No início da semana deixei Bruxelas. Os dias que antecederam a partida foram preenchidos com despedidas: pessoas, lugares, os pertences que se acumularam durante o último ano… No ônibus que me levou embora fiz o balanço dos 13 meses que fiquei na cidade. Foram muitas oficinas de culinária veganas e palestinas (também 100% vegetais) e pela primeira vez na vida trabalhei como chef particular (pra uma família de onívoros!). E no emaranhado de pessoas incríveis e projetos interessantes que cruzaram o meu caminho esse ano teve:

Uma palestra sobre a Palestina pra um grupo de catecismo, onde uma das crianças perguntou se eu tinha morrido e ressuscitado na Palestina.

Palestras sobre a questão dos refugiados palestinos pra grupos de uma escola de segundo grau, onde um terço dos adolescentes saiu da sala chorando, um terço querendo dar murros na parede de tanta revolta e outro terço balançando a cabeça em descrédito, achando que tudo que eu tinha exposto era mentira ou, no mínimo, exagero (até as fotos e mapas feitos pela ONU). Pelo menos minhas palestras não deixam ninguém indiferente.

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Uma colaboração (criação de receitas e oficinas) com dois rapazes belgas que decidiram cultivar cogumelos em borra de café.

A realização de um jantar pra comemorar a construção de um banheiro seco, parte de um projeto muito bacana em um parque da cidade. No primeiro encontro que tive com o coletivo que construiu o banheiro eles explicaram que queriam incentivar o pessoal a usar o banheiro seco do parque e fizeram o seguinte pedido: “Gostaríamos que você preparasse um jantar que desse vontade ao pessoal de usar o banheiro”. Voltei pra casa rindo muito, depois de ter explicado que o processo de digestão leva algumas horas e que a menos que eu utilizasse laxantes poderosos na comida, o que comprometeria a minha reputação de cozinheira, eu não podia fazer os convidados do jantar usar o banheiro imediatamente.

O encontro com um grupo de afegãos requerentes de asilo e a descoberta da situação revoltante das pessoas que são obrigadas a fugir de sua terra, cruzando vários países numa travessia que pode durar meses e custar a vida, e quando chegam na Europa são tratadas com desprezo total e perseguidas como fora-da-lei. Nunca a minha vontade de ver o final de fronteiras no mundo foi tão grande. Ninguém é ilegal!

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O trabalho voluntário com uma ONG que ajuda estrangeiros sem visto que foram colocados no que o governo belga chama de ‘Centro Fechado’, mas que não passa de um eufemismo pra ‘prisão’, enquanto esperam ser deportados. A dor das visitas que fiz naquela prisão, onde pessoas choravam de desespero enquanto me explicavam que se fossem deportados pros seus países de origem seriam perseguidas, torturadas e assassinadas. O sentimento esmagador de impotência diante da injustiça, que eu senti tantas vezes quando morava na Palestina. E, mais do que tudo, a revolta rachando o meu peito quando eu recebia um telefonema do advogado ou de um dos meus colegas da ONG avisando que aquela pessoa tinha acabado de ser deportada.

O envolvimento com o grupo de apoio à requerentes de asilo LGBT e as histórias assustadoras de quem escapou de países onde homossexualidade é crime. Algumas me assombraram tanto que nunca conseguirei esquecer.

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O artista e tradutor português que conheci quando trabalhei como intérprete em um seminário internacional sobre ‘Práticas de Emancipação Coletiva’ e que se tornou o meu melhor amigo na cidade. Passei muitas horas conversando com ele sobre a política no Brasil, assunto que o intriga bastante, e o ajudando a traduzir documentários sobre a luta por direitos das comunidades quilombolas no meu país, quando ele não entendia o Português brasileiro (e rindo dos nossos dialetos respectivos).

A amiga basca que me convidou pra colaborar com um dos eventos gastronômicos-culturais que ela organiza em Bruxelas e me incentivou a criar um menu de inspiração palestina, que foi acompanhado por uma exposição efêmera das fotos de Anne (que estava em Gaza naquele momento).

