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Quem aí também está pensando “2016, seu infeliz das costas oca, já foi tarde!”? Ou alguma variação da frase com um insulto usado em seu dialeto. O ano foi difícil pra maior parte dos habitantes desse planeta, mas aqui do meu lado ele acabou de uma maneira linda.

Vim passar o natal com a família francesa e pela primeira vez em oito anos Anne e eu não fomos as únicas a ter uma ceia vegana. A irmã caçula de Anne se tornou vegetariana esse ano, depois de anos flertando com a ideia e se alimentando de maneira cada vez mais vegetal. Já no almoço do 25 de dezembro foram quatro pratos veganos! A outra irmã de Anne já não come mais animais terrestres e pediu pra se juntar à nos. Eu vejo pessoas irem cada vez mais na direção de uma alimentação mais vegetal em todos os lugares por onde passo.

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E logo depois do natal aconteceu uma coisa curiosa: eu casei. Pela segunda vez e com a mesma mulher. Mais de seis anos atrás Anne e eu assinamos os documentos de união estável, pois na época casamento só estava disponível pra casais heterossexuais. Sabe como é, os deveres e impostos são os mesmos, já os direitos… Mas aí tudo mudou em 2013, tanto no Brasil quanto na França. Então casamos. Aqui casamento civil acontece na prefeitura, celebrado pela(o) prefeita (o), então quem celebrou o nosso casamento foi um tio querido de Anne. Farei um post sobre o casamento outro dia, quando conseguir reunir todas as fotos feitas pela família.

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Enquanto dobrava mentalmente os acontecimentos de 2016 pra colocar na gaveta das memórias, imaginando que nunca ia querer abrir a dita cuja, me dei conta que muitas coisas boas aconteceram esse ano. Eu passei boa parte do tempo me desesperando e sei que esse desespero foi moda em 2016 (e que tenho 35 anos de sonho e de sangue e de América do Sul. Por conta desse destino um tango argentino me vai bem melhor que um blues. Minha vida virou uma música de Belchior). Mas isso consumiu muito da minha energia e muitas vezes me deixou paralisada. Então decidi fazer um esforço consciente pra prestar atenção aos acontecimentos positivos. Meu coração anda precisando.

Um ano revolucionário-radical-feminista-abolicionista-vegano e com direitos iguais pra todas!

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Acabo de chegar de dez dias de férias em Marselha. “Chegar” é modo de falar, pois na verdade eu não chego, eu passo. E estou novamente de passagem no interior da França, mas já de malas prontas pra próxima aventura. (Lembrando a quem não sabe: o Papacapim está no Instagram e sempre compartilho fotos das minhas andanças e comilanças pelo mundo.)

Mas então, Marselha. Apesar de ter morado seis anos inteirinhos em Paris, nunca tinha me aventurado pelo sul da França. Um grande erro que decidi corrigir. Quando eu levava minha vida tranquila de universitária na cidade luz meus amigos parisienses diziam: “Marselha? Oh, la, la! É uma cidade suja, barulhenta e perigosa!” E eu pensava com os meus botões que essa noção de “cidade perigosa” é relativa e que não podia ser pior do que as grandes metrópoles brasileiras. Pois tenho a satisfação de informar que meus amigos parisienses estavam errados. Marselha, a segunda maior cidade da França, é incrível, vibrante, um caldeirão cultural com praias lindas de águas cristalinas e pessoas gentis e simpáticas. Sim, a criminalidade existe, principalmente em certos bairros (longe do circuito turístico), exatamente como em todas as cidades onde as desigualdades sociais são gritantes e a discriminação racial rola solta. Mas em nenhum momento me senti em perigo. E sim, a cidade é menos “arrumadinha” que a capital e tem graffiti em praticamente todos os muros e portas, mas não considero isso sujeira: adoro arte de rua. Sem falar que com tanta gente falando Árabe ao meu redor me senti em casa.

