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Escrevi no primeiro dia do ano que eu tinha casado e prometi falar mais sobre o assunto, e compartilhar fotos, em um outro post. Cá estou pra cumprir a promessa.

Quando criei esse blog, exatos sete anos atrás, eu queria compartilhar mais que receitas. Queria colocar pedaços da minha vida aqui pra mostrar que pessoas veganas não são muito diferente das outras e que não é nada esotérico ter um estilo de vida sem crueldade. Quase imediatamente senti a mesma responsabilidade com relação à outra comunidade da qual faço parte, a comunidade LGBTQ. Falar abertamente da minha orientação sexual aqui no blog é extremamente importante pra mim, pois nós, LGBTQs, precisamos de visibilidade. Se sentir representada na literatura, cinema, mídia, internet, política e todos os aspectos da vida civil importa e muito. Então gosto de pensar que o blog me dá a oportunidade, além de desmistificar a culinária vegetal, de fazer minha contribuição nesse sentido.

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Anne e eu estamos juntas há mais de oito anos e assinamos os documentos de união estável seis anos atrás, no consulado francês em Jerusalém. Na época casamento era um direito ao qual não tínhamos acesso, então nos pareceu natural chamar a união estável de casamento. Fizemos um brunch pra celebrar a união e viajamos em lua-de-mel pra Irlanda. Os anos se passaram e descobrimos que a união estável não nos dava os mesmos direitos que o casamento, logo não nos protegia da discriminação anti-imigrante institucionalizada (principalmente na Europa), o que é algo muito importante quando cada metade do casal vem de um continente diferente e que vocês estão sempre mudando de país.

Eu nunca fui uma dessas pessoas que sonhava com casamento. Anne se sentia do mesmo jeito. Mas fico irritada com pessoas dizendo que casais homossexuais não deveriam lutar pelo direito de participar de “uma instituição falida”. Ou, pior, quando dizem que queremos imitar casais heterossexuais. Primeiro porque ninguém pode me dizer pelo que lutar. Luto pelo que é importante pra mim e se não é pra você, ao invés de criticar a minha luta, vá procurar a causa que toca o seu coração. Mas principalmente porque é uma questão de direitos iguais. Não acho que todas as pessoas devem se casar, mas isso tem que ser uma escolha pessoal. E pra que seja uma escolha, a lei tem que nos dar essa opção. Pra quem não sabe, isso se tornou possível em 2013, tanto no Brasil quanto na França. Pelo menos por enquanto, pois com a situação política atual nos dois países, principalmente no Brasil pós golpe, nenhum direito está a salvo de ataques.

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Na família de Anne, contrariamente à minha, casamento é algo enorme. As cerimônias são pomposas e seguidas de banquetes. Precisamos convencer a parentada que não queríamos festa e que a cerimônia seria informal. A gente escolheu inclusive não trocar alianças e nosso anelar esquerdo continua pelado. Na França casamento acontece na prefeitura e é celebrado pela prefeita/vice. Não tem madrinhas/padrinhos de casamento, só testemunhas (que estão igualmente presentes na igreja, caso tenha também uma cerimônia religiosa). Claire, a irmã caçula de Anne, foi a testemunha dela. Emilie, uma prima de Anne, foi a minha. Ambas significam muito pra nós. Não fizemos de propósito, mas quando me dei conta que seríamos quatro mulheres (feministas!) participando da cerimônia fiquei muito feliz. Provavelmente foi inconscientemente de propósito…

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Optamos por não fazer festa porque é o que mais combina conosco, mas também porque minha família, que mora no Brasil, não estaria presente e não seria justo. Mas logo nos demos conta que a família francesa queria muito assistir à cerimônia e já que estariam todas e todos ali, convidamos o pessoal pra fazer um brinde conosco na casa do meu sogro. Quando insistiram em nos dar presentes explicamos que não temos casa e não teríamos como transporta-los conosco de país em país nessa nossa vida nômade. Então pedimos que quem quisesse oferecer algo pras recém-casadas, que fosse na forma de dinheiro pra uma lua-de-mel (nossa segunda!). Cobrimos uma caixinha de papelão com papel kraft, escrevemos nossos nomes em cima e foi lá que depositaram nossos presentes. A família foi generosa e acabamos levantando mais dinheiro do que o necessário pra viajar pra onde queremos. E quando a vida nos dá mais do que precisamos, acredito que é uma sugestão pra dividir com quem está mais necessitada. Então decidimos doar uma parte do nosso presente de casamento e esse gesto pequeno nos encheu de felicidade.

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A cerimônia foi muito especial pra nós porque foi o tio de Anne, que é vice prefeito, que nos casou. Bernard, que também é o pai de Emilie, minha testemunha, passou seis meses escrevendo o discurso lindo que ele leu pra nós e foi muito emocionante. O bom de ter uma cerimônia íntima, só com pessoas muito próximas e realizada por um tio é que cada indivíduo presente nos conhecia bem e estava sinceramente feliz por estar ali celebrando o nosso amor. Tinha quatro gerações naquela sala e a pessoa mais velha da família e a mais jovem estavam conosco. E como foi tudo muito simples e em casa, ninguém precisou comprar roupa nova. Pode parecer bobagem, mas eu não teria gostado de saber que fiz as pessoas terem gastos pra ir ao meu casamento.

