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Salada de macarrão e grão de bico com abobrinha, tomate e rúcula

Fiz uma longa lista com tudo que tenho que fazer antes de viajar, mas parece que minha cabeça entrou de férias antes do meu corpo! Ando me arrastando pela casa, com vontade de fazer siestas, tomar longos cafés da manhã admirando a folhagem e ler revistas de culinária no sofá. E, o mais importante, não trabalhar, não limpar a casa e não responder emails. O único ítem que consigui respeitar da lista (até então) é “esvaziar a geladeira e o congelador”.

Eu cozinho leguminosas todas as semanas, depois divido em porções e congelo, de modo que a qualquer época do ano, quem abrir meu congelador vai encontrar vários saquinhos de feijão (de vários tipos), grão de bico e lentilha. Graças a esse hábito meu, sou capaz de preparar uma refeição em menos de meia hora. Tiro um saquinho do congelador, o legume que estiver dando sopa na geladeira e um cereal do armário e improviso um almoço/jantar nutritivo, balanceado e rápido. Essa fórmula é prática e, mantendo uma certa harmonia entre os ingredientes, produz resultados saborosos. Mas ontem minha vontade de dar cabo ao conteúdo da geladeira, e usar os restos do dia anterior, foram mais fortes que meu bom senso culinário e o jantar foi uma cacofonia gastronômica. Misturar arroz estilo asiático com repolho e feijão branco não é uma boa idéia (só avisando, caso alguém tenha pensado nisso). Tudo que posso dizer é que não passei uma noite muito agradável, mas sacrifícios como esse às vezes são necessários pra não desperdiçar comida. Felizmente, tem também as misturas improvisadas que dão muito certo, como essa salada de macarrão e grão de bico.

Combinar um cereal com uma leguminosa é uma das regras de ouro da nutrição vegana. Os dois juntos formam uma proteína vegetal completa, de ótima qualidade. Mas feijão com arroz todo dia cansa, por isso estou sempre experimentando novas combinações. Nunca tinha colocado grão de bico e macarrão no mesmo prato antes, mas, embora possa parecer estranho pra alguns, os ousados que experimentarem a receita abaixo não vão se arrepender. Esses dois ingredientes não têm um sabor acentuado, por isso é importante misturá-los com outros ingredientes de sabor intenso. Uma dose generosa de alho, algumas azeitonas pretas, um toque de raspas de limão, um bom azeite e um pouco de rúcula transformam essa salada em um prato excitante e saboroso. Abobrinhas assadas e tomates maduros completam o prato, deixando tudo mais suculento. Não sei se vocês têm costume de comer macarrão frio, com uma vinagrete no lugar dos molhos tradicionais, mas esse tipo de salada é perfeito pros dias quentes. Alimenta sem pesar no estômago e não te faz suar como um prato quente.

Agora vou (tentar) voltar pros meu afazeres, contando os minutos que faltam pro meu corpo cansado se juntar à minha cabeça na terra encantada das férias.

 

 Salada de macarrão com grão de bico, abobrinha, tomate e rúcula

 Eu gosto de uma dose generosa de alho e bastante rúcula na minha salada, mas ajuste as quantidades pra adaptar a receita ao seu gosto. Lembre-se, no entanto, que macarrão e grão de bico têm um sabor suave e precisam de outros elementos marcantes pra realçá-los. Outra dica: é importante usar tomates bem maduros e suculentos e azeitonas de ótima qualidade nessa receita. Uso grão de bico congelado e coloco diretamente na panela, sem descongelar antes.

250g de macarrão do tipo penne, parafuso ou tubos curtos (melhor se for integral)

1x de grão de bico cozido

3 dentes de alho ralados

2 abobrinhas italianas pequenas em rodelas médias (entre 1/2x e 2x quando assadas)