As atividades gastronômicas pra crianças e o baby-sitting ocasional pros amigos de uma amiga, que tinham crianças super interessantes. Tive conversas profundas com o casal de gêmeos de 4 anos sobre a construção do gênero (Eu: ‘Vocês têm certeza que sou menina? Talvez eu seja menino.’ Eles: ‘Você tem um rabo de cavalo e brincos, então é menina.’ Eu: ‘Conheço meninos que usam brincos e têm o cabelo grande. E conheço alguém que nasceu menina, mas hoje é menino.’ Eles, animadíssimos: ‘Ahhh! Como é o nome dele agora?’). A menina, que tinha os olhos dourados de uma leoa, os mais lindos que já vi, me fazia rir muito com suas observações. Um dia, já deitada, ela me chamou no quarto pra dizer: ‘Estou com saudade de Mandela’. Pois é, em algum lugar em Bruxelas tem uma menininha de 4 anos com saudade de Mandela!

Também cozinhei em um caminhão (‘food truck’), fui contratada pela Sociedade Vegetariana Belga pra fazer o meu primeiro churrasco vegano, fiz uma vídeo-conferência sobre a violação dos direitos humanos na Palestina pra funcionários brasileiros (um grupo em Recife e outro em Porto Alegre) de uma empresa de softwares americana (!!!!), recebi a visita de amigos da França, Alemanha, Jerusalém, Noruega, Itália e Espanha…

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E nem tive tempo de participar de todos os projetos que gostaria. Na minha lista ficou pendente o convite pra organizar oficinas de culinária  (vegana) pra requerentes de asilo LGBT, tentativa de criar um espaço seguro, mas ao mesmo tempo descontraído, onde essas pessoas pudessem dialogar e trocar confidências. Se tem uma coisa que o projeto no campo de Aida me ensinou foi que comida une as pessoas e cria laços poderosos. Também fui convidada, mas não tive tempo de participar, pra cozinhar pras prostitutas da ‘rua da luz vermelha’ de Bruxelas, um projeto independente que oferece uma refeição quente, manicure e cabeleireiro pras meninas algumas vezes por mês. Minha amiga basca também me chamou pra dar palestras sobre sexualidade positiva pra um grupo de mulheres, vindas de um meio conservador e opressor, que estavam aprendendo a ‘pole dance’ pra superar complexos com o próprio corpo, projeto que ela está atualmente desenvolvendo.

Não sei que tipo de CV estou tentando construir, mas minha passagem por Bruxelas o deixou ainda mais heteróclito. Então, sentada naquele ônibus, eu fiz o que faço com frequência: agradeci por ter a oportunidade de viver essa vida extravagante, mas que me convém perfeitamente e que me enche de felicidade. Às vezes a instabilidade e o medo de não conseguir me manter me paralisam por um momento, que pode durar alguns segundos ou vários dias, mas quando coloco a cabeça no travesseiro e fecho os olhos, só sobra a gratidão profunda que carrego no coração.

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A pergunta que ando escutando com mais frequência agora é: mudou pra onde? Por enquanto, pra lugar nenhum. A verdade é que serei nômade durante os próximos seis meses. Estou atualmente na França, mas daqui a alguns dias irei pra Toscana (uma semana de férias, com uma oficina de culinária no meio), depois pra Palestina (onde vai acontecer esse tour político-gastronômico-ativista), depois volto pra França (onde passarei o natal e o ano novo), depois irei ao Brasil. Vou passar os meses de janeiro e fevereiro em terras tupiniquins e já estou com várias ideias de projetos por lá. Aguardem! E se tiverem sugestões, me escrevam!

À partir de março as coisas ainda não estão totalmente definidas. Apesar da insegurança, que bate na minha porta regularmente (se engana quem acha que ela não tem o meu endereço. Mesmo na estrada, sem domicílio fixo, ela sabe onde me encontrar), mal posso esperar pra descobrir o que o próximo ano vai me oferecer. Espero que 2015 queira fazer comigo o que a primavera faz com as cerejeiras:)

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*Todas as fotos foram feitas em Bruxelas, durante os últimos 13 meses, com o meu telefone. Algumas precisam de legenda, então lá vai: a quarta é do grupo de requerentes de asilo afegãos, durante a gravação do clip de um dos rapazes do grupo (ele canta rap), a quinta foto é da prisão pra estrangeiros sem visto que mencionei no texto e a décima primeira é do menu  palestino, pintado pela minha amiga basca, que servi no evento também mencionado no texto. E pra quem ficou curioso pra saber quem escreveu o poema que aparece na primeira foto, ele é de Leonard Cohen.