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E o que me deixou ainda mais feliz foi ver o quão vegan-friendly a cidade é. Além de ter vários restaurantes vegetarianos (sempre com opções veganas) e um vegano, em praticamente todos os lugares tinha opções vegetais. Achei o pessoal super consciente da existência de veganos e preocupado em oferecer opções pra todos. Parece que, pelo menos nessa cidade, não somos totalmente invisíveis aos olhos dos restaurantes tradicionais. Em vários cafés/lanchonetes/restaurantes vi no menu (que na França sempre fica do lado de fora, pra você saber o que pode comer- e quanto vai pagar- antes de decidir entrar, super útil pra veganos) opções “carnívoras” e “vegetarianas”, que na maior parte do tempo eram 100% vegetais. Achei engraçado eles escreverem “sanduíche/prato carnívoro” (ou simplesmente “carni”) e minha imaginação fértil imaginava as coisas mais loucas.

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Então aqui vai um pequeno guia com os lugares onde comi durante minha visita à Marselha. Quase todos esses lugares eram vegs e orgânicos. Foi emocionante ver que veganismo e comida orgânica andam juntinhos por lá, o que não significa que os preços são mais caros do que os lugares vegs não-orgânicos. Os arredores da praça Cours Julien é a parte mais bacana da cidade (bares, cafés, livrarias independentes…) e é o lugar ideal pra se hospedar (foi lá onde fiquei), pois a partir dali dá pra visitar quase tudo a pé. Todos os endereços do guia  ficam no centro, com excessão da pizzaria, então o acesso é fácil.

Não pude visitar todos os restaurantes que estavam na minha lista, pois com tantos produtos maravilhosos acabei cozinhando bastante em casa. Recomendo, como sempre, uma visita ao site Happy Cow pra ver a lista completa com todos os lugares vegs e veg-friendly da cidade.

Duas especialidades gastronômicas locais são acidentalmente veganas: panisse e pistou. A primeira é um tipo de ‘polenta’ feita com farinha de grão de bico, que você deixa esfriar e, depois de firme, corta em rodelas e depois frita. Panisse é servida em cones de papel na beira da praia ou em bares, como lanche ou acompanhando o aperitivo. Pistou é o pesto do sul da França, mas diferente do irmão gêmeo italiano ele não leva queijo (só manjericão, azeite, alho, pimenta do reino e sal). Recomendo os dois, separados ou, melhor ainda, juntos.

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L’écomotive – café vegetariano e orgânico, com muitas opções veganas. 

Foi o lugar que mais gostei na cidade. O café é ótimo e tem leite de soja (vinde a nós, cappus veganos!). São três opções de pratos por dia e o menu muda o tempo todo (opções sem glúten). Tem também bolos, tortas e cookies, sempre com opções veganas. Minha amiga Haidi, que já apareceu aqui no blog, é a cozinheira nos fins de semana. Como ela é vegana, nos sábados e domingos os três pratos são veganos e a oferta de doçuras vegetais aumenta (na foto acima todos os doces são veganos!). O lugar é charmoso e descontraído. De manhã é bem calmo e como tem wi-fi é um ótimo lugar pra trabalhar (se, como eu, você precisa trabalhar durante as férias). Preços bem em conta (9 euros o prato completo). Fica aberto até às 19h, mas não serve jantar.

L’écomotive

2 Place des Marseillaises, 13001 Marseille

Aberto os sete dias da semana, das 8h às 19h.

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Londonewyork- restaurante vegano orgânico

O único restaurante vegano da cidade atualmente só abre pro almoço. Como em todos os restaurantes orgânicos que oferecem produtos locais e sazonais, o menu muda constantemente. No dia que estive lá provei quatro pratos diferentes e alguns estavam ótimos, outros nem tanto. Provei também uma sobremesa que estava sensacional: torta folhada de coco e caramelo salgado. O que mais me chamou a atenção, no entanto, foi um seitan feito com arroz, logo sem glúten. Eu nunca gostei da textura nem do sabor de seitan e por ser glúten puro sempre deixa meu estômago se sentindo triste, triste, mesmo quando eu como só um pedacinho. Mas o seitan de arroz não só é totalmente sem glúten (mais agradável pro estômago) como ainda é muito mais gostoso e suculento do que o seitan de trigo. Um achado!

Londonewyork

77 Rue de Lodi, 13006 Marseille

Aberto de segunda à sábado, das 10h às 18h.

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Le cours en vert – restaurante vegetariano orgânico com opções veganas

O menu muda todos os dias, de acordo com o que for encontrado na feira daquele dia. Então os legumes são super frescos, de estação e orgânicos. Provei três pratos diferentes e a comida estava gostosinha, mas não provocou grandes emoções em ninguém (talvez eu não tenha tido sorte no dia em que estive lá).

