Biodiversidade e produtos vegetais ultraprocessados


Essa semana a ocupação que também serve de base pro nosso coletivo anarco recebeu caixas e mais caixas de hambúrguer vegetal que iriam pro descarte. Falei sobre comida de descarte, e como isso alimenta não só as camaradas do coletivo, mas também as pessoas ao nosso redor, nesse post. Além da comida que pegamos regularmente (frutas e verduras da feira, todo tipo de alimento transformado que pegamos do descarte de supermercados) duas vezes por semana, de vez em quando uma montanha de alguma coisa que acabaria no lixo chega até nós. Umas semanas atrás foram 2 toneladas (sim, literalmente) de cogumelo orgânico congelado. Semana passada foram centenas de quilos de hambúrgueres vegetais, também congelados. Eram hambúrgueres feitos de proteína de soja com beterraba, temperos e alguns aditivos. Provei pela primeira vez ontem e o sabor é tão ruim que agora não sei o que fazer com o enorme saco de hambúrguer no congelador. 


Enquanto eu tentava tragar o intragável (pra que o jantar não acabasse no lixo), me vi pensando, mais uma vez, na obsessão geral com hambúrgueres vegetais e no mantra do veganismo liberal (“Quanto mais produtos veganos industrializados, melhor pros animais.”). Já escrevi longamente sobre como essa visão liberal do veganismo vai contra os objetivos do movimento antiespecista nesse post e nesse post . Mas hoje eu queria chamar a sua atenção pra algo que é frequentemente ignorado nessa discussão: a questão da biodiversidade.

Moqueca de caju, arroz da terra, feijão verde, farofa de couve e bolinho de macaxeira


A humanidade cultivou cerca de 6 mil plantas nos últimos milênios, mas hoje apenas 200 variedades são usadas na produção global de alimentos. E, pasmem, 9 delas ( soja, cana-de-açúcar, trigo, arroz, milho, batata, beterraba, mandioca e dendezeiro) representam mais de 66% de toda a produção mundial (Relatório da FAO sobre a biodiversidade na alimentação e na agricultura, de 2019). O agro-alimentar e a agro-pecuária ditam o que é plantado no mundo e pra esses setores essas são as plantas que mais interessam. São elas que alimentarão animais de abate (soja e milho) e se tornarão ingredientes na infinidade de produtos ultraprocessados encontrados nos supermercados (açúcar, farinha, óleo de soja, de milho e de palma, xarope de milho – que se transformam em biscoitos, salgadinhos, miojo etc).  É uma triste ilusão de ótica. A imensa quantidade de produtos nas prateleiras dos supermercados não é “variedade”: é mais do mesmo. Se trata de uma infinidade de variações de combinações dos mesmos ingredientes. E enquanto a oferta de ultraprocessados aumenta, a variedade de plantas nos campos diminui.


Cada canto do planeta tem seus sabores próprios e uma rica tradição culinária. Mas esses sabores estão sendo negligenciados e essa história está sendo esquecida. Mais e mais pessoas no mundo estão comendo a mesma coisa, produzida e comercializada por um número cada vez menor de corporações. Essa imensa concentração de poder, esse monopólio no campo e nos nossos estômagos é uma ameaça à segurança alimentar e à auto-determinação dos povos. As gigantes do agro-alimentar e seus produtos ultraprocessados quebram a conexão entre o alimento e a terra, entre quem come e quem planta. Vendo por esse lado, o aumento de produtos ultraprocessados “veganos” é um avanço pra quem? 


É óbvio que uma alimentação à base de vegetais salva a vida de animais não-humanos. Mas o potencial revolucionário de uma alimentação à base de vegetais naturais ou minimamente processados, produzidos sem veneno, pela agricultura familiar e vinda da reforma agrária vai muito além disso: a biodiversidade será protegida, a água será preservada, o solo terá uma chance de se regenerar e teremos soberania alimentar.
Em 2015 a FAO já avisava que a agricultura intensiva (monocultura -principalmente de commodities- + agrotóxicos) degradou e empobreceu o solo de uma maneira tão grave que ele só aguenta mais 60 anos de colheitas. Se não sairmos desse modelo, em algumas décadas nada que tentarmos plantar nos campos crescerá.


