Antes de 2013 ir embora, aqui está a décima segunda, e última, dica do Guia Papacapim de Alimentação Saudável:

 Adquira uma base sólida de conhecimentos em nutrição

Fico muito triste quando vejo a que ponto a maioria das pessoas se sente perdida quando o assunto é nutrição. Pessoas se alimentando mal, fazendo escolhas alimentares pobres, adotando todos os regimes malucos que aparecem nas revistas, acreditando piamente que iogurte açucarado e aromatizado é essencial pras crianças crescerem saudáveis, correndo pra comprar o super alimento que passou na tv achando que ele é a cura pra todos os seus problemas… Tudo isso poderia ser evitado se a gente tivesse alguns conhecimentos de base em matéria de nutrição. Os mitos sobre alimentação, que prejudicam a saúde de muita gente e cria preconceitos contra o veganismo (“Só a carne tem todas as proteínas que o corpo precisa”,  “Só tem cálcio no leite”, “Só tem ferro na carne” etc.), se partiriam em mil pedacinhos se as pessoas fossem mais bem informadas.

O que mais me intriga é ver como algumas pessoas engolem qualquer asneira relacionada à alimentação, sem se questionar por um segundo se a informação faz sentido. Quando eu fazia oficinas de nutrição no campo de refugiados de Aida, na Palestina, escutei algumas pérolas que me fazem rir (e chorar de pena da pessoa) até hoje. Uma senhora jurava que beber um copo de água morna, em jejum, todos os dias era suficiente pra derreter a gordura do corpo e perder peso. Uma moça me perguntou um dia se era verdade que colocar uma semente de salsinha dentro do ouvido ajudava a emagrecer. Quando perguntei, com os olhos arregalados, onde ela tinha visto isso, ela respondeu “Na televisão.” Mas não é só em meios onde as pessoas não têm muito acesso à informação/educação que esse tipo de ignorância nutricional aparece. Pessoas instruídas na França já me disseram coisas que deixaram meu cabelo em pé. Uma senhora me explicou, um dia, que todo dia comia meia ervilha seca, em jejum, pra baixar o colesterol. No Brasil eu sempre tenho vontade de gritar (de horror e indignação) quando leio artigos em revistas de saúde e boa forma. Como é que um pessoal tão mal informada pode publicar artigos que até eu, que ganhei meu diploma de nutricionista no Google, sei que são baboseiras?

Eu acredito no autodidatismo e sei que quando algo nos interessa de verdade nós sempre encontramos uma maneira de aprender. Passei os últimos seis anos lendo todos os artigos, estudos e livros que eu julgava interessante sobre nutrição e embora meus conhecimentos sejam superficiais comparado ao que eu aprenderia em uma faculdade de nutrição, são suficientes pra me guiar nas escolhas alimentares do dia-a-dia e me ajudar a criar um cardápio que supre todas as minhas necessidades. Sem falar que esse conhecimento, embora seja relativamente limitado, fez crescer em mim um senso crítico que é extremamente útil na hora de separar as informações importantes das baboseiras que circulam por aí.  Entender os fundamentos da nutrição é o que nos dá as ferramentas necessárias pra analisar ideias e (pre)conceitos através do prisma da nutrição séria. E é exatamente por isso que tenho certeza absoluta que todos, TODOS devem ter uma base sólida de conhecimentos em nutrição. Isso é extremamente empoderador, pois você poderá escolher seus alimentos de maneira inteligente, compor cardápios nutritivos e rir na cara das revistas que tentam te convencer que sua vida será transformada radicalmente graças à última dieta da moda (que muda a cada semana).

Se você acha que nutrição é algo complicado demais e que só é capaz de entender proteínas, vitaminas e minerais quem passou vários anos estudando o assunto na faculdade, cá estou eu pra provar o contrário. Primeiro de tudo: você não precisa atingir o mesmo nível de conhecimento que um nutricionista, o que realmente exigiria vários anos de estudo. Basta saber o suficiente pra poder se alimentar de maneira inteligente e separar o joio do trigo (ou seja, os artigos que são o fruto de uma pesquisa séria e os que foram escritos por pessoas que não sabem do que estão falando). Segundo: apesar de exigir um pouco do seu tempo e esforços, esse conhecimento é tão importante e útil que será um dos melhores investimentos que você fará na vida.