Le cours en vert

102 Cours Julien, 13006 Marseille

Aberto os sete dias da semana, das 12h às 15h e das 19h30 às 22h.

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Green Bear – café-lanchonete vegetariano com opções veganas.

Passei por lá no final da tarde e já não tinha mais quase nada pra comer, então só tomei um cappuccino e provei um mousse de framboesa (à base de aquafaba). Green Bear tem três endereços na cidade e o que visitei (abaixo) tem wi-fi e uma sala perfeita pra quem quer responder emails ou planejar as visitas do dia em um lugar agradável, acompanhada de um cappu vegano.

Green Bear

123 La Canebière – 13001 Marseille

Aberto de segunda à sexta, das 11h às 17h.

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La Baie du Dragon – vietnamita/tailandês. Restaurante tradicional com vários pratos 100% vegetais.

Foi uma experiência e tanto jantar nesse restaurante. O dono, que também serve as mesas, é uma figura. Ele é engraçado e caloroso, mas não hesita em te dar umas respostas secas se achar a sua pergunta idiota (“Nem cru é o que exatamente? Aqueles rolinhos primaveras com papel de arroz?” “Não, é nem cru!” Quando os benditos chegaram eram exatamente os rolinhos com papel de arroz.) Mas ele é gente finíssima e um grande simpatizante do veganismo. O adesivo que vocês vêem acima, criado pela associação de direitos animais L214, significa que o restaurante, apesar de tradicional, se compromete a oferecer pratos veganos elaborados e saborosos pros clientes vegs. O menu tem uma seção especial com pratos veganos: entradas, pratos principais, acompanhamentos.  Ele explicou que se dependesse só dele o restaurante seria 100% vegetal. A conversa que escutei na mesa ao lado fez meu queixo cair. A cliente pediu sugestões de pratos. Ele sugeriu todos os pratos veganos do menu (!!!!). Ela disse: “Eu não sou vegetariana” e ele respondeu: “Uma pena!”.  Os pratos são muito bem temperados, os sabores equilibrados e delicados e o tofu é uma delícia! Muitas opções sem glúten. Os pratos são individuais (porções pequenas), então não cometam o mesmo erro que eu pedindo um prato pra duas. O restaurante é bem popular, então lembre de reservar no fim de semana.

 La Baie du Dragon

8 Place Notre Dame du Mont, 13006 Marseille

Aberto de segunda à sábado, das 12h às 14h30 e das 19h às 22h30.

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Pizzaria L’eau à la bouche – pizzaria tradicional que oferece uma pizza vegetariana sem queijo

Segundo Haidi, é a melhor pizzaria da cidade. Pra nossa grande sorte tem uma pizza 100% vegetariana no menu. Na hora de fazer o pedido falei: “Uma vegetariana sem queijo, por favor” e fiquei aguardando a cara de choque e/ou reprovação do pizzaiolo. Pra minha grande surpresa ele (que descobri depois ser o dono da pizzaria) respondeu, sem levantar os olhos, que a vegetariana da casa nunca tem queijo. Ô glória! Agradeci por ele ter pensado nos veganos e ele respondeu: “Mas é normal! Nó temos que pensar em agradar todos os clientes!” E a pizza não decepcionou (abobrinha e berinjela grelhadas, cebola, coração de alcachofra, alcaparras, azeitonas pretas, tudo numa massa fininha, do jeito que eu gosto). Dica: peça a pizza pra viagem e vá degustá-la na praia que fica ali do lado (Corniche, ver mais abaixo), sentada sobre as pedras com o mar turquesa aos seus pés. A pizzaria também funciona em um food truck no verão (na cidade l’Estaque, colada à Marseilha), que além da vegetariana também oferece uma pizza sem glúten.

L’eau à la bouche

120 Corniche Président John Fitzgerald Kennedy, 13007 Marseille

Aberta de quarta à domingo, de 12h à 15h e de 18h à 23h.

