos uma justificativa pra sermos imorais em outras coisas. “Se nós somos bons pros animais, obviamente nós somos bons pros palestinos e é impossível que a ocupação seja algo errado.” E Israel usa isso com bastante frequência agora que o veganismo está se tornando muito popular no país. Direitos animais aqui se tornou algo importante, o que é uma grande conquista pra um movimento que trabalha há muitos anos pra que isso aconteça e é importante reconhecer essa conquista. Mas tem pessoas, principalmente pessoas no governo, que estão usando isso ao seu favor. Tel Aviv foi eleita a cidade mais ‘vegan friendly’ do mundo e algumas pessoas estão usando isso pra dizer: “Vejam o quão liberal e democrático é esse país e fechem os olhos pras coisas menos liberais e democráticas que esse país faz, como a ocupação.” Então é um discurso problemático. De um lado nós precisamos ter muito cuidado pra não destruir os esforços do movimento vegano e de direitos animais em Israel. Eles são realmente impressionantes e é muito bacana ver o que aconteceu por aqui nos últimos anos. Mas por outro lado dizer que isso é algo bom e positivo e que deve continuar não pode encobrir o fato de que a ocupação ainda exite e é algo ruim e negativo.

Num dia normal, o que aparece no seu prato?

Eu não tomo café da manhã. Geralmente almoço restos do dia anterior. Ou então como hummus e falafel ou comida etíope. Pro jantar eu gosto de preparar receitas rápidas porque nunca lembro de deixar ingredientes de molho no dia anterior. Macarrão com abobrinha, stir fry com os vegetais que eu encontrar na geladeira, tofu e arroz. Gosto muito de rechear legumes. Outro dia eu recheei um jerimum pequeno com triguilho, folhas do jardim e tomates secos. Também cozinho muita lentilha. E todas as refeições que preparo têm que ter uma salada crua.

Você está no corredor da morte e tem direito a pedir qualquer coisa, vegana ou não, pra sua última refeição. O que você pediria?

Abacate com cogumelos refogados, costelas, ervilha torta e os seus aspargos grelhados. E de sobremesa um cheesecake de frutas vermelhas.

Pode dividir a receita do abacate com cogumelos com os meus leitores?

Claro. Pique os cogumelos que você mais gostar (eu uso portobello e champignons) e refogue em um pouco de azeite. Tempere com tomilho fresco ou seco, sal e pimenta do reino. Corte um abacate ao meio e retire caroço. Faça cortes na polpa (criando um jogo da velha na diagonal), mas sem cortar a casca. Tempere o abacate com limão, sal e pimenta do reino. Recheie cada metade com os cogumelos quentes (preenchendo a cavidade antes ocupada pelo caroço e cobrindo toda a polpa) e sirva com uma colher. A colher é importante!

Ano passado os participantes do tour Papacapim na Palestina tiveram a sorte de conversar com Sahar. Ela fez uma palestra ultra VIP sobre a militarização da sociedade israelense e ainda preparou um almoço vegano delicioso pra nós  (a moça cozinha muito bem). Espero que os grupos desse ano tenham a mesma oportunidade.  (Anúncio: Ainda tem vaga nos tours desse ano! Interessados, por favor escrevam pra papacapimveg@gmail.com)

 E se você perdeu os outros post da série ‘Porque me tornei vegana/o’, aqui estão:

“Me tornar vegana foi uma maneira de me tornar politizada”- Johanna

“Hoje eu acho fácil ser vegano, o difícil mesmo é amar, respeitar e aceitar a minha própria espécie” -João

“O veganismo foi uma maneira de alinhar minhas convicções com os meus atos” – Anne

“O veganismo talvez seja a alimentação do futuro” – Samira

“Manter a serenidade diante de tanta crueldade e indiferença é um desafio, mas é necessário” – Lobo

“Hoje eu acho fácil ser vegano, o difícil mesmo é amar, respeitar e aceitar a minha própria espécie”

Em julho minha amiga Johanna contou as razões que a levaram a se tornar vegana e como a mudança aconteceu na sua vida e eu não imaginava que quatro meses passariam antes que outro post da série ‘Porque me tornei vegano’ aparecesse por aqui. Mas aqui estou com mais uma entrevista que vai inspirar e fazer refletir.

João Asfora Neto faz parte do grupo de amigos que conheci em Recife esse ano. Ele é um dos sócios do restaurante Papaya Verde, que oferece a melhor comida vegana que eu comi no Brasil. Ele também criou o Jornal Ganapati, que trata de vegetarianismo, ética, espiritualidade e meio ambiente. João e eu temos em comum, além da paixão por comida vegana, o envolvimento com a causa palestina. Então não precisa dizer que quando nos encontramos foi amizade a primeira vista. Admiro demais o trabalho que João faz no restaurante e fora dele (saiba mais sobre o Papaya Verde nesse post). Acho a iniciativa de servir comida vegana gourmet em um restaurante convencional extremamente louvável. É um dos maiores favores que alguém pode fazer aos veganos, além de oferecer a oportunidade aos onívoros de provar delícias vegetais sem precisar sair da sua zona de conforto. Quantos onívoros que nunca se aventurariam em um restaurante vegano provaram os maravilhosos pratos 100% vegetais de João? Por essas e outras ele é um dos meus heróis, um infatigável embaixador da culinária vegana, um ativista em vários campos e uma pessoa de uma generosidade sem fim. Senhoras e senhores, e aqueles que ainda não se decidiram, recebam com carinho o meu amigo João Asfora Neto.

Quando você se tornou vegano e o que te levou a adotar esse estilo de vida?

Faz 34 anos que me tornei vegetariano. O fato de comer animais mortos e vestir suas peles e couro sempre me pareceu inaceitável, porém não me incomodava muito que os outros não fossem vegetarianos, eu estava anestesiado. Até que um dia, quatro anos atrás, absolutamente por acaso, eu assisti o vídeo “Terráqueos”. Assisti de uma só vez e não consegui mais falar com ninguém durante alguns dias, era como se só agora eu tivesse despertado para a enormidade que era o crime que cometíamos contra os animais. Nesse dia tornei-me vegano e também nasceu a ideia do Jornal Ganapati. Sentia muito a necessidade de fazer alguma coisa. Pedi ao meu sócio para comprar a minha parte no restaurante, mas ele não aceitou. Negociei então 50 por cento do buffet vegano, e a liberdade de falar com as pessoas sobre o que significava o consumo de carnes e derivados, distribuindo os jornais e promovendo diálogos fraternos. O resultado foi bom, muitas pessoas começaram a mudar seus hábitos de consumo e até se tornaram veganas.

Quais foram as maiores dificuldades que você enfrentou durante a transição?

A maior dificuldade para mim foi o preconceito, envolvendo amigos, família e clientes do restaurante. O preconceito cresceu de tal forma que até os nomes dos alimentos tiveram que ser trocados e não pude mais pôr a classificação “vegana”. Resolvi então sinalizar se tinha ovo, carne, leite, e glúten (para enrolar). O resultado foi excelente e até os preconceituosos passaram a comer veganamente sem se dar conta.

Se pudesse voltar no tempo em que você ainda estava engatinhando no veganismo, que conselho daria a si mesmo? Quais foram os erros que você cometeu e que poderiam ter sido evitados?

Muitos e muitos erros… O pior foi tentar veganizar o mundo de um só golpe e agir com precipitação. Problemas de saúde não tive, aliás ela só melhorou depois que abandonei os laticínios e os ovos. Hoje eu vejo que ainda não sei nada e vivo a tentar consertar erros que cometo todos os dias. Mas os piores foram a falta de amor com que eu às vezes respondia as críticas e a falta de paciência com muitos onívoros. Hoje eu acho fácil ser vegano, o difícil mesmo é amar, respeitar e aceitar a minha própria espécie.

Que pessoas/organizações te inspiraram e continuam te inspirando no terreno do veganismo?

Primeiramente você e o blog Papacapim, pois você junta as duas causas mais caras ao meu coração: o veganismo e a causa Palestina e o seu exemplo de vida desprendida e suas receitas são o que há de melhor na internet. O Vista-se, com de Fábio Chaves (onde encontrei o vídeo por acaso e tantas e tantas informações veganas). A determinação incansável de Marly Winckler na direção da SVB nacional. O trabalho maravilhoso de Nina Rosa na causa animal e muitos outros…

Não é fácil ser vegano em uma sociedade extremamente carnívora como a nossa. O que te dá força/coragem/motivação pra seguir nesse caminho?

