Posts de categoria: Ativismo

Frequentemente perguntam à pessoas veganas o que achamos de ovos de galinhas criadas no quintal. Até prometi à uma leitora escrever sobre isso aqui no blog e, anos depois, ainda estou devendo esse post. A conversa de hoje não é exatamente sobre isso, mas se aproxima. Semanas atrás vi esse letreiro (foto acima) numa estação de metrô em Paris. Ele me deu a ideia de vir aqui trazer alguns esclarecimentos quanto à ligação entre consumo de ovos, exploração e crueldade animal, mas também tocar em um ponto que está causando divergências dentro do movimento vegano.

Se você faz parte do imenso grupo de pessoas que se perguntam por que veganas não consumem ovos, já que “não precisa matar a galinha pra obter ovos”, vamos começar do princípio.

Por volta de 18 meses de idade galinhas poedeiras já não poem ovos suficientes pra que sua exploração seja considerada rentável. Assim como mulheres nascem com um número determinado de óvulos, galinhas também põem um número determinado de ovos durante a vida e eventualmente entram no que pra nós seria chamado de menopausa. Então a conclusão lógica da indústria é matar aquela galinha e substitui-la por outra mais jovem. Sim, galinhas são mortas pra que pessoas possam comer seus ovos. E tem mais. Na seleção das novas galinhas poedeiras, somente as fêmeas são interessantes (afinal galo não bota ovo), então pintos machos são mortos logo depois do nascimento. Só na França 100 milhões de galinhas poedeiras e pintos machos são mortos por ano, como consequência direta da indústria do ovo.

Aí que entra a proposta de empresa que será o centro da nossa discussão aqui. “Poulehouse” é uma empresa francesa que existe desde 2017, cuja proposta é vender “o ovo que não mata a galinha.” Poulehouse vende apenas ovos de criadores que se comprometem a enviar as galinhas de 18 meses pra um abrigo (gerenciado pela empresa), não pro abatedouro. Lá as galinhas terão um resto de vida feliz, segundo a empresa. Tudo isso tem um preço, claro, e o “ovo que não mata a galinha”, que vamos chamar a partir de agora de OQNMG, custa de 2x à 4x mais que ovo orgânico, que já é mais caro que um ovo comum. A unidade desse ovo custa 1€ (quase 5 reais).

Até pouco tempo atrás era consenso dentro do movimento vegano entender que o objetivo da nossa luta era abolir a exploração animal. Essa era a diferença fundamental entre abolicionistas e bem-estaristas, que pediam melhorias de bem-estar pros animais, ou seja, melhores condições de exploração, sem no entanto se opor à exploração animal. Até que o veganismo de cúpula (ONGs e associações veganas) resolveu, em nome de uma suposta estratégia tática, apoiar reformas bem-estaristas. A teoria é que já que a abolição da exploração animal não vai acontecer amanhã, toda reforma que alivie, mesmo que pouco, o sofrimento animal deve ser não só aplaudida como incentivada pelo movimento vegano.

Mas eu não estou aplaudindo a iniciativa da empresa que vende OQNMG? Entenda por quê.

1- A empresa incentiva criadores a utilizarem uma tecnologia que identifica o sexo dos pintos ainda no ovo, pra que só as fêmeas sejam chocadas, o que evitaria a matança dos pintos machos. Mas no site da empresa está escrito que apenas dois criadores usam essa tecnologia, então o ovo ainda produz morte, sim!

2- Qual a capacidade desse abrigo de galinhas poedeiras aposentadas? Porque no ritmo que ovos são consumidos na França, serão muitas galinhas se aposentando todos os anos. Não é difícil imaginar que essa solução é inviável a longo prazo.

Uma palavrinha sobre o consumo de ovos na França. O povo que inventou a quiche gosta muito, muito de ovo: 98% das pessoas aqui consomem ovos, em média 222 ovos por pessoa/ano (no Brasil, em 2018, foram 212 ovos por pessoa). É só pensar em todos os omeletes, bolos, merengues e mousses da culinária francesa pra entender que vai ovo em praticamente tudo.

Assim, cerca de 50 milhões de galinhas poedeiras são mortas por ano na França. Imagine que se todas elas se aposentassem, em 10 anos teríamos que encontrar espaço pra abrigar 500 milhões de novas aposentadas! E como alimentar tantas galinhas vivendo em abrigos? Com ração feita com soja e milho da monocultura que devasta floresta, solo, água?


3- Apesar de garantir a aposentadoria das galinhas poedeiras, a empresa não garante que esses ovos não produzem sofrimento. No site tem escrito que ela “incentiva produtores a não cortarem a ponta do bico das galinhas”, mas não é um imperativo pra trabalhar com eles. Essa prática é comum na indústria de exploração de aves. Presas e privadas de ter as necessidades da sua espécies atendidas, elas se tornam agressivas, machucando outras galinhas e até se tornando canibais. A “solução” que a indústria encontrou foi cortar a ponta do bico das galinhas. Então não podemos dizer que esse ovo é “sem crueldade”, ou “ético”, como está escrito nas propagandas da empresa.

4- A bandeja com 6 ovos orgânicos dessa empresa custa 6€ (ou 4€ pra versão não-orgânica), enquanto uma bandeja com 30 ovos dos mais baratos aqui custa 3€ (Carrefour). Ou seja, 10 centavos a unidade, o que significa 10x mais barato que o OQNMG. Esse ovo está longe de ser uma opção pras pessoas mais pobres, que constituem um grupo cada vez maior aqui na França e que consume muito ovo (por ser mais barato que animais).

Assim o rico compra sua consciência “ecológica-sustentável”, “fazendo a diferença com pequenas mudanças”, enquanto a maior parte da população não tem escolha na hora de alimentar a família e é obrigada a comprar os ovos mais baratos, sendo excluída desse processo de “comprar um planeta verde/comida ética” e passando a ser vista como parte do problema por comprar o produto que “não é ecológico nem ético”.

5- Sem falar que como apenas a elite compra esse produto, enquanto nas cantinas escolares, refeitórios de fábricas, restaurantes, lanchonetes e casas de trabalhadores os ovos consumidos continuam sendo os mais baratos (que matam a galinha), o impacto dessa empresa na redução do sofrimento animal é minúsculo.

6- Olha o beco sem saída. Pra fazer uma diferença significativa a maior parte dos ovos consumidos na França teria que vir desse sistema “que não mata a galinha”, mas aí em pouco tempo teremos o problema que mencionei acima: onde abrigar todas as galinhas poedeiras aposentadas e de onde virá o alimento delas?

Aqui entra o desacordo entre a base e as organizações, ou seja, entre a maior parte das pessoas na militância vegana e o ativismo das ONGs e sociedades veganas no Brasil, mas também fora dele. Essa corrente liberal, que defende um ativismo de mercado (acreditando que aumento de produtos vegs significa redução de sofrimento animal) afirma: “Pra cada ‘ovo que não mata a galinha’ comprado, será um ovo a menos produzido de maneira muito mais cruel. Logo isso é uma vitória pros animais que deve ser acolhida e incentivada pelo movimento vegano.”

O que eu tenho a dizer sobre isso? Muita coisa.

Fiz algumas pesquisas sobre consumo de animais desde que voltei pra França. Descobri, por exemplo, que o consumo de ovos aqui não parou de aumentar nos últimos anos (cerca de 2% ao ano). Pois é. Enquanto o mercado de produtos industrializados veganos francês aumenta (fato), aumenta também o consumo de ovos (outro fato), de modo que francesas e franceses nunca comeram tanto ovo na História.

A mesma coisa é válida no Brasil. 2018 foi um ano recorde no consumo de ovos no nosso país. Foi 10,6% a mais (ou 20 ovos) em comparação com 2017 segundo dados divulgados pela Associação Brasileira de Proteínas Animais (ABPA). As razões? É mais barato que carne animal. E com o aumento do preço da carne que aconteceu em novembro, a estimativa é que em 2019 o consumo de ovo, uma proteína animal mais barata, será ainda maior do que no ano anterior. Não vamos esquecer que 2019 foi também o ano em que a maior produtora de ovos da América Latina lançou o seu “ovo vegano” no Brasil e adeptas do veganismo liberal declararam que essa era mais uma vitória pros animais.

A existência desses produtos, sejam ovos caríssimos que não matam a galinha ou “ovo vegano” da empresa exploradora de animais, não está de maneira alguma substituindo uma parte do mercado tradicional de ovos, que não para de crescer. Isso não passa de criação de novos mercados. Os argumentos do veganismo liberal desmoronam assim que se adquire um mínimo de compreensão sobre o funcionamento do sistema econômico vigente (capitalismo).

