Estou atualmente no interior da França, passando alguns dias de férias com a família francesa. Quem me procurar essa semana vai me encontrar entre a cozinha e o imenso e delicioso jardim do meu sogro. Mas vou deixar vocês em boa companhia: tenho mais uma entrevista da série ‘Porque me tornei vegano’ pra dividir com vocês. Samira Menezes faz parte do meu grupo de ‘amigos virtuais’ e é uma flor. Ela é paulistana mas mora em Milão e ando torcendo pros nossos caminhos se cruzarem aqui no velho mundo. Samira é jornalista e tem um blog, o Miscelânea Milanesa, onde ela divide suas descobertas “culinárias, animalistas e mundanas”. Fiquei super feliz quando ela aceitou ser entrevistada aqui no blog, pois ela tem coisas interessantíssimas pra dividir conosco.

Quando você se tornou vegana e o que te levou a adotar esse estilo de vida?

Me tornei vegetariana em 2006 e vegana em 2008. O empurrão inicial veio da Revista dos Vegetarianos. Em novembro de 2006 comecei a trabalhar nesta publicação e me pareceu sensato praticar o vegetarianismo, já que dali em diante eu deveria escrever sobre esse estilo de vida. Então, em dezembro daquele ano parei de comer carnes por pura curiosidade. Queria ver como meu corpo reagiria, quais situações eu vivenciaria sendo uma vegetariana, mas, principalmente, o que eu poderia comer de diferente praticando o vegetarianismo. O fato é que sempre fui muito gulosa e até hoje adoro saborear bem os alimentos e os temperos. Na verdade eu estava mais interessada nisso do que em outra coisa.

Com o tempo, percebi que não só o vegetarianismo era muito gostoso, como também me ajudou a “curar” alguns probleminhas chatos de saúde, como intestino preso e acne leve, que me atormentavam bastante. Nesse meio tempo, a curiosidade se transformou em convicção graças ao acesso à informação, pois todo mês eu precisava buscar notícias, entrevistar ativistas, conversar com nutricionistas… Então, saber como os animais vivem e morrem para chegar até o prato de alguém e entender melhor sobre nutrição vegetariana foram dois fatores essenciais para o passo seguinte, ou seja, o veganismo.

Quais foram as maiores dificuldades que você enfrentou durante a transição?

Não tive uma fase de transição propriamente dita, porque acordei um dia e falei “agora não como mais carne”. A maior dificuldade foi ser paciente com gente pentelha que teimava em meter o bedelho no meu prato, depois que anunciei publicamente meu vegetarianismo. Ouvi um monte de previsão furada: de que eu ficaria doente, que depois de dois meses eu voltaria a comer carne e outras. Certo, pelo tempo que demorei para me tornar vegana, dá pra deduzir que a maior dificuldade, para uma gulosa como eu, foi tirar o queijo e o ovo do cardápio. Mas, considerando que queijo brasileiro é ruim demais e que ninguém em sã consciência come ovo todo dia, nem sei por que eu demorei tanto pra tirar aquele horroroso queijo minas da minha vida, por exemplo.

Se pudesse voltar no tempo em que você ainda estava engatinhando no veganismo, que conselho daria a si mesma? Quais foram os erros que você cometeu e que poderiam ter sido evitados?

Não me daria nenhum conselho porque acho que não errei em nada. Levei o tempo que achei necessário para me tornar vegana e, mesmo depois de ter me tornado uma, já comi queijo porque não queria deixar meu anfitrião desapontado. Nem isso eu considero errado. A anfitriã era uma pessoa muito especial, muito anciã, viveu a Segunda Guerra Mundial – período em que a fome estava sempre à sua espreita – e tinha preparado uma receita com queijo e tomate porque sabia que eu não comia carne. Não gosto de inflexibilidade na vida. Sem maleabilidade, objetos, ideias e relações podem se romper com muito mais facilidade. Então, eu vejo esse episódio específico assim: a anfitriã foi maleável e fez uma receita sem carne só para mim e cabia a mim, naquele momento, também ser maleável e receber aquele agrado. Comi, elogiei sinceramente o prato, porque estava bom mesmo, e vi o quanto ela ficou satisfeita por ter conseguido agradar uma vegetariana. Hoje, infelizmente, essa pessoa já faleceu e aquele dia que passei com ela é uma boa lembrança.