A única coisa capaz de nos mover em terreno tão inóspito é o ideal amoroso e libertário. E a certeza que essa fase negra da humanidade vai passar, pois não existe futuro para o planeta fora do veganismo.

Quais os conselhos que você daria pra quem está pensando em se tornar vegano?

Simplifique de imediato a sua alimentação, derrube os preconceitos com as frutas, verduras e hortaliças. Conheça um pouco de nutrição. Desenvolva a felicidade nessa opção de vida, nós devemos ser felizes por ser veganos e não ser amargos por ter a alimentação restringida. Já conheci muitos veganos amargos aqui no restaurante e isso é muito triste. São pessoas que não acham nada bom, pra quem tudo é insuficiente e que assustam os possíveis candidatos ao veganismo com esse perfil.

Divida uma receita simples e saborosa com a gente.

O bobó de grão de bico. Segue a receita. (Eu tive o privilégio de provar o bobó de João na última vez que estive em Recife e posso garantir que essa receita é absolutamente deliciosa. Vocês não imaginam a minha alegria quando ele decidiu dividi-la conosco!)

* A foto de abertura foi feita por Romero Morais, que aceitou que eu a publicasse aqui no blog. Mais uma vez obrigada pela gentileza, Romero.

papaya verde2

Bobó de grão de bico

Quando João me mandou a receita não incluiu as algas, mas depois de verificar se era assim mesmo ou se tinha sido esquecimento, ele me escreveu “sim, uso algas para temperar e dar o gostinho do mar. Uso nori tostada picada ou wakame quando acabo o preparo e, quando tenho, uso kombo, aquela dos nozinhos, para fazer o molho.” João não indicou a quantidade das algas e suspeito que ele é um cozinheiro como eu, que vai acrescentando ingredientes de maneira intuitiva, provando e corrigindo o tempero durante o processo. Então use um punhadinho de algas, prove e decida se você quer usar mais. E não deixe de conferir as dicas de João no final da receita. Na foto acima o bobó está no canto superior esquerdo (peço perdão pela foto, ela não faz justiça a esse prato maravilhoso).

5 ou mais xícaras de grão de bico cozido

1 kg de macaxeira

1 garrafinha (1/4 litro) de leite de coco

azeite de dendê a gosto

1 kg de tomates maduros sem pele (pode ser em lata)

3 cebolas batidinhas na faca

2 dentes de alho amassados

azeite de oliva a gosto

2 colheres de sopa de coentro picado

2 colheres de sopa de cebolinha picada

sal

pimenta do reino

pimenta vermelha

algas (nori tostada e picada, wakame ou kombu)

MODO DE PREPARO

Cozinhe a macaxeira. Leve ao fogo os tomates pelados e picados até virar um molho espesso (ponha água, se necessário). Numa panela grande coloque o azeite de oliva, o alho e leve ao fogo até dourar. Em seguida coloque a cebola e deixe ficar transparente.

Misture a cebolinha verde, o coentro fresco, os tomates cozidos, o grão de bico cozido, sal, pimenta do reino, pimenta vermelha e jogue tudo na panela em que está a cebola. Deixe levantar fervura. Faça um purê com a macaxeira cozida e o leite de coco (use um pouco de água se for preciso). Quando a mistura de grão de bico e verduras estiver fervendo junte o purê de macaxeira e deixe cozinhar mais um pouco. Tire do fogo e coloque o azeite de dendê, as algas e mexa bem. Leve ao fogo novamente. Prove o sal e corrija.

Dicas de João:

-Essa foi a receita inicial e já mudou bastante, pois aqui eu nunca faço do mesmo jeito. Normalmente uso mais leite de coco e gosto também de botar uma misturinha de tempero seco que existe aqui chamado ‘tempero baiano’. Quando quero mais espesso bato um pouco alguns grãos de bico no liquidificador.

-Quando faço em casa passo o coentro, a cebolinha e os tomates no liquidificador.

-Fica ótimo com arroz integral simples e um vinagrete bem azedinho com coentro, cebolinha, cebola e tomate.

48 horas em Paris

Nesse último fim de semana eu estive em Paris pra participar do ‘Paris Vegan Day’, o maior evento vegano da França. Só dura um dia e reúne expositores de comida, cosméticos, marcas de roupas, sapatos e bolsas, tudo 100% vegano, além de várias associações vegs e de proteção aos animais. E não é tudo! Teve também palestras e aulas de culinária vegetal e como se isso não fosse suficiente pra deixar qualquer vegano com a impressão de ter morrido e ido direto pro paraíso, o local de evento, os Docks, nas margens do rio Sena, era lindo e tinha um restaurante vegano (MOB, especializado em hamburguers e outros sanduíches veganos) no térreo. O que mais pedir? Como não pude participar do VegFest em Curitiba, essa foi a minha consolação.

Paris Vegan day

Aqui vão algumas fotos do Paris Vegan Day pra vocês. Na ordem de aparição: croissants pra começar bem o dia, um dos stands mais disputados (todo tipo de delícia vegana à venda), posters explicando porque a alimentação vegetal é super inclusiva, marshmallows de vários sabores, burgers (de tofu) de vários sabores.

PVD4PVD2PVD3PVD5PVD6

Foi um dia muito especial pra mim, pois além de degustar todas essas delícias passei boa parte do dia com Carmelo, que eu conheci quando ele tinha apenas três meses, e Jean-Sé (o pai de Carmelo), um grande amigo de Paris. Eu cuidei de Carmelo durante muitos anos e sempre levo um susto quando nos encontramos: ele cresce numa velocidade estonteante! Foi lindo ter provado tanta coisa vegana com meu Carmelito, que já tem 11 anos, e entre uma mordida e outra ele me contava as novidades (“eu tenho um site onde só posto fotos dos meus pés”, “comecei a estudar a Talmud pra fazer minha Bar Mitzvah”, “não como mais carne”…). Fiquei impressionada com a quantidade de coisas que ele provou, de chips de kale e beterraba à queijo vegano, mortadela vegetal e granola crua de sarraceno, e no final do dia ele declarou: “Como é gostoso ser ecológico!”, o que eu achei hilário. Ele sempre foi um menino sensível e fez questão de assinar uma petição contra as touradas, que ele desaprova totalmente. Abaixo ele assinando a petição e provando todos os presuntos e mortadelas vegetais do evento:)

PVD7PVD8

O stand dos queijos veganos da marca Vegusto ( o nome da linha é uma graça: ‘No-Muh”) fez muito sucesso e até escutei uma senhora telefonar pra alguém dizendo empolgadíssima: “Você não vai acreditar, tem queijos veganos maravilhosos aqui! IMPRESSIONANTE!” Nas outras fotos: mais queijo e presunto veganos, calda de caramelo e chocolate à base de agave e cosméticos veganos.

PVD9PVD10PVD11PVD12PVD13

Falando em cosméticos veganos, fiquei feliz em encontrar a marca brasileira Surya por lá. E como o açaí está na moda por aqui, assisti à uma aula de culinária sobre esse ingrediente. Além dos shakes e cremes tradicionais, o chef preparou um ‘caviar de açaí’ com castanha de caju e shoyo muito interessante.

PVD14PVD14.1Mais coisas interessantes que encontrei por lá: camisetas com mensagens veganas, sacolas com uma eco-cutucada que eu adorei e guias vegetarianos de cidades europeias.

