Três meses depois de ter me mudado pra Berlim, ainda não encontrei um lar permanente. Atualmente estou em um apartamento lindo, mas que alugamos por apenas algumas semanas, enquanto o proprietário curte as férias na Tailândia. Além das mudanças constantes dificultarem o  desenvolvimento de uma rotina, indispensável pro meu bem estar e pro meu trabalho, essa instabilidade me faz sentir como se eu ainda não tivesse chegado de verdade. Parece que estou suspendida por algum fio invisível e só colocarei os pés no chão quando tiver um cantinho pra chamar de meu. Por isso ainda me parece que cheguei antes de ontem.

Outra razão importante pra voltar a ter um endereço fixo é poder retribuir a hospitalidade que recebi durante esses três anos em que estive nômade. Eu não imaginava que isso me faria tanta falta até ter perdido a possibilidade de hospedar amigas de passagem. Eu adoro receber pessoas em casa e gosto mais ainda de poder ajudar pessoas queridas a fazer economia com hotel. Porque a hospitalidade das minhas amigas fizeram toda a diferença pra mim nos últimos anos e é triste não poder retribuir isso.

Eu morei seis anos em um kitinet de apenas 14 metros quadrados em Paris, a maior parte do tempo com uma ex namorada brasileira. E apesar de ser o lar mais minúsculo que já vi, hospedamos várias amigas (por uma noite, alguns dias e até durante um mês inteiro!). Quando lembro disso acho loucura, mas aos vinte e poucos anos eu não precisava de longos períodos sozinha, como é o caso hoje. Na Palestina aconteceu a mesma coisa, só que dessa vez em uma casa bem maior. Hospedamos tantas pessoas, cozinhei jantares pra tanta gente de passagem durante os cinco anos que morei em Belém que até hoje eu encontro pessoas pelo mundo que me dizem: “Eu jantei na sua casa em Belém, lembra?” Pra minha vergonha, muitas vezes eu não lembro. Era gente demais. E mesmo durante o curto ano em que morei em Bruxelas consegui hospedar oito pessoas amigas (cada uma de uma vez), vindas de países diferente.

Sinto falta disso. De escolher o cobertor mais quentinho pra visita. De encher a geladeira de gostosuras pro café da manhã. De preparar jantares caprichados pras hóspedes. Meu prazer é tão grande que Anne vive dizendo que eu deveria fazer uma espécie de airbnb/pousada vegana. Olha aí, mais uma razão pra ter endereço fixo.

Enquanto isso não acontece vou agradecendo a hospitalidade das pessoas que me acolheram aqui em Berlim com comida. Decidi que sempre que alguém me emprestar sua casa, o que aconteceu várias vezes nos últimos meses, vou deixar um prato pronto na geladeira esperando por ela na volta. E atualmente o meu preferido é um ensopado de grão de bico com damasco seco que Peter, um amigo estadunidense, preparou especialmente pra nós na casa dele em Berkeley, na Califórnia.

Estivemos em São Francisco em maio, em (segunda) lua de mel, mas também a trabalho. Anne tinha uma exposição programada em Oakland, mais uma conferência em Berkeley (as duas cidades são vizinhas de São Francisco), junto com Ala e Michal, que produziram o projeto Obliterated Families com ela. Peter e o marido, Ilan, que é israelense, fazem parte de um grupo de solidariedade com a Palestina e ficaram sabendo dos eventos através do grupo. Eles ofereceram hospedagem pra Ala e Michal, fizeram um jantar pra nós e Peter nos ajudou a montar a exposição. A generosidade e bondade dessas duas pessoas, que tínhamos acabado de conhecer, me emocionaram. Conversei muito com Peter e descobrimos que temos muitas coisas em comum. Graças a esse encontro, a tarde que passamos fazendo furos na parece da galeria pra suspender as fotos foi extremamente prazerosa. A casa de Peter e Ilan parecia saída de um conto de fadas. Eles construíram praticamente tudo com as próprias mãos e o jardim, gigante, principalmente comparado com o tamanho da casinha de boneca deles, me deixou de boca aberta. Lá eles plantam vários legumes e frutas e tem até um ofurô aquecido com lenha (feito por eles, claro). Falamos sobre a Palestina, sobre o choque de ter visto Trump ser eleito, conhecemos o melhor amigo de Peter e sua esposa, francesa (nunca conheci tantas pessoas tão lindas de uma só vez), ajudei Ilan a colher verduras e flores (comestíveis) que ele transformou em salada… Peter tinha prometido preparar um prato de grão de bico (que ele chama assim, mesmo, “a garbanzo dish”), descoberto em um velho livro de receitas, que ele prepara regularmente, principalmente quando tem convidadas vegetarianas/veganas, há anos.

Mas pouco antes de ir pra mesa nos demos conta que estávamos atrasadas pro nosso próximo encontro, com um casal amigo de Gaza. Passamos tanto tempo conversando no jardim que perdemos a hora e não seria possível jantar com Peter e Ilan. Ao invés de se ofender com a desfeita, Peter disse que deveríamos partir com o prato que ele tinha preparado, pra ser compartilhado com Jihad e Lara, o amigo e a amiga de Gaza. Peter e Ilan conhecem e gostam muito de Jihad e Lara, então ficaram felizes com a possibilidade de alimentar mais duas pessoas queridas com o ” prato de grão de bico”. Partimos com o grão de bico numa mão e a salada do jardim na outra.

