Aquela ideia extravagante que tive em 2014, que era pra ter sido um evento único, deu tão certo que acabou se repetindo por cinco anos. Nem acredito que já faz cinco anos que o projeto de tours político-ativista-vegano-feministas na Palestina nasceu e que pude viver essa aventura com dez grupos de brasileiras (no último até teve duas participantes da Austrália). 

Na minha vida profissional tive a honra de fazer parte de dois projetos transformadores. O primeiro é o projeto Noor, criado pela minha irmã palestina Islam e um pequeno grupo de mulheres do campo de refugiados de Aida. O segundo são os tours políticos na Palestina. Além desse blog, foi o único projeto que idealizei e realizei sozinha e tenho tanto orgulho desse trabalho que já posso deixar esse mundo satisfeita com as sementinhas que plantei nessa vida. (Mas pretendo plantar muitas outras, então não tenho planos de ir embora tão cedo.)


Mas apesar de todo o sucesso que foi esse projeto os grupos de 2019 foram os últimos. Os motivos por ter decidido encerrar os tours são diversos, mas vou citar os dois principais aqui. Primeiro, eu nunca tenho certeza se vou conseguir voltar à Palestina. Como os Territórios Palestinos são controlados por Israel (não esqueçamos que são territórios ocupados), não tenho garantia nenhuma de poder passar pela imigração israelense com o meu histórico de militância. O fato é que o Estado de Israel não vê com bons olhos ativistas visitando a Palestina e sendo testemunha das violações de direitos humanos cometidas por lá, então tem sempre uma chance de que eles não vão me deixar passar do aeroporto. Esse ano, pela primeira vez, uma das participantes do tour foi deportada pelas autoridades israelenses na chegada. Pamela foi interrogada pela Polícia da Fronteira no aeroporto, que entrou no Facebook dela e concluiu que uma foto em um protesto contra Bolsonaro e o fascismo no Brasil era motivo suficiente pra deporta-la. O que isso diz sobre a natureza do Estado de Israel é óbvio, né? Concluíram que ela era, nas palavras da polícia israelense, “uma baderneira que tinha ido pra Israel jogar pedras em soldados”, mesmo sendo a primeira vez que ela ia à Palestina/Israel. Além de ter perdido o tour, ainda teve que pagar seu voo de deportação (sim, a Polícia da Fronteira faz você pagar pela própria deportação). Isso é um risco que corro todas as vezes que chego lá e saber que todos os anos várias pessoas (geralmente 12, mas esse ano eram três grupos com 19 pessoas ao todo) dependem de mim, ao mesmo tempo que eu dependo da boa vontade de autoridades que não me querem ali, é extremamente estressante. Eu pensava que se fosse deportada na chegada todas as pessoas que tinham tirado férias pra participar do tour, comprado passagens, seguro de viagem etc, iam ficar muito, muito decepcionadas e meu estresse só aumentava. E não era apenas o estresse no momento de chegar no aeroporto. O estresse me acompanhava durante todos os meses de planejamento da viagem, porque o tempo todo eu sabia que estava correndo o risco de estar fazendo todo aquele trabalho pra nada. Até hoje tive muita sorte e tudo sempre deu certo, mas não queria continuar brincando com a sorte e achei melhor parar agora, de maneira planejada, do que continuar seguindo com o projeto e ter que parar de uma maneira traumática (sendo deportada) no futuro. 


O segundo motivo é positivo: comecei a me comprometer com novos projetos e como os tours consomem pelo menos 8 meses do meu ano (entre planejamento e execução), não tinha como conciliar tudo. Foi uma aventura linda e transformadora pra mim e, tenho certeza, pra quem participou dos tours e encerro esse ciclo com a sensação de ter feito um ótimo trabalho, do qual sempre terei orgulho. 


Falarei mais sobre meus projetos atuais em outro post, mas pra concluir esse aqui vou fazer o que me pediram bastante, tanto por email quanto por mensagem no Instagram: dar dicas pra quem gostaria de visitar a Palestina, mas não pode mais contar com meus serviços de guia política.


Eu sempre recomendarei conhecer a Palestina junto com pessoas de lá. Apesar de organizar os tours, durante toda a viagem as participantes estavam acompanhadas de palestinas e palestinos. Meu trabalho era ser uma ponte, era organizar a logística de tudo, mas as histórias eram contadas pelo povo palestino, sempre. Pra sorte de vocês Baha, um dos meus amigos palestinos mais queridos, e que sempre trabalhou comigo durante os tours, organiza viagens pra quem quer visitar a Palestina e conhecer a realidade política local e a resistência do povo palestino. A organização dele se chama “To be there”, porque ele acredita que você precisa “estar lá” pra realmente entender o que acontece na Palestina. Ele organiza visitas várias vezes por ano, sempre com uma programação incrível e é só entrar no site da organização pra conferir as próximas datas, os valores, etc. Baha também organiza tours políticos de um dia, na região de Belém e em várias outras cidades palestinas. Então se você estiver na região pode entrar em contato com ele e montar visitas sob medida.


A PAL  (Palestinian Animal League, ou Liga Animal Palestina, a primeira organização de proteção animal da Palestina) também pretende organizar tours políticos na Palestina, começando em julho. Acompanhe o trabalho da PAL (no site, Facebook e Instagram) pra se manter informada sobre os próximos tours. Infelizmente, nos dois casos, as pessoas terão que falar Inglês fluentemente. 


E se quiser saber mais sobre a Palestina sem sair da cadeira, recomendo ler os relatos (cheios de fotos) dos tours, que publiquei aqui ao longo dos anos na página Tour na Palestina (os links estão no final).