“E por que o consumo de ovo está aumentando na França?”

Obrigada por perguntar, pois a resposta é fundamental pra nos ajudar a entender algumas problemáticas do ativismos vegano que vê a expansão do mercado e iniciativas bem-estarias como a maneira mais “estratégica” de obter libertação animal.

Já expliquei as razões que estão fazendo o consumo de ovos no Brasil aumentar. Será que mesma coisa está acontecendo na França? Mais ou menos.

Primeiro que fique claro que isso não está sendo puxado pelo aumento da população francesa, que aumentou de 0.3% em 2018 (lembre que o aumento do consumo de ovo aumentou de 2% no mesmo período).

O aumento no consumo de ovo na França se deve, principalmente, ao…aumento do “flexitarianismo”. Sabe aquelas pessoas que comem animais/seus derivados e vegetais, ou seja, carnistas, mas quiseram inventar uma palavra nova pra se definirem, pois o mundo precisava saber que elas eram mais evoluídas que um mero carnista? Aquela galera que diz reduzir seu consumo de animais, mas sem ser vegetariano/vegano porque não são “radicais/extremistas”? Pois bem, esse povo aí está reduzindo o consumo de animais, mas ao mesmo tempo aumentando o consumo de ovos. Viram como é problemático retirar a ética do centro da militância vegana e reduzir a questão ao consumo?

A pessoa flexitariana pode até ter reduzido seu consumo de carne bovina, mas se isso provocou um aumento no consumo de ovos (e, em muitos casos, provocou o aumento do consumo de aves também), podemos realmente dizer que ela está reduzindo o sofrimento animal?

Atenção! Não estou dizendo que não acharia melhor se todos os ovos consumidos no mundo viessem de galinhas criadas em liberdade, que não serão mortas aos 18 meses e sem a matança de pintos machos. De maneira nenhuma!

Mas sou antiespecista, por isso acredito que o problema não é a maneira que as galinhas são exploradas e sim o fato delas serem exploradas. O papel de militantes veganas é lutar pelo fim da exploração animal, não por reformas pra que animais sejam explorados de maneira menos cruel. Essa é a diferença essencial entre abolicionistas e bem-estaristas.

No final das contas esse ovo é mais uma artimanha do capitalismo, que incorpora as pautas da atualidade pra se manter relevante, mais um nicho de mercado criado, mais um produto elitizado, mais uma oportunidade de ganhar dinheiro com a exploração animal…tudo, menos a redução do sofrimento animal.

Enquanto isso a indústria do ovo aqui segue comemorando o fato dos franceses nunca terem comido tantos ovos (mesma coisa no Brasil). E está ainda mais feliz com a lei Egalim, aprovada recentemente pelo governo, que obriga as escolas a oferecerem uma refeição vegetariana por semana daqui pra 2022. A indústria do ovo vê isso como uma grande oportunidade pro setor, pois obviamente a carne será substituída por ovos.

Precisamos falar sobre a cooptação do veganismo pelo capitalismo, ou, sobre o debate que parece ocupar o movimento vegano nesse momento: boicotar empresas que testam em animais ou boicotar somente produtos com ingredientes/testados em animais e apoiar qualquer produto vegetal, independente de quem os produziu?

Como foi e ainda é o caso em muitos movimentos revolucionários, o boicote é uma das principais estratégias de luta do movimento vegano. Nós, veganas, escolhemos boicotar (não comprar nem apoiar) tudo que venha da exploração animal. Mas a maneira de aplicar esse boicote não é mais um consenso dentro da comunidade vegana e vejo um abismo se criando, em termos de posicionamento político e estratégia de luta, entre a base do movimento e as grandes organizações de direitos animais.

Como abolicionista e anticapitalista, deixa eu começar explicando que essa história que “certas pessoas veganas se incomodam quando a Unilever, ou outra grande empresa que testa em animais, lança um produto vegano” é uma grande falácia. Escutei até coisa pior, que veganas que seguem a mesma linha de ativismo que eu “se incomodam mais quando a Unilever lança um produto vegano do que quando ela lança um produto que contem ingredientes animais”. A pessoa tem que estar bem confusa quanto ao nosso posicionamento se acredita nisso, então vim esclarecer a confusão.

Produtos à base de vegetais fabricados por multinacionais que testam em animais não são veganos, são vegetarianos estritos. Mas a maneira como defino esses produtos não tem a menor importância, pois as grandes multinacionais entenderam que tem um nicho de mercado vegano e vão continuar lançando produtos vegetais, independente da nossa opinião. Na verdade acredito que o público alvo desses produtos nem somos nós e sim quem come animais, mas quer incluir mais produtos “plant based”  (como está na moda dizer) na dieta.

Então é perda de energia sair batendo boca nas redes sociais argumentando se tal produto merece ou não ser chamado de “vegano”. Porém sigo boicotando essas grandes corporações e vou explicar a razão por trás disso.

Eu não boicoto a Nestlé e a Unilever porque seus produtos são “vegetarianos estritos” e não “veganos”. Boicoto porque são empresas terríveis em tantos níveis que precisaria de um artigo inteiro só pra tratar desse assunto. Eu já boicotava essas empresas antes mesmo de me tornar vegana e não vejo razão nenhuma pra começar a comprar seus produtos agora que elas resolveram lucrar com a população vegana.

A Nestlé, por exemplo, está privatizando a água do mundo e privando populações inteiras desse direito humano fundamental (seu presidente, aliás, disse publicamente que a água não é um direito humano e deve ser privatizada), é famosa por vender cacau vindo do trabalho escravo, inclusive trabalho escravo infantil, e é responsável pela morte de um número assombroso de bebês no Sul global desde os anos 70 (pesquisem sobre o escândalo do leite em pó Nestlé e a campanha internacional de boicote à empresa). Isso pra citar apenas três exemplos da longa lista de crimes e ações antiéticas dessa empresa. Se a Nestlé lançar um hambúrguer “vegano”, como já anunciou, será suficiente pra me fazer ignorar tudo isso e passar a apoiar com meus reais essa empresa? De maneira alguma!

Mas deixa eu explicar melhor pra não criar mais confusão. Eu não me oponho ao lançamento de produtos “veganos” de grandes empresas que testam em animais. Como já disse, vai acontecer independente da minha opinião e seria totalmente inútil usar meu tempo e energia contra isso. Eu me oponho à promoção do consumo desses produtos pela comunidade vegana. Um veganismo que incentiva o consumo de ultraprocessados, quando sabemos o quão nefasto eles são pra saúde, não tem o meu apoio.

Se eu aplaudisse o hambúrguer “vegano” que a Nestlé prometeu lançar, ou a nova maionese Hellmann’s (da Unilever), porque supostamente “é um avanço pro veganismo quando mais empresas grandes lançam produtos veganos”, isso significaria achar positivo um futuro com mais produtos ultraprocessados, um futuro onde as opções veganas são fórmulas industriais vendidas como alimento, produzidas por multinacionais que exploram a Terra, os humanos e os animais. O futuro que eu quero é vegano, mas não tem ultraprocessados da Nestlé nem da Unilever. Tem vegetais frescos e sem veneno na mesa de todas as pessoas, independente da classe social. Tem mais agroecologia e menos agro-negócio.

Outra grande confusão é acreditar que veganas que boicotam empresas que testam em animais se acham superiores e “mais veganas” do que as que decidem boicotar produtos, não empresas. Isso não poderia estar mais longe da verdade.

Sempre expliquei no meu trabalho que veganismo não é um ideal de pureza individual, nem uma competição pra saber quem é a mais vegana dentro do movimento ou quem tem autoridade pra confiscar a “carteira de vegana” da coleguinha. Isso não avança em nada a luta pela emancipação animal, só distrai, mudando o foco da discursão do animal, que deve estar sempre no centro do debate, pro humano. Não estou interessada em apontar dedos pra indivíduos e, dentre as muitas atividades que preenchem meus dias, trabalhar pra polícia vegana não é uma delas.

Então que fique bem claro que quando digo que produtos da Nestlé e Unilever não são veganos, são vegetarianos estritos, não estou dizendo que veganas que consomem esses produtos deixam de ser veganas.

Porém é muito importante mencionar que essa é uma discussão necessária dentro do movimento, mas com relação ao posicionamento das organizações de direitos animais, não dos indivíduos. A questão não é a escolha (individual) de consumir ou não tal produto, mas sim se essas organizações, que tem um poder de influência muito maior, devem fazer propaganda e estimular o consumo de produtos ultraprocessados produzidos por multinacionais que exploram e testam em animais.

“Se você boicota grande corporações, como a Nestlé, então deveria boicotar igualmente o supermercado da esquina que vende verduras, porque ele também vende animais.” 

