Vocês, pessoas, vocês… Eu tenho os leitores mais maravilhosos dessa internet. Nem sei como agradecer os comentários que vocês deixaram no meu último post. Eu li todos (duas vezes), me emocionei, chorei, fiquei profundamente tocada, me senti uma rockstar e agradeci as estrelas por ter tanta gente boa na minha vida. Recebam meus agradecimentos sinceros e meus abraços virtuais (estou abraçando cada um de vocês mentalmente agora. Sentiu um calorzinho ao redor dos ombros? Sou eu.)

Mas acho que a melhor maneira de agradecer tanto carinho é continuar postando minhas histórias e receitas por aqui. E o post de hoje é muito especial pra mim. Faz meses que carrego a ideia desse texto na cabeça e acho que chegou a hora de transferi-la pro computador e dividir o resultado com vocês.

Jo

 Lembram da minha amiga Johanna? Mês passado foi o aniversário dela e como eu não pude estar lá nesse dia especial e nem sequer mandei presente, resolvi fazer o que sempre faço nessas situações: escrever um post. (Acho que nesse momento todas as pessoas que fazem parte da minha vida sabem que mais cedo ou mais tarde vão virar post).

 Ela mora em Tel Aviv e faz um ano (desde que fui embora da Palestina) que não nos vemos, mas é difícil passar um dia sem que eu pense nela. Johanna é a minha alma gêmea e me entende tão profundamente que tenho certeza que pra ela minha carne é transparente: ela consegue ler diretamente na minha alma. Querem saber como conheci Johanna? Ela foi a primeira amiga que fiz na Palestina e a primeiríssima pessoa vegana que conheci na vida! Eu fiz um desenho pra explicar nosso primeiro encontro. Eu desenho como uma criança de três anos que não tem talento nenhum pra coisa, mas Johanna adora meus bonequinhos (eu até desenhei um livrinho de receitas e histórias pra ela), então peço desculpa pelos desenhos toscos, mas é assim que vou contar nosso primeiro encontro. E já vou me desculpando pros leitores que não falam Inglês, mas o desenho é um presente pra Johanna e como ela não fala Português…

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Agora que vocês conhecem esse meu talento até então secreto (se cuida, Joe Sacco!) eu queria dividir mais uma coisa super pessoal e embaraçosa. Tempos atrás eu pedi pra Johanna responder um questionário sobre… eu mesma. Copiei a ideia da minha guru Danielle LaPorte (o trabalho dessa mulher me inspira imensamente), que criou um questionário chamado ‘ask a friend’, que te ajuda a descobrir o que seu amigo mais próximo pensa de você. A experiência é intensa, mas só funciona se você perguntar a alguém que te conhece pelo avesso e te ama profundamente. Johanna pediu pra eu fazer a mesma coisa pra ela e nós duas ficamos pra lá de emocionadas com as respostas. Perguntei se podia publicar algumas aqui no blog e ela aceitou. Com vocês, eu e a minha melhor amiga emocionalmente peladas.

 A conversa começou assim.

Sandra- Então você topa responder essas perguntas pra mim? Prometo que farei a mesma coisa pra você.

Johanna- Então tá. Mas você é uma das pessoas mais conscientes de si mesma que eu conheço. Não sei se você vai descobrir muita coisa com as minhas respostas… Mais prometo me esforçar pra te dar respostas mais complexas do que ‘Eu te amo, eu te amo, você é maravilhosa” 😉

Sandra- Então aqui vão as perguntas.

 O que você mais ama em mim?

J- A maneira como você vê a vida e o mundo… e a maneira que você se expressa, usando as impressões que você tem dentro de você. Ou seja, a maneira como você transforma suas experiências e conhecimentos em histórias, receitas, prazer e empatia.

S- O quão imensamente sábia você é e como você aceita as pessoas exatamente como elas são.

Eu sou a melhor do mundo em… 

J- …amar algo ou alguém da maneira mais completa e doce possível.

S-…dar conselhos incrivelmente precisos e úteis aos amigos. Ler a minha alma e saber exatamente como eu me sinto e o que eu devo fazer quando eu mesma não consigo.

Jo and Ju

Se eu não existisse… 

J- Acho que um punhado de gente seria menos feliz e menos iluminada se você não existisse. Veganismo seria apenas uma baboseira hipster e não uma filosofia completa. O Brasil seria um lugar menos vegano. O sol brilharia um pouco menos… Minha vida seria diferente. Você me fez ver e sentir coisas de uma maneira diferente. Eu sempre adorei comida, mas você fez com que eu me apaixonasse pelo fato de pensar e falar sobre o assunto. Eu sempre amei pessoas, mas você me deu palavras pra descrever beleza e atração. Você me mostrou beleza que eu nunca tinha visto antes. Eu acho que eu me sentiria menos amável e bonita se você não existisse.

