No início do mês Anne foi convidada pra participar de uma conferência em Marseille (sul da França), no dia internacional da mulher. O evento foi organizado pelas ‘Femmes en Noir’ de Marseille, um grupo criado em solidariedade com o movimento ‘Women in Black‘, formado por mulheres israelenses que lutam há 26 anos contra a ocupação israelense nos territórios palestinos. Se você nunca ouviu falar desse movimento, vale a pena visitar o website. E não deixem de ver também a foto-reportagem feita por Activestills (o coletivo de fotógrafos do qual Anne faz parte).

Mas voltando ao evento, Anne foi convidada pra falar da luta das mulheres palestinas contra a ocupação israelense, acompanhada de uma ativista palestina, Manal Tamimi (da cidade de Nabi Saleh) e de uma ativista israelense, Haidi Motola. Anne voltou pra casa com o discurso de Haidi na bolsa, pois tinha gostado tanto do que ela disse durante a palestra que decidiu publicar suas palavras no blog dela (se você ainda não conhece, vai lá: Chroniques de Palestine et d’Ailleurs). Eu, que não participei do evento, li o discurso de Haidi no metrô e, como era de se esperar, achei muito interessante e forte.

Eu já falei da situação na Palestina por aqui e espero que vocês tenham lido a série ‘Histórias Palestinas’, onde alguns dos meus amigos palestinos mais próximos dividiram fragmentos de suas vidas conosco. Então além de ter dado a minha opinião de estrangeira morando na Palestina, que não tem lá muita importância, procuro também dar a palavra aos habitantes da região, palestinos e israelenses, pra que eles contem histórias sobre a ocupação na primeira pessoa. Foi por isso que ano passado entrevistei Sahar Vardi, uma ativista de Jerusalém (um post imperdível!). E gostaria de dividir duas coisas com vocês hoje.

A primeira é a carta aberta dos jovens israelenses objetores de consciência desse ano. Em Israel o serviço militar é obrigatório tanto pra homens (3 anos) quanto pra mulheres (2 anos), mas todo ano alguns jovens se recusam a servir o exército por razões políticas e morais. Esse ano o grupo de objetores de consciência é o maior desde 2008 (60 pessoas) e, juntos, eles escreveram uma carta ao primeiro ministro israelense, Benjamin Netanyahu, explicando porque se recusam a fazer parte do exército. Ela começa assim:

Nós, cidadãos do Estado de Israel, somos designados para o serviço militar. Apelamos aos leitores desta carta que coloquem de lado o que sempre foi tido como uma evidência e que reconsiderem as implicações do serviço militar.

Nós, abaixo assinados, temos a intenção de recusar de fazer o serviço militar e a principal razão para esta recusa é a nossa oposição à ocupação militar dos territórios palestinos. Palestinos nos territórios ocupados vivem sob o governo israelense, apesar de não terem escolhido isso, e não têm acesso a nenhum recurso legal para influenciar este regime nem os processos de tomada de decisão. Isto não é nem igualitário nem justo. Nesses territórios os direitos humanos são violados e atos definidos pelo direito internacional como crimes de guerra são perpetuados diariamente.

 

Vocês podem ler o resto da carta aqui e saber um pouco mais sobre os objetores de consciência israelenses aqui.

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A segunda coisa que queria compartilhar com vocês hoje é o discurso que Haidi fez durante o evento em Marseille. As palavras dela são mais uma janela de compreensão que se abre sobre a questão da ocupação dos territórios palestinos por Israel. E o fato dessa janela ser aberta por uma israelense, que faz parte da força ocupante, torna o relato ainda mais interessante e, pra quem tem dificuldade em aceitar a versão dos ocupados, mais fácil de ser acreditado.

Nasci em Haifa e cresci no norte de Israel , na Galileia. Mas somente muito anos depois eu aprendi que era a Palestina também. Hoje os dois são inseparáveis pra mim, tragicamente ligados um ao outro. Eu venho de Palestina / Israel.