12 azeitonas pretas, caroços removidos e partidas ao meio

2 tomates grandes (bem maduros), em pedaços médios

raspas de 1 limão pequeno

2 punhados de rúcula picada

4cs de azeite, mais um pouco pra untar

1cs de vinagre balsâmico

sal e pimenta do reino a gosto

Disponha as rodelas de abobrinha em uma placa levemente untada com azeite. Regue com 1cs de azeite, tempere com sal e asse em forno médio até ficar macio e ligeiramente dourado. Mexa uma vez durante o processo pra virar as rodelas e dourar do outro lado. Cozinhe o macarrão al dente, escorra e reserve. Aqueça 1cs de azeite em uma frigideira pequena e doure o alho. Junte o grão de bico cozido (se congelado, não precisa descongelar antes) e refogue, mexendo de vez em quando, durante alguns minutos, até os grãos ficarem com uns pontinhos dourados. Tempere com sal e reserve. No recipiente em que for servir, misture 2cs de azeite com 1cs de vinagre balsâmico. Junte os tomates em pedaços, com o suco que tiver escorrido deles, as azeitonas, o macarrão cozido, as raspas de limão, o grão de bico (raspe bem a frigideira pra recuperar todo o alho frito), a abobrinha assada e uma dose generosa de pimenta do reino. Mexa pra envolver tudo com o molho, prove a corrija o sal, se necessário. Por último junte a rúcula, misture rapidamente e sirva em temperatura ambiente. Rende 2-4 porções (dependendo do seu apetite). Gosto de comer essa salada com uma porção extra de rúcula, mas só faça isso se você for fã.

Burguer de lentilha e beringela

Esse fim de semana hospedamos uma amiga australiana aqui em casa. Eu não conheço muitos australianos, mas parece que o churrasco é uma parte essencial da vida deles. Essa amiga se comportou como uma boa australiana adoradora de churrasco durante os últimos 61 anos, mas mês passado ela recebeu uma notícia que a fez refletir sobre suas escolhas alimentares. Seu médico avisou que com a taxa de colesterol e pressão altíssimas, casos de infarto na família e muitos quilos em excesso, ela se encontrava em uma situação de alto risco. O alarme na cabeça dela disparou e dias depois ela chegou aqui em casa dizendo que queria ser vegana por três meses pra baixar suas taxas e recuperar a saúde perdida. Quando eu disse que Bill Clinton também estava seguindo um regime quase exclusivamente vegano (ele come peixe de vez em quando) pelos mesmos motivos, ela se empolgou ainda mais. Se Bill conseguiu, ela também ia conseguir! Antes de ir embora ela me pediu dicas sobre alimentação vegetal, nutrição e até pegou emprestado um dos meus livros de receitas veganas.

Então quando a vi sábado passado, um mês depois do nosso último encontro, a primeira coisa que fiz foi perguntar se a mudança de regime tinha dado certo. Pelo jeito a determinação dela foi mais forte que as tentações e, tirando algumas escapulidas (“Só uns pedacinhos de frango assado aqui e acolá, mas é menos mal que queijo, não?”), ela se mantém firme na decisão. Claro que o fato de ter perdido alguns quilinhos sem fazer esforço, de estar se sentindo melhor, mais leve e com mais energia foram vitais pra ela querer continuar nesse caminho. Fiquei muito feliz em escutá-la dizer que já se acostumou com leite de soja, que passou a comer aveia todas as manhãs e que aprendeu a cozinhar, e apreciar, vários pratos veganos. Ela confessou que no entanto ainda estava se acostumando psicologicamente com a ausência de carne no prato. É que depois de uma vida inteira acomodando as verduras e cereais ao redor de um pedaço de proteína animal, ela sentia uma certa dificuldade em ver como prato principal o que antes não passava de um acompanhamento.

Embora eu nunca tenha tido esse problema,  entendo o que ela quis dizer. Pra fazer a transição de regime com sucesso, é preciso repensar a maneira como compomos as refeições. Muitos recém-vegetarianos procuram desesperadamente um substituo pra a proteína animal que eles possam preparar da mesma forma e consumir em todas as refeições. Isso explica, na minha opinião, o sucesso da proteína de soja. Mas eu acho que se concentrar em um único alimento, mesmo vegano, não é inteligente: você acaba privando seu organismo, e suas papilas, da grande diversidade de vegetais que a natureza nos oferece. Se aprendermos a tratar os vegetais com a atenção que eles merecem, eles deixarão de ser coadjuvantes e brilharão no papel principal. Hoje eu fico totalmente satisfeita com um risotto de cevada, por exemplo, e não sinto de maneira alguma que tem alguma coisa faltando no meu prato.

Mas se você ainda acha importante acompanhar seus legumes de algo mais sólido, de uma “mistura” (é assim que gostamos de chamar a proteina principal, sempre de origem animal, no Nordeste), esqueça a danada da soja e experimente esses burguers. Bolinhos salgados, ou burguers, são uma ótima opção pra preecher essa lacuna. Ricos em proteína, mas sem a gordura e o colesterol presentes na carne, eles são deliciosas opções de “prato principal” e acompanham perfeitamente legumes, saladas ou o feijão com arroz diário, complementando qualquer refeição. Eu já publiquei uma receita de bolinhos salgados aqui, mas a receita de hoje é minha última, e mais saborosa, criação do gênero. O sabor defumado das beringelas misturado com lentilhas e especiarias produz um resultado delicioso. Ao combinar lentilha (leguminosa) com aveia e farinha de rosca (cereais) temos uma proteína completa, então esses burguers são perfeitos em todos os sentidos. Eu os servi acompanhados de uma salada de beterraba e rúcula, então vou incluir essa receita também. Mas se quiserem acompanhá-los de outra coisa garanto que eles não vão reclamar.

