Muitas luas atrás escrevi um post explicando porque NÃO é mais caro ser vegetariano/vegano. No texto chamei a atenção pro fato das pessoas que acusam o vegetarianismo de ser uma opção mais cara confundirem comida vegetariana com comida orgânica e compararem coisas que não são comparáveis. Explico. Não faz sentido comparar o custo da alimentação de um onívoro que compra verduras não-orgânicas e escolhe sempre as marcas mais baratas no supermercado com o custo da alimentação de um vegano que compra verduras orgânicas e marcas especiais em lojas de produtos naturais. Na época em que eu fazia pesquisas na faculdade aprendi que pra comparar duas coisas temos que ter apenas uma variante. Na comparação que descrevi acima, que é o que  a maioria das pessoa faz, tem duas variantes:

1-alimentação COM carne/produtos de origem animal X SEM carne/produtos de origem animal

2- alimentação orgânica X não orgânica

E naquele post (leitura altamente recomendada!) mostro que levando as duas variantes em consideração, ou seja, uma alimentação onívora orgânica e uma alimentação vegetal orgânica, ainda assim o vegetariano e principalmente o vegano gastam muito menos pra se alimentar do que o onívoro (pense no preço de carnes, ovos, queijos e iogurtes orgânicos). Mas é essencial entender que não é preciso comprar comida orgânica pra ser vegetariano/vegano. Até seis meses atrás as verduras, frutas, leguminosas e cereais que apareciam na minha mesa não eram orgânicos.

Muita coisa mudou na minha alimentação desde que voltei a morar na Europa e pela primeira vez na vida quase toda a comida que entra aqui em casa é orgânica. Então depois de anos tendo ter uma alimentação vegetal não orgânica, agora posso falar dos custos de ter uma alimentação vegetal orgânica. O veredicto? Continuo gastando menos do que os amigos onívoros que compram uma parte da sua comida orgânica e outra parte não orgânica e muito, muito menos do que os amigos onívoros que compram tudo orgânico.

Não vou falar de números aqui porque seria inútil, já que moro na Bélgica e a maioria dos meus leitores mora no Brasil e o custo de vida nesses dois países é diferente. Mas gostaria de dividir com vocês o que aprendi em matéria de economia do lar e dar dicas de como melhorar a qualidade do que você come, sem precisar esvaziar a conta.

 acelga verde rosa

 Evite vegetais orgânicos de supermercados

No Brasil eles são muito mais caros. Aqui na Europa eles são mais acessíveis, mas ainda assim são mais caros do que os vegetais orgânicos de algumas feiras de produtores.

 Prefira comprar verduras em feiras orgânicas

Vegetais em feiras orgânicas são mais baratos do que os produtos orgânicos de supermercado, principalmente quando os feirantes são os próprios produtores. E algumas vezes encontrei vegetais orgânicos em feiras que custavam menos do que a versão não orgânica em supermercados (tanto na Bélgica quanto no Brasil).

Escolha vegetais de estação

Aqui na Europa é possível encontrar morangos e melancia o ano inteiro, mesmo quando a temperatura lá fora está abaixo de zero. Além de não fazer sentido comer melancia em dezembro (aqui no Hemisfério Norte), frutas fora da estação são mais caras, têm uma pegada ecológica muito maior (pense em toda a energia usada pra manter essas frutas quentinhas em pleno inverno) e o sabor deixa muito a desejar. Já vegetais de estação são mais saborosos, mais nutritivos e mais baratos. Se você não souber o que está na época na sua região, basta passear por uma feira livre: os vegetais mais abundantes e baratos são sempre os da estação. Desde setembro não como tomates frescos (nem berinjela, abobrinha, pimentão…), mas sei que no verão, quando eles voltarem a aparecer nas feiras, o prazer de degusta-los será ainda maior.

 Escolha vegetais que foram produzidos localmente

Sabemos que a partir do momento em que um vegetal é colhido a carga de nutrientes começa a diminuir. Aquela maçã que viajou milhares de quilômetros pra chegar na sua mesa além de ser mais cara e menos ecológica (mais uma vez, pense na energia utilizada na produção/transporte), já perdeu uma parte dos nutrientes. Então tente consumir principalmente alimentos produzidos na sua região. Atualmente 60% dos vegetais que entram na minha cozinha são produzidos na Bélgica e 40% nos países vizinhos, como a França, Holanda, Espanha e Itália. (A Bélgica é minúscula, um pouco maior do que o Alagoas, então as distâncias entre esses países é pequena.)  Por mais que eu sinta falta de banana, só compro essa fruta em ocasiões especiais, pois sei que ela vem de muito longe. Isso significa que a variedade de legumes que compõem a minha dieta diminuiu consideravelmente desde que saí da Palestina, mas ao mesmo tempo isso me força a ser mais criativa na cozinha e a usar o mesmo vegetal de várias maneiras diferentes.

 Passe a ver frutas como guloseimas saudáveis

Quem frequenta feiras orgânicas sabe que frutas são geralmente os itens mais caros. Encha a sacola de legumes e folhas e invista em uma ou outra fruta que será degustada como uma guloseima saudável. Frutas são legumes docinhos e todos os minerais e vitaminas que o nosso organismo precisa podem ser encontrados em legumes e folhas. Então sua saúde não vai sair perdendo se você diminuir a quantidade de frutas da dieta e aumentar a de legumes e folhas. Claro que se eu pudesse escolher comeria muitas frutas orgânicas, porque adoro frutas em geral e as orgânicas são ainda mais saborosas, mas meu orçamento é pequeno e preciso fazer escolhas inteligentes. Compre mais legumes e folhas do que frutas e pode ter certeza que você sempre vai voltar da feira com a sacola cheia, sem ter precisado quebrar o porquinho pra pagar a conta.