PVD15PVD16PVD17

Aproveitei a viagem pra rever os amigos que moram na cidade e testar restaurantes veganos. Quando eu morava lá, Paris estava longe de ser veg-friendly, mas os tempos mudaram e hoje tem vários estabelecimentos veganos na cidade. Dessa vez testei dois restaurantes: Le potager du Marais e Bob’s kitchen. O primeiro serve comida gourmet de lamber os beiços e tive um almoço memorável com alguns amigos onívoros que saíram tão impressionados quanto eu. Provamos: croquete de quinoa com molho de cogumelo e assado de avelãs, ambos acompanhados de purê de batata, brócolis com creme e pera. Sublime. Uma das minhas amigas pediu o ‘bourguignon de seitan e cogumelo’, de um realismo impressionante, mas a foto não ficou nítida o suficiente pra aparecer aqui. As sobremesas foram: crème brulée de gengibre e fondant de chocolate com creme inglês. Vai lá: 24, Rue Rambuteau, pertinho do Centro Pompidou.

le potager1 le potager2le potager3le potager5le potager4

Já o restaurante Bob’s kitchen oferece uma comida mais simples, vegetariana e vegana, mas o smoothie e o maki que pedi estavam ótimos. Minha amiga Simone, que me acompanhava, também adorou o sanduíche dela. Vai lá: 74, Rue de Gravilliers.

bobs kitchen

Antes de voltar pra Bruxelas passei por um dos meus endereços preferidos na época em que a cidade luz era o meu lar doce lar. Laura Todd só vende cookies (orgânicos), mas eles são os melhores da cidade. Na verdade eles são os melhores cookies do mundo, na minha humilde opinião. Eles não são crocantes, têm uma textura macia incrível e são servidos mornos, assim os pedaços de chocolates permanecem derretidos. Quando me tornei vegana fiquei triste em abandonar esse prazer, mas qual não foi a minha alegria ao descobrir que Laura Todd (adorada, idolatrada, salve, salve, Laura Todd) começou a vender um cookie 100% vegetal e tão gostoso quanto os outros. Se você passar por Paris, não deixe de experimentar esse cookie pra lá de especial (um cookie custa 2 euros, mas prometo que vale a pena) . Fica em frente aos “Halles”, na rua Pierre Lescot. Pra ver os endereços das outras lojas, visite o site.

laura toddslaura todds2

E assim foi o meu fim de semana, cheio de surpresas boas, delícias, encontros, tempo passado ao lado de amigos queridos e caminhadas solitárias em uma das cidades mais belas do mundo, que um dia já foi minha. Paris é pra mim uma espécie de ex namorada com quem tive uma relação maravilhosamente intensa, que deixou só memórias boas (o tempo se encarregou de apagar as ruins), e a cada vez que a reencontro ela consegue me seduzir novamente e penso que seria uma delícia me perder nos seus braços mais uma vez.

Paris2Paris3Paris4Paris, je t’aime.

IMG_20131018_220216

“Me tornar vegana foi uma maneira de me tornar politizada”

Uma das razões que me levaram a escrever esse post foi ter percebido que muitas pessoas se interessam em saber como nós, veganos, nos tornamos herbívoros. Como gostaria de usar esse espaço pra compartilhar histórias, experiências e inspirar quem passa por aqui, decidi juntar uma coisa com a outra e pedir a alguns dos meus amigos pra contar aqui no blog como o veganismo entrou na vida deles.

E pra estrear essa nova série de posts eu entrevistei uma das minhas melhores amigas, Johanna, que também foi a primeira pessoa vegana que eu conheci. Quando nos encontramos pela primeira vez, em um albergue de Jerusalém, mais de cinco anos atrás, fazia somente dois meses que eu tinha me tornado vegana. Nossa afinidade foi imediata e ela se tornou uma das pessoas mais importantes na minha vida. Johanna também adora cozinhar e tenho a impressão de que passamos a maior parte desses cinco anos na cozinha ou ao redor da mesa. Refizemos o mundo com uma tigela de papa de aveia na mão, choramos nossas mágoas enquanto preparávamos o jantar e filosofamos horas a fio sem nunca parar de movimentar nossos garfos.

Johanna é alemã, mas já faz alguns anos que ela passa o seu tempo entre Tel Aviv, onde mora e trabalha, e Jerusalém, onde estuda música árabe (Johanna é violinista). Antes de vir pro Brasil entrevistei minha amiga em Jerusalém, entre duas colheradas de sopa (a minha era de jerimum, a dela era um minestrone). Com vocês, Johanna Riethmueller.

 “Eu me tornei vegetariana aos 12 anos. Um dia comi língua de boi na casa da minha avó e pela primeira vez fiz a conexão: a comida no meu prato era um animal morto. A partir daquele dia não consegui mais comer animais. Além de não comer mais carne, passei a  só consumir laticínios e ovos orgânicos, pois me preocupava com o bem estar dos animais.

Anos mais tarde fiz um estágio em uma fazenda orgânica de produção de leite (uma das melhores da Alemanha) e descobri que a etiqueta ‘orgânica’ não significava muita coisa em matéria de bem estar animal. Foi então que percebi que não comer carne porque eu não quereria maltratar animais, mas continuar consumindo seus derivados, era uma atitude hipócrita.

Então aos 16 anos me tornei vegana. Fiz a transição ao mesmo tempo que o meu irmão, que é alguns anos mais velho. Essa decisão fez com que eu começasse a pensar sobre o meu lugar no mapa político mundial. Onde eu me situava com relação à produção e ao consumo de alimentos? Percebi que o onivorismo se insere muito bem no sistema capitalista, que cria vidas, humanas e não-humanas, pra desperdiça-las. Me tornar vegana foi uma maneira de me tornar politizada e lutar contra a norma. É impossível separar o veganismo da minha visão política do mundo. Comecei a me perguntar: “Como quero tratar o mundo?” Comer carne é um ato de violência e eu não queria gerar mais violência no mundo. Pra mim esse é um raciocínio tão lógico quanto uma operação matemática.

Assim que me tornei vegana eu tinha uma atitude muito mais ativa na divulgação do veganismo. Eu participava de ações pró-veganismo em Hamburgo, minha cidade natal.  Agora que moro em Tel Aviv, onde o veganismo tem muitos adeptos, já não sinto mais a necessidade de fazer isso. Em Israel, e principalmente em Tel Aviv, veganismo se tornou algo popular.  Ao ponto de às vezes eu me sentir desconfortável, como se estivesse fazendo parte de uma moda.

Eu não tenho vontade de participar de ações que expõem a violência sofrida por animais em fazendas industriais e abatedouros, como mostrar vídeos e fotos de animais sofrendo nas ruas. Não gosto de terapia de choque, mas não desvalorizo nem critico o trabalho de quem escolheu essa linha de ativismo. Afinal não tem absolutamente nada de errado em gritar alto e forte as injustiças do mundo. Mas as pessoas já sabem da crueldade sofrida pelos animais de abate,  sabem que eles foram mortos pra que a carne chegasse no nosso prato. Acho que quando as pessoas me veem bem, saudável, feliz e sem comer nada de origem animal, isso é um incentivo muito mais forte pra que elas se tornem veganas. Pessoalmente prefiro esse tipo de ativismo: inspirar mudanças através do exemplo positivo, através da maneira como vivo. Ou namorando onívoros pra convertê-los 🙂 Eu promovo o veganismo sendo uma vegana saudável e feliz. Porém se sinto que as pessoas se interessaram pelo meu estilo de vida eu falo sobre o veganismo de maneira direta.

O veganismo abriu os meus olhos com relação ao mundo, mas também fez com que minhas papilas despertassem e descobri inúmeros novos sabores. Minha alimentação seria menos rica, eu comeria muito menos legumes, frutas, leguminosas e oleaginosas se não fosse vegana. Essa mudança também me fez acordar com relação ao consumismo na alimentação. Comecei a me perguntar de onde vinha a minha comida, que ingredientes entravam na sua composição. Comecei a me alimentar de maneira mais responsável.

Johanna, Judith e Sandra

Sei que como uma pessoa privilegiada de um país ocidental, cada vez que compro algo no supermercado eu prejudico direta ou indiretamente alguém. Eu tenho o privilégio de escolher o que como, por isso escolho ser vegana e isso me faz feliz. Sei que ainda tem vários antagonismos nas minhas ações. O fato de consumir café e chocolate é um bom exemplo disso. Esses alimentos são produzidos de maneira muitas vezes duvidosa, utilizando trabalho escravo, infantil e de uma forma geral os direitos desses trabalhadores são raramente respeitados. Mas, enquanto tento fazer o meu melhor em todas as escolhas que faço, acredito que mesmo em condições extremamente difíceis nós, humanos, ainda temos escolha, ainda que muitas vezes reduzida. Com exceção de alguns exemplos extremos podemos escolher continuar trabalhando aqui ou ir pra outro lugar. Já os animais não têm escolha nenhuma e não têm absolutamente nenhuma chance de escapar desse sistema de exploração e morte. Então ser vegana, pra mim, é também um ato de solidariedade com os animais. Continuarei a ser vegana enquanto for um ser com pensamentos políticos e éticos. Adotar o veganismo é o primeiro passo pra transformar o mundo em um lugar melhor.”

Você se tornou vegana durante a adolescência e vários leitores jovens me escrevem reclamando da dificuldade em convencer os pais a aceitarem o veganismo deles. Como seus pais reagiram?