E porque estou aqui pra ajudar, gostaria de compartilhar alguns links de artigos que considero essenciais. Alguns foram escritos por mim e publicados aqui tempos atrás, outros foram escritos por quem realmente entende de nutrição, principalmente de nutrição vegana: o nutricionista George Guimarães (que, apesar do sobrenome, não é um parente) e o nutrólogo Eric Slywitch. Serei eternamente grata aos dois, pois grande parte do conhecimento em nutrição que tenho hoje foi adquirido lendo os artigos deles.

Artigos sobre nutrientes:

Protéinas

Sobre suficiência proteica na dieta vegana

Proteína vegetal, muito além da soja

Cálcio

Ferro

Vitamina D

Vitamina B12: tudo sobre a B12 e 30 informações importantes

Ômega 3

Fibras: porque comer e onde encontrar

Tudo sobre oleaginosas

Artigos sobre veganismo e nutrição:

Pirâmide alimentar vegetariana

Vegetais: mais pobres, menos ricos ou superiores?

Sobre nutricionistas e a resistência ao vegetarianismo

Como compor um cardápio vegetal equilibrado

Sites sobre nutrição que fazem um trabalho sério e extremamente interessante:

Nutriton facts (vídeos curtos com os resultados das pesquisas mais recentes em matéria de nutrição e saúde)

Physicians Comitee for Responsible Medicine (Comitê de Médicos por uma Medicina Responsável é, como o nome indica, um grupo de médicos que luta por uma medicina cujo objetivo é realmente ajudar as pessoas a manterem a saúde, não ajudar a indústria farmacêutica a aumentar os lucros)

Também aconselho fortemente o livro do Dr Eric Slywitch chamado “Alimentação sem carne”. Ganhei o livro do pessoal da SVB Recife durante as férias no Brasil e ele se tornou minha bíblia. Claro que essa lista está longe de ser completa. A ideia é oferecer um aperitivo e torcer pra que vocês decidam ir mais além e aprofundar seus conhecimentos em outras fontes.

Tenho um último conselho pra vocês. Antes de acreditarem na nova teoria nutricional da moda (não misturar isso com aquilo, comer só proteína animal, abolir carboidratos, nunca comer esse ou aquele vegetal porque ele supostamente faz mal etc) parem um minuto e reflitam. Isso faz sentido? Baseado em quê (estudos científicos sérios, não os patrocinados pela indústria alimentícia) essa pessoa está dizendo isso? Se pesquisar, você encontrará outros estudos que chegaram aos mesmos resultados? Usem os conhecimentos que vocês vão adquirir lendo os artigos acima, uma boa dose de bom senso e sua experiência pessoal (e de pessoas que você conhece) antes de decidir se quer ou não acreditar na informação.

Tem pessoas que eu admiro muito, que me inspiram e que eu consulto (pessoalmente ou virtualmente) na hora de fazer determinados julgamentos. Conhecimento deve ser compartilhado e aprendo muito com pessoas que são mais bem informadas do que eu. Mas seja seu próprio professor. Não procurem um guru, procurem informação. Esse ponto pra mim é importante porque frequentemente recebo emails de leitores perguntando o que acho disso ou daquilo (sempre relacionado à alimentação). Eu posso até dar a minha opinião sobre determinados assuntos (em alguns casos eu nem tenho opinião formada ainda!), mas gostaria que as pessoas fossem mais ativas na busca de informações e, principalmente, que confiassem no próprio instinto e bom senso na hora de fazer esse tipo de julgamento. Adquira uma base sólida de conhecimentos em nutrição, conheça o seu corpo e as reações do seu organismo e você será a pessoa mais indicada no mundo pra saber que tipo de alimento é bom ou ruim pra você.