Muitas luas atrás eu comecei uma série de entrevistas com pessoas veganas. Recentemente resolvi dar continuidade à série, mas com versões mais curtas, publicadas no meu perfil no Instagram. Também decidi que iria entrevistar (por enquanto) apenas pessoas não-brasileiras, pra mostrar as cores do movimento vegano no exterior. O veganismo liberal das ONGs e celebridades de Instagram acaba dando uma ideia falsa do veganismo e eu queria mostrar como o movimento é diverso e construído por pessoas que entendem o veganismo como uma extensão lógica da luta anti-opressão. Existe um esforço em propagar o mito de que fora do Brasil o movimento vegano é homogêneo e todo liberal. Nos países onde morei (França, Palestina, Inglaterra, Alemanha, Líbano e Bélgica) pude constatar que isso não podia estar mais longe da realidade. Então pensei em trazer as vozes de algumas militantes antiespecistas do exterior pra que vocês vejam por si mesmas.

Como essa série foi pensada pra ser compartilhada no Instagram, onde os caracteres são limitados, faço apenas três perguntas: 1- O que é veganismo? 2-Por que você se tornou vegana? 3-Como derrubar o especismo?

Mas quando pedi ao meu querido amigo Craig pra responder essas perguntas, ele me enviou um texto longo demais pra ser publicado no Instragram, mas interessante demais pra não ser compartilhado. Então a solução foi postar uma versão bem curta no Instagram e publicar a versão integral aqui.

Craig é britânico, um dos maiores militantes antiespecistas que conheço e vegano há mais de 30 anos.

O que é veganismo?

Pra mim, o veganismo tem a ver com a capacidade, usando do meu privilégio, de me desligar um pouco de um sistema de exploração. Existem inúmeras maneiras pelas quais animais humanos e não humanos são explorados neste mundo e eu sinto que se nós, como indivíduos, pudermos fazer algo para impedir que um dano seja causado, removendo nosso apoio físico ou financeiro a esse sistema, então isso se torna um imperativo moral.

Veganismo -boicotar produtos vindos da exploração animal, seja o alimento que comemos ou bebemos, ou as roupas que vestimos- é apenas parte da solução, definitivamente não é a única coisa que podemos ou devemos fazer. Nós, que somos capazes de viver uma vida vegana, pessoas que têm o privilégio de escolher o que consomem, precisamos fazê-lo. Como podemos continuar a participar de um sistema que gera sofrimento se nós temos a capacidade de sair dele? “Por que ser cruel quando você pode ser gentil?”, como um amigo disse uma vez.

Acredito firmemente que veganismo não é uma dieta, é um ato político, um ato de solidariedade com animais não-humanos. É um ato político de boicote análogo à campanha pra boicotar produtos israelenses por causa da ocupação da Palestina, ou ao boicote aos produtos sul-africanos em apoio àqueles e àquelas que viviam sob o regime de apartheid naquele país.

E o veganismo certamente não é o mesmo que “plant-based”, que não passa de uma escolha dietética sem substância que pode mudar a qualquer momento. Isso significa que ser vegana é mais do que apenas evitar produtos de origem animal, é estar ciente de como tudo o que consumimos é produzido: considerando as pessoas que cultivam, colhem, produzem os alimentos, o impacto ambiental dessa produção e consumo, etc.

Ser vegana definitivamente não é sobre ser ‘perfeita’, o que é impossível. Eu vivo em uma sociedade capitalista, onde a maioria das coisas que faço têm um efeito prejudicial sobre outros animais (humanos e não-humanos) e pro meio ambiente. Pra mim é sobre estar ciente desses danos e aprender o que posso fazer para reduzi-los ou eliminá-los o máximo possível. A conscientização é o primeiro passo pra criar mudanças.

Por que você se tornou vegano?

No início da adolescência comecei a militar por direitos humanos e descobri como todas as questões de exploração estão interconectadas. Eu cresci na Inglaterra e na época a mídia estava cheia de imagens angustiantes de pessoas passando fome na Etiópia. Eu já quase não comia carne, porque a ideia de que animais eram mortos pra que eu os comesse não me agradava, e uma vez que tomei consciência do impacto das dietas ocidentais centradas em carne na vida das pessoas no Sul Global parar de comer carne por completo era o única opção possível para mim.