Jihad e Lara ainda não tinham jantado e ficaram extremamente felizes com o presente comestível. Colocaram os pratos na mesa, junto com um pouco de hummus e azeitonas que encontraram na geladeira e nos deliciamos com o quitute de Peter, que, descobri, era um cozinheiro de mão cheia. Depois da segunda garfada Jihad declarou: “Como é bom comer uma refeição caseira.” A vida desse casal, que tem vinte e poucos anos, não está fácil. Estão tentando conseguir asilo nos EUA e é um processo demorado e caro, pois você não tem a autorização pra trabalhar enquanto espera a resposta. Me dei conta que, pra fazer economias, esse casal amigo não devia se alimentar muito bem e deviam sentir muita saudade da comida de suas mães, que ficaram em Gaza. No final das contas tinha sido ótimo levar a deliciosa comida de Peter pra lá e foi uma noite especial da qual nunca vou esquecer. Comida tem esse poder de unir pessoas, reconfortar, oferecer nutrição e carinho de dentro pra fora. E enquanto comemos comungamos com as pessoas sentadas na mesa e acontece uma conexão energética linda. Nós quatro, uma palestina, um palestino, uma francesa e uma brasileira, com histórias de vida tão diferentes, degustando aquela comida deliciosa, preparada por um estadunidense e um israelense, também vindos de horizontes completamente diferentes. Unidas pela generosidade de pessoas que tínhamos acabado de conhecer. Unidas por um prato de grão de bico.

Gostaria que as pessoas que acham que ser vegana nos priva desses momentos sociais, onde a comida é o elo que nos une, pudessem entender que isso está longe de ser verdade. Em nenhum momento dos meus dez anos de veganismo o fato de ter recusado o consumo do corpo e secreções de animais me tornou anti-social. E conheço muitas veganas que vivem exatamente a mesma coisa. Achar que todas as pessoas, mesmo as que você acabou de conhecer, se ofenderão se você disser que é vegana é algo mais presente na sua cabeça do que na realidade. Talvez algumas se ofendam, mas isso diz mais sobre a intolerância delas do que sobre a sua ética. Porém o que vejo com muito mais frequência são pessoas querendo que você passe um bom momento com elas ao redor da mesa e por isso se dispõem a fazer o possível pra te agradar. E quando elas conseguem preparar um prato vegetal que faz sucesso, a alegria de ter recebido bem a convidada vegana é um presente do qual elas teriam sido privadas se você tivesse deduzido, sem consulta-las, que  elas não seriam capazes de respeitar o seu veganismo. Vamos deixar a condescendência de lado e parar de achar que as pessoas não são capazes de entender sua escolha de se alimentar sem crueldade, sem nem ao menos ter dado à elas a possibilidade de reagir. Muitas pessoas vão te surpreender de maneira positiva se você der uma chance pra elas.

Lembro de tudo isso quando cozinho esse grão de bico, que já fiz várias vezes desde que cheguei na Alemanha. Claro que depois daquele jantar memorável escrevi pra Peter pedindo a receita. E como é crime guardar comida boa pra si e não compartilhar com as coleguinhas, aqui vai a receita do grão de bico que entrou pra minha história, como tantos outros pratos que me marcaram pela carga emocional que eles representam.

 

O grão de bico com damasco de Peter

Fiz pequenas adaptações na receita, por diferentes razões. Peter usa mais azeite que eu, mas prefiro pratos menos gordurosos. Também diminuí a quantidade de damasco seco, porque sei que é um ingrediente caro. Anne até prefere assim, pois ela acha que com mais damascos o prato fica muito ácido. Na minha versão uso um pouco de canela, porque ela realça muito tomate e damasco (algo que aprendi com a culinária marroquina). A receita original usa caldo de legumes, mas como é difícil achar um que seja natural, optei por usar a água de cozimento do grão de bico, que também acrescenta mais uma camada de sabor ao prato, embora mais discreta. Nunca jogo a água de cozimento do grão de bico fora e uso no lugar de caldo de legumes em sopas e ensopados. O damasco faz toda a diferença nessa receita e se você não tiver acesso a esse ingrediente, ao invés de me perguntar “como posso substituir o damasco?” sugiro que escolha outra receita de grão de bico nos arquivos. Como grão de bico catalão , amassado de grão de bico ou harira.  Essas três receitas também são fantásticas!

2 x de grão de bico cozido (reserve o caldo)

1 cebola picada

2-4 dentes de alho picados

2x de tomates bem maduros picados

1/3x de damascos secos picados

1 cc de cominho em pó

1/2cc de canela em pó

2 punhados de coentro ou salsinha, ou uma mistura dos dois, picados

Sal e pimenta do reino a gosto

1/3x de azeite

2x do caldo de grão de bico (a água onde ele foi cozinhado)

 

Em uma panela média aqueça o azeite e doure a cebola. Junte o alho e refogue por mais alguns segundos. Acrescente o grão de bico (sem o caldo), o damasco, o tomate, cominho, canela e tempere com sal e pimenta do reino. Cozinhe em fogo baixo, coberto, até o tomate se desintegrar. Cubra com 1x do caldo de grão de bico, aumente o fogo e quando começar a ferver abaixe o fogo novamente e deixe cozinhar por aproximadamente 20-30 minutos. O molho deve ficar encorpado e suculento, então dependendo do tomate utilizado talvez você precise acrescentar mais uma xícara do caldo de grão de bico. Peter gosta de cozinhar esse prato no fogo baixíssimo por um longo período (quase duas horas!) e se você estiver com tempo sobrando, aconselho fazer a mesma coisa, acrescentando mais caldo de grão de bico aos poucos, pro prato não ficar seco. A diferença no sabor é nítida quando o cozimento é lento. Prove e corrija o sal e a pimenta. Desligue o fogo e só então junte o coentro e/ou salsinha. Sirva acompanhado de arroz ou o cereal que preferir. Rende aproximadamente 4 porções.