Dar meu dinheiro pro supermercado da esquina (que vende carne), ou pra agricultora que vende seus vegetais na feira (e cria galinhas pra abate), não é a mesma coisa que patrocinar grandes corporações. Se você tem a possibilidade de escolher onde e de quem comprar sua comida, a escolha mais ética seria comprar de pequenos produtores que, sim, não são veganos, mas que nem de longe destroem o planeta, nossa saúde e exploram animais no nível absurdamente elevado dessas corporações. É impossível, no mundo de hoje, só comprar alimentos de pessoas veganas ou produzir tudo que você consome (pra maioria de nós), mas é possível pra muitas pessoas escolher entre comprar de quem destrói e explora absurdamente ou de quem produz de maneira mais sustentável.

Mas precisamos conversar sobre estratégia de luta também. O movimento de libertação animal sempre adotou a estratégia, usada também por outros movimentos revolucionários, de focar em uma batalha isolada que tem aceitação de um público maior (no nosso caso, o público não-vegano), logo mais chances de ser vencida, e assim ir construindo um caminho de pequenas batalhas vencidas até se chegar ao objetivo final maior (libertação animal). O fim dos testes em animais é algo que conta com uma grande adesão de não-veganas, enquanto boicotar o supermercado do bairro porque ele vende carne não é algo que vai contar com o apoio de não-veganas, logo será menos efetivo. Isso é uma escolha estratégica, baseada no fato que, no momento, seria mais fácil acabar com os testes em animais do que com o consumo de animais e seus derivados.

“Comprar o hambúrguer veg da Nestlé é a mesma coisa que comprar o cachorro quente vegano da lanchonete da esquina que também vende cachorro quente de animal.” 

Não é. É tudo uma questão de patrocinar, com seu dinheiro, o modelo que você quer ver multiplicado. Queremos um mundo sem especismo? Queremos! Mas enquanto lutamos pra chegar lá teremos que escolher entre o modelo com menos exploração animal (a lanchonete da esquina) ou com muito, muito, muito mais exploração animal (a Nestlé/Unilever).  O que te parece menos terrível?

“Quando veganos compram os produtos veganos de grandes corporações, elas entendem que tem um mercado vegano e vão fazer mais produtos veganos e menos produtos com animais. É a lei da demanda e da oferta: quanto mais demanda, maior a oferta de produtos veganos, logo menos animais sofrerão.”

Sinto dizer que, embora pareça lógico, não é assim que o capitalismo funciona. A verdade é que quanto mais lucro as grandes empresas tiverem, mais animais elas explorarão.

Lição relâmpago sobre o capitalismo: ele depende do crescimento permanente pra existir. Quando um mercado novo é criado, digamos, o mercado vegano, empresas capitalistas não substituem os produtos animais por produtos vegetais. Elas simplesmente abraçam mais esse mercado, porque crescimento permanente é um imperativo pro capitalismo continuar tendo lucro, logo, continuar existindo.

E uma palavrinha sobre a tal da “lei da demanda e da oferta”. Usemos o exemplo da água em garrafa. Anos atrás, quando garrafinhas de água não existiam e todo mundo tomava água da torneira (ou do filtro), alguém aqui lembra de campanhas pedindo pras grandes corporações engarrafarem água e venderem pra gente por um valor absurdamente maior? O capitalismo já passou muito da época que produzir pra suprir nossas demandas. Agora o negócio é manipular nossos desejos, sem que a gente perceba, pra vender ainda mais produtos dos quais não precisamos. Em outras palavras: consumidoras tem pouquíssima influência sobre o mercado e o capitalismo cria demandas.

É essencial entender que empresas exploram animais por uma razão simples: dá muito lucro. No modelo econômico atual grandes empresas têm muito mais lucro explorando animais do que vendendo comida vegetal. Exemplos disso são os subsídios do governo brasileiro pra indústria da carne e benefícios fiscais pra pecuaristas . Comprar o hambúrguer da Nestlé, e todos os produtos vegs que ela venha a lançar, não será suficiente pra convence-la a parar de explorar animais, por mais dinheiro vegano que ela receba. Concretamente só vamos aumentar os lucros da Nestlé. As grandes corporações não vão escolher entre lucrar com comida vegetal ou lucrar com exploração animal, elas simplesmente vão querer uma fatia de cada um desses bolos.

Por isso enquanto a Nestlé investe em produtos vegetais aqui, ela faz uma campanha pesada pra incentivar o consumo de leite na China, onde as pessoas não tinham o hábito de consumir laticínios.

Por isso quando o Macdonald’s promete que, até 2025, suas lanchonetes nos EUA e Canadá só usarão ovos de galinhas criadas fora de gaiolas ele anuncia, dois anos depois, que vai abrir 2 mil novas lanchonetes na China nos próximos 5 anos. É mais de um novo Macdonald’s por dia durante 5 anos!

“Ah, mas isso teria acontecido de todo jeito. Pelo menos agora a exploração das galinhas na América do Norte vai diminuir. Você preferia 2 mil novos Macdonald’s na China e ao mesmo tempo galinhas em gaiolas nos EUA, por acaso?”

Nós, veganas, fazemos o trabalho essencial de denunciar a exploração animal, seja com palavras, ações diretas ou imagens, informar a população sobre as alternativas ao sistema especista e educar sobre o veganismo. Confrontadas com a verdade sobre a exploração animal, as reações das pessoas que comem animais geralmente são: 1-indiferença, 2-decidem parar de comer animais ou, 3-em um esforço pra aliviar a consciência, sem no entanto mudar os hábitos, exigem reformas no sistema de exploração animal. As mudanças bem-estaristas – que aumentam o bem-estar animal sem no entanto acabar com sua exploração – são uma tentativa da indústria carnista pra melhorar sua imagem e não perder consumidores que acreditam que o “errado” não é a exploração em si, mas a maneira como ela é feita.

Então negociar reformas bem-estaristas não é o trabalho do movimento de libertação animal. Reconheço a importância de muitas dessas reformas, mas esse tipo de ativismo é o que organizações de proteção animal fazem. Esses dois movimentos coexistem há muito tempo e o nosso papel é, justamente, nos diferençarmos do trabalho dessas organizações e ir mais além nas nossas demandas. Vejo a militância vegana como um farol apontando pra direção da libertação animal: as organizações bem-estaristas se empenham em trazer pequenos avanços imediatos, mas nós estaremos aqui pra lembrar que a mudança não deve parar por aí, deve ir mais além pois o objetivo final é o fim de toda e qualquer forma de exploração animal.

“O capitalismo em si não é ruim nem é bom. O fato é que vivemos em um mundo capitalista e isso não vai mudar amanhã. Por isso não podemos esperar o capitalismo ser destruído pra só então começar a fazer algo pelos animais.”

Eu nunca, em nenhum momento da minha militância, sugeri que as pessoas esperassem o fim do capitalismo pra só então se engajar na luta pelo fim da exploração animal. Além disso, a afirmação acima é problemática em vários pontos. Ela pressupõe que apenas um tipo de ativismo existe, o ativismo que incentiva e apoia mais produtos veganos de grandes empresas. Logo se você é anticapitalista e não incentiva o consumo desses produtos, você estaria sentada no seu sofá, sem fazer nada pelos animais, enquanto espera o capitalismo ser destruído.

Nós, veganas anticapitalistas, defendemos o fim do capitalismo e ao mesmo tempo lutamos contra o especismo. Porque entendemos que o capitalismo se alimenta de exploração animal (e humana e da Terra) e não dá pra acabar com ela sem acabar com ele. E porque nossa luta anti opressão não é seletiva: nos opomos a toda e qualquer opressão.

O segundo problema é um problema de imaginação. A mente foi tão doutrinada pelo capitalismo que quem repete a citação acima não consegue imaginar uma existência possível fora dele. Pensar alternativas é necessário e é o que propomos na militância anticapitalista. Não tem espaço pra tratar disso aqui, mas fica a reflexão. Porém gostaria de acrescentar uma última coisa.

Quase todas as pessoas que vi repetir “o capitalismo não é ruim nem bom, é uma realidade que não vai mudar amanhã, aceite a trabalhe com ele dentro do seu ativismo” vêm de uma classe econômica privilegiada. Não podemos negar que é fácil “aceitar o capitalismo” e até vê-lo como algo neutro quando nossa condição financeira é boa, né? Mas será que os bilhões de pessoas sofrendo nesse exato momento por causa das desigualdades criadas pelo capitalismo, as pessoas sem acesso aos direitos mais básicos (moradia, alimentação, educação), exploradas até a exaustão e tendo suas vidas destruídas por esse sistema vão concordar com isso? Não reconhecer que o capitalismo é a fonte da exploração humana e animal no nível que vemos hoje e pregar um ativismo vegano que, além de não denunciar, trabalha junto com esse sistema não é “aceitar a realidade”. É ignorar a raiz da opressão que buscamos destruir e ser insensível ao destino dos bilhões de seres- humanos e não humanos- sofrendo e morrendo sob esse sistema nesse exato momento.