Ao me tornar vegana comecei a preparar minhas próprias refeições e a me aventurar na cozinha. Ver que eu estava feliz com a minha opção, saudável e comendo pratos saborosos ajudou a tranquilizar a minha mãe. E tem mais. Ela nunca foi uma boa cozinheira então ela adorou quando eu assumi o controle do fogão. Meu pai, que se separou da minha mãe quando eu ainda era bem pequena, também não foi contra a mudança na minha alimentação. A esposa dele não come carne e ele já estava acostumado com maneiras alternativas de se alimentar.

Um conselho pra quem acabou de se tornar vegano(a)?

Seja um vegano feliz. E leia o blog de Sandra. Não precisa se punir comendo sempre a mesma comida sem graça. Aprenda a cozinhar, prepare comida vegana deliciosa e divida com os seus amigos.

Mas alguns onívoros se sentem incomodados pelo simples fato de ter um vegano na mesa e acabam atacando a pessoa com comentários desagradáveis…

A comparação que faço é a seguinte: antigamente se um machista encontrava uma feminista ele também se sentia incomodado e atacava. Até que chegamos num ponto em que ninguém mais tolera esse tipo de comportamento e se tornou politicamente incorreto ser machista. Acho que a situação vai evoluir de maneira parecida.

O que você acha do movimento que defende a carne orgânica, produzida de maneira mais humana e mais ecológica, que alguns chegam a chamar de ‘carne feliz’?

Concordo com alguns dos argumentos, do ponto de vista puramente ecológico, mas não vivemos nesse mundo orgânico perfeito. Quem defende a ‘carne feliz’ está pregando uma maneira de se alimentar que faria sentido em um mundo orgânico perfeito, mas não podemos esquecer que ainda vivemos a anos luz desse modelo. No modelo atual em que vivemos o veganismo ainda me parece a melhor opção. E eu acredito que animais têm alma, então matar animais pra comer sua carne é pra mim moralmente inaceitável.

Se a gente pudesse passar um dia na sua cozinha, o que encontraríamos no seu prato?  

Café da manhã: granola com leite de soja ou, quando estou com vontade de comer algo salgado, pão, uma pasta (como hummus) e uma salada crua.

Almoço/jantar: Procuro comer leguminosas várias vezes por semana. Gosto muito de acompanha-las com legumes assados e uma salada crua grande (procuro comer duas saladas cruas por dia). Quando quero preparar algo mais especial faço lasanha, quiche, pizza…

No dia a dia meus doces são frutas frescas, mas de vez em quando gosto de preparar bolos e biscoitos. Agora que ganhei uma máquina de fazer sorvete de Sandra vou começar a brincar com receitas de sorvetes veganos também.

Quais é o seu prato preferido?

Impossível escolher um só…

Então quais são seus três pratos preferidos?

Lasanha, sopa thai e meze (seleção de pastas e saladas, muito comum no mundo árabe, mas também em outros países mediterrâneos). Adoro preparar hummus, mutabbal, pasta de tahina e várias saladas cruas pra degustar com pão.

Se você soubesse que iria morrer amanhã, qual seria sua última refeição antes de deixar esse mundo? Você pode pedir qualquer coisa: algo que a sua avó preparava, um prato feito por um chef famoso… Qualquer comida vale, vegana ou não.

Definitivamente eu pediria algo vegano. Escolheria um prato simples e reconfortante, nada muito sofisticado nem gourmet. Macarrão com seu molho de queijo (vegano) e algum legume, talvez brócolis, mais uma salada de tomate cereja com azeite e vinagre balsâmico pra acompanhar. E de sobremesa pediria aquele seu cheescake de maçã e caramelo.

Divida uma receita simples e saborosa conosco.

Meu mousse de chocolate*.  Aqueça 400ml de leite de coco (quanto mais cremoso e rico em gordura, melhor) e, fora do fogo, junte 150g de chocolate meio amargo picado. Quando derreter completamente acrescente 5cs de cacau de ótima qualidade e açúcar a gosto (uso umas 3 ou 4 cs cheias). Bata vigorosamente com um batedor de arame (manual), até o cacau se dissolver e a mistura ficar levemente aerada. Transfira o mousse pro congelador (em um recipiente grande ou em copinhos, se quiser fazer porções individuais) e deixe umas 3, 4 horas por lá, até ficar firme, mas não totalmente congelado. No frio a mistura, que começou líquida, vai ficar com a consistência de mousse.

mousse chocolate

*Johanna levou seu famoso mousse de chocolate pro nosso brunch de casamento e ele desapareceu antes que eu pudesse fazer uma foto. Só sobrou o que vocês estão vendo acima.

(E quem quiser ver Johanna fazendo música é só clicar aqui.)

O caminho que escolhi

Ainda não expliquei aqui no blog o porquê do meu veganismo, pois sempre tive receio que isso provocasse reações negativas em alguns leitores onívoros. No início do mês fez cinco anos que me tornei vegana e pra comemorar essa data tão especial pra mim resolvi passar por cima do meu receio e escrever esse post. Mas antes de continuar a leitura aqui vai um aviso. Esse texto explica o que o veganismo significa pra mim. Não tenho ambição nenhuma de ser a porta voz do movimento e estou certa que minhas opiniões divergem consideravelmente da opinião de outros veganos. Também não é minha intenção impor meus valores aos leitores onívoros e vegetarianos, nem criticar suas escolhas. O único objetivo desse texto é dividir com vocês uma parte importante da minha história, que fez com que eu seja quem eu sou hoje e sem a qual o Papacapim não teria vindo ao mundo.

Nunca fui uma grande comedora de carne vermelha. Não por razões éticas ou de saúde, simplesmente nunca gostei do sabor. Aos vinte anos fui morar em Paris e pude escolher, pela primeira vez, a comida que entrava na minha cozinha. Comecei então a fazer algumas mudanças na minha alimentação. Troquei os embutidos de carne de porco por produtos similares feitos com frango e peru e o único tipo de carne vermelha que ainda comia era bacon. Durante a faculdade fui assinante de uma revista incrível chamada “L’écologiste”. Um dia li um artigo nessa revista explicando como as aves, que apareciam com tanta frequência no meu prato, eram criadas. Eu sabia da superioridade nutricional das galinhas orgânicas, mas o meu orçamento de universitária/baby-sitter me obrigava a comprar toda a minha comida nos supermercados, geralmente das marcas mais baratas. Todo o frango, peito de peru e ovos que eu consumia vinham das terríveis fazendas de criação intensiva descritas no artigo que eu tinha lido. Dessa vez foi a saúde que me fez eliminar mais alguns animais do cardápio. Aqueles frangos que eu estava comendo faziam um mal imenso ao meu organismo e, ao invés de gastar todo o meu salário comprando galinhas orgânicas, achei mais viável parar de consumir aves.

Quando decidi retirar as aves do cardápio acabei fazendo uma faxina mais extensa e eliminei os embutidos e o amado bacon também. Até então o que impulsionava minhas ações era o cuidado com a saúde. Porém, sem querer, eu tinha colocado os pés em um território novo que estava alfinetando a minha consciência. Me vi refletindo cada vez mais sobre a necessidade de comer animais. Um ano mais tarde tomei a decisão de eliminar toda carne animal do meu prato, dessa vez movida por razões éticas. Eu sabia que carne nenhuma era indispensável à nossa sobrevivência e de repente não podia mais ignorar essa evidência: comer animais era uma opção, não uma necessidade.

Precisei de vários meses pra me tornar vegetariana, pois peixes e frutos do mar eram minha comida preferida e muitas vezes eu cedia à facilidade de comer pratos com esses produtos, que eu encontrava em todos os lugares, ao invés de procurar uma opção vegetariana. Durante umas férias no Brasil comi meu último peixe, pra me despedir de vez, e quando voltei pra Paris comecei o meu novo regime. Foi assim que, aos 25 anos, me tornei vegetariana. Mal sabia eu que o meu vegetarianismo só iria durar poucas semanas.