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Videodrome 2 – café-cinema, que também funciona como locadora de filmes

Esse lugar singular vale uma visita, mesmo se você estiver sem fome. Além de poder alugar DVDs e assistir a filmes na pequena sala de projeção nos fundos do café, todo dia rola uma sopinha que me garantiram que é sempre vegana. No dia que fui lá a sopa era de abobrinha com pistou (o famoso pesto local, acidentalmente vegano) e estava divina! Veio acompanhada de três fatias generosas de um maravilhoso pão au levain com passas. Por 4€ você tem uma refeição nutritiva e saborosa. Também tem sempre um cookie vegano e sem glúten no balcão (feito com farinha e óleo de coco, gostosinho mas que não tinha nada da textura/sabor de cookie). Tem mesas no exterior, na praça Cours Julien, e é super agradável tomar uma (cerveja ou xícara de chá) admirando os passantes.

Videodrome 2

49 Cours Julien, 13006 Marseille

Aberto de terça à domingo, das 15h às 2h.

Un mexicain à Marseille – lanchonete mexicana com opções veganas

Veganos podem pedir um burrito  ou tacos 100% vegetais (com feijão, milho, legumes grelhados, arroz, tomate e guacamole). Sucos/smoothies feitos na hora. Simples, barato, nutritivo e capaz de satisfazer grandes apetites.

 Un mexicain à Marseille

5 Place Paul Cézanne, 13006 Marseille

Aberto todos os dias da semana, das 12h às 24h.

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 Bio C Bon – loja de produtos orgânicos

Na França as lojas de produtos orgânico são uma mina de ouro pros veganos. Essa era um paraíso pra nós: frutas e verduras, leguminosas cruas e cozidas, burguers, salsichas, queijos, muitas pastas pra passar no pão, biscoitos, cereais, iogurtes, chocolates e mais de trinta (!!!) tipos de leite vegetal. As opções sem glúten abundam (achei até massa folhada pra assar em casa sem glúten!) e a loja é cheia de tesouros pros veganos gourmets (algas frescas! crepe de sarraceno! pasta de chocolate e avelã! creme de alcachofra!). Claro que os preços nesses tipos de lojas são mais elevados do que em supermercados, mas a qualidade é excelente e você encontra produtos que não são vendidos em outros lugares.

 Bio C bon

89 Cours Julien, 13006 Marseille

Aberta todos os dias da semana, das 9h30 às 20h (domingo das 9h30 às 13h30)

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Marché Paysan Cours Julien – feira orgânica

Uma vez por semana, nas quartas, tem uma feira orgânica na praça Cours Julien. As frutas e verduras orgânicas, produzidas localmente e vendidas pelos próprios agricultores, já valem a visita. No dia que estive lá comprei kale, vários folhosos pra salada (os vendedores fazem uma mistura com todas as folhas disponíveis, se você pedir) e tupinambo (também conhecido como ‘alcachofra-girassol’), um legume que eu conhecia de vista, mas nunca tinha experimentado (adorei!). Mas o que faz dessa feira um lugar ainda mais especial pras pessoas veganas é uma barraquinha onde um rapaz muito simpático faz um número impressionante de molhos, pastas pra passar no pão, legumes temperados e geleias, tudo com os vegetais que ele mesmo planta e colhe (orgânicos). Ele explicou que não usa nenhum ingrediente de origem animal nos seus produtos e, respeitando a tradição culinária do sul da França, faz tudo com um excelente azeite. Vi que em um potinho entrava mel na composição, mas todos os outros eram 100% vegetais. Voltei pra casa com uma pasta de beterraba e raiz forte, pistou, molho de pimenta, favas com coentro e ganhei de presente do vendedor um chutney de jerimum e gengibre. O que eu gostaria de ter levado pra casa, se ainda tivesse espaço na sacola: abobrinha com hortelã, abobrinha agridoce com curry, funcho romeno, ajvar (pasta de pimentão vermelho), caviar de berinjela, caponata… Descobri, graças à senhora que nos hospedou durante alguns dias, que um almoço ou jantar pro pessoal do sul pode ser composto somente desse tipo de preparações (muitas vezes feitas em casa), mais um bom pão, uma salada crua e vinho. A geladeira dela estava cheia de potinhos de vidros com os mais variados legumes, todos preparados por ela, e na hora das refeições ela colocava tudo na mesa, junto com uma salada fresquinha, e cada uma se servia do que quisesse, como um piquenique. Se você quiser preparar uma refeição nesse estilo e provar as delícias que são os legumes e as pastas do sul, você precisa visitar essa barraquinha.