“Se recusar a apoiar produtos veganos de grandes empresas (que testam em animais) é escolher não apoiar o veganismo.”

Tem gente no movimento confundindo “apoiar o veganismo” com “apoiar o capitalismo”.

Mais uma vez, olha o quanto o capitalismo doutrinou as mentes, ao ponto de ter gente acreditando que a única maneira de contribuir com o movimento vegano é através do consumo. Já vi ativistas veganas dizendo “quando você compra o produto vegano da grande empresa, você está dizendo ‘eu existo’”. É a lógica capitalista do “consumo, logo existo”. Ela é extremamente perigosa, pois acredita que só podemos existir através do consumo e que nosso valor na sociedade é proporcional ao nosso poder de compra. E sabemos bem as consequências cruéis disso: algumas vidas importam, muitas são descartáveis. E, como expliquei na resposta acima, acreditar que só o ativismo capitalista (incentivar a produção e consumo de produtos de grandes empresas)  é válido acaba apagando os esforços e ignorando as vitórias de todas as veganas que seguem outra linha de ativismo.

Porém preciso dizer que tenho consciência que meu boicote às gigantes como Unilever e Nestlé tem um impacto insignificante. Minha razão principal  pra seguir boicotando é de ordem ética (não quero apoiar financeiramente uma empresa que fere minha ética em tantos níveis).

Por isso espero que tenha ficado bem claro que o ponto desse texto não é dizer “compre ou não compre” produtos de grandes empresas que exploram animais. Reconheço que uma parte da população mora em desertos alimentares, só tem acesso a produtos industrializados e ultraprocessados e não tem a possibilidade de boicotar essas empresas. Meu coração está com essas pessoas e vou continuar lutando pra que elas tenham acesso a vegetais frescos, sem veneno e não vou apontar o dedo pra elas enquanto elas continuarem levando o ultraprocessado da grande empresa pra casa, seja por falta de opção ou informação. Ou simplesmente porque é mais conveniente naquela situação.

O ponto aqui é: me recuso a bater palmas e ser garota propaganda do agro-alimentar e suas empresas que exploram a Terra, os animais humanos e não-humanos. Me recuso a ver como positivo ter mais alimentos ultraprocessados no mercado, mesmo eles sendo à base de vegetais, e me recuso a incentivar o consumo de produtos que adoecem a população, em nome de um suposto avanço da causa.

“Ah, mas o pobre só tem acesso a isso, mesmo, então mais alimentos ultraprocessados veganos é positivo, sim, porque assim o pobre compra menos alimentos processados à base de animais.”

Precisamos reconhecer que industrializado vegano custa muito mais que similares não-veganos e perpetua a falsa ideia que comida vegana é cara e veganismo é elitista, o que acaba afastando muita gente do veganismo.

E o mantra “quanto mais produtos veganos disponíveis no mercado, melhor, porque assim o veganismo fica mais acessível” ignora o fato de que já tem muitos alimentos veganos no mercado. Frutas, verduras, hortaliças, cereais, leguminosas… Precisamos parar de associar comida vegana com sorvete Ben & Jerry’s, maionese Hellmann’s e hambúrguer Nestlé e lembrar que comida vegana é feijão com arroz, quiabo, açaí, batata doce e cuscuz com coco.

Alternativas, ou, um outro ativismo é possível

Já que não vejo a cooptação do veganismo pelo capitalismo como uma suposta vitória pros animais e me recuso a incentivar o consumo de produtos ultraprocessados, mesmo se forem vegetarianos estritos, o que proponho então pra popularizar o veganismo e fazer avançar a luta por libertação animal?

E se ao invés de incentivar o consumo de produtos ultraprocessados a gente investisse mais tempo e recursos em educação alimentar? Ao incentivar o consumo de comida de verdade as pessoas perceberão que veganismo não é o hambúrguer nem a salsicha “vegana” que custam uma fortuna e que ele já é uma possibilidade pra boa parte da população, só faltava a informação.

Curiosamente, quem mais vi aplaudir a opção vegana ultraprocessada da grande empresa, na verdade come vegetais orgânicos, faz seu leite de amêndoas em casa e compra seu panetone sem glúten de empresas veganas pequenas. Ainda não vi as veganas periféricas ou pessoas que moram em desertos alimentares pedindo mais produtos industrializados “veganos” de grandes empresas. Só escuto esse pessoal falando de soberania alimentar, do nutricídio da população pobre e negra e da falta de vegetais frescos em suas comunidades.

Pare e pense um pouco. Quando a galera vegana privilegiada defende o “orgânico pra mim, industrializado cheio de química pro pobre”, não é de se espantar que a maior parte da população, a classe trabalhadora, veja o veganismo como algo elitista e rejeite um movimento que parece não se importar com suas vidas. Se a ideia é “popularizar o veganismo”, esse tipo de ativismo liberal e focado no mercado vai contra o que propõe, pois aliena o povo ao invés de atraí-lo pro veganismo.

Tendo dito isso, gostaria de fazer uma sugestão. É muito mais importante construir um projeto vegano ético-político anticapitalista do que tentar explicar às veganas liberais que veganismo e capitalismo tem interesses conflitantes. Tem vegana liberal, que defende tanto a libertação animal quanto seus interesses de classe, logo essa pessoa está totalmente interessada em manter o sistema capitalista, pois ela se beneficia dele. E tem vegana que é anticapitalista e luta por uma mudança sistêmica, por um novo modelo com justiça social (pra humanos e não humanos). Obviamente nosso ativismo reflete nossa ideologia e o projeto de sociedade que queremos construir. Segue o barco.

Então, tendo em mente a construção desse projeto vegano ético-político anticapitalista, vamos pensar em estratégias. E se nossa militância fosse voltada pras classes excluídas, que não tem acesso às informações necessárias pra fazer escolhas alimentares saudáveis e compassivas? Que tal usar nossa energia fazendo trabalho de base, dialogando e informando o povo? Vamos nos juntar aos movimentos que lutam pra que todo mundo tenha acesso à comida, de verdade e sem veneno, e que apoiam as agricultoras que a produzem.

Como? São várias possibilidades e vou listar só algumas aqui.

Se junte à luta contra agrotóxicos

O Brasil é o mais utilizador de agrotóxicos do mundo e o governo Bolsonaro está liberando o registro de agrotóxicos que de tão perigosos são banidos na Europa. Resultado: o veneno na nossa comida está aumentando, assim como a contaminação do solo e da água e o risco de doenças e morte nas populações do campo. Precisamos ficar de olho nos nossos representantes políticos e acompanhar como eles estão se posicionando na luta contra o veneno na nossa mesa. Veja como os parlamentares se comportam nesse sentido aqui.

Apoie a luta por reforma agrária

O Brasil tem uma das maiores concentrações de terra do mundo e sem uma redistribuição justa, sem acesso à terra, as agricultoras não poderão plantar o que comemos. Embora, como cidadãs, não possamos fazer uma distribuição justa de terras, podemos votar em quem defende a reforma agrária e conscientizar as pessoas da importância dessa luta. Aumentando o apoio do povo, vai ficar mais difícil pros nossos governante passar sempre os interesses dos ruralistas na frente da justiça.

Apoie o MST

O Movimento dos Trabalhadores Rurais sem terra é o maior agente político de promoção da reforma agrária no Brasil. Os últimos posts que apareceram aqui no blog falam justamente sobre o movimento e o que ele tem a ver com o veganismo.

Apoie a agricultura familiar

Hoje 70% do que comemos no Brasil vem da agricultura familiar. São essas pessoas que nos alimentam, não o agro-negócio (que é voltado pra produção de comodities, principalmente pra exportação). Procure feiras de pequenas agricultoras ou da agricultura familiar, feiras agroecológicas da reforma agrária (onde os produtos de assentadas do MST são comercializados). Se comprar sua comida ali for uma possibilidade pra você, não perca essa oportunidade. Vamos apoiar quem produz alimento pra alimentar o povo, muitas vezes sem veneno. Leve a família, amigas, fale das feiras pra todas as pessoas que você conhecer.

Apoie a luta dos povos indígenas

Eles são os protetores das florestas e são vítimas de perseguição, opressão e limpeza étnica desde que os colonizadores europeus chegaram no continente até os dias de hoje.