Mais uma vez a revista “L’écologiste” foi responsável por abrir meus olhos. Vi lá um anúncio da Sociedade Vegetariana Francesa e decidi explorar o site deles. Um artigo me levou a outro artigo e acabei descobrindo os documentários feitos pela PETA (‘Meet your meat’ e ‘Terráqueos’) e pelo Instituto Nina Rosa (‘A carne é fraca’). Vou poupar vocês dos detalhes aqui, pois acho que todos que viram esses vídeos passaram pelas mesmas etapas: choque, choro, revolta e, eventualmente, vontade de agir. Meus ovos e laticínios não eram tão inocentes quanto eu pensava e adotar o veganismo, que até então eu nem sabia que existia, apareceu pra mim como a conclusão lógica. Antes de dar o passo final, porém, eu precisava descobrir se aquilo era viável do ponto de vista nutricional. Passei dias mergulhada em pesquisas sobre nutrição vegetal e quando achei todas as respostas que procurava, me tornei vegana.

O impacto que essa decisão teve na minha vida foi imenso. Em dois meses vi a sinusite, que me acompanhou durante anos, e as dores de garganta, que me visitavam pelo menos uma vez por mês desde a infância, desaparecerem completamente. Descobri que os laticínios, que eu amava tanto, não me amavam nem um pouco. Também vi meu colesterol voltar ao nível normal sem precisar fazer dieta, pois, mesmo quando já não comia mais carne vermelha nem frango, ele era elevadíssimo, culpa, mais uma vez, dos laticínios, que sempre foram o meu fraco. Mas não foi só a saúde que melhorou. O alívio de ter feito as pazes com a minha consciência não tem preço. Curiosamente, ter retirado tantos produtos do meu cardápio acabou expandindo meus horizontes gastronômicos. Descobri uma infinidade de novos ingredientes e hoje minha alimentação é muito mais variada do que antes. O veganismo também fez brotar minha verdadeira paixão, a culinária, e me deu coragem pra abandonar um mestrado em linguística que me entediava profundamente e seguir a minha vocação.

Mas a história não parou por aí. Meu veganismo evoluiu muito nesses cinco anos. A decisão de recusar produtos de origem animal, que tomei motivada unicamente pelo sentimento de compaixão pelos animais, teve tempo pra amadurecer e crescer. Nunca parei de me questionar nem de analisar o impacto que as minhas ações têm no mundo. Eu achava que o veganismo era uma destinação, um objetivo a ser atingido. Mas hoje entendo que o veganismo é um caminho, um processo. No mundo em que vivemos é impossível evitar absolutamente toda exploração animal. Quando descobrimos a lista imensa de derivados de animais encontrados nos mais diversos produtos (pneus, sacos plásticos, amaciantes e fogos de artifício, só pra citar alguns) e a dificuldade, às vezes impossibilidade, de evita-los, somos tentados a concluir que veganismo é uma ilusão. Mas a resposta está na definição dessa palavra segundo Donald Watson, o seu criador: ‘Veganismo’ denota uma filosofia e uma forma de viver que busca excluir – tanto quanto for possível e praticável – todas as formas de exploração e de tratamento cruel de animais para comida, roupas ou qualquer outra finalidade. O fato de não poder evitar absolutamente toda crueldade contra animais (humanos e não humanos) não é justificativa pra não fazer o que estiver ao meu alcance. Veganismo pra mim não é um ideal de perfeição e sim uma prática ativa e diária que me ajuda a ser uma pessoa mais consciente, responsável e gentil.

O que mais mudou em mim nesses últimos cinco anos? Minha compaixão pelos onívoros aumentou. É difícil resistir à tentação de se imaginar moralmente superior aos não veganos quando decidimos seguir esse caminho por razões éticas, mas o fato de recusar produtos de origem animal não me transformou em uma pessoa superior, nem me deu o direito de criticar quem não é vegano. Hoje eu condeno o ato de comer animais, não as pessoas. Não é fácil agir assim quando o sofrimento e a morte desnecessária de um animal me tocam e me revoltam profundamente, mas ter mudado o foco da minha crítica me ajudou a ser uma pessoa mais positiva, uma companhia mais agradável e, acredito que exatamente por isso, deixou o meu ativismo mais eficaz.

Também passei a aceitar que em certos contextos é impossível se abster da carne de animais. Estou me referindo aqui à pequena parte da população mundial que vive em desertos ou regiões cobertas de gelo, por exemplo, onde as condições naturais tornam impossível o cultivo de uma variedade suficiente de plantas comestíveis. Porém, longe de me fazer duvidar da pertinência do veganismo, já que ele não pode ser praticado por absolutamente todos os humanos, isso só reforçou as minhas convicções. É exatamente porque vivo em um lugar onde vegetais abundam e tenho o privilégio de escolher o tipo de comida que consumo que considero minha obrigação moral escolher os alimentos que causam menos sofrimento e menos impacto negativo no planeta. Acredito que todo privilégio implica grandes responsabilidades, então enquanto essa escolha me for oferecida, continuarei sendo vegana.

Outra mudança drástica no meu pensamento vegano foi admitir que nem todo alimento de origem animal é necessariamente prejudicial à saúde. Nos primeiros anos do meu veganismo acreditei piamente que a dieta vegana era a única capaz de oferecer saúde aos humanos. Hoje acredito que também é possível se manter saudável consumindo uma dieta na sua maior parte vegetal com uma pequena quantidade (no máximo duas porções por semana) de produtos de origem animal realmente nutritivos (e orgânicos). Por que continuo sendo vegana, então? A saúde não foi a razão principal que me fez adotar o veganismo e se posso conservá-la tanto sendo vegana quanto comendo uma quantidade (extremamente) moderada de carne, continuarei optando pelo veganismo. E de um ponto de vista puramente prático, levando em consideração o lugar onde moro, meu estilo de vida e meu orçamento, comprar carne orgânica de um animal criado em liberdade é mais complicado e muito mais caro do que cozinhar uma panela de feijão. Mesmo se saúde fosse minha única preocupação na hora de escolher a maneira como me alimento, o veganismo ainda seria a escolha mais fácil e barata.

Assim que me tornei vegana uma lógica ingênua invadiu minha mente: as outras pessoas só continuam comendo carne porque ainda não descobriram o que está por trás desse ato. Fiquei profundamente chocada quando me dei conta que, mesmo depois de ter sido exposta às mesmíssimas informações que eu, a maioria das pessoas achava uma maneira de continuar justificando o regime onívoro e que muitas pessoas realmente não se importam nem um pouco com o que acontece com os animais que aparecem no seu prato. Mas e as pessoas que dizem que amam animais e que pedem pra você não contar o que acontece no abatedouro porque “assim não vou conseguir comer o meu bife”? Perdi noites de sono tentando entender a lógica por trás desse tipo de comportamento. Ter descoberto o carnismo ajudou muito, embora eu ainda me sinta perplexa diante de tal fenômeno. Só posso esperar que, se o sofrimento animal não comove todos (ou comove alguns, mas não o suficiente pra provocar uma mudança na sua alimentação), mais pessoas comecem a se preocupar com o sofrimento humano, principalmente o próprio, e reduza seu consumo de carne movido por razões de saúde e ambientais. Desde que a FAO publicou o relatório “Livestock’s long shadow”, não é mais segredo que a pecuária é a atividade humana que mais destrói a Terra e, a menos que o cidadão seja capaz de ir morar em outro planeta, ele deve reduzir urgentemente, e drasticamente, seu consumo de produtos de origem animal.

Alguns anos atrás li, em um livro que não vou citar porque vocês vão rir, algo que mudou minha vida pra sempre. Quando o mal ameaçava prevalecer e era preciso decidir de que lado lutar um dos personagens principais disse: “Chegou a hora de escolher entre o que é certo e o que é fácil.” Ninguém, com exceção dos psicopatas, escolhe propositalmente fazer o mal, ou o errado, mas quando somos confrontados com uma situação moralmente desconfortável, onde fazer o certo significa fazer mudanças profundas na nossa vida, instintivamente escolhemos o caminho mais fácil. Sei que a maioria das pessoas, mesmo as que no fundo concordam que é moralmente inaceitável torturar e matar animais quando não temos necessidade nenhuma de consumir seus corpos e secreções, escolhem a facilidade de não mudar seus hábitos porque considera o veganismo um caminho extremamente difícil e cheio de sacrifícios. No meu caso não foi difícil me tornar vegana. À partir do momento em que descobri o que estava por trás dos meus hábitos alimentares, difícil teria sido não mudar, impedir que   meus valores guiassem minhas escolhas, na mesa e fora dela. Não estou tentando convencer vocês que minha vida é ecologicamente-eticamente-politicamente impecável, porque ela está longe disso. Mas considero minha obrigação moral fazer o possível pra que as minhas ações tenham um impacto positivo no mundo. E ser vegana me dá a oportunidade de praticar a responsabilidade e a compaixão três vezes por dia.