Usei uma calça que comprei em um bazar de roupa usada em Paris, anos atrás, e uma blusa da minha irmã caçula, pois queria senti-la presente de alguma maneira naquele dia. E usei, pela primeira vez, o sapato da Insecta Shoes (uma marca brasileira de sapatos veganos feitos com material reciclado) que Márcia, uma leitora do blog, me deu de presente ano passado. Um dia recebi um email dela dizendo: “Muitas vezes, tarde da noite leio os seus posts, depois de um dia cheio de desesperança e notícias ruins, e vejo nas suas palavras e nas suas imagens um mundo onde o ser humano, apesar do sofrimento, não está só, que há pessoas iluminadas que se importam com as outras pessoas e então sinto meu coração aquecido porque, apesar de haver o mal, há pessoas, muitas delas, que ajudam de alguma forma com o que podem dar de si mesmas.” Ela disse que queria me agradecer de alguma maneira e me deu os sapatos. Sempre que olhava pra eles pensava em Márcia e em como somos responsáveis uns pelos outros (e incluo aqui todos os seres) nesse planeta. Foi muito especial ter usado sapatos tão carregados de significado positivo naquele dia. Anne colocou um bottom no blazer que dizia: “Racismo e injustiça existem quando pessoas boas não fazem nada” porque ela achou importante se manter ativista mesmo durante o casamento. Ela nunca me deixa esquecer porque escolho ela, dia após dia, pra me acompanhar nessa aventura que se chama vida.

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Escolhemos alguns dos nossos petiscos preferidos pra acompanhar o brinde. Nada muito sofisticado: pastas pra comer com pão ou legumes crus, samossas com tofu, manga e gengibre, nhoque no palito, chips de couve… Todas as receitas criada ou adaptadas por mim. Apesar de sermos as únicas veganas da família, ninguém reclamou da comida ser inteiramente vegetal, muito pelo contrário. Era uma escolha óbvia e a família fez questão de me dizer que estava tudo delicioso. Surpreendi uma tia-avó, que está beirando os 90, exclamando que se a comida fosse sempre gostosa daquele jeito ela podia muito bem ser vegana. Enquanto degustava os petiscos, um tio me contou que depois de ter participado de um jantar que fiz alguns anos atrás ele passou a ver comida vegana como algo que pode se tão gourmet et delicioso quanto comida tradicional. “No quesito sabor e prazer, comida vegana não fica devendo nada”, ele me falou.

Minhas três cunhadas nos ajudaram a preparar a comida e fizemos quase tudo na véspera. No dia do casamento Emilie se juntou à sororidade pra preparar os últimos pratos. Pedi à uma tia e à madrinha de Anne pra trazerem algo doce pra completar o buffet. A mãe de Anne morreu quando ela ainda era adolescente, mas Hélène, irmã da mãe de Anne, e Annie, que era a melhor amiga dela (e casou com um dos seus irmãos), ocupam na minha vida e no meu coração o lugar que minha sogra teria ocupado. Comida é a minha linguagem do amor e essas duas mulheres incríveis compartilham essa linguagem comigo. Por isso era muito importante pra mim ter um pouco do amor delas na mesa.

Fizemos alguns petiscos especialmente pras crianças e um ponche sem alcool pra elas. Também preparamos uma sopa (jerimum com gengibre e leite de coco) imaginando que as pessoas que ficariam até mais tarde acabariam sentindo fome novamente. Foi sugestão das minhas cunhadas e preciso dizer que foi uma ideia brilhante. Ter uma sopa pronta, esperando pra ser esquentada e servida, foi um presente pra lá de reconfortante no final de um dia tão intenso. E sopa é minha comida preferida, então foi uma maneira perfeita de encerrar as comemorações.

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Optamos por não fazer aquelas fotos tradicionais de casamento, pois acho entediante ficar posando pra foto e não tem nada a ver com o nosso estilo. Pedimos pra família fazer algumas fotos, com suas câmeras ou telefones, e no final recolhemos tudo. Claro que muitas fotos ficaram fora de foco ou com enquadramento ruim. Outras ficaram hilárias. Mas eu adorei, pois elas traduzem perfeitamente aquele dia: espontâneo, relaxado, informal… Uma bagunça feliz e transbordante de amor.

Emilie, as irmãs e o irmão de Anne, mais a esposa dele, se juntaram pra nos oferecer um presente fantástico: uma diária em um hotel 5 estrelas, com spa e direito a um jantar vegano criado pelo chef do restaurante do hotel, especialmente pra nós. No dia seguinte ao casamento tomamos café com a família e pegamos a estrada pra Vichy, a cidade onde ficava o hotel. Além da massagem, sauna, piscina de água mineral e do jantar sublime, foi maravilhoso ter esse tempo só pra nós duas, depois de ter tido tanta gente ao nosso redor o tempo todo por vários dias.