Pra além disso, convido cada pessoa lendo esse texto a pensar em iniciativas que fazem sentido de acordo com a realidade e necessidades da sua comunidade, assim como as suas possibilidades. Dizer “go vegan” não é suficiente. É preciso entender o contexto político local, identificar os obstáculos que impedem as pessoas de terem uma alimentação vegetal e se juntarem à luta por emancipação animal e desenvolver maneiras de supera-los.

O agronegócio, maior força exploradora de animais, também é o inimigo da justiça no campo, das agriculturas sem terra e dos povos da floresta. Por isso a luta por abolição da exploração animal é irmã dessas lutas. Só quando nos unirmos às outras lutas de justiça social poderemos vencer um inimigo tão poderoso.

Ao invés de importar estratégias da Europa e dos EUA,  onde as condições econômicas e sociais são completamente diferentes das nossas, vamos descolonizar nosso ativismo, e nossas mentes, e imaginar estratégias que façam sentido no nosso contexto político, na nossa realidade.

Por isso, pensando no contexto brasileiro, lutar por soberania alimentar,  lutar pra que vegetais frescos e sem veneno apareçam diariamente na mesa de toda pessoa brasileira é o verdadeiro imperativo pra democratizar o veganismo no nosso país. E só quando a nossa luta se posicionar claramente como uma luta anti-opressão, toda e qualquer opressão, poderemos construir um novo modelo de sociedade com justiça social, animal e ambiental, onde a libertação animal será possível.

(Gostaria de agradecer as pessoas que me incentivaram a escrever esse artigo, principalmente Bárbara. Meu enorme agradecimento a Juliana, quem primeiro leu esse artigo e me deu dicas preciosas pra deixa-lo mais completo e a Tiago, que também leu de antemão e me fez ver alguns pontos que precisavam ser tratados, mas que eu não tinha enxergado ainda. Muito obrigada. )

PS Recomendo o artigo A conta não fecha no veganismo de mercado, de Vinicius Buenaventura, que complementa bem esse aqui.

Preciso começa dizendo que recebi várias mensagens de pessoas que leram os posts anteriores e , ao começarem a entender a atuação do MST, passaram a ver o Movimento com outros olhos. Nem sei dizer o quanto isso conta pra mim. São essas mensagens que me fazem acreditar que é possível quebrar preconceitos e que o meu trabalho, apesar de no momento ser uma militância de sofá, é capaz de produzir uma mudança positiva na sociedade. Continuemos lutando de punho erguido.

O terceiro post da série é, provavelmente, o mais esperado. Sabe aqueles mitos que você cresceu ouvindo? Aqueles comentários feitos pelo seu tio ou pai (ou professora, ou apresentador do jornal) que fizeram com que você sempre visse o MST com maus olhos? Vim aqui desmistificar isso tudo e também reponder as perguntas que me fazem com mais frequência.

Mitos e Perguntas sobre o MST

1- Os sem terra são vagabundos que invadem as terras de cidadãos de bem que trabalharam muito pra conquistar seu patrimônio. Propriedade privada é sagrada. Invadiu? Merece bala!

Difícil não ter uma atitude extremamente hostil com relação ao MST quando o próprio presidente eleito do nosso país vomita preconceito e incentiva a violência em rede nacional, né? Mas vamos lá.

O MST não “invade” terras, o termo apropriado é “ocupar”.

O direito à propriedade privada está garantido pela nossa Constituição, mas essa mesma Constituição também diz que toda terra deve cumprir a função social, ou seja, deve estar produzindo dentro da sua capacidade, respeitando o meio ambiente e sem trabalho análogo à escravidão. Caso contrário ela pode ser desapropriada pelo Incra e utilizada pra reforma agrária. Trabalhadores e trabalhadoras sem terra ocupam somente grandes propriedades improdutivas que não cumprem a função social.

Mas se você concorda que invadir terras é um crime terrível que justificaria uma resposta tão violenta quanto a sugerida pelo presidente eleito, então vamos falar de invasão. Sabe quem realmente invade terras? Os grandes latifundiários que praticam grilagem. “Grilagem” é quando um proprietário privado invade terras de terceiros, geralmente terras públicas, criando documentos falsos pra se apropriar das mesmas. O maior latifúndio que já existiu no Brasil tinha 4,7 milhões de hectares e fazia parte do grupo C.R. Almeida. A fazenda Curuá, em Altamira (PA), tinha trechos que pertenciam ao Estado, outros à União e alguns faziam parte de territórios indígenas. O título da fazenda foi cancelado pela Justiça Federal em 2011 e ela foi considerada pelo Iterpa (Instituto de Terras do Pará) como a maior área grilada do país.

Um estudo de 2006 realizado por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e do Museu Emílio Goeldi, a pedido do Ministério do Meio Ambiente, descobriu 30 milhões de hectares grilados somente no estado do Pará. Mas espera, por que esses invasores aí não merecem bala? Será que tem alguma coisa a ver com o fato desses grandes latifundiários/grileiros se organizarem na maior bancada do Congresso, a Bancada Ruralista, e apoiarem o novo governo?

Os 10 maiores latifundiários do país, de acordo com dados do INCRA, tem juntos 16.694.648 hectares de terra. Sim, mais de 16,6 milhões de hectares na mãos de um pequeno punhado de pessoas. Você acha justo ter tanta terra nas mão de tão pouca gente, enquanto ali do lado milhões de camponeses e camponesas se vêem sem acesso à terra e sem a possibilidade de sustentar suas famílias?

É revoltante ver pessoas desejarem a morte de agricultoras e agricultores sem terra, principalmente quando sabemos que essa violência é uma realidade. Pessoas sem terra são frequentemente vítimas das balas dos grandes latifundiários, muitas vezes com o apoio de políticos e da polícia. O massacre mais sangrento que se tem conhecimento foi no acampamento do MST em Eldorado dos Carajás (PA), não por acaso o estado com os maiores latifúndios do país. Em 1996, enquanto 3500 famílias esperavam pra serem assentadas, 155 policiais participaram da ação, sem identificação no uniforme e com armas e munições que não tinham sido anotadas nas fichas que comprovam quem estava no local. O resultado foi 21 sem terras assassinados e outros 56 feridos/mutilados. Segundo o médico legista Nelson Massini, houve tiros na nuca e na testa, indicando o assassinato premeditado de sete vítimas. Os culpados pelo massacre seguem impunes. E esse foi somente um dos muitos massacres e assassinatos de lideranças sofridos pelo MST desde que o Movimento foi criando, no início dos anos 80.

2- O MST rouba as terras dos fazendeiros.

O MST não rouba a terra de ninguém. Quem faz a desapropriação da grande propriedade improdutiva é o Incra e vale repetir que o Incra não toma a terra do fazendeiro. Na desapropriação, o Incra tem que pagar uma indenização ao proprietário em valores de mercado, determinados pela vistoria de avaliação.

3- Reforma Agrária tudo bem, mas ela deve ser controlada pelo governo, não feita por um bando de criminosos como o MST.

O Incra, Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, é um órgão federal da Administração Pública brasileira.

É o Incra, não o MST, que determina se uma terra cumpre ou não a função social, ou seja, se é improdutiva e pode ser usada na reforma agrária. O MST tem o direito, no entanto, de indicar terras improdutivas pra serem vistoriadas pelo Incra. O Incra explica: “A participação das entidades representativas dos movimentos sociais de luta pela terra na indicação de áreas é prevista pelo Decreto 2.250/97, que também garante a presença de representante técnico dos movimentos durante a realização da vistoria.”

Também é o Incra, não o MST, que desapropria terras improdutivas (depois de pagar a indenização ao proprietário da terra em valores do mercado) e instala os assentamentos. Ou seja, absolutamente todos os assentamentos do MST foram criados pelo Governo. Se coubesse aos agricultores e agricultoras sem terra fazer a reforma agrária o campo já teria sido democratizado há muito tempo.

4- Tem “sem terra” rico, cheio de imóveis, que continua invadindo terras!

O mito de que tem pessoas ricas que fingem ser sem terras pra ganhar terras do governo é absurdo! E impossível. Somente agricultores e agricultoras sem terra, posseiros, assalariados ou arrendatários podem entrar pro cadastro das famílias do Incra e ter, eventualmente, acesso a um lote em um assentamento. E só é possível ser assentada(o) UMA VEZ!

Pra se inscrever no Programa Nacional da Reforma Agrária, agricultores devem entrar no cadastro das famílias do Incra, um banco de dados com informações sobre candidatos que se inscreveram pra serem beneficiados com lotes em assentamentos. Ao adquirir um imóvel rural, o Incra utiliza o cadastro pra selecionar as famílias que poderão ser assentadas no local. O cadastro por si só não não dá direito a ser assentada nem é garantia de que a candidata receberá de fato a terra. A inscrição e cadastro destinam-se a identificar e quantificar a real demanda por terra.