S-  Eu ainda estaria me negando as fagulhas e o brilho inesperado que a vida traz (você sabe do que estou falando:) Eu aceitaria menos a pessoa que sou. Eu ainda estaria pensando que não se depilar não é sexy. Tel Aviv seria um lugar que não valeria a pena ser visitado. Eu não teria descoberto o meu patê preferido e os leitores do blog não teriam experimentado seu maravilhoso mutabbal. O mundo, o meu mundo, seria muito menos saboroso e bonito.

 O mundo precisa saber que eu… 

J- …é uma cozinheira maravilhosa. Jesus! Você é simplesmente maravilhosa! Mas não só uma boa cozinheira, você é uma expert em comida, inteligente e cheia de sabedoria. Você se preocupa com cada detalhe do seu trabalho. Você é uma professora fantástica e uma amiga única. Receber um pouco do seu conhecimento, habilidades e sabedoria é um presente pra qualquer pessoa que te conhece. Eu vou pagar dez tradutores pro seu blog ser famoso no mundo inteiro!

S- …é uma verdadeira guru. As pessoas que são sortudas o suficiente pra fazer parte do seu círculo de amizades devem sempre falar com você quando precisarem de um ouvido sensível, compaixão e os melhores conselhos do mundo.

 Na sua opinião, qual é a minha maior força?

J- Sobreviver mentalmente nas situações mais loucas.

S- Compaixão. Você é a pessoa com mais compaixão que conheço. A vida pode te esmagar e você vai sempre sair da situação com sua habilidade de sentir compaixão intacta. E também seu dom de analisar sem julgar. Isso é algo enorme e eu conheço pouquíssimas pessoas assim. Você é extremamente iluminada e evoluída.

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 Como você descreveria o meu estilo de vida?

J- Corajoso, autêntico, segue o seu coração, aventureiro… Você encontra satisfação em qualquer circunstância, mas nunca deixa de ter curiosidade com relação à vida, nem de fazer planos.

S- Tolerante, cheio de compaixão e verdadeiro. Você vive de braços abertos, aceitando as lições e tudo o mais que a vida traz pra você.

Eu deveria parar de…

J-…pensar que você sabe o que a outra pessoas está pensando/sentindo sem ter falado com ela sobre o assunto. Dar uma chance às pessoas e situações de serem diferentes do que você esperava. Eu sei que você já faz isso e que você se tornou mais consciente com relação a isso, mas ainda precisar trabalhar mais pra parar de repetir esse comportamento.

S-…comer açúcar e comida porcaria em geral.

Pro meu próprio bem, você gostaria que eu fosse menos…

J- Eu gostaria que você esquecesse menos de si mesma e deixasse de minimizar os seus problemas. Não seja uma heroína solitária!

S- Eu gostaria que às vezes você deixasse de se forçar a fazer tantas coisas ao mesmo tempo. Quando você trabalha muito, encontra várias pessoas, vai a vários lugares diferentes…tudo na mesma semana. E ainda assim se força a trabalhar mais, ir pra mais um lugar, encontrar mais uma pessoa. Aí você colapsa ou acaba adoecendo.

 Quando é que você me viu brilhar com toda a intensidade?

J- Quando você fala do seu irmão caçula e quando me conta histórias sobre a sua família. Sempre que você abre a porta pra mim e me faz brilhar também.

S- Quando você toca violino.

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 Eu posso comemorar mais/me orgulhar de…

J-…das coisas maravilhosas que você recebeu até hoje. Não se preocupe com isso de estar envelhecendo, de não ter um emprego… A vida que você viveu até aqui é uma verdadeira obra prima! Colha os frutos do seu trabalho, continue no seu caminho, continue compartilhando os seus pensamentos, ideias, amor e comida com o mundo. Não tem um só motivo pra te fazer duvidar das decisões que você tomou na vida.

S- O rumo que você deu à sua vida, as coisas que você conquistou até hoje, incluindo ter criado uma vida cheia de poesia e emoção nesse lugar louco e hostil, e seu incrível talento pra aprender línguas.

Por que dividir coisas tão íntimas aqui? Sinceramente, ainda estou procurando a resposta. Mas depois dos comentários de vocês no último post, fiquei com vontade de ficar emocionalmente pelada por aqui. Espero que ninguém se importe. E também porque queria apresentar uma das pessoas mais importantes na minha vida. A gente sempre quer dividir o melhor que tem com os amigos, virtuais ou não.

E pra ajudar a minha amiga Johanna e todos os leitores que adoram doces, mas que gostariam de comer menos açúcar, termino esse post com a receita mais popular nas oficinas de culinária que dei nos últimos tempos. Criei essa receita uns dois anos atrás, inspirada por algumas receitas de barrinhas de castanhas e frutas secas que vi na net. Com o tempo fui adaptando isso, incluindo aquilo e hoje faço bolinhas com a ‘massa’ ao invés de barras. Você também pode fazer um salame doce (um upgrade dessa receita aqui) e agradar os pequenos. Aliás, independente da forma, essa receita faz muito sucesso com as crianças. E com os adultos também, claro.