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Sei que meu relato é o de uma pessoa homossexual que tem muita sorte. Nossas famílias nos aceitam plenamente. Hélène, que já passou dos sessenta, nos confessou alguns dias depois do casamento que fazia questão de contar pra todo mundo que a sobrinha tinha casado com um mulher e acrescentou: “Eu tenho muito orgulho de vocês!” As outras tias e tios tiveram uma reação parecida. Uma tia-avó de mais de oitenta anos me puxou pelo braço na prefeitura e disse: “Minha filha, quem você ama só diz respeito a você mesma e ninguém tem o direito de opinar sobre isso.” Um primo veio me contar o favor que eu estava fazendo em entrar pra família porque até então só tinha casais héteros e estava mais que na hora de incluir um pouco de diversidade naquele grupo. Os filhos desse primo (4 e 2 anos) estavam felizes por demais de ir ao casamento e ele explicou que era o primeiro casamento deles e que há meses eles conversavam, cheios de animação, sobre o assunto. A avó de Anne assistiu à cerimônia na prefeitura e participou do brinde. Ela tem a saúde frágil por conta dos quase cem anos que viveu, mas as filhas fizeram questão de ir busca-la no asilo-hospital onde ela mora. Ela nos beijou tantas vezes, sorriu muito e apertou minha mão tão forte que não consegui controlar as lágrimas. Foi o único momento em que chorei naquele dia. Até o prefeito nos felicitou quando demos entrada no pedido de casamento, dizendo que sempre defendeu o direito ao casamento pra todas as pessoas e que a mudança na lei deveria ter acontecido há muito mais tempo. Ele também nos disse que tinha orgulho de ver acontecer um casamento entre mulheres na prefeitura dele (o primeiro casamento do tipo ali).

Mas isso não deveria ser “sorte”, deveria ser a experiência de todas as pessoas celebrando esse tipo de união. Ser aceita pela família, pela sociedade e ter seu casamento validado e festejado é um direito de todas.

A única coisa da qual me arrependi foi de não ter feito algumas fotos com a minha câmera, pra lembrar dos pequenos detalhes. Como os origamis que minha cunhada Claire fez (cisnes, estrelas, pinheiros) pra decorar a mesa. E os buquês que Céline, minha outra cunhada, fez com as folhas e galhos colhidos ao redor da casa. Mas claro que os detalhes importantes ficaram gravados na minha memória. São coisinhas miúdas, mas sempre que penso nelas abro um sorriso. Como quando Emilie me contou que tinha colocado o seu vestido preferido especialmente pra nós e eu tive certeza que não poderia ter escolhido uma testemunha melhor (ela chorou de emoção no dia que perguntei se ela aceitava ser minha testemunha). Quando me contaram que o tio de Anne que nos leva pra colher cogumelos no bosque, famoso por ser a pessoa mais casmurra da família, tinha sido visto chorando durante a cerimônia (como fui perder isso?). Poucos minutos antes ele tinha me dito, dentro de um abraço: “Você é uma das minhas sobrinhas preferidas.” O fato que as duas irmãs de Anne tenham decidido usar um kefieh (lenço tradicional palestino) pra nos acompanhar. Decidimos usar kefiehs naquele dia pra homenagear a Palestina, país onde nos conhecemos. O abraço a quatro, nós duas e nossas testemunhas, logo antes da cerimônia, embaixo do carvalho do jardim, a árvore preferida de Anne. A maneira como o dia terminou, com a família jogando baralho na mesa da sala de jantar, de peruca e com outros acessórios carnavalescos, fazendo piadas e tomando sopa. Eu olhei mais uma vez aquelas pessoas que nunca me ofereceram outra coisa além de amor e aceitação e senti uma imensa gratidão. Por estar onde estou hoje. Por ter casado com uma pessoa que eu admiro tanto. Por ter tanto amor na minha vida. E desejei o mesmo pra todas as outras pessoas.

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Então demos mais esse passo juntas e o nosso casal continua não-convencional. Quero aproveitar o ensejo pra falar de outra coisa importante na minha vida. Eu já mencionei isso, casualmente, em alguns posts, mas não sei se ficou claro pra todas então pensei que um coming out se fazia necessário. Eu sou poli (de “poliamorosa”), o que significa que não sou adepta da monogamia. E já que estou passando na sua tela pra destruir os valores da família tradicional cristã (cof, cof) com fotos do meu casamento lésbico, aproveito pra informar que tenho uma namorada e que ela tem um lugar muito importante na minha vida.

