Eu estava pensando com os meus botões essa semana sobre o quanto o meu repertório de saladas é vasto e interessante. Antes de abraçar uma alimentação totalmente vegetal salada pra mim significava alface, pepino e tomate, regados com azeite e, se eu estivesse me sentindo particularmente gourmet, umas gotinhas de vinagre balsâmico. Hoje sou capaz de fazer saladas originais e surpreendentes com quase todos os ingredientes que passam pela minha frente.

Já faz alguns meses que cozinho regularmente pra uma família onívora que adora vegetais, mas não sabe nem tem tempo de prepara-los. E apesar deles gostarem de tudo que faço (até hoje o único prato que não foi aprovado foi a minha amada sopa missô, mas sei que ela nunca será uma unanimidade), minhas saladas conquistaram o coração desses belgas. Eles gostam tanto que me enviam mensagens durante o jantar pra dizer o quanto estão apreciando minhas preparações. Os coitadinhos sofriam do mesmo problema que eu: o repertório de saladas deles era extremamente limitado e nem um pouco excitante.

Minhas saladas são geralmente improvisadas com os ingredientes que encontro na cozinha, raramente compro ingredientes específicos pra fazer uma salada específica (a menos que eu esteja desejando algo como essa maravilha aqui). E você deveria fazer o mesmo. Essa regra é válida pra qualquer receita, porém saladas, mais do que qualquer outro prato, dependem totalmente da qualidade dos ingredientes utilizados. Por isso a receita pra fazer saladas deliciosas é ir à feira sem lista de compras e manter os olhos e as narinas bem abertos, à procura dos tesouros do dia. Volte pra casa com os vegetais mais frescos, suculentos e perfumados que encontrar e você estará a um passo de ter saladas inesquecíveis na mesa.

A segunda regra pra criar saladas deliciosas é escolher a mistura de ingredientes com sensibilidade. No dia-a-dia prefiro saladas simples, com um número pequeno de ingredientes. Se você tem à sua disposição vegetais capazes de ganhar um concurso de  Miss (Miss Sabor e Aroma:) essa é a rota que você deve seguir. Você pode fazer uma salada com apenas um ingrediente (no verão, quando os tomates estão na sua melhor forma, gosto de degusta-los sozinhos, com uma vinagrete leve e algumas folhinhas de manjericão), mas nesse post gostaria de mostrar como construo o tipo de salada que faço com mais frequência, caso vocês sofram de falta de criatividade saladal.

Na hora de compor as saladas que aparecem diariamente na minha mesa gosto de combinar dois vegetais (dois legumes ou um legume e uma fruta) e pelo menos um deve ser cru (muitas vezes os dois são crus). É importante utilizar vegetais que se harmonizam entre si. Se você não sabe direito o que isso quer dizer, aqui vai uma dica: pense em sabores que se complementam. Se estiver usando um ingrediente amargo (radicchio, endívia, chicória, toranja, pomelo…), junte um ingrediente adocicado (frutas doces, frescas ou desidratadas). Se estiver usando um vegetal ácido (frutas cítricas), utilize algo rico e denso (como abacate ou um molho cremoso). Se um dos ingredientes tiver um sabor muito intenso (cogumelos escuros, tomates secos, alcaparras), compense combinando com um ingrediente suave. O objetivo aqui é equilibrar os sabores e realçar os ingredientes, não anula-los, então cuidado pra não combinar algo de sabor muito delicado com algo de sabor muito potente: o primeiro pode desaparecer diante da força do segundo.

Além do sabor, a textura também deve ser levada em consideração. Macio com crocante, ingredientes mais secos com outros suculentos… Ter texturas diferentes na mesma garfada aumenta o prazer da degustação, por isso incluo sempre um vegetal cru nas minhas saladas: além da abundância de vitaminas, ele traz aquele toque crocante que deixa qualquer receita mais interessante.

E falando em ingredientes crocantes, aqui vai a dica que me fez ter vontade de escrever esse post: acrescente sementes, muitas sementes, nas suas saladas. Também gosto de usar todos os tipos de castanhas (do Pará ou de caju, amêndoas, nozes, pistaches, avelãs), mas como minha alimentação já tem bastante (consumo queijo de castanha e leite de amêndoas todos os dias), estou começando a explorar o maravilhoso mundo das sementes. O outro motivo que fez com que eu aumentasse meu consumo de sementes e diminuísse o de castanhas foi puramente financeiro. Na Palestina castanhas eram relativamente baratas, mas aqui na Bélgica eles pesam mais no bolso. Já sementes, principalmente as de girassol, são baratinhas (enquanto um quilo de castanha do Pará -orgânica- custa 14 euros, um quilo de semente de girassol-também orgânica- custa menos de 3 euros).  E como tento dar prioridade à alimentos produzidos localmente, faz sentido comer maiss sementes (cultivadas aqui do lado, na França) e menos castanhas (que vieram de longe).

Mas apesar da minha motivação inicial ter sido o meu orçamento pequeno, hoje consumo sementes porque me apaixonei pelo sabor. Linhaça, chia e gergelim fazem parte da minha alimentação há tempos, mas agora estou consumindo sementes de girassol e de jerimum (abóbora) aos punhados! E além de serem deliciosas, sementes são um concentrado de nutrientes (gorduras boas, proteínas, fibras, vitaminas e minerais). Comecei usando sementes de maneira tímida, mas isso mudou alguns meses atrás. Trato sementes como um dos elementos que compõem a salada, não como um condimento. Ao invés de salpicar um pitadinha aqui e outra acolá, junto algumas colheradas cheias de sementes às minhas receitas. A textura fica mais interessante, o sabor mais intenso e aproveito melhor os nutrientes que elas oferecem.