 Privilegie os vegetais humildes  

Claro que adoro variar e degustar vegetais especiais e exóticos, mas meu foco é sempre nos vegetais mais humildes. E além de serem mais baratos, alguns dos vegetais mais humildes são os que mais rendem, fazendo com que a economia seja ainda maior. Já reparou como um repolho cortado se transforma em uma quantidade enorme de comida? Na categoria dos vegetais humildes entra também jerimum (abóbora), batata, batata-doce, cenoura, beterraba, chuchu… Dependendo da região onde você mora a lista de vegetais humildes pode variar.

 Aproveite as folhas, talos e cascas dos legumes orgânicos

Uma das grandes vantagens de comprar legumes orgânicos é que frequentemente eles são vendidos inteiros, com os talos e as folhas. A primeira vez que vi uma couve-flor em uma feira orgânica fiquei impressionada com a quantidade de folhas ao redor da cabeça. Geralmente esses legumes são vendidos por unidade, não no peso, o que faz com que você volte pra casa com dois legumes pelo preço de um! Folhas de cenoura, couve-flor e beterraba são comestíveis e deliciosas. Aproveite também os talos dos legumes (brócolis, couve-flor) e das folhas (couve, acelga verde…). Pique tudo miúdo e coloque na sopa, feijão, refogados… Se seu feirante corta as folhas dos legumes antes de levá-los pra feira, converse com ele e peça pra que na semana seguinte ele traga os seus legumes inteiros, com as folhas. E tem mais! Alguns legumes nem precisam ser descascados (cenoura, pepino, nabo, rabanete…).

Fuja do desperdício

Deixar legumes se estragar me dá uma dó no peito… E quando os legumes em questão são orgânicos, me dói o peito e o bolso. Não deixe seus vegetais se estragarem no chão da cozinha (transfira tudo que precisa ser refrigerado pra geladeira assim que voltar da feira) nem no fundo da geladeira. Um legume está quase passando do ponto de ser consumido? Você tem duas opções: prepare no mesmo dia ou congele imediatamente (devidamente lavado e cortado). Se encontro promoções na feira, ou se volto pra casa com um jerimum enorme, lavo, corto em pedaços médios e congelo. Essa dica também é válida pra quem preparou uma quantidade muito grande de um prato. Não vai comer aquilo tudo nos próximos dias, ou não gosta de comer o mesmo prato várias vezes seguidas? Congele em porções proporcionais ao número de habitantes da sua casa e você economizará tempo e dinheiro.

Se não puder comprar todos os vegetais orgânicos…

Sabe quais são os 12 vegetais mais contaminados com agrotóxicos? Maçã, pimentão, morango, uva, salsão, pêssego, espinafre, nectarina, pepino, batata, tomate cereja e pimentas. Se você não puder comprar tudo orgânico, pelo menos escolha comprar a versão orgânica dos produtos dessa lista. E na hora de consumir vegetais não orgânicos, lavar bem e retirar a casca antes do consumo é uma maneira de se livrar de uma parte dos agrotóxicos.

E falando em economia, queria dividir com vocês uma receita baratinha e nutritiva que vem aparecendo com frequência na minha mesa. Repolho é um dos poucos legumes produzidos na minha região e que aparece na feira durante todo o inverno, então há meses que aqui em casa é repolho refogado pra cá, sopa de repolho pra lá, salada de repolho por aqui… Felizmente eu adoro repolho, principalmente repolho verde, que é quase um cruzamento entre repolho branco e couve folha (tem um na primeira foto desse artigo, do lado do alho poró). Então preparo um prato de repolho com feijão, que degusto com arroz integral, e a refeição inteira (com o arroz e pra duas pessoas) sai por míseros 2 euros. E com todos os ingredientes orgânicos! Quando penso que ainda tem gente tentando me convencer que se eu comesse carne/ovo/queijo minha alimentação seria mais barata…

 repolho com feijão

Repolho com feijão

Imagino que encontrar repolho verde no Brasil não seja uma tarefa das mais fáceis (nunca vi esse vegetal em Natal), então você pode usar repolho branco. Uso qualquer tipo de feijão, mas feijão carioquinha e vermelho (como o da foto) são os meus preferidos nessa receita. Quem não gosta de coentro pode usar salsinha.

2cs de azeite

1 cebola, picada

2-4 dentes de alho, picados

4x de repolho verde (ou branco), em tiras finíssimas

1 1/2x de feijão cozido (na água e sal)

Um punhado de coentro, picado

Um punhado de cebolinha verde, picada (opcional)

Sal, pimenta do reino e limão a gosto

Em uma frigideira grande e funda aqueça 1cs de azeite e doure a cebola. Junte o alho, deixe cozinhar mais 30 segundos e acrescente o repolho. Tempere com sal, refogue durante alguns segundos, cubra e deixe cozinhar em fogo baixíssimo até o repolho ficar macio. Não precisa acrescentar água, o repolho vai liberar um pouco de água e cozinhar no vapor. Quando o repolho estiver bem macio, retire a tampa e deixe toda a umidade evaporar, mexendo de vez em quando. Quando os pedaços de repolho que estiverem em contato com a frigideira começarem a ganhar uma cor mais escura junte o feijão cozido (sem o caldo) e deixe aquecer. Desligue o fogo e junte o coentro e a cebolinha (se estiver usando). Tempere com pimenta do reino, prove e corrija o sal, se necessário. Sirva regado com suco de limão e com o resto do azeite, acompanhado de arroz integral. Eu gosto de servir esse prato com bastante molho de pimenta, como esse aqui. Rende duas porções generosas.