Eu cresci em uma pequena cidade. As cidades vizinhas mais próximas eram todas árabes , palestinas , mas nossas vidas estavam separadas . Escolas e playgrounds diferentes. Só mais tarde, em Tel Aviv, eu comecei a conhecer pessoas que tinham crescido ali do meu lado. E foi em grande parte através da minha experiência na Cisjordânia que eu também aprendi sobre a situação dos palestinos dentro de Israel.

Eu decidi não fazer o serviço militar obrigatório quando completei 18 anos, mas não posso dizer que eu realmente sabia naquela época o que era a ocupação. Eu só sabia que não queria fazer parte de um exército que estava ocupando outra nação. Foi depois que eu entendi que através da minha simples existência como cidadã israelense eu também participava dessa ocupação, que é realizada em meu nome e que somente através da resistência ativa eu podia mudar isso.

Eu não tinha então a consciência política que tenho hoje e não era madura o suficiente pra fazer da minha recusa um ato político. Eu admiro hoje os jovens que se recusam a fazer o serviço militar e que, no lugar disso, vão pra a cadeia. Eles são corajosos, não só por escolherem ser marginalizados pela sociedade, mas ao dizer isso em voz alta – nós somos contra a ocupação e a repressão, nós nos recusamos a ver isso como a única possibilidade, nós nos recusamos a nos tornarmos soldados neste estado militar.

Já que eu não tinha conhecido a realidade nos territórios ocupados durante o serviço militar, que é o caso da maioria dos israelenses, ela continuou obscura pra mim por um longo tempo. Ramallah, Al Khalil, Nablus, Jenine eram apenas buracos negros no mapa em minha mente. Eu morava em Tel Aviv, 20 minutos do checkpoint mais próximo, mas só o vi quando escolhi conscientemente ir lá. Eu acho que a situação mudou e a ocupação tornou-se mais visível e presente até mesmo na vida escapista de Tel Aviv. Mas seis anos atrás foi realmente impressionante pra mim ver o quanto ela era invisível e como eu podia viver sem ver a opressão e a violência acontecendo ali do meu lado. Tem todo um sistema que trabalha pra esconder, reprimir e justificar as violações dos direitos humanos que estão acontecendo todos os dias.

Somente aos 25 anos decidi que eu tinha que saber e ver com meus próprios olhos o que estava acontecendo. Eu me tornei voluntária na B’Tselem, uma organização de direitos humanos que trabalha nos territórios ocupados. Então, pela primeira vez, eu vi os checkpoints, as estradas de apartheid, o outro lado do muro de separação, as demolições de casas, os toques de recolher, os ataques à meia-noite e as prisões, as restrições de movimento, a falta de água e de infra-estruturas, as detenções e interrogatórios de menores. E o que você viu uma vez não pode voltar a ser invisível.

Foi então que percebi pela primeira vez que a violência tem muitas faces diferentes e que geralmente apenas a violência extrema, o sangue e as explosões, aparece na mídia e entra no nosso consciente. Mas qual é a cara da violência na vida de todos os dias? A insegurança constante, restrições, perseguições e humilhações, que cara elas têm, quem as vê ?

Começamos uma pequena oficina de vídeo, na cidade de Ni’ilin, como parte do projeto ‘Shooting Back’, de B’Tselem. Os alunos eram um pequeno grupo de adolescentes. Eu dei exercícios sobre a composição e a luz e eles filmaram manifestações. Eu falava sobre o enquadramento e narração e eles filmavam manifestações. Eu mostrei os princípios da edição e eles editavam manifestações.  Finalmente eu me juntei a eles pra ver com meus próprios olhos a manifestação semanal da sexta-feira, contra a construção do muro de separação na cidade. Eu tinha ido como fotógrafa e fiquei como manifestante.