Eu criei essa receita pra mostrar à nossa amiga australiana uma maneira saudável e gostosa de preencher o vazio deixado pela carne no seu prato. Ela adorou e voltou pra casa com a receita dentro da bolsa. Será que meus burguers vão ajudá-la a se manter no regime vegano e a recuperar a saúde? Espero que sim. Mas enquanto isso se eles ajudarem você a incluir mais variedade e sabor ao seu cardápio eu já fico feliz.

Burger de lentilha e beringela

Assar as beringelas diretamente na chama do fogão é importante pra dar um sabor defumado ao legume. Veja aqui como fazer.  Eu gosto de fazer minha própria farinha de rosca. É simples e mais nutritivo: basta assar algumas fatias de pão integral e triturar tudo no liquidificador. Esses burguers podem ser congelados e ficam ainda mais gostosos depois de uma temporada no congelador, por isso é uma boa idéia dobrar a receita e congelar uma parte. Não precisa descongelar os bolinhos antes de assar, coloque diretamente na frigideira e cozinhe como explicado na receita.

2 beringelas médias (1x de polpa assada)

1 ½ x de lentilha cozida

1 cebola picadinha

3 dentes de alho picados

1x de farinha de rosca

½ x de aveia fina

½ cc de semente de coentro em pó

1cc de cominho

2cs de shoyo

1cs de suco de limão

1cc de raspas de limão (orgânico, se possível)

2cs de azeite, mais pra cozinhar os burguers

sal e pimenta do reino a gosto

Asse as beringelas na chama do fogão até elas ficarem bem macias e a casca ficar completamente carbonizada (instruções aqui). Abra as beringelas no sentido do comprimento e recolha a polpa com uma colher. Você vai precisar de 1x de polpa pra receita. Se tiver um pouco mais reserve pra outro uso (muta’bal, por exemplo).

Aqueça o azeite e refogue a cebola até ficar dourada. Junte o alho e refogue mais 30 segundos. Desligue o fogo e junte todos os outros ingredientes. Misture bem e amasse ligeiramente as lentilhas com as costas de uma colher de pau. A massa não precisa ficar uniforme, lentilhas inteiras são bem vindas (clique na foto pra ver melhor a textura dos meus burguers). Prove e corrija o tempero. Depois de fria deixe a mistura descansar pelo menos meia hora (pode ficar até uma noite inteira) na geladeira, assim os sabores se intensificam e fica mais fácil de formar os burguers.

Retire colheradas de massa e, com as mãos, forme uma bola ligeiramente achatada. Use 1cs cheia de massa por burguer (burgers maiores não vão assar direito e podem se quebrar).  Espalhe uma fina película de azeite em uma frigideira grande e aqueça em fogo alto. Disponha de 4 à 6 burgers, dependendo do tamanho da sua frigideira, e cozinhe tampado até ficar dourado de um lado. Com uma espátula, vire os burguers com cuidado e deixe dourar do outro lado, dessa vez descoberto. Repita a operação com os burgers restantes. Resista à tentação de colocar azeite demais na frigideira. Os burgers cozinham no vapor (por isso é importante tampar a frigideira) e um pequena quantidade de azeite é suficiente pra deixá-los dourados. Se preferir, você pode assá-los no forno, em uma placa ligeiramente untada com azeite.

Rende aproximadamente 15 burguers.

Salada de beterraba e rúcula

Salada de beterraba e rúcula

Acho que a doçura da beterraba combina muito bem com o picante da rúcula. As folhas de hortelã são opcionais, mas elas acrescentam um frescor delicioso à salada.

2 beterrabas médias cozidas*

1 punhado de rúcula

1/3 x de folhas de hortelã (opcional)

3cs de azeite

2cs de vinagre balsâmico

sal e pimenta do reino

Descasce as beterrabas e corte-as em cubos pequenos. Lave e rasgue a rúcula em pedaços. No prato que for servir, disponha a rúcula, os cubos de beterraba e a hortelã. À parte misture o azeite, o vinagre balsâmico, uma pitada generosa de sal e pimenta do reino à gosto. Misture bem e despeje sobre a salada. Serve 2-4 porções.

* Aprendi com minha mãe à cozinhar betterabas inteiras na panela de pressão. Preserva as vitaminas e cozinha bem mais rápido.