O rio Sena visto de dentro de um barco

Cheguei em casa há poucas horas, depois de três dias de viagem. Sim, por incrível que parece eu vim de avião, mas entre o Brasil e a Palestina tive que passar por três outros países. Depois de ter arrastado uma mala pesada, um laptop e uma mochila durante 72 horas, minhas costas doem tanto que estou andando como Quasímodo. Estou exausta, precisando de um bom banho e de no mínimo doze horas de sono, mas antes de fazer isso queria contar mais um pouco da minha viagem. Entre a lua de mel na Irlanda e as férias no Brasil, passei algumas vezes pela França. Ao todo fiquei quatro noites lá e aproveitei pra rever os amigos. Aqui vão algumas lembranças de minha última passagem pela cidade luz, que um dia foi minha casa.

 

Só indo na França pra saber o que é um legítimo croissant. Eu nunca comi um croissant fora da França que não me deixasse decepcionada. Existe dois tipos de croissant: um feito com manteiga (“croissant au beurre”) e um feito com margarina (“croissant ordinaire”). Graças aos santos protetores dos veganos eu não precisei abrir mão dessa delícia depois que abandonei os produtos de origem animal. Pequeno bonus: o “croissant ordinaire” é mais leve e menos gorduroso que o “au beurre”. Croissant (francês!) com café é uma das coisas mais sublimes do mundo da gastronomia e a primeira coisa que como cada vez que passo pela França.

 

Depois do passeio pela feira de Belém (Palestina) e Galway (Irlanda), eu gostaria de apresentar uma feira francesa. Essa fica em um dos subúrbios de Paris, onde fiquei hospedada. Já confessei meu amor por feiras e espero sempre mostrar aqui no blog as feiras  dos lugares por onde eu passar. Essa foto foi tirada no início da viagem, antes da ida à Irlanda. Era final de setembro e as frutas vermelhas ainda enão tinham desaparecido. Esses moranguinhos selvagens dão de mil a zero nos morangos gigantes, pálidos e insípidos que encontramos em Natal.

 

Falando em frutas vermelhas, quem já comeu groselha?

Esse é um dos meus legumes preferidos: ervilha torta. Gosto de comê-las cruas na salada, ou levemente cozidas (no vapor) em pratos de estilo chinês, como chop suey, por exemplo. Se espantaram com o preço? Isso é Paris, amigos…

 

Essas batatinhas novas, delicadas e saborosas, são comidas com a casca. Pra conservar o frescor, os feirantes as guardam na terra em que foram colhidas.

Um tipo de couve-flor vinda de Marte, conhecida como couve-flor romanesca.

 

No outono, encontramos os mais variados tipos de abóbora nas feiras francesas. Repararam no coelhinho (clicando na foto ela fica maior)? Será que em um país tão rico quanto a França, faltou papel pro filho da feirante desenhar?

 

Tomates coração de boi e rabanetes.

Normalmente odeio supermercados, mas tem um tipo de estabelicimento que faz meus olhos brilharem: cooperativas orgânicas. São pequenos supermercados onde tudo é orgânico e boa parte dos produtos vêm do comércio equitável (justo e solidário). Lá tem tudo que uma cozinheira vegana sonha em ter: cereais integrais, grãos de todos os tipos, sementes, patês, cremes, iogurtes e leites vegetais, frutas e legumes, os mais variados temperos e condimentos exóticos, além de cosméticos naturais (e não testados em animais) das melhores marcas européias, produtos de limpeza ecológicos e uma enorme coleção de livros sobre medicinas alternativas e culinária vegetariana/vegana. Eu poderia passar semanas lá dentro…

 

Caroline, a amiga francesa que me hospedou nas três vezes que passei por Paris, mora em um barco no rio Sena. O barco pertence a um casal de antropólogos, que vive muito confortavelmente em 120m². Minha amiga aluga uma parte do barco, uma kitinete de 25m² que fica embaixo da cabine. A primeira foto desse post foi tirada de dentro do barco.

 

Morar em um barco é o máximo e, segundo Caroline, mais barato que morar em um apartamento. Essa é uma parte da cozinha.

Vista da janela da cozinha.

 

Enquanto preparava meu primeiro café da manhã no barco, achei essa barra de chocolate no armário da cozinha. Esse chocolate meio amargo com “especiarias e flores afrodisíacas” pareceu muito interessante, mas era muito cedo pra comer chocolate. Um mês depois, na minha última passagem por Paris, achei a mesma barra no supermercado orgânico. Depois de ter visto o preço (quase 5 euros pour uma barrinha de 100g) decidi, sem ter provado, que o chocolate era ruim.

 

Além da cozinha e do banheiro, a kitinete/barco tem um quarto/sala. Tudo é pequenininho mas super charmoso.

Como passei poucos dias em Paris, tive pouco tempo pra rever os amigos. Mas fiz questão de visitar Vérène, minha avó francesa. A vida fez com que nossos caminhos se cruzassem e hoje ela mora no meu coração. Vérène tem 81 anos mas continua super ativa. No seu aniversário de 80 anos ela ganhou um computador dos filhos e hoje me manda e-mails regularmente. Ela admira muito meu trabalho e sonha em me visitar aqui na Palestina

 

Nesse dia ela preparou um almoço totalmente vegano pra mim. Tabule de entrada, seguido de lentilhas com beringela assada e cogumelos (foto) e salada de frutas de sobremesa. Na hora de ir embora ela me beijou e colocou uma nota de 50 euros na minha mão (“pra me ajudar com as despesas”), exatamente como uma avó faria. O carinho com que ela me trata sempre me emociona. Essa vovozinha doce, compreensiva e atenciosa é um tesouro que a vida me deu, eu que perdi minha avó paterna e materna.

 

Não tive tempo de passear pela cidade e fazer fotos do meus lugares preferidos. Fica pra próxima visita. Mas achei no meu baú digital fotos antigas, do tempo em que eu chamava a cidade luz de “lar doce lar”. Termino com essas imagens que até hoje me fazem sonhar.