Já tive relações monogâmicas, já tive relações abertas e alguns anos atrás chegamos à conclusão, Anne e eu, que o poliamor era o modelo de relação que mais nos correspondia. Fazia tempo que queria falar sobre isso aqui, pois já estabelecemos que gosto de desmistificar conceitos nesse blog. Esse post me pareceu a oportunidade perfeita porque o assunto dele é amor. E depois de ter visto o frisson causado por Jout Jout quando ela contou que tinha uma relação aberta com o ex namorado, seguido de comentários infelizes e desrespeitosos, percebi o quanto é necessário que mais pessoas poli se assumam publicamente pra ver se a turma monogâmica pára de dar chilique quando vê alguém adotando um modelo diferente.

Percebi que quando explico que sou poli as pessoas têm uma reação idêntica à quando digo que sou vegana. “Você é vegana? Nunca poderia ser vegana (adoro carne/queijo/ovo etc).” “Você é poli? Nunca poderia ter um relacionamento aberto (teria ciúme etc)!” Então deixa eu esclarecer isso de uma vez por todas. Quando eu faço uma escolha de vida é porque eu pensei com meus botões, matutei, estudei todas as opções disponíveis e cheguei à conclusão que era o melhor pra mim. Pra mim! Euzita! Moi! Vamos parar de supor imediatamente que a coleguinha quer que você mude e vamos aceitar que ela está simplesmente compartilhando as escolhas dela. Porque modelo de relacionamento é uma questão de escolha pessoal e cada qual escolhe o que é melhor pra si.

Vamos celebrar o amor, em todas as suas variações, a família, em todas as suas composições e os relacionamentos que nos fazem felizes, lembrando que não existe um só modelo possível. E aceitar que a coleguinha na sua frente decidiu não forçar o coração a caber no modelo pré-estabelecido usado pela maioria e procurou o modelo personalizado que melhor acolhe o coração dela. Sem ficar na defensiva, sem julga-la e sem precisar explicar que isso não daria certo pra você. Porque ela não acha o seu modelo monogâmico errado, de maneira nenhuma, nem espera que você adote o poliamor só porque ela escreveu esse post. (Mas confesso que espero do fundo do coração que você seja vegana um dia.)

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(As taças de champanhe com nossos nomes gravados foi presente de casamento da prefeitura!)

Passei o fim de semana respondendo perguntas feitas pela simpática Samira Menezes, que publicou a entrevista no blog dela ontem, e fiquei pensando nas perguntas que leitores e pessoas que encontro pela vida me fazem com mais frequência. Então pensei em responder algumas delas aqui. Instalem-se confortavelmente no sofá (aceitam um café?) e vamos conversar um pouco.

 Sobre veganismo e o blog

 Acabo de me tornar veg(etari)ano e vivo com fome/ganhei peso/perdi peso/não sei o que comer(etc)… Você pode me ajudar?

Eu gostaria de atender todos os pedidos de conselhos sobre alimentação vegetal que vocês me enviam, mas infelizmente isso é impossível. Embora eu sonhe em ser voluntária em tempo integral, e faça planos de ganhar na loteria pra poder realizar esse sonho, por enquanto ainda preciso fazer trabalhos remunerados pra pagar as contas no final do mês. Por isso não tenho tempo de aconselhar todas as pessoas que me escrevem. Porém não deixem de me escrever. Quando a mesma pergunta é feita várias vezes sei que minhas dicas ajudarão muitas pessoas, então tento escrever um post sobre o assunto. Por isso prometi o post sobre vegs que depois da transição não conseguem mais preencher o buraco no estômago (finalmente publiquei esse post!).

Vou cozinhar pra onívoros que têm preconceito com culinária vegana/torcem o nariz pra qualquer comida sem carne e gostaria de mostrar que comida vegana pode ser deliciosa. Que pratos você sugere?

Minha receita de massa com couve-flor assada e molho de nozes. Esse prato conquista todos, vegs, onívoros e indecisos. Minha segunda opção seria ensopado marinho. Embora menos sofisticado, ele é igualmente popular entre onívoros e tem a vantagem de ser mais inclusivo (vegano e sem glúten), além de utilizar ingredientes mais baratos. E de sobremesa recomendo o pavê trufado de chocolate amargo e morango ou, se você encontrar todos os ingredientes, o creme voluptuoso de chocolate e laranja (vegano e sem glúten).

É Anne que faz as fotos que aparecem no blog?

Muita gente deduz que, por ela ser fotógrafa, as fotos que ilustram minhas receitas são dela. Mas as fotos que publico aqui são minhas, tirando algumas exceções (sempre indico quando uma foto não foi feita por mim).

As receitas que aparecem no blog são suas? Como você faz pra criar receitas?