Marché Paysan

Praça Cours Julien

Todas as quarta-feiras, das 7h às 13h (melhor ir cedo).

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Saladin Épices du Monde – Mercado de frutas e verduras e loja de especiarias 

Do lado do Marché  de Noailles eu achei o meu parque de diversões. Se chama “Saladin” e lá você vai achar o que acredito ser todas as especiarias que já apareceram nessa terra. Dei tantos pinotes lá dentro que uma certa pessoa ameaçou me filmar e colocar o vídeo no blog pra vocês verem e, imagino, rirem. Tinha as mais variadas frutas secas (tâmaras suculentas), tomates secos, farinha de grão de bico indiana, muitos, muitos tipos de azeitonas (verdes, pretas, temperadas), vários tipos de cogumelos desidratados, dezenas de ervas secas, especiarias de todos os tipos… Tinha até cumaru (tonka) do Brasil! E mais de trinta tipos de sal (juro, eu contei). As duas fotos acima só mostram um pedacinho da coleção de sal da loja. Tinha sal roxo, azul, cinza, preto, defumado, temperado, com gosto de ovo (queria trazer o saco inteiro pra usar no meu omelete vegano), flor de sal, cristais em forma de pirâmide… Durante os dez dias que passei na cidade fui à essa loja cinco vezes, ou seja, um dia sim e outro não. No final eu já estava contando a minha vida na Palestina em Árabe pro vendedor marroquino e ninguém mais se dava o trabalho de falar Francês comigo. Quase peço um emprego lá, aceitando ser paga em sal (sabiam que é daí que vem a palavra ‘salário’? Eu ia voltar às origens da prática). Se você gosta de cozinhar recomendo demais uma visita à essa loja.

 Saladin Épices du Monde

10 Rue Longue des Capucins, 13001 Marseille

Aberta todos os dias da semana, das 7h30 às 19h

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Marché de Noailles 

O quarteirão dessa feira (‘marché’ em Francês significa ‘feira’) vale uma visita. É aqui que se concentram as mercearias, restaurantes e padarias árabes (Marrocos, Tunísia e Argélia, países que formam o Magrebe) e é um dos lugares mais animados e coloridos da cidade. Lá você encontra cafés populares, onde velhinhos e jovens jogam conversa fora, padarias cheias de tesouros, restaurantes típicos e mercearias com (pausa dramática, corações veganos batendo acelerado) tahine libanesa! A única, a verdadeira, a sensacional, a que tem a reputação de ser a melhor do mundo! E por um precinho muito camarada, principalmente quando você compara com a tahine horrível que encontramos nas lojas orgânicas daqui.

As padarias tunisienses/marroquinas/argelinas são ótimas pra quando você quiser preencher um buraquinho no estômago, mas não tiver fome suficiente pra uma refeição completa. Além de vários tipos de pão (alguns com levain), você encontra folhados recheados com tomate e pimentão (tem a aparência de um crepe crocante, dobrado e com uma forma quadrada), o delicioso pão de sêmola (com ou sem fermento) e alguns doces veganos (pergunte se não tem manteiga nem mel, pois muitos têm).

Se a fome apertar, muitos restaurantes du Magrebe, embora sempre sirvam carne, oferecem opções naturalmente veganas. Tagines ou couscous de legumes (geralmente com grão de bico e muitas especiarias) são deliciosos.

Marché de Noailles (também conhecido como Marché des Capucins)

Rue du Marché des Capucins.

Aberto de segunda à sábado, das 8h às 19h.

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Durante as férias visitei duas ocupações (que os franceses chamam de ‘squats’). Le Raccoon (Place du Lycée) e Le Kiosque (38, Rue Clovis Hugues). Essas ocupas são lugares onde ativistas se encontram, trocam informações e organizam eventos. Fui ver um filme feminista de 1983 (‘Born in Flames’)  no Raccoon e participei de um evento de solidariedade com prisioneiras/os trans no Kiosque.  Fiquei sabendo desses eventos olhando as paredes da cidade: tem sempre cartazes colados por todos os lados com a programação dos dois lugares.