As manifestações semanais em Ni’ilin começaram em meados de 2008, quando a construção do muro de separação recomeçou, depois de uma pausa causada por processos judiciais. A cidade está inteiramente localizada na área C, ou seja, completamente sob a autoridade militar israelense. Ela fica cerca de 3 km da linha verde e perto de uma dos maiores colônias israelenses, Modi’in Ilit . A rota do muro de separação estava prestes a cortar os moradores de uma grande parte de suas terras agrícolas. Ele foi claramente projetado considerando não apenas razões de segurança, mas levando em conta os planos de futura expansão das colônias israelenses. Hoje a barreira, um muro de concreto de 7 metros de altura, privou a cidade de cerca de 30% de suas terras.

Não longe dali, na cidade de Bil’in, um símbolo do protesto popular, as manifestações começaram em 2005. Depois de uma longa batalha legal eles conseguiram fazer com que o traçado do muro fosse mudado, mas 150 hectares de terras da cidade ainda estão do outro lado do muro. As manifestações da sexta-feira ainda acontecem todas as semanas, há nove anos.

Nabi Saleh é um vilarejo com cerca de 500 habitantes, que tem lutado de maneira corajosa contra o opressão. Eu conheci Nabi Saleh em 2009, quando os protestos começaram em resposta à confiscação de terras do vilarejo por colonos israelenses. Já que temos a sorte de ter Manal Tamimi aqui, eu vou deixá-la apresentar seu vilarejo e sua luta.

Estes são apenas alguns exemplos. Existem mais cidades que organizam manifestações semanais e claro que existem outros meios de luta não-violenta , ações diretas, desobediência civil e organizações de base que acontecem em ambos os lados do muro.

O grupo Anarchists Against the Wall (Anarquistas Contra o Muro) foi formado em 2003 como uma resposta à decisão de construir a barreira de separação, o muro que foi declarado ilegal pelo Tribunal Internacional de Justiça. Esse muro, símbolo da ocupação, é apenas uma das muitas formas de opressão e de controle da população palestina nos territórios ocupados. Anarchists Against the Wall tem sido ativo de diferentes maneiras na resistência à ocupação tanto dentro de Israel quanto na Cisjordânia. Por exemplo, participando e apoiando essas manifestações.

Há outras organizações israelenses e israelo/palestinas que trabalham e lutam também. Pra citar apenas algumas: “Machsom Watch” – um movimento de mulheres israelenses que observam e documentam o que acontece nos checkpoints e tribunais militares, “The Coalition of Women for Peace” que, entre outros, tem investigado a implicação econômica da ocupação no projeto de pesquisa “Quem lucra com a ocupação?”, ‘Boycott from within” um grupo israelense de apoio ao pedido de boycott aos produtos israelenses feito pela sociedade civil palestina (BDS). Esse último grupo esteve recentemente nas manchetes em Israel por causa da ‘lei Anti-boycott’ e por causa do crescimento desse movimento e da pressão que ele vem exercendo sobre a economia israelense. Há muitos outros ainda, talvez não em número suficiente, mas o tempo é curto e não poderei apresentar todos agora.

Organizar e participar de manifestações em Israel é uma coisa, nos territórios ocupados a história é completamente diferente. A liberdade de protestar e de se reunir, um direito humano fundamental, é negada aos palestinos na Cisjordânia. A luta popular não violenta é confrontado e reprimida pelo exército e a polícia de fronteira israelenses de várias maneiras diferentes .

Muitas vezes as áreas onde acontecem os protestos semanais são declaradas zonas militares fechadas enquanto durar a manifestação, transformando o protesto em algo “ilegal” e fazendo com que os participantes sejam sujeitos a detenção e processos judiciais. Em alguns casos foram emitidas ordens proibindo totalmente algumas cidades de fazerem manifestações. Pra dispersar os chamados protestos “ilegais”, o exército usa vastos meios de controle de multidões, mesmo quando as manifestações não são violentas, algumas vezes impedindo que elas aconteçam antes mesmo de começar. 

Durante anos temos assistido a desvios repetidos dos regulamentos de ‘abrir fogo’, causando ferimentos graves e mortes. O meio mais comumente utilizado é o gás lacrimogêneo, em suas diferentes formas e métodos de disparo. Ele é teoricamente não-letal, mas quando uma lata de gás lacrimogêneo é disparada na direção de uma pessoa ela se torna uma arma muito perigosa. Balas de aço revestidas de borracha são outro meio não-letal, mas, no entanto, causam mortes quando atiradas à queima-roupa e quando o tiro visa a parte superior do corpo. Mais uma vez, essas práticas vão contra os regulamentos citados acima. 