Qual a parte mais difícil do veganismo pra você (equilibrar dieta, comer fora, eventos sociais…)? 

Sem dúvida os eventos sociais. Às vezes não dá para avisar que sou vegana ou até dá, mas a pessoa não tem noção nenhuma do que isso quer dizer. Então, ou eu como antes ou me viro com um pão e uma salada na ocasião. Mas acho que ninguém vai morrer por passar algumas horas sem comer algo mais substancioso. O máximo que pode acontecer é você ficar de mau humor, como eu fico quando estou com fome.

O que te inspira (pessoas/organizações/ações/movimentos) no terreno do veganismo/direitos dos animais?

O que me inspira é comida boa, saúde, amor e cultura. Por isso, e sem querer ficar puxando a salsinha pro seu lado, digo publicamente que você é um dos veganos que me inspira. Sei que a gente não se conhece pessoalmente, mas tenho a sensação de que o Papacapim é uma Sandra em palavras. Seus textos são bem escritos, coerentes, interessantes e sempre trazem uma mensagem positiva embutida. Além, é claro, de receitas apetitosas e dicas valiosas.  (Prometi um jantar à Samira caso ela aceitasse participar dessa série e dissesse coisas legais sobre a minha pessoa. Eu compro os meus entrevistados 🙂 

Desde que você se tornou vegana, teve algum momento (ou vários) em que você duvidou da pertinência do veganismo? Algum tipo de pensamento ou experiência que te deu vontade de jogar a toalha? Se sim, o que fez com que você continuasse achando o veganismo o melhor caminho pra você?

O veganismo é sempre pertinente e talvez seja a alimentação do futuro, caso as pessoas queiram realmente ter um futuro decente. Eu particularmente nunca duvidei disso. Se alguém duvida, sugiro que leia mais e busque os fatos. O meio ambiente está sendo destruído, principalmente por essa gula que as pessoas têm por carne. Os oceanos estão virando um deserto azul por essa mania de comer peixe. E muita gente está morrendo por causa de doenças provocadas pelo excesso de gordura saturada, proveniente de produtos de origem animal, como ovos e laticínios. Um livro que achei bem interessante e que já está traduzido para o português é Comer Animais, do Jonathan Safran Foer. Para quem lê inglês, Beyond beef, do Jeremy Rifkin, e The China Study, do Dr. T. Collin Campbell também foram muito esclarecedores e só fortaleceram meu ideal vegano.

Qual a sua opinião sobre laticínios orgânicos, happy meat, matar animais de maneira ‘humana’ e ovos de galinhas criadas em liberdade?

Uma maneira de as empresas cobrarem mais caro dos consumidores e, consequentemente, ganharem mais dinheiro. Quanto ao conceito de matar animais de maneira humana, eu, sinceramente, gostaria que alguém me explicasse isso direito, porque para mim as palavras “matar” e “humana” na mesma frase não faz muito sentido. Quer ver um exemplo? Ele matou o amigo de maneira humana, pois deu à vítima o direito a um banho relaxante e a massageou antes de cortar sua garganta. Esse assassinato é menos cruel porque o assassino se preocupou com o bem-estar da sua vítima? Eu acho que não. Mas, como estamos falando de animais coisificados pela cadeia de alimentação industrializada, é muito cômodo usar isso para permanecer naquela zona de conforto, alienada e preguiçosa.

Quais os conselhos que você daria pra quem está pensando em se tornar vegano?
Comece hoje.

Como você lida com o fato ter um marido onívoro? Como você se sente, como organiza o dia-a-dia (compras, refeições)? Uma dica pra quem está em um relacionamento com um não vegano/a?

