Quem acompanha o Guia Papacapim de Alimentação Saudável deve ter percebido que novembro chegou e as dicas de setembro e outubro ainda não apareceram por aqui. Eu não abandonei esse projeto, muito pelo contrário, mas vários contratempos atravessaram o meu caminho. Então esse mês terá não uma, mas três dicas, pra compensar o silêncio dos últimos dois meses. Comecemos com dica número 9, que é:

Diminua o número de cosméticos que você usa.

Sei que essa não é uma dica de alimentação e que alguns vão estranhar encontra-la em um guia de alimentação saudável, mas deixem eu explicar. A pele é o maior órgão do corpo e, por ser porosa, absorve todos os cosméticos que você coloca nela. A estimativa é que em meros 20 minutos aquele hidratante que você espalhou no corpo terá penetrado na sua corrente sanguínea. Nós usamos em média 9 cosméticos/produtos de higiene pessoal por dia (da pasta de dente ao batom, passando pelo hidratante, desodorante e shampoo), que contêm, juntos, cerca de 126 ingredientes químicos. Imaginem então a quantidade de química que o corpo ‘ingere’ em um ano!  Parece exagero? Dê uma olhada na lista de ingredientes dos seus cosméticos e produtos de higiene pessoal, some tudo e depois volte aqui pra nós conversarmos. Toda essa química se acumula no organismo e pode causar danos graves à nossa saúde.

Se você está pensando que se o desodorante que você acabou de aplicar representasse um perigo pra sua saúde ele não estaria nas prateleiras ao alcance de todos, afinal cosméticos passam por testes de segurança controlados pela ANVISA antes de serem colocados à venda, eu tenho duas más notícias. A primeira é que esse controle está longe de ser satisfatório. Alguns ingredientes químicos cujos perigos pra saúde já foram comprovados (cancerígenos, perturbadores de hormônios, etc), e que já foram banidos de alguns países, continuam sendo utilizados durante anos antes que seja feita uma reforma na legislação proibindo o seu uso no nosso país. Nos EUA a situação é ainda pior,  já que a FDA (Food and Drug Administration) não exige que as empresas provem que seus produtos são seguros antes de comercializa-los. A indústria cosmética é um mercado extremamente lucrativo e obviamente é do interesse desse pessoal frear qualquer iniciativa de colocar obstáculos na sua frente. E enquanto isso nós usamos cremes e loções carregados de tóxicos, expondo nosso organismo a riscos elevados.

A segunda má notícia é que mesmo quando um produto recebe sinal verde no teste de segurança isso significa, na melhor das hipóteses, que o produto em questão não representa riscos à saúde quando usado sozinho. Mas é simplesmente impossível prever como os ingredientes químicos desse produto reagirão ao se misturarem com os outros produtos que usamos diariamente. Dia após dia, ao misturar o shampoo com o condicionador, hidratante, desodorante, perfume, protetor solar e pó compacto, produzimos um coquetel tóxico que passará pela pele, entrará no organismo e se acumulará nos nossos tecidos e órgãos. A triste verdade é que somos cobaias voluntárias, expondo nosso organismo diariamente à uma infinidade de produtos químicos perigosos sem ter a mínima ideia dos riscos que estamos correndo.

E já que estamos falando de cosméticos, vale lembrar que nós não somos os únicos animais prejudicados por eles: um número inimaginável de seres sencientes são torturados diariamente nos testes de segurança de cosméticos. O momento não podia ser melhor pra abordar desse assunto, já que graças à enorme exposição que o caso dos beagles do Instituto Royal teve na mídia muita gente anda refletindo sobre a necessidade de testar cosméticos (e medicamentos) em animais. Vamos deixar de lado a questão dos testes de medicamentos em animais, porque o assunto desse post é outro, e nos concentrar na questão dos testes de cosméticos e produtos de higiene pessoal. Veganos escolhem evitar, na medida do possível e praticável, todo e qualquer tipo de exploração e crueldade contra os animais, por isso além de adotar uma alimentação 100% vegetal, ser vegano significa também evitar cosméticos com ingredientes de origem animal e/ou testados em animais. Mas acredito que ninguém precisa ser vegano pra concordar que cegar milhares de coelhos pra colocar mais um rímel no mercado é um ato extremamente cruel e moralmente inaceitável.