Nas duas ocupas a luta contra os vários tipos de opressão estão interligados, por isso quando rola comida por lá, é sempre vegana. O Raccoon também organiza jantares veganos onde cada um dá  o que quiser. Nas duas ocupas você encontra livros e panfletos sobre feminismo, racismo, imigrantes e refugiados, direitos animais, veganismo… No Raccon tem até uma ‘ loja grátis’ com roupas e sapatos que estão à disposição gratuitamente. São os lugares ideais pra entrar em contato com a cena ativista da cidade, aprender e conhecer pessoas bacanas (e veganas!).

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E antes de terminar esse guia, vou fazer algo que ainda não tinha feito nos outros Guias Veganos que publiquei aqui no blog: sugerir lugares que não têm nada a ver com comida. Se você estiver em Marselha não deixe de visitar um espaço cultural chamado ‘La Friche’, que fica na rua Jobin, no bairro Belle de Mai (foto que abre esse post e as duas acima). O centro foi criado em uma antiga fábrica de tabaco e tem salas de exposições, uma livraria, um café, um restaurante, quadra de basquete, pista de skate… Nos andares não utilizados (o prédio é enorme) crianças andam de patins e brincam livremente. A partir de março o terraço no último andar começa a funcionar e o centro organiza festas ali nas noites de verão.

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A Corniche também vale uma visita. As praias são bem diferentes das nossas, com pedras enormes e zero areia. Tem uma mini praia onde as pedras são minúsculas (foto acima), mas o pessoal que quer nadar geralmente pula das pedras direto pra água. Parece que no verão fica tudo lotado, mas como passei por lá no meio do inverno estava tudo tranquilo e pude piquenicar (a pizza mencionada acima) admirando a beleza do lugar.

Vale muito a pena sair um pouco da cidade e visitar pelo menos uma calanque. ‘Calanque’ é, de acordo com Wikipidia “um acidente geográfico encontrado no Mar Mediterrâneo, que se apresenta sob a forma de uma angra, enseada ou baía com lados escarpados, composta por estratos de calcário, dolomita ou outros minerais carbonatos.” Procurem ‘calanques’ no Google e vocês vão ver que coisa mais linda elas são. Visitei a calanque de Sormiou (dá pra ir de ônibus do centro de Marseille), que fica no Parque Regional das Calanques. Na entrada do parque você pode escolher uma das várias trilhas, mais ou menos longas. A caminhada é bem puxada, pois o terreno é extremamente acidentado, mas pra quem gosta de natureza e pode caminhar por várias horas , o passeio é incrível. As fotos abaixo dizem tudo.

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O rio Sena visto de dentro de um barco

Cheguei em casa há poucas horas, depois de três dias de viagem. Sim, por incrível que parece eu vim de avião, mas entre o Brasil e a Palestina tive que passar por três outros países. Depois de ter arrastado uma mala pesada, um laptop e uma mochila durante 72 horas, minhas costas doem tanto que estou andando como Quasímodo. Estou exausta, precisando de um bom banho e de no mínimo doze horas de sono, mas antes de fazer isso queria contar mais um pouco da minha viagem. Entre a lua de mel na Irlanda e as férias no Brasil, passei algumas vezes pela França. Ao todo fiquei quatro noites lá e aproveitei pra rever os amigos. Aqui vão algumas lembranças de minha última passagem pela cidade luz, que um dia foi minha casa.

 

Só indo na França pra saber o que é um legítimo croissant. Eu nunca comi um croissant fora da França que não me deixasse decepcionada. Existe dois tipos de croissant: um feito com manteiga (“croissant au beurre”) e um feito com margarina (“croissant ordinaire”). Graças aos santos protetores dos veganos eu não precisei abrir mão dessa delícia depois que abandonei os produtos de origem animal. Pequeno bonus: o “croissant ordinaire” é mais leve e menos gorduroso que o “au beurre”. Croissant (francês!) com café é uma das coisas mais sublimes do mundo da gastronomia e a primeira coisa que como cada vez que passo pela França.

 

Depois do passeio pela feira de Belém (Palestina) e Galway (Irlanda), eu gostaria de apresentar uma feira francesa. Essa fica em um dos subúrbios de Paris, onde fiquei hospedada. Já confessei meu amor por feiras e espero sempre mostrar aqui no blog as feiras  dos lugares por onde eu passar. Essa foto foi tirada no início da viagem, antes da ida à Irlanda. Era final de setembro e as frutas vermelhas ainda enão tinham desaparecido. Esses moranguinhos selvagens dão de mil a zero nos morangos gigantes, pálidos e insípidos que encontramos em Natal.