Uma dica pra um vegano que está num relacionamento com um não-vegano é: ame sem preconceitos. Se a coisa estiver ruim demais ou insuportável para você, significa uma coisa só: o amor acabou ou nunca existiu. Se de um lado o amor me inspira, do outro a flexibilidade me ajuda a ter uma convivência pacífica com onívoros que amo, como meu marido e toda a minha família. Então, acho que lido com o fato de o meu marido ser onívoro de maneira normal. Eu não como carne, ele sim e é assim que é. Claro, tem dias em que os nervos estão à flor da pele e daí ele reclama do cheiro de pum que o brócolis solta quando vai para a panela e eu reclamo de ele não se importar com os bichos e da grelha suja de carne. Mas não é todo dia que faço brócolis e também não é todo dia que ele come carne. Aliás, recentemente fizemos uma espécie de lua-de-mel na Sicília e ele não comeu carne durante os 12 dias que ficamos por lá. Não por minha causa, mas porque não estava com vontade. Isso, porém, não mudou o amor que sinto por ele.

Em casa, acho que somos bem civilizados e respeitamos algumas regrinhas: eu faço a feira e preparo os pratos vegetarianos. Aliás, graças aos vegetais, que ele aprendeu a gostar depois de me conhecer, em 2008, ele ganhou mais saúde. Duas amigas nossas (onívoras) já mencionaram que de uns tempos pra cá a aparência dele está mais saudável e rejuvenescida. Na cabeça dele o crédito disso é meu, porque eu preparo muitos legumes e verduras pra nós. Se ele está com vontade de comer carne, é ele que deve ir ao açougue, comprar o produto, preparar e lavar o que estiver sujo por causa do preparo, inclusive o fogão. Até agora tem funcionado dessa maneira, mas acredito que casais com pontos de vista muito diferentes podem colocar o amor à prova com a chegada dos filhos. Como eu não tenho nenhum filho e, no momento, não morro de amores pela ideia de ser mãe, prefiro não pensar nisso. Só sei que se eu engravidar, enquanto o bebê estiver na barriga, ele será vegano.

Se eu pudesse passar um dia na sua cozinha o que encontraria no seu prato (da hora que você acorda até a hora de ir pra cama)?

De manhã você ia encontrar alguma fruta (hoje foi pêssego), pão integral tostado com húmus ou tahine e uma xícara de café preto adoçado com açúcar mascavo, mas sei que tomaria o café sozinha, porque sei que você odeia essa bebida e açúcar. (Samira, habibti, eu adoro café com todas as minhas forças. A única diferença é que café com açúcar é pra mim tão intragável quanto café com sal.) Umas duas horas depois você ia me ver comendo castanhas e frutas secas, acompanhadas de meio litro de água ou de suco de laranja. Na hora do almoço eu te ofereceria arroz integral feito com cenoura ralada, gergelim, curry e salsinha; tempeh feito com patê de azeitona e cebola roxa; uma saladinha de alface e rúcula temperada com azeite extra virgem, ervas de Provence e limão siciliano. Para beber, água à vontade. No meio da tarde eu te convidaria pra tomar um shake feito com leite de aveia enriquecido com cálcio, semente de linhaça, banana, morango e canela. E, à noite, exigiria que você deixasse de ser tão saudável e saísse comigo para comer uma pizza vegetariana ou que ficássemos em casa mesmo, para você saborear minha massa ao sugo, acompanhada de vinho Nero D´Avola e de berinjela ou abobrinha grelhada, regada com azeite de oliva extra virgem. (Quem te disse que eu não como pizza, menina? Pode ter certeza que o cardápio da sua casa me agradaria por demais!) 

Você está no corredor da morte. Qual a sua última refeição (pode ser vegana ou não. Você vai morrer, então a polícia vegana te perdoa:)? 

Que pergunta macabra! Por que eu estaria no corredor da morte? Mas enfim, se eu soubesse que teria direito a uma última refeição, pediria um prato generoso de aspargos frescos (cozidos obviamente), acompanhados de coração de alcachofra, de couve refogada com alho, de berinjela grelhada e de um punhado de azeitonas doces – um tipo de azeitona que tem aqui na Itália. Ela se chama “doce” não porque tem açúcar, mas porque tem bem menos sal do que as outras azeitonas. Para beber, eu ia querer um vinho tinto de altíssima qualidade e uma garrafa de água fresquinha.

Alguma receita simples e saborosa pra dividir com os meus leitores?

Aquela do shake que a gente tomaria a tarde se você passasse um dia comigo. Bata no liquidificador um copo de leite de aveia gelado, uma banana madura, seis a dez morangos, uma colher de sopa de linhaça e canela em pó a gosto. Bata bem e beba em seguida.