Não pode ser assentada(o):

1 – Funcionário público federal, estadual ou municipal – a regra também se aplica ao cônjuge ou parceiro (ou seja, cônjuge de funcionário público não pode ser assentado);

2 –  Candidato com renda familiar proveniente de atividade não agrícola superior a três salários mínimos mensais;

3 – Agricultor que for dono, sócio ou cotista de empresa ou indústria – a proibição também se aplica a cônjuge ou companheiro;

4 – Qualquer pessoa que já foi assentada anteriormente – regra vale para o cônjuge ou companheiro;

5 – Proprietário de imóvel rural superior a 01 módulo rural do município – o mesmo vale para o cônjuge;

6 – Portador de doença física ou mental, cuja incapacidade o impossibilite totalmente para o trabalho agrícola – afora os casos em que um laudo médico garante que a deficiência apresentada não prejudique o exercício da atividade agrícola;

7 – Estrangeiro não naturalizado;

8 – Aposentado por invalidez -não se aplica a cônjuge ou parceiro;

9 –  Condenado pela Justiça ( por sentença final definitiva transitado em julgado ) com pena pendente de cumprimento ou não prescrita.

As famílias selecionadas passam por um processo de classificação assim que surgem vagas em terras recém adquiridas pelo Incra. Entre os critérios pra classificação das famílias cadastradas, estão: tamanho da família, força de trabalho da família, idade da candidata(o), tempo de atividade agrícola, moradia no imóvel desapropriado,  moradia no município, tempo de residência no imóvel e a renda anual familiar. Se a pessoa tem uma renda alta, se  é rica, ela NÃO tem direito a um lote em um assentamento, minha gente!

Somente famílias sem terra, capazes de trabalhar na terra e sem condições de comprar terra podem se tornar assentadas. E, vou repetir, somente uma vez! (regra válida pro cônjuge do assentado, que não pode pedir outro lote de terra pra si).

5- Esses vagabundos dos sem terras só querem terras pra em seguida vende-las e ficar com o dinheiro, depois recomeçam o mesmo processo em outro lugar.

Lotes em assentamentos do Incra não podem ser vendidos, arrendados, alugados, emprestados ou cedidos por particulares. Não estou afirmando, no entanto, que nunca nenhum assentado negociou seu lote, mas essa é uma prática ilegal, combatida pelo próprio Movimento. O que acontece com mais frequência é o abandono dos lotes por falta de infraestrutura, pois nenhuma família quer ficar em um local onde ela não possa viver dignamente.

Após a criação do assentamento, o Incra inicia a fase de instalação das famílias no local. É o Incra que escolhe, através de sorteio, o lote que irá pra cada família. Isso garante as mesmas condições de participação de todos os beneficiários.

Em seguida os beneficiados assinam o Contrato de Concessão de Uso (CCU) com o Incra. Esse documento dá direito ao assentado de morar e explorar um pedaço de terra pelo tempo que ele desejar e de receber sua posse, se cumpridas todas as exigências constante na legislação. O CCU também é o documento que assegura o cumprimento das exigências legais pra que a família possa permanecer no assentamento. Esse documento tem caráter provisório e até que possuam a escritura do lote, os lotes nos assentamentos estão vinculados ao Incra, não pertencem aos assentados. Por isso não é impossível que famílias assentadas sejam expulsas das terras onde moram há vários anos. E enquanto o assentado ou assentada não tiver a escritura do lote em seu nome, a terra não pode ser vendida, alugada, doada, arrendada ou emprestada a terceiros. Por isso o mito de que os sem terras vendem as terras adquiridas assim que as recebem e vão “invadir” outra terra logo em seguida, e repetem isso várias vezes, não passa disso: um mito.

6- Querem terras? Pois deviam trabalhar honestamente e comprar terras com seus rendimentos, ao invés de roubarem terras alheias!

Os assentados pagam pela terra que receberam do Incra e pelos créditos contratados. Tá lá no site do Incra, pode conferir se não acredita em mim. A terra recebida não é um presente pros assentados, é a possibilidade de ter onde trabalhar pra ganhar seu sustento dignamente e pagar ao Incra pelo seu pedaço de terra no assentamento.

Só quando o Incra verifica que as cláusulas do CCU foram cumpridas e que o assentado ou assentada tem condições de cultivar a terra pode ser iniciado o processo de titulação. O título de domínio é o documento que transfere o imóvel rural ao beneficiário da reforma agrária (assentado) em caráter definitivo. O Incra estipula o valor do lote no assentamento, de acordo com os valores de mercado, e o assentado ou assentada paga esse valor em 20 parcelas anuais.

Mas sabe quem não paga pelas terras que ocupa? As 729 pessoas físicas e jurídicas que possuem propriedades rurais com dívidas acima de R$ 50 milhões cada e que juntas devem aproximadamente R$ 200 bilhões à União! (fonte: Incra).  A área total de suas propriedades é de mais de 6,5 milhões de hectares, o suficiente pra assentar quase 215 mil famílias cadastradas no Programa de Reforma Agrária. Em 2015, de acordo com o Incra, 120 mil famílias estavam acampadas demandando reforma agrária. Somente com as terras dos maiores devedores do Estado brasileiro seria possível assentar praticamente o dobro de famílias.

Mas ao invés de cobrar as dívidas desses grandes latifundiários, o governo Temer editou em 2016 a Medida Provisória nº 733, concedendo mais privilégios aos grande devedores, digo, proprietários. Essa MP permite que produtores rurais inscritos em Dívida Ativa da União e com débitos originários das operações de securitização e Programa Especial de Saneamento de Ativos liquidem o saldo devedor com bônus entre 60% a 95%. Por exemplo, dívidas acima de 1 milhão de reais devem ter descontos de 65%.

Quem são os “vagabundos” que se aproveitam do governo, mesmo?

7- Como você se sentiria se o MST invadisse a sua casa? O seu sítio? Aí eu queria ver se você continuaria apoiando esse movimento.

O MST não “invade” casas nem o sítio de ninguém. MST ocupa somente as grandes propriedades improdutivas, que podem servir pra reforma agrária. São 228 milhões de hectares abandonados ou que produzem abaixo da capacidade, segundo o Incra. Então pode dormir tranquila que o MST não está interessado em “tomar” aquele seu pedacinho de terra em Santo Antônio dos Milagres.

8- O MST, ao invadir fazendas, deixa milhares de trabalhadores desempregados.

Já expliquei que o MST não “invade” fazendas, o movimento ocupa terras improdutivas. Logo, se as terras eram improdutivas, não tinha pessoas trabalhando ali e ninguém perde seu emprego com ocupações de sem terras.

O caso do Quilombo Campo Grande, em MG, mostra que a situação é na verdade a oposta. A usina que existia ali, da Companhia Agropecuária Irmãos Azevedo, decretou falência em 1996, deixando muitos desempregados e mais de 300 milhões de reais de dívidas trabalhistas. Em 1998 criou-se o assentamento Quilombo Campo Grande nas terras abandonas. Vinte anos depois o local abriga 450 famílias. São 1.200 hectares de lavoura de milho, feijão, mandioca e abóbora, 40 hectares de horta agroecológica e 520 hectares de café (que produzem 500 toneladas de café por ano), gerando emprego e renda pra 2 mil trabalhadores, além de alimentos pras famílias. No início de novembro a existência do Quilombo Campo Grande foi ameaçada, pois apesar de ser extremamente produtivo, o Juiz Walter Zwicker Esbaille Junior mandou despejar as 450 famílias. Após 24 dias de resistência, o pedido de despejo foi suspenso, mas essa não é, infelizmente, um vitória definitiva. Por trás do pedido de reintegração de posse está o interesse dos grandes produtores de café da região, que cobiçam as terras do assentamento pra expandir seus latifúndios.

É a expansão do latifúndio que causa desemprego e expulsa as famílias do campo, não os assentamentos.

9- O que são assentamentos?

Assentamento rural é um conjunto de unidades agrícolas independentes entre si, instaladas pelo Incra onde originalmente existia um imóvel rural que pertencia a um único proprietário. Cada uma dessas unidades é entregue pelo Incra a uma família sem condições econômicas pra adquirir e manter um imóvel rural por outras vias. Os trabalhadores rurais que recebem o lote comprometem-se a morar na parcela e a explorá-la para seu sustento, utilizando exclusivamente a mão de obra familiar.

O assentamento é um espaço pro conjunto de famílias camponesas viver, trabalhar e produzir, dando uma função social à terra e garantindo um futuro melhor pra população. A vida no assentamento garante às famílias direitos sociais que não são garantidos a todo o povo brasileiro, como casa, escola e comida.