Todas as receitas que publico aqui são minhas, com algumas exceções. Assim como as fotos, se a receita não é minha eu informo e indico o nome do autor(a). Expliquei direitinho de onde vem a inspiração pra criar receitas na entrevista que citei acima, mas vou copiar/colar aqui. Comida pra mim é quase uma obsessão, então estou constantemente pensando no assunto e criando receitas na minha mente. Eu vejo inspiração por todos os lados. Leio vários blogs/sites de culinária e adoro livros de receitas, que leio antes de dormir, como se fossem romances. Também adoro ler cardápios de restaurantes, é uma ótima fonte de inspiração. Comer em restaurantes me inspira, comer na casa dos amigos me inspira, visitar feiras e mercados me inspira… Viagens talvez seja o que mais me inspira, pois quando viajamos todos os sentidos ficam em alerta e você se abre mais facilmente pro novo. É fácil se acomodar e usar sempre as mesmas combinações de ingredientes quando estamos em casa, mas viagens me  forçam a sair da minha zona de conforto e a explorar novas possibilidades, novos ingredientes. Toda essa informação se acumula em algum lugar do meu cérebro e forma uma espécie de banco de dados gastronômico, que está constantemente me mandando sinais, que são esboços de receitas. Claro que esses esboços precisam ser testados e adaptados algumas vezes antes de chegar no resultado que estou procurando.

Você acha errado comer ovos não fecundados de galinhas criadas em liberdade?

Várias pessoas me perguntam isso e estou devendo um post sobre o assunto à minha leitora-amiga Susana. Então tem mais um post no forno.

Veganos podem comer comida fermentada? Bactérias contam como animais?

Eu não tenho problema nenhum em comer comida fermentada, como iogurtes de leite vegetal, tempeh e esses legumes. Comida naturalmente fermentada é ótima pra saúde e nunca encontrei um vegano que tivesse problemas morais ingerindo bactérias. Pensar assim seria uma loucura, pois elas estão em todos os lugares e engolimos um número grande diariamente, querendo ou não. E como me disse um amigo (onívoro) um dia, você não está matando as bactérias da comida fermentada que ingere, está oferecendo um novo lar pra elas no seu estômago:)

Se você tivesse que escolher entre salvar a vida de um bebê ou de um bezerro, você salvaria o bezerro? 

Não. E se tivesse que escolher entre salvar a vida do meu bebê ou do seu, salvaria o meu.

Se você estivesse presa em uma ilha deserta, comeria animais pra sobreviver? 

Sim. E gente também.

Não sou vegetariano, muito menos vegano, mas adoro o seu blog.

Isso não é uma pergunta, mas li essa frase tantas vezes que gostaria de fazer um comentário. Queridos leitores onívoros, se vocês estão estranhando o fato de gostar de um blog de comida vegetal, nada temam: isso é totalmente aceitável. Esse blog é pra todos os amantes de comida vegetal gostosa, independente da raça, credo, filosofia de vida, afiliações políticas, preferências musicais, orientação sexual e gastronômica. Se você tem papilas gustativas, interesse em descobrir novos sabores e gosta de ler histórias interessantes, você está no lugar certo. Puxe a cadeira e sinta-se em casa (se eu pudesse, te ofereceria um chazinho também). Não precisa se justificar nem se desculpar por não se alimentar da mesma maneira que eu. E se você está colocando sua identidade gastronômica em dúvida, saiba que não tem nada de errado em experimentar coisas novas de vez em quando.

Posso fazer uma sugestão?

Deve! Adoro receber emails com sugestões de coisas que vocês gostariam de ver aqui no blog. Nem sempre consigo responder, mas saiba que se você me escreveu enviando uma sugestão eu li, te agradeci no meu coração (e esqueci de escrever te agradecendo de verdade) e fiz uma anotação mental. Assuntos que vocês gostariam que eu tratasse, ideias de posts, sugestões pra melhorar o blog, tudo isso é muito bem-vindo.

Sobre voluntariado e a Palestina

Gostaria de fazer um trabalho voluntário, mas não sei o quê. Alguma dica?

Dei muitas nesse post.

Que tipo de trabalho você fazia no campo de refugiados?

Contei tudo nesse post e nesse aqui.

Quero trabalhar/visitar um campo de refugiados na Palestina. O que devo fazer?

Na Palestina tem dezenas de ONGs e não é difícil trabalhar como voluntário por um tempo por lá. Porém se prepare pra pagar tudo do seu bolso, pois as organizações não tem condições financeiras de pagar um salário nem de cobrir as despesas de todos os estrangeiros que querem morar um tempo por lá. É difícil indicar organizações, pois dependendo da sua área de trabalho e dos seus talentos alguns projetos são mais indicados do que outros. Felizmente todas as ONGs têm um website então google é o seu melhor amigo aqui. Se achar algo que realmente te interesse, pode me escrever contando tudo e se eu conhecer a associação te darei minha opinião honesta sobre os projetos que ela organiza.

Você acha que a situação dos palestinos vai melhorar um dia? Como?

Tenho certeza que a situação dos palestinos vai melhorar um dia, mas acho que não estarei aqui pra ver esse dia chegar (espero sinceramente estar errada). Como? Não tenho os instrumentos nem os conhecimentos necessários pra fazer esse tipo de previsão.

Pessoal

Como você se mantinha na Palestina se era voluntária?