Na página do Humane Institute podemos ler que: “Testes recomendados pela ANVISA incluem o uso de camundongos, ratos, coelhos e hamsters. Os experimentos podem incluir testes de irritação ocular e cutânea: os produtos químicos são esfregados sobre a pele raspada ou pingados nos olhos de coelhos; estudos que envolvem alimentação forçada e repetida durante semanas ou meses para detectar sinais de doença geral ou riscos específicos para a saúde, como o câncer ou defeitos de nascimento; e até mesmo o amplamente condenado teste de “dose letal”, no qual os animais são forçados a engolir grandes quantidades de um produto químico para determinar a dose mortal. Outros testes envolvem produtos aplicados no pênis e na vagina de coelhos com cateteres. No final dos testes, os animais são sacrificados, normalmente por asfixia, quebra do pescoço ou decapitação. Anestésicos não são utilizados.”

E se você ainda não está convencido de que é possível produzir cosméticos seguros sem testar em animais, o mesmo artigo do Humane Institute explica que “as empresas podem garantir a segurança de seus produtos escolhendo dentre milhares de ingredientes existentes que possuem uma longa história de uso seguro, juntamente com o uso de um número crescente de métodos alternativos que não envolvem o uso de animais.” Quer a prova de que eles estão falando a verdade? Testes de cosméticos em animais são proibidos em todos os países da União Europeia desde 2009 e em Israel desde 2007. Ou seja, suspender os testes de cosméticos em animais é não só seguro, como possível.

E agora voltemos à questão da quantidade de produtos químicos nos cosméticos e produtos de higiene pessoal. Quando somos confrontados com problemas gigantescos como esse é fácil se sentir impotente ou ter uma reação do tipo: “Já que tem produtos químicos nocivos em tudo, não há nada que eu possa fazer pra me proteger”. Nos dois casos (sentimento de impotência e resignação) nos recusamos a agir e nos instalamos na confortável poltrona da inação, rejeitando a oportunidade de transformar o mundo em um lugar melhor, mais justo, mais saudável e mais ético. Quando escrevo posts como esse meu objetivo não é cobrir meus leitores com uma avalanche de más notícias nem alfinetar consciências com o único intuito de fazer vocês se sentirem culpados. Ter acesso à informação e descobrir a verdade por trás dos cosméticos não deveria fazer você se sentir impotente, muito pelo contrário. Informação é não só um direito, mas uma arma que transforma o mundo. Meu objetivo com esse post é empoderar meus leitores, pra que vocês possam fazer escolhas conscientes.

Como gosto de deixar tudo explicadinho e mastigadinho, aqui vai um roteiro prático pra vocês começarem a agir imediatamente, diminuir a exposição do seu organismo às substâncias tóxicas presentes nos cosméticos e ajudar a diminuir a crueldade contra os animais.

1- Avalie suas reais necessidades em cosméticos. 

Você realmente precisa de um creme diferente pra cada parte do corpo? Reflita sobre os produtos que são realmente essenciais pra você e elimine o supérfluo. Será que você precisa mesmo de um creme pra cutículas? De um produto pra fixar a sombra nos olhos (primer)? De um hidratante diferente pros pés e outro pras mãos? Quando os comerciais e as revistas tentam nos convencer de que até lenços perfumados pra higiene íntima são indispensáveis, é fácil acumular um número impressionante de produtos totalmente dispensáveis (e tóxicos). Por mais que você adore sua coleção de cremes, vale a pena melhorar a aparência hoje se o resultado será um organismo doente mais na frente? Reduza ao máximo a quantidade de cosméticos que voce usa, assim você diminui sua exposição a produtos químicos perigosos, economiza dinheiro e simplifica a vida.

2- Escolhas marcas sem crueldade.