O impacto da criação de um assentamento marca a vida de um município, tanto do ponto de vista social como econômico. Em primeiro lugar, a terra ganha uma função social. Em segundo lugar, um conjunto de famílias ganha instrumentos pra sua sobrevivência. Depois de um período, as famílias constroem suas casas, às vezes também constroem escolas, e começam a produzir. A produção garante o abastecimento de alimentos aos moradores das pequenas cidades próximas aos assentamentos e gera renda às famílias assentadas.

Em cada assentamento o MST procura “desenvolver uma mentalidade e uma atitude de Soberania Alimentar, compreendendo que a nossa função social é produzir alimentos, sendo esta a nossa primeira tarefa histórica, eliminando a fome do meio das famílias camponesas”.

10- É verdade que o MST destrói propriedades e esquarteja animais nas fazendas que invadem?

Não. Acusações infundadas como essas são espalhadas com o intuito de incitar o ódio de setores conservadores da sociedade contra as formas legitimas de manifestação pelos direitos sociais garantidos pela constituição brasileira. Quem ganha se não houver reforma agrária? Os grandes latifundiários. Por isso eles se opõem à democratização da estrutura fundiária brasileira e lideram uma campanha de demonização dos movimentos sociais que lutam pelo direito à terra. E repetindo: o MST não “invade”, só ocupa grandes propriedades improdutivas.

11- Se é verdade que os sem terras são pessoas de bem lutando por justiça no campo, então por que o presidente eleito quer criminalizar o MST e disse que suas ações serão consideradas “terrorismo”?

Existe um esforço organizado pra criminalizar movimentos sociais e a luta pela terra e por Reforma Agrária no Brasil. Também vemos um esforço pra acabar com o pluralismo político, um dos pilares da democracia.

O MST é uma das principais forças políticas de combate ao agronegócio (a galera da Bancada Ruralista, lembra?), então enquadrar o MST como organização criminosa visa tornar crime toda e qualquer luta organizada dos movimentos, como o MST e o MTST. Há anos vemos uma campanha mediática tentando influenciar negativamente a opinião pública sobre o MST e movimentos sociais em geral. Por trás disso está, mais uma vez, os interesses dos latifundiários. Medidas como a tentativa de criminalização do MST é um esforço da parte do novo governo eleito pra proteger os interesses de seus aliados e conservar o apoio deles.

O MST luta desde 1984 por Reforma Agrária e transformações sociais no país. Conquistou assentamentos pra mais de 1 milhão de pessoas e ajudou a construir e/ou implementar o Programa Nacional de Habitação Rural (PNHR), o Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), o reconhecimento da profissão de agricultora, o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), entre outras políticas. Sua luta é pelo cumprimento da função social da terra, que é produzir alimentos, pela diminuição da desigualdade social e por um planeta mais sustentável, com mais oportunidades para homens e mulheres. Na sua opinião, o que isso tem a ver com terrorismo?

12- Depois de conquistar a terra, o que os sem terra fazem?

Se organizam, constroem escolas (são mais de 2 mil escolas públicas construídas em acampamentos e assentamentos) e plantam alimentos.

Uma das principais contribuições do MST pra sociedade brasileira é cumprir o compromisso de produzir alimentos saudáveis. São 100 cooperativas, 96 agroindústrias e 1,900 associações, melhorando a renda e as condições do trabalho no campo.

O MST está comprometido com a transição pra agroecologia e muitos dos assentamentos produzem unicamente alimentos sem veneno (agrotóxicos). O MST luta pra construir uma nova sociedade, com soberania alimentar e agroecologia como modelo agrícola.

As famílias assentadas e acampadas são as maiores produtoras de alimentos orgânicos do Brasil e pioneiras no cultivo de sementes de hortaliças agroecológicas. São as maiores produtoras de arroz orgânico da América Latina, segundo o Instituto Rio Grandense de Arroz (IRGA). O MST tem centenas de feiras agroecológicas e promove anualmente a Feira Nacional da Reforma Agrária, a maior em diversidade de produtos no território brasileiro. Possui centenas de cooperativas, associações e agroindústrias que produzem alimentos in natura e industrializados, muitos com certificação orgânica. Isso movimenta a economia dos municípios, gera trabalho e renda.

13- O MST doutrina crianças?

Os estudantes do MST têm acesso às mesmas grades curriculares das escolas municipais e estaduais. A diferença é que as disciplinas são trabalhadas de acordo com a realidade das acampada(o)s e assentada(o)s. O Movimento luta pelo acesso à educação pública, gratuita e de qualidade em todos os níveis pra suas crianças, jovens e adultos. Já conquistou mais de 2 mil escolas públicas e 320 cursos via Pronera em 40 instituições, onde já se formaram 165 mil educandos no ensino fundamental e médio e em cursos técnicos e de nível superior, como agronomia, agroecologia, medicina veterinária, história, direito, serviço social e cooperativismo.

14- Mas o agronegócio gera empregos e produz alimentos! Sem ele não teremos comida, já que o modelo agroecológico não é capaz de alimentar toda a população brasileira. 

De acordo com o relatório “Perspectivas da Agricultura e do Desenvolvimento Rural nas Américas 2014: uma visão para a América Latina e Caribe” publicado pela FAO, no Brasil a agricultura familiar representa 77% dos empregos do setor agrícola. Mesmo recebendo boa parte do incentivo do governo, o agronegócio gera poucos empregos (comparado à agricultura familiar) e produz principalmente as chamadas commodities voltadas pra exportação (soja, milho, laranja, eucalipto, cana-de-açúcar e carne bovina).

Quem realmente alimenta o povo brasileiro é a agricultura familiar. Dados da Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário (Sead), mostram que a agricultura familiar é responsável por 70% do alimento que chega na mesa das brasileiras e brasileiros.

A agroecologia não é somente a maneira mais ecológica de produzir alimentos, ela também pode ser a mais eficaz. Um relatório do Alto-Comissariado de Direitos Humanos da ONU publicado em 2011 confirma essa declaração. O belga Olivier de Schutter, relator especial da ONU sobre direito à alimentação afirma: “Para poder alimentar nove bilhões de pessoas em 2050, necessitamos urgentemente adotar as técnicas agrícolas mais eficientes conhecidas até hoje. Neste sentido, os estudos científicos mais recentes demonstram que ali onde reina a fome, especialmente nas zonas mais desfavorecidas, os métodos agroecológicos são muito mais eficazes para estimular a produção alimentar do que os fertilizantes químicos.”

Além de já ter sido demonstrado que o modelo baseado em grandes monoculturas, onde a utilização de agrotóxicos e fertilizantes químicos é massiva, não é o mais eficaz pra produzir alimentos, esse modelo acelera o processo de aquecimento global, destrói o meio ambiente, polui fontes de água e empobrecem o solo, o que por sua vez vai dificultar cada vez mais a produção de alimentos. É um círculo vicioso. A FAO declarou em 2016 que o solo foi tão empobrecido pela pecuária e monocultura (utilizada em grande parte pra alimentar animais de abate) que se continuarmos com o modelo atual a Terra só terá capacidade de produzir mais 60 colheitas. Se nada for mudado, em menos de 60 anos não será possível produzir alimentos e a população mundial morrerá de fome ou vítima dos conflitos violentos causados por ela. A agroecologia é capaz de recuperar o solo e é a única chance de sobrevivência pras gerações futuras.

15- Se agroecologia é tão maravilhosa, por que as grandes empresas do agronegócio não a praticam?

As empresas privadas não investirão em práticas que não podem ser protegidas com patentes e que não criam novos mercados pra novos produtos químicos ou sementes melhoradas. Simples, e revoltante, assim. O objetivo do agronegócio não é produzir alimentos saudáveis e acessíveis pro povo, é lucrar o máximo possível. E o modelo atual do agronegócio é muito lucrativo… pros ruralistas. Mas na verdade os lucros só são tão elevados porque não são os ruralistas que pagam pelos desgastes que produzem: é o meio ambiente, os povos originários, a Amazônia, nossos rios, nossa saúde…  A proposta da agroecologia é justamente sair desse modelo gigante e trazer a agricultura pra uma escala humana, onde é possível cultivar a terra sem destruir-la, onde é possível produzir alimentos saudáveis e preservar a floresta ao mesmo tempo. Não faz sentido praticar agroecologia em escala industrial . O que é ótimo, pois assim o campo não é controlado por um punhadinho de grandes latifundiários, que é o que vemos hoje. Agroecologia passa por reforma agrária e democratização do campo, tudo que o agronegócio quer impedir.