Munição real deve ser acionado somente em caso de ameaça imediata à vida, porém ela tem sido usada durante as manifestações, geralmente contra pessoas atirando pedras, quando a ameaça à vida é totalmente questionável. O “skunk ” é, de fato, não-letal, mas é uma maneira muito desagradável de dispersar a multidão. O skunk (gambá em Inglês) é uma mistura química extremamente fedorenta, desenvolvida pela polícia israelense, que é pulverizada através de um canhão de água montado em um caminhão. Às vezes ele é pulverizado dentro da cidade, deixando o mau cheiro nas casas e nas pessoas por muito tempo. Frequentemente toda a cidade sofre quando o exército entra em uma área povoada: restrição de movimento, gás lacrimogêneo, skunk e danos às propriedades.

O uso indevido de armas de controle da multidão durante as manifestações causaram muitos acidentes e dezenove mortes. Quatorze causadas por munição real, três por gás lacrimogêneo e duas por balas de aço revestidas de borracha. Além disso o exército muitas vezes invade as cidades e casas durante a noite, pra prender pessoas.

Muitos dos organizadores foram perseguidos na justiça, acusados de ‘organizar manifestações’ e ‘incitação à violência’. Alguns ativistas estrangeiros que vieram mostrar solidariedade foram deportados por terem participado das manifestações. Muitos palestinos tiveram suas permissões pra entrar em Israel ou simplesmente pra ter acesso às suas terras do outro lado do muro confiscadas como punição. Tudo isso numa tentativa de suprimir a luta popular.

“Pare ou eu atiro!” gritou o soldado para mim. O exército tinha invadido Nabi Saleh e eu estava correndo entre as oliveiras. “Você não pode estar falando sério “, pensei para mim mesma, mas parei, pois estava com medo demais pra ver se ele estava realmente falando sério. Fui presa e acusada de atirar pedras contra os soldados, uma acusação grave, mas muito mais grave se você é palestino. Um sistema legal diferente é aplicado se você é palestino ou israelense. Isso inclui os colonos israelenses que vivem na verdade na mesma área geográfica que os palestinos.

Enquanto os palestinos são sujeitos à lei militar e são julgados em um tribunal militar, que praticamente proíbe toda manifestação, israelenses e estrangeiros são julgados em um tribunal civil israelense, que reconhece a liberdade de protesto, conforme as normas em uma democracia. Os palestinos são frequentemente detidos por muitos meses sem ver um juiz ou um advogado e isso inclui menores de idade. Os direitos dos palestinos são constantemente violados, métodos coercitivos são usados ​​durante os interrogatórios e as multas e encargos que eles enfrentam são muito maiores do que eles receberiam pelas mesmas ações se fossem julgados no tribunal civil.

O sistema de justiça civil não permitiria tão facilmente que um grupo de soldados invadisse uma casa na calada da noite pra prender menores. Com certeza não permitiria que eles fossem interrogados sem a presença dos pais e sem qualquer orientação jurídica. Mas na Palestina isso acontece muito frequentemente, como as histórias de Nabi Saleh e Ni’ilin nos mostram. Os testemunhos desses meninos apavorados são então usados como prova para condenar outras pessoas, um método que não seria aceito em nenhum sistema de justiça democrático.

Fui detida por 24 horas (o máximo permitido no meu caso), mais algumas horas extras porque era Shabat. Antes de me liberar o juíz me  perguntou: “Você não tem nada melhor para fazer numa sexta-feira ?” Na hora eu não respondi, mas agora eu gostaria de responder: “Não, eu não posso imaginar uma maneira melhor de passar uma sexta-feira do que resistindo à ocupação violenta e destrutiva e abraçando a possibilidade de uma mudança e de uma maneira de viver diferente.”