Existem inúmeras marcas de cosméticos que não testam em animais e produzem produtos fantásticos. Alguns exemplos: Água de Cheiro, Bioderm, Contém 1g, Davene, Farmaervas, Racco, Granado, Ox, O Boticário, Natura, Leite de Rosas, Revlon (veja a lista completa aqui)… E se cosméticos te interessam, você vai adorar o blog Lookaholic. A super simpática Nyle Ferrari testa e divide suas impressões sobre produtos de beleza feitos por marcas naturais/orgânicas e que não testam em animais.

3- Assine a declaração Liberte-se da Crueldade.

Como o pessoal da Humane Society explica, testes de cosméticos em animais são desatualizados, desnecessários e cruéis. Assine a petição e ajude a acabar com essa crueldade no Brasil.

4- Escolha cosméticos naturais, de preferência feitos com ingredientes orgânicos.

Cosméticos naturais e orgânicos são mais caros do que as grandes marcas encontradas em supermercados, mas a dica número 1 vai te ajudar aqui. Ao reduzir o número de cosméticos que você utiliza, vai sobrar dinheiro pra investir em produtos melhores. Qualidade vale muito mais do que quantidade. O Lookaholic tem ótimos artigos indicando produtos de beleza que usam substâncias menos nocivas pra saúde e Nyle também ensina como fazer alguns produtos em casa, com ingredientes ultra simples e naturais. Fazer os seus próprios cosméticos é mais simples do que se imagina e as vantagens são muitas: eles são mais naturais, mais baratos e muitas vezes tão eficientes quanto os frascos cheios de produtos químicos que estão no seu banheiro agora.

Quando o assunto é cosméticos, meu mantra é “se não posso colocar na boca, não coloco no corpo”. Claro que nem tudo que aplico no corpo e cabelo é comestível (ainda não comecei a comer sabonete, por exemplo), mas hoje em dia 80% do que passa pelos meus cabelos ou pele é feito exclusivamente com ingredientes naturais que também são encontrados na minha cozinha: bicarbonato de sódio, vinagre, óleo de coco, manteiga de cacau e karitê, óleos essenciais… Os outros 20% são produtos naturais, orgânicos e sem crueldade. Também gosto de simplificar ao máximo. Por exemplo, uso sabonete líquido de bebê (Granado) pra lavar os cabelos e o corpo. Além de funcionar maravilhosamente bem (as fórmulas de sabonetes e shampoos, quem diria, são extremamente próximas), diminuí o número de cosméticos do meu dia-a-dia e, consequentemente, a quantidade de produtos químicos que entram no meu corpo.

Repensar nossa utilização de cosméticos é um passo essencial na busca de uma vida mais saudável. Com alguns gestos simples é possível diminuir consideravelmente a quantidade de tóxicos que entra no seu organismo e ao mesmo tempo ajudar a deixar o mundo mais ético e livre de crueldade contra os animais.

Quem quiser se informar mais pode consultar a excelente página da Humane Society (em Português), respondendo suas dúvidas com relação a testes cosméticos em animais, e o site da PEA (Projeto Esperança Animal). A PEA também publicou uma lista detalhada com todas as empresas brasileiras e estrangeiras que não testam em animais, além de ter criado o panfleto informativo “A verdade sobre testes em animais”, que recomendo.

O site Skin Deep traz informações sobre os ingredientes perigosos encontrados nos cosméticos e desenvolveu um sistema que indica o grau de perigo de mais de 78 mil cosméticos, muitos deles vendidos no Brasil, baseado nas informações científicas sobre seus ingredientes. Esse sistema vai de 0 (sem perigo) a 10 (mais perigoso impossível) e você descobre, entre outros, que muitos shampoos da marca L’Oreal ganharam nota 8.

E se você perdeu o post ‘Tudo sobre seus cosméticos‘, que escrevi uns tempos atrás, não deixe de conferi-lo, pois você vai encontrar um vídeo que todo mundo deveria ver. Também dividi minhas receitas de pó dental e desodorante natural aqui.