Eu vivi os primeiros anos com as economias que tinha. Levo uma vida muito simples, não me empolgo pra comprar nada (além de comida, claro), só uso roupa de segunda mão, não bebo, não gosto de sair à noite… Ou seja, não tenho muitas despesas (tirando as passagens de avião pra visitar a família). Depois que as economias acabaram eu comecei a fazer pequenos trabalhos: aulas de francês (particular e na Aliança Francesa de Belém), traduções, aulas de culinária. Também transformava minha casa um restaurante de vez em quando e escrevi dois e-books. Financeiramente falando minha vida é bem instável, mas até hoje nunca faltou teto sobre a minha cabeça e nunca fui dormir com o estômago vazio, então eu a considero um sucesso. Mas não tentem fazer isso em casa.

Como era ser lésbica em um país como a Palestina?

Menos difícil do que se imagina. Meus amigos palestinos mais próximos sabem e me aceitam do jeitinho que sou. Também tenho muitos amigos estrangeiros morando por lá e a gente se reunia frequentemente na casa de um ou de outro, onde o clima era de aceitação total. Eu também podia conversar livremente com os amigos israelenses (muitos deles gays). Então o meu círculo de amigos por lá era composto desses três grupos e tudo sempre ia maravilhosamente bem. O fato de não poder andar de mãos dadas na rua, beijar em público ou falar abertamente sobre relacionamentos com todas as pessoas que cruzavam o meu caminho não me incomodava tanto, pois eu tinha muitos amigos e ocasiões onde eu não precisava esconder quem eu era. Porém vale lembrar que essa é a experiência de uma estrangeira morando lá. Pra um palestino gay morando no mesmo lugar a história é completamente diferente (se quiser saber mais, leia um dos meus posts preferidos de todos os tempos, que conta a história de amor entre um palestino e um israelense)

Por que você decidiu ir morar em Bruxelas?

Por razões puramente pragmáticas. Tem muitas ONGs na cidade, o que é interessante pro trabalho de Anne. A culinária vegetal desperta bastante interesse nas pessoas daqui, o que é interessante pro meu trabalho. E estamos mais perto da Palestina do que se estivéssemos morando no Brasil, o que é importantíssimo, já que pretendemos continuar indo regularmente pra lá. E as pessoas falam Francês, uma língua que nós duas dominamos (não queria ter que aprender uma nova língua). Além disso tudo temos bons amigos aqui, a cidade é extremamente multicultural e não é muito grande, três pontos importantes pra nós.

O que aconteceu com os seus gatos?

Os gatos que vocês viam aqui não eram tecnicamente meus. Eles eram da vizinha, embora passassem a maior parte do tempo na minha casa, o que fez com que nós nos adotássemos mutualmente. Antes de ir embora a vizinha disse que criar os três gatos sozinha era demais, então uma amiga israelense adotou a fêmea e o bebê. O macho continuou morando com Violete (a vizinha).

Você não pensa em voltar pro Brasil? 

Às vezes penso, mas não sei se isso vai acontecer nem quando.

Você não sente saudade de casa? ou Onde é a sua casa? 

Leia esse post.

Digamos que você queira paquerar uma mulher, como é que você sabe se ela é lésbica? (pergunta sempre feita por heteros que não têm muito contato com a comunidade gay)?

Como estou procurando fontes alternativas pra ganhar dinheiro e poder passar mais tempo dando conselhos sobre alimentação vegetal pros leitores desse blog, decidi que não vou mais dar informações valiosas de graça. Quem quiser saber a resposta vai ter que pagar.

As perguntas mais hilárias

Essas perguntas não vieram de leitores, mas de crianças que encontrei vida afora. E crianças fazem as melhores perguntas de todas, originais e engraçadíssimas, por isso eu precisava inclui-las nesse post.

Foi você que morreu e ressuscitou na Palestina?

Semana passada dei uma palestra sobre a Palestina pra um grupo de crianças que está fazendo catecismo. Avisaram ao grupo que ‘uma pessoa que morou na Terra Santa’ ia conversar com eles e quando entrei na sala fui recebida com essa pergunta. Explodi de rir e falei pra menina que fez a pergunta que ela estava me confundindo com um certo galileu.

Já que você e Anne não podem fazer um bebê, se quiserem um filho o médico vai ter que pegar um bebê, abrir a sua barriga, colocar o bebê dentro e costurar?

Essa menina, filha de uma amiga de Anne, tem uma imaginação fértil e sangrenta. E aparentemente nunca ouviu falar em adoção.

Você é a mãe de Ronaldo?

Um dia, quando eu fazia babysitting em Paris, fui tomar conta de um menininho louco por futebol e mais louco ainda por Ronaldo (na época ele ainda era ‘o fenômeno’). O pai teve a brilhante ideia de dizer que eu vinha do mesmo país que Ronaldo, então o garoto se empolgou todo, me recebeu vestido com a camisa da seleção brasileira de futebol e começou a me bombardear com perguntas. “Você é a mãe de Ronaldo?”. “Não”. “Você é tia de Ronaldo?”. “Não.” “Você é prima de Ronaldo?”. “Não.” “Você é vizinha de Ronaldo?”. “Olha só, o Brasil é um país muito grande, cheio de gente e eu não sou da família de Ronaldo, não conheço Ronaldo, nunca vi Ronaldo na vida nem nunca vou ver.” O fã de Ronaldo me olhou desapontado, ficou um tempo em silêncio, mas depois da pausa começou uma nova série de perguntas:

-“Sua casa brilha?”