Eu li livros sobre soberania alimentar e fiquei horrorizado ao descobrir que enquanto populações inteiras passavam fome, seus países cultivavam grãos pra serem exportados e alimentar animais de criação no Norte Global. A causa de tanta pobreza e fome não era um excesso de pessoas no mundo nem uma escassez de comida, era o capitalismo, que depende da distribuição desigual de recursos pra existir. Tornar-se vegetariano quase não foi uma escolha, foi uma necessidade.

Naquela época eu não conhecia nenhuma pessoa vegana, mas quando me tornei ativo no movimento por direitos animais o veganismo foi o próximo passo lógico.

Ter me tornado vegano na adolescência, mais de 30 anos atrás, fez com que eu tivesse que aprender a cozinhar. Na época havia poucos alimentos processados veganos disponíveis, geralmente encontrados apenas em lojas especializadas de alimentos saudáveis. Isso foi realmente benéfico. Comecei a usar ingredientes dos quais nunca tinha ouvido falar (muitas leguminosas) e experimentar receitas (principalmente asiáticas). Venho de uma família da classe trabalhadora, meu pai e minha mãe tinham vários empregos ao mesmo tempo, muitas vezes trabalhando também durante a noite. Por isso comíamos muitas refeições processadas, rápidas de preparar e à base de carne. Aprender a cozinhar sem acesso a uma montanha de ingredientes processados fez com que eu passasse a comer de maneira mais saudável do que antes de me tornar vegano.

O veganismo amplamente promovido atualmente, que passa por aumentar a oferta de ultraprocessados nada saudáveis que imitam as opções de baixa qualidade comidas por pessoas não-veganas, apoiando multinacionais que prejudicam animais, pessoas e meio ambiente não faz parte do veganismo no qual acredito. Ocasionalmente gosto de comer um ultraprocessado vegano, mas ter sido vegano por tanto tempo sem acesso a esses produtos definitivamente fez com que eu aprendesse a me alimentar de uma maneira mais saudável.

Como derrubar o especismo?

Só podemos acabar com o especismo reconhecendo que a luta por libertação animal não pode ser separada da luta pela libertação de todos os seres, humanos ou não-humanos.

Grande parte da população mundial já tem uma dieta quase toda vegetal, não por escolha, mas por falta de escolha (a pobreza econômica que limita o acesso a alimentos). Nas próximas décadas provavelmente veremos mais pessoas nos países mais ricos, onde hoje o consumo de produtos de origem animal é elevado, se tornarem veganas. Não necessariamente por preocupação com os animais, mas por causa da crescente conscientização dos danos causados por produtos de origem animal ao meio ambiente e à saúde das pessoas. A produção de carne e laticínios está literalmente nos matando e destruindo o planeta.

No entanto, precisamos garantir que os direitos dos animais não-humanos sejam uma pauta central nessa mudança. Promover o veganismo como um ‘estilo de vida’, como ‘ alimentação plant-based’, fazer campanhas incentivando o tal do “part time vegan” (“parcialmente vegana”) ou apenas relacionar o veganismo à crise climática não vai acabar com o especismo.

Discussões recentes sobre a crise climática, particularmente graças a Greta Thunberg, e a atual pandemia COVID-19 revelaram que não podemos continuar vivendo da mesma maneira destrutiva que muitos de nós (principalmente no Norte Global) vivemos. Acabar com o especismo é essencial pros seres humanos, mas não devemos acabar com práticas prejudiciais apenas porque nos afeta diretamente. Seria egoísta.

Também precisamos reconhecer que grande parte da população mundial não tem os mesmos privilégios que muitas de nós, no movimento dos direitos dos animais, temos. Principalmente ocidentais. A maioria das pessoas não tem acesso ao leque de opções que está à nossa disposição na hora de escolher o que comer. Mesmo no Norte Global há uma enorme desigualdade no que diz respeito ao acesso à comida, principalmente quando se trata de pessoas racializadas. Além de mudar nossa atitude para com animais não-humanos, é preciso mudar nossa atitude com outros humanos.

“Somente através de uma luta anti-opressão consistente o veganismo poderá crescer e deixar de ser o movimento marginal que é atualmente. Pessoas veganas devem se conscientizar, aprender e se envolver com a luta pelos direitos humanos pra elevar os direitos não-humanos. Ser consistente com a luta anti-opressão dentro do nosso movimento não significa retirar os não-humanos do centro do seu próprio movimento. Significa criar um ambiente onde as comunidades marginalizadas não sejam mais oprimidas e alienadas pelas ações do movimento. ”
Julia Feliz Brueck, Veganism in an Oppressive World.

*Craig não gosta de exibir sua cara na internet, por isso a “arte” na foto 😉