Como enfrentar a resistência dos seus pais com relação ao veganismo

Algumas semanas atrás recebi um e-mail que me tocou bastante.

Meu nome é Gabriela e tenho 13 anos, atualmente sou ovo-lacto-vegetariana e consegui isso com muito esforço, pois ninguém na minha família é vegetariano, e principalmente minha mãe, tem medo que eu fique seriamente doente por causa de minha alimentação. Meu maior desejo agora é virar vegana, li muito sobre isso, só que veganismo minha mãe não concorda de jeito nenhum, ela acha que é exagero e perigoso e como só tenho 13, tenho que obedece-la, mas tem algum jeito de eu a convencer de que o veganismo é saudável? O que você sugere?

Fiquei muito feliz em saber que tenho uma leitora tão jovem e tão determinada a fazer uma diferença através da sua alimentação. Enviei um e-mail com as dicas que achei mais apropriadas, mas fiquei pensando que talvez a resposta às perguntas de Gabriela ajudem outros leitores. De vez em quando recebo e-mails de adolescentes que estão na mesma situação, então me parece que faz sentido escrever um post sobre o assunto.

Antes de passar pros conselhos, gostaria de dizer o quanto admiro a sensibilidade e a coragem dos jovens que decidem, apesar da torcida contra da família e dos amigos, adotar uma dieta mais ética, mais ecológica e que faz prova de compaixão com animais humanos e não humanos. Se já é difícil tomar essa decisão quando somos adultos, donos do nosso nariz e do conteúdo da nossa geladeira, imagine então o quanto isso é complicado pros adolescentes, que dependem financeiramente dos pais e que têm que comer o que eles colocam na mesa.

Eu mesma parei de comer carne vermelha no início da adolescência. Não foi por motivos éticos, simplesmente nunca gostei de carne. Minha mãe não viu problema nenhum nesse meu comportamento, pois ela cresceu no sertão, em uma família muito pobre que não comia carne quase nunca, então ela sabia que tem muita gente vivendo sem carne por aí. Mas, diferente da leitora que me escreveu, eu ainda comia frango e peixe, além de ovos e leite. Acho que se eu tivesse me tornado vegana, ou mesmo vegetariana, naquela época minha mãe não teria sido tão compreensiva.

Alguns conselhos pros adolescentes que querem adotar o vegetarianismo/veganismo, mas que estão se deparando com a resistência dos pais onívoros:

– Primeiro de tudo: tenha uma conversa franca com seus pais e explique os motivos que te fizeram tomar essa decisão. É importante que eles entendam que você quer escolher o vegetarianismo/veganismo por razões éticas, não porque está querendo aderir a uma possível “moda”, sem avaliar as consequências que isso terá na sua saúde. Sabendo que você fez essa escolha guiado(a) pela compaixão, será mais fácil pros seus pais respeitar a sua decisão.

-Se informe bastante sobre nutrição vegetariana/vegana. É normal que seus pais, e familiares em geral, se preocupem com a sua saúde, já que a vida inteira eles escutaram que precisávamos de carne e leite pra nos manter saudáveis, principalmente na infância e adolescência. Se você tiver as informações corretas sobre proteínas, ferro e cálcio nos vegetais eles ficarão mais tranquilos e você não vai colocar a saúde em risco. Isso também vai mostrar aos seus pais que você é responsável e maduro(a) suficiente pra fazer escolhas alimentares conscientes.

-Leia e peça pros seus pais lerem alguns artigos sobre veganismo escrito por nutrólogos e nutricionistas. É importante expor um argumento de autoridade pros seus pais, afinal se profissionais de saúde e nutrição concordam que é possível ser veg e saudável, fica mais difícil discordar. Recomendo os textos do Dr Eric Slywitch, que é nutrólogo e vegano, e de George Guimarães, que é nutricionista e também vegano. Alguns artigos indispensáveis:

Crianças e adolescentes vegetarianos (Eric Slywitch)

O que eu coloco no lugar da carne? (George Guimarães)

Ferro na dieta vegetariana (George Guimarães)

Cálcio na dieta vegana (George Guimarães)

Sobre a suficiência proteica da dieta vegana (George Guimarães)

-Se seus pais não são adeptos de leitura on-line, ofereça o livro “Alimentação sem carne – Guia prático”, do Dr Erik Slywitch. Ainda não tive a oportunidade de ler esse livro, mas uma leitora (e amiga) nutricionista leu e disse que ele é excelente. Ela é onívora e tinha vários preconceitos com relação à dieta vegetal, mas disse que depois da leitura desse livro, que é extremamente bem argumentado (com base em pesquisas científicas), sua opinião mudou completamente.

-Consultar um nutricionista e pedir uma dieta vegetal que cubra todas as suas necessidades pode ser uma boa ideia, mas somente se o profissional em questão for aberto ao veganismo. Infelizmente a maioria dos nutricionistas ainda tem muita resistência à dieta vegetal, apesar da ADA (Associação Dietética Americana) ter afirmado que “(…)dietas vegetarianas apropriadamente planejadas são saudáveis, adequadas em termos nutricionais e apresentam benefícios para a saúde na prevenção e no tratamento de determinadas doenças. Dietas veganas e ovo-lacto-vegetarianas adequadamente planejadas satisfazem as necessidades nutricionais de bebês, crianças e adolescentes e promovem o crescimento normal “. Recomendo dois artigos sobre o assunto: Sobre nutricionistas e a resistência ao vegetarianismo, de George Guimarães, e Por que muitos profissionais de saúde têm preconceito contra o vegetarianismo? de Erik Slywitch. A solução é perguntar na hora de marcar a consulta se o nutricionista em questão é simpatizante da dieta vegetal. Alguns leitores me contaram verdadeiros pesadelos vividos em consultórios de nutricionistas pró-carne (uma nutricionista sugeriu tratamento psicológico pra “curar” uma vegetariana!), então se não tiver sorte com o primeiro profissional consultado, não hesite em procurar outro.

-Mostre aos seus pais exemplos de pessoas que se tornaram vegs na infância e na adolescência e que vão muito bem, obrigado. Nessa página do Centro Vegetariano, por exemplo, tem várias entrevistas com mães vegetarianas/veganas que estão criando seus filhos no mesmo regime (desça até o final da página pra ver as entrevistas). Quem lê Inglês pode consultar essa página do VeganHealth.org onde é possível ler sobre várias crianças veganas, com fotos mostrando o crescimento delas ao longo dos anos (algumas já são adolescentes). Muitos anos atrás li um artigo lindo escrito por uma menina americana de 12 anos, vegana desde que nasceu, sobre as razões que a levaram a se manter vegana. Hoje ela tem 17 anos e continua escrevendo sobre veganismo. Os artigos podem ser lidos aqui (em Inglês, mas nada que Google Tradutor não resolva).

-Mostre aos seus pais como a comida veg pode ser deliciosa. Leve eles a um restaurante vegetariano/vegano na sua cidade. Aproveite pra puxar papo com os donos (incluindo seus pais na conversa, claro) e peça pra eles falarem um pouco sobre vegetarianismo/veganismo (Desde quando eles seguem esse regime? Eles têm filhos?). Peça um livro de receitas vegs de presente na próxima data comemorativa (seu aniversário, natal etc.) e incentive seus pais a descobrir pratos novos. Mostre a eles blogs de culinária vegetal pra convencê-los que veganos não comem só alface. Aconselho particularmente o site Vegetarianos comem o quê? Além de ser recheado de vídeos com receitas apetitosas, esse site foi criado por uma família vegetariana e três gerações participam dos vídeos.

-Por último, mas não menos importante, coloque a mão na massa. Talvez seus pais acabem entendendo suas razões pra se tornar veg e tenham se convencido de que a dieta vegetal não vai comprometer a sua saúde. Mas na hora de colocar o vegetarianismo/veganismo em prática pode ser que o cozinheiro da casa (sua mãe, seu pai ou outro) simplesmente não saiba o que fazer pra você comer. Se torne íntimo(a) do fogão e prepare pratos vegetais saborosos pra toda a família. Assim você mostrará que tipo de comida eles podem preparar pra você. Mostre receitas, sugira adaptações nos pratos (feijão cozinhado sempre sem carne, por exemplo) e dê sugestões pro cardápio semanal. Lembre-se que a decisão de ser tornar veg foi sua, então é sua responsabilidade fazer isso acontecer.