-“Não.”

-“Seu quarto brilha?”.

-“Não.”

-“Sua cama brilha?”

-“Acho que está na hora de você ir pra cama.”

O meu primeiro sobrinho chegou quando eu tinha oito anos. Lembro de ter contado, toda feliz, a novidade na minha escola: eu já era tia e as outras meninas me deviam respeito (pelo menos foi o que eu pensei). Mas aos oito anos eu estava mais interessada em… Bem, não lembro exatamente o que me interessava quando eu tinha oito anos, mas sobrinhos com certeza não faziam parte da lista. Só quando me tornei tia pela segunda vez, dois anos depois, percebi o significado daquilo.

Quando minha irmã Lila (a da salada) engravidou ela tinha 28 anos, era independente financeiramente, vacinada e… solteira. A notícia foi um verdadeiro terremoto pros nossos pais, mas minha irmã queria aquele bebê mais que tudo e foi em frente apesar dos pesares. Anos depois li algo que eu gostaria de ter dito pros meus pais naquela época: “É melhor ganhar alguém que a gente vai amar do que perder alguém que a gente ama”. Mas nem foi preciso, eles acabaram entendendo isso sozinhos.

Eu dividia o quarto com Lila e pude ver, semana após semana, a evolução da gravidez. Tinha uma velha tv no quarto e à noite assistíamos à novela juntas, cada uma na sua cama, e ela massageava a barriga com óleo de amêndoas (pra evitar estrias). Eu tinha dez anos, mas aquele ritual ficou gravado na minha memória nos mínimos detalhes: o cheiro do óleo, os movimentos lentos e circulares que ela fazia, as luzes da tv refletidas no seu rosto, a novela que assistíamos juntas…  E eu via, maravilhada, a minha sobrinha crescendo dentro da minha irmã.

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Lembro quando esperei as duas voltarem da maternidade, meu coração batendo acelerado, curiosa pra ver o bebê que minha irmã trazia pra nós. No meio dos adultos que esperavam comigo não consegui ver a minha sobrinha, mas assim que minha irmã foi pro quarto com o bebê eu segui as duas e pedi pra ver aquele ‘pacotinho’ de perto.  Lenita ficou famosa na família por ser um dos bebês mais feios que apareceu por lá, mas juro que naquele momento eu vi um milagre: de dentro da barriga untada de óleo que eu contemplava todas as noites tinha saído um serzinho perfeito. Lila falou pra eu sentar e colocou o bebê nos meus braços. Foi a primeira vez que carreguei um recém-nascido no colo e ela me pareceu tão incrivelmente pequena e frágil que tive medo de me mexer e machuca-la. Quando levantei a vista eu estava sozinha no quarto e o medo de fazer um movimento e ferir aquela florzinha me paralisou. Eu podia ter colocado o bebê no berço, podia ter chamado alguém pra me ajudar, mas fiquei a tarde inteira ali, imóvel, quase sem ousar respirar, olhando Lenita dormir nos meus braços. Hoje me dou conta que o que minha memória de criança gravou como ‘uma tarde inteira’ provavelmente não tenha passado de alguns minutos, mas é assim que me lembro do episódio. E naquela tarde eu descobri o amor. Eu tinha acabado de conhecer aquele bebê, mas teria passado o dia inteiro sem me mexer, só pra não correr o risco de fazer algum mal pra ele. Eu já amava aquele bebê com todas as partículas do meu corpinho de criança.

Lenita cresceu com a gente e aprendi com a minha irmã a cuidar dela. Eu via Lila bater leite com biscoitos no liquidificador, cortar o ‘coração’ da melancia (a parte mais doce) e oferecer pra ela e fazia a mesma coisa. Mas ter uma babá de dez anos nem sempre é seguro e lembro muito bem do que aconteceu um dia em que coloquei Lenita sentadinha em cima da mesa. Ela achou uma faca e fechou a mãozinha ao redor da lâmina. Meu primeiro impulso foi puxar a faca, ao invés de abrir a mão dela. Só depois de ter feito isso me dei conta do perigo. Felizmente a faca não era nem um pouco amolada e só arranhou a pele fina que revestia os seus dedinhos. Não saiu nem uma gota de sangue, mas mesmo assim chorei de remorso.