 

Falando em frutas vermelhas, quem já comeu groselha?

Esse é um dos meus legumes preferidos: ervilha torta. Gosto de comê-las cruas na salada, ou levemente cozidas (no vapor) em pratos de estilo chinês, como chop suey, por exemplo. Se espantaram com o preço? Isso é Paris, amigos…

 

Essas batatinhas novas, delicadas e saborosas, são comidas com a casca. Pra conservar o frescor, os feirantes as guardam na terra em que foram colhidas.

Um tipo de couve-flor vinda de Marte, conhecida como couve-flor romanesca.

 

No outono, encontramos os mais variados tipos de abóbora nas feiras francesas. Repararam no coelhinho (clicando na foto ela fica maior)? Será que em um país tão rico quanto a França, faltou papel pro filho da feirante desenhar?

 

Tomates coração de boi e rabanetes.

Normalmente odeio supermercados, mas tem um tipo de estabelicimento que faz meus olhos brilharem: cooperativas orgânicas. São pequenos supermercados onde tudo é orgânico e boa parte dos produtos vêm do comércio equitável (justo e solidário). Lá tem tudo que uma cozinheira vegana sonha em ter: cereais integrais, grãos de todos os tipos, sementes, patês, cremes, iogurtes e leites vegetais, frutas e legumes, os mais variados temperos e condimentos exóticos, além de cosméticos naturais (e não testados em animais) das melhores marcas européias, produtos de limpeza ecológicos e uma enorme coleção de livros sobre medicinas alternativas e culinária vegetariana/vegana. Eu poderia passar semanas lá dentro…

 

Caroline, a amiga francesa que me hospedou nas três vezes que passei por Paris, mora em um barco no rio Sena. O barco pertence a um casal de antropólogos, que vive muito confortavelmente em 120m². Minha amiga aluga uma parte do barco, uma kitinete de 25m² que fica embaixo da cabine. A primeira foto desse post foi tirada de dentro do barco.

 

Morar em um barco é o máximo e, segundo Caroline, mais barato que morar em um apartamento. Essa é uma parte da cozinha.

Vista da janela da cozinha.

 

Enquanto preparava meu primeiro café da manhã no barco, achei essa barra de chocolate no armário da cozinha. Esse chocolate meio amargo com “especiarias e flores afrodisíacas” pareceu muito interessante, mas era muito cedo pra comer chocolate. Um mês depois, na minha última passagem por Paris, achei a mesma barra no supermercado orgânico. Depois de ter visto o preço (quase 5 euros pour uma barrinha de 100g) decidi, sem ter provado, que o chocolate era ruim.

 

Além da cozinha e do banheiro, a kitinete/barco tem um quarto/sala. Tudo é pequenininho mas super charmoso.

Como passei poucos dias em Paris, tive pouco tempo pra rever os amigos. Mas fiz questão de visitar Vérène, minha avó francesa. A vida fez com que nossos caminhos se cruzassem e hoje ela mora no meu coração. Vérène tem 81 anos mas continua super ativa. No seu aniversário de 80 anos ela ganhou um computador dos filhos e hoje me manda e-mails regularmente. Ela admira muito meu trabalho e sonha em me visitar aqui na Palestina

 

Nesse dia ela preparou um almoço totalmente vegano pra mim. Tabule de entrada, seguido de lentilhas com beringela assada e cogumelos (foto) e salada de frutas de sobremesa. Na hora de ir embora ela me beijou e colocou uma nota de 50 euros na minha mão (“pra me ajudar com as despesas”), exatamente como uma avó faria. O carinho com que ela me trata sempre me emociona. Essa vovozinha doce, compreensiva e atenciosa é um tesouro que a vida me deu, eu que perdi minha avó paterna e materna.

 

Não tive tempo de passear pela cidade e fazer fotos do meus lugares preferidos. Fica pra próxima visita. Mas achei no meu baú digital fotos antigas, do tempo em que eu chamava a cidade luz de “lar doce lar”. Termino com essas imagens que até hoje me fazem sonhar.