Se você seguiu todas as recomendações acima e mesmo assim seus pais não mudaram de opinião e continuam te proibindo de adotar o vegetarianismo/veganismo, infelizmente você terá que ceder. Fico muito triste em dizer isso, pois sei o quanto é difícil passar por cima das nossas convicções. Fico mais triste ainda em constatar que a rejeição das pessoas com relação ao vegetarianismo/veganismo é fruto de preconceito, falta de informação e, às vezes, pura má vontade. Mas no caso dos seus pais, tem também o medo que esse regime tão diferente do que eles estão acostumados tenha consequências negativas no seu desenvolvimento.

Enquanto você viver sob o mesmo teto que os seus pais e for sustentado(a) por eles, terá que obedecê-los. Eles provavelmente precisarão de mais tempo pra aceitar sua decisão, então seja paciente. Tente entender os motivos deles, não se revolte e, sei que isso vai parecer muito difícil, seja grato(a) pelo amor que eles sentem por você. Se eles não te amassem não se preocupariam tanto com a sua saúde e o seu bem estar. Mas não perca as esperanças. Pode ser que com o passar do tempo, ao ver que suas razões são sinceras, que suas convicções não mudaram e ao constatar o quanto ser forçado(a) a comer produtos de origem animal te deixa triste, a opinião dos seus pais acabe evoluindo. Só posso desejar toda a sorte do mundo aos adolescentes que estão passando por uma situação parecida e se meus leitores tiverem mais algum conselho pra eles, sintam-se livres pra escrever umas linhas nos comentários.

Restaurante ocasional

Meu “restaurante ocasional” reabriu as portas sábado passado, depois de um longo período fechado. O conceito é simples: de vez em quando organizo jantares e brunchs pagos aqui em casa e convido os amigos, que convidam outros amigos. Parece que esse negócio de “supper club”, como dizem os anglófonos, está na moda em vários países e dá pra entender porque isso atrai tanta gente. O pessoal acha o máximo ter a possibilidade de degustar uma comida especial em um ambiente descontraído e aconchegante. E o mais bacana disso tudo é que gente que não conhece nada da culinária vegana descobre que ela pode ser extremamente saborosa. Eles chegam aqui achando que vão comer capim e alpiste e saem encantados, com a barriga cheia e falando bem dos vegetais pra todo mundo. Quando as pessoas entendem que veganismo não significa abrir mão dos prazeres da mesa, fica mais fácil simpatizar com a causa.

No jantar de sábado servi algumas receitas que já apareceram aqui no blog, como meus famosos gnocchi com tomate cereja e molho amêndoas e manjericão, sempre um grande sucesso e perfeito como aperitivo, e meu sorbet intenso de chocolate. Mas como prato principal eu queria servir uma receita nova que criei há duas semanas e já repeti várias vezes desde então.

Publiquei algumas receitas de bolinhos salgados e burguers aqui, cada uma especial pra mim, mas eu nunca ficava totalmente satisfeita com a textura deles. O gosto ficava bom, mas os bolinhos-burguers se esfarelavam facilmente. Então, inspirada por uma receita que vi na net, tentei uma técnica diferente. Eu sempre fazia bolinhos misturando o feijão cozido/verduras/temperos com aveia (ou farinha de rosca). Dessa vez resolvi cozinhar a aveia com os outros ingredientes, antes de formar os bolinhos e assar. O resultado foi surpreendente! Ao cozinhar a aveia com o feijão ela forma uma liga muito mais potente, deixando a massa mais firme e mais densa. Os bolinhos ficaram com a textura perfeita e permanecem inteirinhos.  Usei lentilha nas primeiras vezes, mas pro jantar de sábado eu queria experimentar uma versão com feijão preto. Estamos em plena época de mangas por aqui e a combinação manga-feijão preto é uma das mais sensacionais que conheço (se você ainda não experimentou essa salada, você não tem ideia do que está perdendo).

Meus bolinhos podem até não ser fotogênicos, mas eles foram a estrela da noite. E olha que pra desbancar gnocchi e sorvete de chocolate o negócio tem que ser muito bom, mesmo!

 

Bolinhos de feijão preto e aveia com salsa de manga

Você pode fazer essa receita com feijão cozinhado no dia, só na água com sal (aproveitando os grãos e uma parte do caldo), ou, melhor ainda, com um resto de feijão temperado do dia anterior (os bolinhos ficam ainda mais saborosos e rápidos de preparar). Nesse caso substitua as 4x de feijão e as 2x de caldo por 6x de feijão temperado (grãos misturados com o caldo). Como feijão do dia anterior fica com o caldo mais espesso, talvez seja necessário juntar um pouquinho de água pra cozinhar a aveia. Eu asso esses bolinhos em formas de muffins, porque acho mais prático e eles ficam com uma casquinha crocante deliciosa, mas na receita também dou instruções pra quem não tem esse tipo de forma. E nem pense em servir os bolinhos sem a salsa: eles nasceram um pro outro. A receita rende bastante, mas você pode congelar uma parte dos bolinhos, ou usar só metade dos ingredientes.

3 cebolas, picadas

10 dentes de alho, amassados/ralados

1 cenoura média, ralada

1x de cogumelo marrom, picadinho (ou berinjela picada bem miúda)

4x de feijão preto cozido (veja explicações acima)

2-3x de caldo de feijão

3x de aveia em flocos

5cs de molho de soja (shoyu)

Especiarias: 2cc de cominho em pó, 1cc de semente de coentro em pó, 1cc de páprica suave, pimenta do reino a gosto

1 punhado de coentro, picadinho

Suco e raspas de ½ limão

Azeite e sal a gosto

Em uma panela grande aqueça 2cs de azeite e doure a cebola. Junte o alho, refogue mais um pouco e junte a cenoura ralada, o cogumelo (ou berinjela) e cozinhe coberto por alguns minutos, até os legumes amolecerem. Acrescente o feijão cozido, as especiarias e o shoyu e mexa bem com uma colher de pau, amassando um pouco os grãos de feijão. Junte a aveia e 2x de caldo de feijão. Cozinhe, mexendo de vez em quando, até a aveia amolecer. Se o líquido se evaporar antes, junte a outra xícara de caldo de feijão. Quando a mistura estive bem grossa e querendo se desprender do fundo da panela desligue o fogo. Junte o coentro, o suco e as raspas de limão. Prove, corrija o tempero (a mistura deve ficar bem saborosa, então não hesite em acrescentar mais especiarias, shoyu e/ou limão, se achar necessário) e deixe esfriar. Unte forminhas de muffins com um pouco de azeite (ou óleo) e encha com a mistura de feijão e aveia (usei aproximadamente 1cs bem cheia pra cada forminha e rendeu 24 bolinhos). Se não tiver forminhas de muffins, faça bolinhos com as mãos, disponha em uma placa untada com óleo e achate ligeiramente formando burguers. Asse em forno médio-alto até ficar dourado por fora e descolar facilmente das forminhas. Se estiver fazendo a versão burguer, deixe assar até ficar dourado no lado que está em contato com a placa, vire e deixe dourar um pouco do outro lado. Rende 24 bolinhos (ou 24 burguers pequenos). Sirva quente, acompanhado de salsa de manga.

Salsa de manga

Essa é uma versão simplificada dessa receita.

3 mangas maduras, mas firmes, cortada em cubos pequenos

½ cebola pequena, picadinha

Um punhado de coentro, picadinho

Suco de 1 limão pequeno, ou a gosto

Uma pitada de sal e um fio de azeite

Misture todos os ingredientes e sirva em temperatura ambiente, junto com os bolinhos de feijão preto.

* Acompanhei os bolinhos com um tabule de quinoa. Usei essa receita de tabule, mas substituí o triguilho por quinoa cozida e deixei as passas e a hortelã de fora (achei que seria uma overdose de ervas se usasse coentro, salsinha e hortelã no mesmo prato).

Dicas pra ter uma alimentação mais (ou toda) vegetal

Foto feita pelo grupo VEDDAS-RN.

Comentei aqui no blog que, a pedido do grupo VEDDAS-RN, dei uma palestra sobre alimentação vegetal durante as férias potiguares.  Na página Facebook do Papacapim alguns leitores comentaram que gostaria de ver essa palestra em suas cidades. Como, infelizmente, não posso sair em turnê pelo Brasil, pensei que seria bacana publicar o conteúdo da palestra aqui no blog.