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Quando ela já falava e corria por todos os lados eu gostava de dizer: “Vou fazer cosquinha e só paro quando você ficar azul”. Ela sempre topava a brincadeira, mas quando não aguentava mais as cócegas gritava: “Eu já tô azul, eu já tô azul!”. Anos mais tarde, quando ela já não acreditava mais que podia mudar de cor graças às cócegas que eu fazia nela, Lenita começou a me fazer perguntas. Um dia eu escutava ‘Bandeira’, de Zeca Baleiro (que eu tinha acabado de descobrir), quando ela me perguntou o que era ‘mamilo’. Aos seis anos ela se chocou com o cabimento do cantor e eu ri muito quando ela disse: “Língua no mamilo, onde já se viu!”. (Fãs de Zeca, e sei que vocês são muitas por aqui, a opinião da minha sobrinha sobre ele mudou bastante e ela até vai aos shows dele hoje em dia!)

Lê tinha dez anos quando eu fui morar no exterior. A partir daí a gente começou a só se ver a cada dois anos e eu acompanhei a sua adolescência de longe. Durante esses anos eu acabei, quase sem perceber, me afastando dela. Não tenho muita paciência com adolescentes e a florzinha que eu amava tanto tinha se transformado em uma moça com gostos e valores tão diferentes dos meus que nem sempre era fácil conversar com ela. Mas teve esse dia no ônibus, voltávamos do cinema, quando eu perguntei pra ela: “E se suas amigas zombarem de você dizendo que você tem uma tia sapatão, você faz o quê?” e ela respondeu: “Eu digo ‘E daí? Não quer ser mais minha amiga? Problema seu!”. Naquele dia minha sobrinha me ensinou o amor pela segunda vez. Pra mim ela tinha crescido e mudado, mas pra ela eu nunca tinha deixado de ser a tia que ela amava.

Hoje Lenita tem vinte anos, exatamente a idade que eu tinha quando troquei minha cidade natal por Paris. Quando penso na jovem de vinte anos que fui e na jovem de vinte anos que minha sobrinha se transformou, percebo que não poderíamos ser mais diferentes. Contrariamente a mim, que só pensava em ir embora, ela adora estar com a família. Quase todo jovem de vinte anos que encontrei pela vida queria aventuras, de preferência bem longe da família, mas minha sobrinha é mais feliz quando estamos todos reunidos. Ela ainda mora na mesma casa onde Lila passou nove meses massageado a barriga com óleo de amêndoas, junto com a mãe e meus irmãos caçulas. Ano passado ela me emocionou ao ponto de me fazer chorar quando disse que sempre que meu irmão, de quem ela é muito próxima, vai trabalhar ela fica contando as horas pra ele voltar pra casa. Ela conseguiu conservar o coração sem malícia e a inocência da florzinha que ria no meu colo gritando “Já tô azul! Já tô azul!”.

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Lenita ama profundamente os animais e sempre quis ser veterinária. Mas na nossa cidade não tem esse curso, então quando entrou na faculdade, dois anos atrás, ela foi estudar zootecnia. Me partia o  coração saber que alguém que tinha tanta vontade de cuidar de animais não humanos estava se preparando pra exercer uma profissão que, segundo a definição da Wikipédia, “visa aproveitar as potencialidades dos animais domésticos e domesticáveis com a finalidade de explorá-los racionalmente como fonte alimentar e outras finalidades junto aos seres humanos”. Explorar animais, ‘racionalmente’ ou não, não era o que minha sobrinha queria fazer e vê-la seguir esse caminho me deixava duplamente triste. Mas ano passado ela decidiu fazer reingresso pra veterinária.

Estou escrevendo essas linhas porque minha sobrinha começou a estudar, algumas semanas atrás, medicina veterinária e eu queria muito que ela soubesse o quanto estou orgulhosa dela. Ela abandonou zootecnia no meio do curso e resolveu seguir sua verdadeira vocação. Não foi uma escolha fácil, pois agora ela está morando a quase 300km de casa. Além das dificuldades econômicas causadas pela mudança, de ter que se adaptar a uma faculdade nova e a uma cidade nova (em pleno oeste potiguar e tão quente que não sei como os miolos dos habitantes não derretem!), além do desafio de fazer novos amigos em um lugar onde ela não conhece ninguém, pela primeira vez na vida ela está longe da família que tanto ama. Mas ela decidiu enfrentar isso tudo e correr atrás do seu sonho, assim como o que fiz na sua idade. Aos vinte anos eu fui pra bem mais longe, mas nossas motivações eram as mesmas.

Então queria que minha sobrinha soubesse o quanto eu tenho orgulho dela, da pessoa linda que ela é (agora ela é linda por dentro E por fora!) e que tenho certeza que ela será uma excelente veterinária. Faz muitos anos que ela não cabe mais nos meus braços, mas o amor que me invadiu naquela tarde em que a carreguei no colo pela primeira vez ainda me invade cada vez que eu a vejo sorrir.

*Fotos: 1- Lenita e o cachorro do meu sobrinho, Zeus. 2-Com a mãe, Lila. 3- Lara, outra sobrinha, Lila e Lenita (a gente gosta de nomes que começam com ‘L’).  4- Com o cachorro dela, Lilo.