Não sei o que vou fazer com esses hambúrgueres de soja. Talvez se transformar em bolonhesa se tornem minimamente gostosos? E sim, imagino que tem vários hambúrgueres “veganos” saborosos, já que são apreciados por muita gente. Mas o objetivo desse post é chamar a sua atenção pro perigo da perda de biodiversidade que uma alimentação homogeneizada provoca. Eu não sei você, mas não luto pra viver em um mundo onde Monsanto, Nestlé e Coca-cola seguirão ditando o que plantamos no campo e o que colocamos no prato, mas agora em versão “vegana”. Nem quero viver em um mundo onde as culturas alimentares foram perdidas e todas as pessoas comem…hambúrguer vegetal ultraprocessado. Um veganismo que pede “mais produtos veganos de grandes marcas” reforça a mesmíssima estrutura que, hoje, impede que as pessoas das classes populares tenham acesso a alimentos vegetais frescos, ou seja, que impede que as pessoas tenham a possiblidade de escolher não mais se alimentar de animais e seus derivados. Que manipula nossos hábitos alimentares de maneira que nossa dieta se torne cada vez mais monótona e desconectada do território onde vivemos. A mesma estrutura que transforma a floresta em pasto, o Cerrado em monocultura de soja. Que envenena a terra, a água e as pessoas. Que impõe concentração fundiária e impede agricultoras e agricultores de terem acesso à terra. Terra que poderia ser usada pra plantar comida. Como já disse aqui no blog, a solução não passa pelo capitalismo. Ela o derruba


Por essa razão qualquer iniciativa que fortaleça o agro-negócio é uma perda pros animais, humanos e não-humanos e pra Terra. Ver mais produtos ultraprocessados “veganos”, embora possa parecer algo positivo no imediato, na verdade não é um avanço pra ninguém. Nem pros animais, nem pra Terra nem pra humanidade. E entre o agro-negócio e a agroecologia, apoie quem está fazendo o certo. Apoie (no seu prato e na sua militância vegana) quem está plantando um mundo onde nós e os animais com quem compartilhamos esse planeta tenhamos uma possibilidade de sobreviver. Porque é a nossa única chance. 

7 comentários em “Biodiversidade e produtos vegetais ultraprocessados

  1. Lindo texto. é sempre bom reler e fortalecer os ideiais em conjunto.
    Sempre penso a alimentação vegetal como um comer que gera amor e cuidado à terra, no sentido do chão e do mundo e seus seres.
    Nós alimentamos a terra de cuidado e nos nutrimos desse mesmo cuidado, com um alimento cultivado por alguém que cultiva a terra em seu sentido verdadeiro, a fertiliza. Também é cuidado e amor à esse alguém que cuida da terra por nós (talvez o trabalho mais valoroso e necessário que exista). E ainda amor à terra no sentido dessa terra que chamamos de natal, onde nascemos, o tal país. Comer as coisas da nossa terra é a melhor forma de nos ligarmos à ela.
    Enfim, o veganismo, só se preenche de sentido pra mim, se for desse modo.

  2. Sandra, eu não era vegana e nem vegetariana, mas por uma intolerância a lactose acabei encontrando várias páginas veganas no instagram e comecei a seguir você, acasos da vida.
    Eu fiquei chateada quando seu perfil foi excluído e acabei te encontrando aqui, no blog.
    Estou apaixonada por sua escrita e pelas reflexões que levanta.
    Mulher, você é muito boa. Na verdade, seu trabalho é incrível.
    Parabéns!
    Estou em transição para o veganismo e suas publicações tem me ajudado muito a manter esse caminho e não cair nas falácias do veganismo liberal.

    Continue com esse trabalho lindo.
    Abraços

  3. Infelizmente muitos alimentos processados/ultraprocessados vegetarianos estritos ou não-vegetarianos estritos usam vegetais da monocultura.

    Mas mesmo assim foi através do veganismo, que conheci plantas alimentícias não-convencionais como a ora-pro-nobis, o peixinho e a azedinha. Conheci essas plantas porque gostava de programas culinários da Bela Gil e meu pai me deu um livro dela só com receitas veganas (Ingredientes do Brasil) a poucos anos. A primeira dessas plantas que conheci foi a ora-pro-nobis, que meu pai achou na feira perto de casa, as outras comprei na Feira Orgânica do Parque da Água Branca (uma das feiras orgânicas mais famosas de São Paulo) e gostei de todas elas (a erva peixinha frita é muito boa); mas uma das plantas que mais me marcou foi a ora-pro-nobis, por ter muita proteína e por ter provável origem no Brasil (porque surgiu na parte de clima tropical das Américas).

    Observação: Faz poucos dias, ouvi falar que a casca de banana é comestível (através de um vídeo de um canal de receitas veganas); comi ela crua com a banana e crua sem a banana; e gostei (mas gostei mais com a banana porque tem a mistura de um gosto doce e salgado; só a casca achei amargo). Mas ainda não cozinhei casca de banana (chamam de carne de casca de banana). Se for comer casca de banana, a casca não pode estar majoritariamente preta.

  4. Muito bom. Mas como é difícil sair do buraco e lutar, não vou negar. Moro na Inglaterra (no momento, logo logo vou ser obrigada a sair) e aqui só existe veganismo liberal (ou pelo menos é isso que parece). Eu não sei como lutar por aqui, moro em uma cidade pequena bem no sul. E também não sei como explicar outra visão do veganismo pras pessoas, fico toda enrolada por não saber a tradução dos termos e tudo mais. Sandra, vc por acaso conhece algum blogueiro/a ou autor/a que fale sobre isso em inglês? Talvez ajude minha cabeça a se ajeitar e conseguir militar direito, rs

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