Essa é mais uma receita que prova que a vida sem açúcar (o pó branco ou marrom) pode ser deliciosamente doce. Ninguém precisa se privar de prazer nem punir as papilas pra se alimentar bem. E antes de apresentar a receita, uma última coisinha. Tem uma leitora que viu essas bolinhas no meu Instagram meses atrás e desde então espera ansiosamente pela receita. Clara, aqui estão as famosas ‘bolinhas casamenteiras’. 

PS Fiz quase todas as fotos na casa de Johanna, em Tel Aviv, mas a foto em que ela segura a cachorrinha foi na casa onde moramos anos atrás, em Belém/Palestina.

bolinhas de chocolate e coco

Bolinhas de chocolate e coco (vegana, crua, sem glúten)

Essas bolinhas são simplérrimas de fazer se você tiver um multi-processador, daqueles com uma lâmina ‘S’. É possível fazer a receita no liquidificador (é o que faço em casa), você só vai precisar usar os músculos e ter um pouco de paciência. A receita produz bolinhas doces na medida (menos doces que os doces tradicionais, mas várias crianças acostumadas com biscoitos e chocolates industrializados aprovaram essa receita), mas se quiser uma versão mais intensa e amarga, aumente a quantidade de cacau. E falando nele, a qualidade de cacau utilizado aqui faz toda a diferença. Sei que tâmaras são difíceis de encontrar no Brasil, então vou logo respondendo a pergunta que sei que vai aparecer nos comentários: é possível usar passas no lugar das tâmaras. Mas preciso avisar que o saber muda, claro, e que a versão com tâmaras é melhor.

1 x de coco ralado desidratado

1 x de castanha de caju

1 x (bem compactada) de tâmaras macias, sem caroço (as do tipo ‘medjoul’ são as melhores)

2 cs de cacau em pó puro, sem açúcar, de ótima qualidade (ou mais, se quiser um sabor de chocolate mais intenso e amargo)

1/2 cc de extrato de baunilha (opcional, mas recomendado)

Uma pitada generosa de sal marinho

Se suas tâmaras estiverem secas demais, deixe de molho em água quente (só o suficiente pra cobri-las) por meia hora. Escorra e reserve a água do molho.

 No multi-processador:

Triture as castanhas até obter uma farinha grosseira (tudo bem se tiver alguns pedacinhos maiores). Junte o coco ralado, o cacau e o sal e triture alguns segundo, pra que tudo fique bem misturado. Com o motor ligado vá adicionando as tâmaras escorridas (sem o caroço!!!) aos poucos. Junte o extrato de baunilha, se estiver usando, e uma colher de sopa de água (aquela que você reservou depois de ter deixado as tâmaras de molho) e bata mais um pouco. Nesse ponto a massa deve estar úmida o suficiente pra formar bolinhas quando pressionada. Teste pegando um pouco de massa e pressionando entre os dedos. Se ela ainda estiver muito seca e se quebrando, junte mais uma colher de sopa de água e bata mais um pouco. Se por acaso você acrescentar água demais e sua massa estiver muito grudenta, junte mais um pouquinho de coco ralado.

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No liquidificador:

Triture as castanhas até obter uma farinha grosseira (tudo bem se tiver alguns pedacinhos maiores). Despeje as castanhas em um recipiente grande e reserve. Coloque o coco ralado no fundo do liquidificador seguido das tâmaras escorridas e por último o cacau. Acrescente o sal e o extrato de baunilha, se estiver usando. Triture tudo até que as tâmaras estejam em pedaços bem miúdos (você provavelmente vai precisar parar o motor algumas vezes e mexer tudo com uma colher de pau). Despeje a mistura sobre as castanhas trituradas, junte uma colher de sopa de água (aquela que você reservou depois de ter deixado as tâmaras de molho) e misture tudo com as mãos. Se prepare pra malhar o braço aqui, pois a massa é densa e vai precisar de um certo esforço da sua parte pra chegar na consistência ideal. Se sentir que a massa não está ficando unida, junte mais uma colher de sopa de água. Se estiver muito grudenta, junte mais um pouquinho de coco ralado.

Quando a massa estiver bem unida e você for capaz de enrolar bolinhas com ela…faça bolinhas com ela (como você enrolaria brigadeiros, só que não precisa untar as mãos). Deguste imediatamente ou guarde em um recipiente bem fechado pra não ressecar. Elas ficam mais firmes no dia seguinte, mas o sabor fica ainda mais intenso. Essas bolinhas se conservam por vários dias (fora da geladeira, pois o frio faz com que elas fiquem bem duras). Rende 34 bolinhas pequenas (essa quantidade varia de acordo com o tamanho das suas bolinhas, obviamente).