A página que mais faz sucesso aqui é “Dicas pra se tornar vegano”, que escrevi muito tempo atrás. Quando conversei com o pessoal do VEDDAS sobre o tema da palestra eles concordaram que seria interessante falar sobre esse assunto. Imaginei que o público seria composto por poucos veganos, alguns vegetarianos e muitos onívoros, então, pensando em incluir todo mundo, expandi o tema pra “Dicas pra ter uma alimentação mais (ou toda) vegetal”. Usando a página citada acima como ponto de partida, adicionei algumas dicas, retirei outras e acabei reescrevendo muita coisa. Achei as novas dicas tão boas que depois da palestra atualizei o conteúdo da página. Agora ela está mais clara e com dicas ainda mais úteis e aconselho vivamente que você dê um pulinho lá antes de ler a continuação desse post. Mas aqui vai um resumo, pra quem estiver com pressa:

1- Adicione primeiro, subtraia depois.

2-Diminua progressivamente o consumo de produtos de origem animal e aumente o consumo de produtos de origem vegetal.

3- Lembre-se dos pratos vegetais que sempre fizeram parte da sua dieta e dos que podem ser veganizados facilmente.

4- Evite cereais refinados e coma alimentos 100% integrais.

5- Capriche na vitamina C durante as refeições pra aproveitar melhor o ferro dos vegetais.

6- Inclua frutos e sementes oleaginosas no seu cardápio diário.

7- Evite óleos ricos em ômega 6 (soja, milho, girassol, margarina), pois eles diminuem a assimilação da ômega 3.

8- Suplemente a vitamina B12.

9- Cuidado com o excesso de soja.

10- Coma alimentos, não substâncias comestíveis. 

11-Aprenda a cozinhar.

12- Vegetarianos: não caiam na armadilha do carboidrato-laticínio.

13- Seja paciente, saiba se perdoar e não desista.

14-Faça o que estiver ao seu alcance.

Na página “Dicas pra se tornar vegano” explico cada uma dessas dicas, mas queria falar um pouco sobre os conselhos que entraram nessa nova versão, pois são assuntos muito importantes e que ainda não tratei aqui no blog.

Linhaça é uma das melhores fontes de ômega 3.

Evite óleos ricos em ômega 6 (soja, milho, girassol, margarina), pois eles diminuem a assimilação da ômega 3.

O ômega 3 de origem vegetal deve ser transformado em EPA e DHA pelo corpo pra poder ser assimilado (ômega 3 de origem animal já vem na forma EPA e DHA). O excesso de ômega 6 dificulta essa conversão. O ideal é ingerir 2 a 4 partes de ômega 6 pra uma parte de ômega 3. Veganos chegam a consumir entre 14 e 20 partes de ômega 6 pra cada parte de ômega 3! Mas atenção: os onívoros também estão acima do limite, ingerindo 10 partes de ômega 6 pra cada parte de ômega 3.

Solução:

-Evite os óleos citados acima e diminua o consumo de margarina (ou, melhor ainda, retire-a do seu cardápio).

-Não coma frituras nem alimentos industrializados (que utiliza óleos ricos em ômega 6).

-Se for usar óleo de soja, milho ou girassol utilize o mínimo possível (basta um fio de óleo pra refogar alimentos sem que eles grudem na panela). Outra opção é utilizar óleo de coco virgem na cozinha, pois ele é pobre em ômega 6 e se mantém estável mesmo com o calor elevado.

– Use azeite de oliva e óleo de linhaça pra temperar saladas. Nunca aqueça óleo de linhaça, pois o calor destrói seus nutrientes.

-Lembre-se de ingerir 1 colher de sobremesa de óleo de linhaça ou 2cs de sementes de linhaça por dia, pra cobrir as necessidades do corpo em ômega 3.

Almoço 100% vegetal, 100% delicioso e com 0% de soja.

Cuidado com o excesso de soja.

Já falei sobre esse assunto aqui, mas acho importante bater mais uma vez nessa tecla. Sempre me assusto com a quantidade de proteína de soja na dieta dos vegetarianos/veganos. Sem falar em todos os substitutos de produtos de origem animal à base de soja: leite, iogurte, margarina, salsicha, hambúrguer…  Não há nenhum problema em consumir quantidades moderadas de soja e seus derivados, o risco é cair no excesso. Qualquer alimento consumido em grandes quantidades é prejudicial e a soja não é uma exceção. “Carne”, leite e iogurte de soja são muito práticos e podem aparecer de vez em quando no seu cardápio, mas não devem ser a base da sua alimentação. O reino vegetal nos oferece uma variedade imensa de alimentos e seria uma pena (um crime!) não aproveitar.

Comida de verdade não tem lista de ingredientes com nomes impronunciáveis ou misteriosos.

Coma alimentos, não produtos comestíveis. 

Hesitei um pouco antes de incluir essa dica, pois corro o risco de ser vista como uma extremista-radical verde. Mas isso pra mim é algo tão fundamental que não podia ficar de fora e quem quiser jogar um pé de alface na minha cara pode ficar à vontade. Conheço vários vegetarianos e veganos que têm uma alimentação desbalanceada e pobre em nutrientes. Excluir a carne e os produtos de origem animal do cardápio não significa que sua dieta será automaticamente a mais saudável de todas. Basta lembrar que refrigerante, salgadinho e biscoito recheado também podem ser veganos, mas não deveriam fazer parte da sua alimentação. Alimento é aquilo que saiu da terra e chegou na sua mesa com o mínimo de transformação possível e que, segundo o dicionário, “serve para conservar a vida”. Se um produto foi feito em uma fábrica, usando ingredientes criados em laboratório, que prejudicam o nosso organismo ao invés de nutri-lo, ele não deve ser considerado “alimento” e sim um “produto comestível”. Claro que isso é válido pra onívoros também. Comecei a pensar bastante sobre isso depois de ler artigos do escritor americano, e defensor da comida de verdade, Michael Pollan, que fala de “real food” e “edible food-like substances”. A dieta vegetal pode, e deve, ser extremamente saudável, mas isso vai depender do que você escolher colocar no prato.

Troque seu pão com queijo por… pão com legumes grelhados, broto de alfafa e guacamole.

Vegetarianos: não caiam na armadilha do carboidrato-laticínio.

Imaginei que haveria alguns vegetarianos na palestra, mas fiquei surpresa ao descobrir que eles formavam o maior grupo da sala. E como a maioria das pessoas que querem se tornar veganas passam um tempo sendo vegetarianas, antes de cortar todos os produtos de origem animal, resolvi incluir essa dica aqui também.

É muito comum ver vegetarianos repetirem, refeição após refeição, a combinação carboidrato-laticínio (sanduíche de queijo, pizza com queijo, macarrão com queijo…). Essa dupla, além de muito calórica, é pobre em nutrientes e com o tempo você pode desenvolver carências. E tem mais: excesso de cálcio de origem animal impede o corpo de assimilar o ferro (por isso casos de anemia são mais comuns em vegetarianos do que em veganos). Por preguiça ou comodismo, muita gente acaba fazendo dessa mistura sua refeição principal, mas se você quiser manter a saúde, e a linha, privilegie alimentos como feijões, verduras, frutas e cereais integrais.

 

No final da palestra o público fez várias perguntas, o que gerou uma discussão muito interessante sobre veganismo e direitos animais. Tive a sorte de poder contar com o pessoal do VEDDAS pra me ajudar a responder algumas perguntas, pois não queria que meu ponto de vista fosse interpretado como a opinião de todos os veganos. Há anos faço palestras sobre a Palestina, mas essa foi a primeira vez que sentei de frente a um grupo de pessoas pra falar de alimentação vegetal. Saí de casa nervosíssima, sem saber direito o que esperar da noite, mas as pessoas foram extremamente receptivas e atenciosas. E até ganhei uma coxinha vegana que estava uma delícia (obrigada pelo quitute e pela receita, Cibele D.)! A experiência foi tão positiva que agora fiquei com vontade de sair fazendo esse tipo de palestra por todos os lados.

Adoraria saber o que vocês acharam das novas dicas e se sentirem que algumas delas merecem uma conversa mais aprofundada, é só deixar a sugestão nos comentários.

Mais uma vez gostaria de agradecer o convite do VEDDAS-RN e dar (mais) um conselho. Se você mora em Natal, dê uma olhada na página deles no Facebook e compareça a um dos eventos que eles organizam (filmes com direito a degustação de comida vegana, palestras, ações…).