16- Agroecologia precisa de muita mão de obra no campo e isso é atraso! Você quer voltar pra Idade Média se quiser que todo mundo volte pro campo. O agro é mais moderno, é o futuro.

No modelo atual já é a agricultura familiar que produz 70% do alimento que chega na mesa do povo brasileiro, segundo dados do Governo. Pra atingir os 100% e produzir alimentos suficientes pra alimentar toda e qualquer pessoa no Brasil, você não vai precisar largar seu emprego de engenheira, design ou de professora universitária e ir pro campo virar agricultora. Tem muita gente, mais de 4 milhões de famílias sem terra, pra ser exata, que esperam atualmente ter acesso à terra pra plantar e produzir alimentos. Não vai ser preciso forçar ninguém a largar sua vida na cidade e ir morar em uma comunidade rural.

Mas algo me diz que muitas pessoas que hoje moram em grandes centros urbanos prefeririam morar no campo, se tivessem a garantia de melhores condições de vida lá. Imagino que várias pessoas aceitariam de bom grado trocar seu emprego precário, junto com as duas horas diárias espremidas nos transportes públicos pra chegar até ele, pela chance de ser agricultora em sua própria terra.

E democratizar o campo não é atraso, não é “querer voltar pra Idade Média”. Sei que nos foi ensinado que “progresso” e “sucesso” são medidos unicamente em matéria de acumulação de dinheiro (capital), sem nunca incluir a destruição do planeta, a opressão humana e o sofrimento animal na conta. Mas e se a maneira de medir o progresso fosse diferente? E se ter comida sem veneno, educação gratuita de qualidade, saúde, lazer, justiça e liberdade fosse o verdadeiro progresso? Nesse caso, um Brasil sem desigualdade, com um campo cheio de camponesas e camponeses praticando técnicas de agricultura que respeitam o humano e os não-humanos (a fauna e a flora), colocando alimentos sem veneno na mesa de todas, protegendo nossos bens comuns (as florestas, a água, o ar) e respeitando os povos originários não seria um Brasil muito mais avançado do que o que temos atualmente?

O modelo predominante hoje, as monoculturas em grandes latifúndios, gera concentração de terras nas mãos de poucos, desigualdade social, desemprego, pobreza, trabalho em condições análogas à escravidão, destruição da natureza e violência contra os povos originários e o campesinato. Só os ruralistas ganham com esse modelo, enquanto todo o resto da população paga a conta. Esse sim é o verdadeiro atraso que faz com que continuemos parados no tempo. No tempo do Brasil Colônia.

17- Como posso apoiar o MST? 

Primeiro de tudo: se eduque sobre o MST. Desconfie do que a mídia dominante publicar sobre o Movimento e se informe diretamente com quem faz parte dele. O site do MST explica toda a história do Movimento, as bandeiras levantadas (cultura e educação, combate à violência sexista, saúde pública, diversidade étnica, soberania nacional e popular, entre outras), os projetos e ainda traz reportagens e notícias relacionadas à luta por justiça no campo.

Segundo: ajude a combater o discurso de ódio e a campanha de difamação contra o MST. Converse com pessoas ao seu redor e use suas redes sociais pra divulgar notícias (verdadeiras) sobre o Movimento e compartilhar a informação com o maior número de pessoas possível. E se ouvir os mitos expostos acima serem repetidos por alguém que você conhece, use a oportunidade pra educar essa pessoa, já que agora você conhece a realidade por trás dessas mentiras.

Terceiro: procure feiras da Reforma Agrária (as feiras agroecológicas do MST) na sua região e apoie agricultores que produzem alimentos sem veneno. Leve as amigas, a família. Aproveite pra conversar com os agricultores e agricultoras e se informar diretamente com essas pessoas sobre a realidade do movimento, as dificuldades que elas enfrentam…

Quarto: veja se tem acampamentos ou assentamentos do MST na sua região ameaçados de expulsão e leve seu apoio até eles. Acompanhe as notícias nas redes sociais do MST ou pergunte diretamente às assentadas durante as feiras da Reforma Agrária. As 350 mil famílias que fazem parte do MST estão em perigo e precisam urgentemente da nossa solidariedade. E ofereça seu apoio na hora de votar! Não vote em candidatos e candidatas que demonizam a luta do MST. Vote em quem apoia a reforma agrária.

E a pergunta valendo um milhão de reais…

O que o MST tem a ver com o movimento vegano?

O MST não é um movimento que luta por direitos de animais não-humanos e nunca levantou a bandeira vegana. E apesar da maior parte da produção do MST ser vegetal, animais também são explorados pro consumo e existem cooperativas de laticínios e de carnes em alguns assentamentos. Sem contar que a prática de criar animais pra consumo próprio, como galinhas, está presente em praticamente todos os acampamentos e assentamentos. O que, nesse caso, é uma relação com o animal completamente diferente da exploração animal praticada pela agropecuária, mas que, como militante anti-especista, eu também gostaria que não mais existisse.

Mas uma coisa é certa. A agropecuária destrói nosso patrimônio ambiental, explora humanos, compromete nossa segurança alimentar e assassina não-humanos aos bilhões. O Brasil já é o segundo maior exportador de carne de vaca no mundo e a empresa mais poderosa do setor, a JBS, é a maior processadora de carne do mundo, abatendo 80 mil vacas, 110 mil porcos e 12 milhões de aves POR DIA! O único compromisso do agronegócio é com o lucro e não se responsabiliza pelo desastre ambiental que causa e que afeta absolutamente todas nós.

No modelo imposto pela agropecuária a injustiça reina e milhões de pessoas passam fome. E não podemos ignorar que a exploração animal é o pilar mais importante que sustenta a agropecuária. Não é por acaso que a Bancada Ruralista também é chamada de Bancada do Boi. Enquanto esse for o modelo dominante, não poderemos sonhar com a conquista de direitos animais, nem com um crescimento considerável do veganismo, principalmente na população mais pobre, que é a maior no nosso país.

Já o modelo de sociedade que o MST luta pra construir tem como objetivos a justiça social, a democratização das terras, a soberania alimentar, a equidade de gênero, a preservação do meio ambiente e a agroecologia. Além de produzir alimentos sem veneno, ao alcance de todas, o MST se compromete com a reflorestação de áreas destruídas pela agropecuária, garantindo a proteção de animais silvestres. A visão de mundo do MST defende a preservação do nosso patrimônio ambiental e incorpora a noção de justiça não somente pra nossa geração, mas pra todas as outras que virão.

Em qual desses dois mundos você acha que a semente do veganismo tem mais chances de brotar?

Sim, pessoas sem terra fazem churrascos em seus assentamentos, mas sabe quem também faz? Os pais, amigos e até companheiras da maioria das pessoas veganas que conheço. Enquanto o especismo for a ideologia dominante, pessoas continuarão comendo corpos de animais e achando isso “normal, natural e necessário”. O problema está nessa ideologia, não em uma suposta tendência particularmente cruel das militantes do MST. E não posso não chamar a atenção das ativistas veganas que me criticam por apoiar os “fazedores de churrasco/exploradores de animais do MST”, mas que não vêem problemas em incentivar o consumo de produtos “veganos” produzidos por grandes multinacionais como a Nestlé, que exploram animais não-humanos (e humanos) em uma escala incomparavelmente maior, afirmando que se trata de uma aliança estratégica pra “tornar o veganismo mais acessível”.

Pois a minha aliança é com quem luta pra construir o mundo onde quero viver e onde a emancipação animal tem uma chance de acontecer. Se luto do lado do Movimento é porque os inimigos do MST são os mesmos inimigos da libertação animal: o agronegócio, a pecuária, a bancada ruralista. O MST está comprometido com a construção de um mundo mais justo e, por produzir comida vegetal sem veneno, muitas vezes em lugares onde antes só tinha capim e gado, agricultoras sem terra fazem  com que comida vegetal se torne acessível pra população. E, consequentemente, excluir a exploração animal no prato passa a ser algo possível nessas comunidades. A luta do MST é por soberania alimentar e somente com soberania alimentar poderemos tornar o veganismo verdadeiramente acessível.

O MST não integrou a noção de direitos animais na sua cartilha (ainda), mas estou convencida que o mundo que o Movimento está atualmente lutando pra construir trás nele o embrião da libertação animal. E pra ilustrar esse sentimento que carrego no peito, aqui vai o refrão de uma música de Zé Pinto, um poeta sem terra, que aprendi com Joelson, da liderança do assentamento Terra Vista (assunto do próximo post), no interior da Bahia.

“E assim já ninguém chora mais

Ninguém tira o pão de ninguém

O chão onde pisava o boi, é feijão e arroz

Capim já não convém”