Mas se você não tem intimidade nenhuma com sementes, talvez seja mais prudente começar a utiliza-las com parcimônia, pra dar uma chance às suas papilas de se adaptarem aos novos sabores. E pra que os nutrientes sejam assimilados em maiores quantidades, você deve deixa-las de molho durante 12 horas antes de consumi-las. Confesso que nunca faço isso (esquecimento), mas sempre tosto ligeiramente antes de acrescenta-las aos meus pratos. Isso libera uma quantidade maior de nutrientes (menos do que quando as deixamos de molho, infelizmente), mas pra mim é uma etapa fundamental por outro motivo: o calor deixa as sementes mais crocantes, perfumadas e melhora ainda mais o sabor.

E se a criatividade saladal ainda não chegou aí, aqui vão umas receitinhas ultra simples pra te inspirar. E um super bônus: a minha vinagrete preferida, que transforma qualquer salada boba em algo interessante e que tem um ingrediente surpresa (pulando de empolgação e me sentindo um gênio por ter pensando nisso SOZINHA!): semente de linhaça moída. Por que colocar linhaça no molho da sua salada? Eu poderia dizer ‘pra incluir mais fibras e ômega 3 da sua dieta, oras’, mas a verdade é que a quantidade utilizada aqui é pequena, logo os benefícios nutricionais também (embora seja sempre uma boa ideia acrescentar tiquinhos de linhaça aos seus pratos, pois no final do dia, juntando tudo, você terá consumido uma quantidade mais importante). Apesar dessa ideia ter partido de uma boa intenção nutricional, hoje acrescento linhaça às minhas vinagretes porque elas resolveram um pequeno problema que vagava sem solução pela minha cozinha.

Como consumo geralmente duas saladas por dia, passo bastante tempo fazendo vinagretes durante a semana. Não que seja um trabalho difícil, nem demorado, mas ao invés de preparar um porção só pra salada que eu estava prestes a consumir pensei que poderia fazer quantidades maiores, pra vários dias. Depois guardo minha vinagrete em um recipiente de vidro, bem fechado, na geladeira, e vou usando durante a semana. Só que o frio faz com que o azeite engrosse e se separe do vinagre. Nada que alguns minutos em temperatura ambiente, ou uma colher de água quente, não resolvesse. Eu disse que era um problema pequeno, micro, até. Mas depois de ter feito uma vinagrete com linhaça moída descobri o seguinte. Ela se mistura aos líquidos e cria uma emulsão perfeita, que não se separa no frio da geladeira. Micro problema resolvido e agora quando coloco a cabeça no travesseiro à noite me sinto a Einstein das panelas veganas.

Se você e todos os seus amiguinhos usam esse truque há anos, por favor não me conte. Permita que eu continue me achando sabida:)

 salada maça-aipo-girassol

Salada de maçã, aipo e semente de girassol

Eu uso cerca de 1/3x de sementes pra fazer uma salada pra dois. Se você não tem costume de consumir sementes, use uma quantidade menor. Gosto de juntar as sementes por último, pra que elas continuem crocantes.

1 maçã bem crocante, cortada em fatias finas

2 1/2 x de aipo cortado em fatias finas

1/3 x de semente de girassol descascadas (ou menos, de acordo com o seu gosto)

Metade da receita da minha vinagrete preferida (abaixo)

Misture a maçã e o aipo, regue com a vinagrete e misture bem. Despeje as sementes de girassol sobre uma frigideira (seca) e toste em fogo médio, mexendo de vez em quando, até elas começarem a ficar douradas e liberarem um aroma intenso. Polvilhe a salada com as sementes e sirva imediatamente. Rende 2 porções.

 salada beterraba-aipo-semente jerimum

Salada de beterraba cozida, aipo e semente de abóbora

Mais uma vez, adapte as quantidades de sementes de acordo com o seu gosto. E pros interessados em informações nutricionais, essa salada é uma bomba de ferro.

2 beterrabas médias cozidas, cortadas em cubinhos

2x de aipo cortado em fatias finas

1/3 x de semente de abóbora descascada (ou menos, de acordo com o seu gosto)

Metade da receita da minha vinagrete preferida (abaixo)

Misture a beterraba com o aipo, regue com a vinagrete e misture bem. Despeje as sementes de abóbora sobre uma frigideira (seca) e toste em fogo médio, mexendo de vez em quando, até elas começarem a se partir e liberarem um aroma intenso. Polvilhe a salada com as sementes e sirva imediatamente. Rende 2 porções.

 vinagrete com missô e linhaça

Minha vinagrete preferida

No mundo da gastronomia esnobe (aquele que nasceu lá na França) ‘vinagrete’ significa um molho à base de óleo (geralmente azeite) e vinagre usado em saladas. E a linguista que mora dentro de mim (ela passa a maior parte do tempo dormindo, mas de vez em quando acorda gritando), pediu pra eu dizer que ‘vinagrete’ é uma palavra feminina. A vinagrete típica francesa é feita com azeite, vinagre, mostarda de Dijon, sal e pimenta do reino. Essa foi a receita de base que inspirou a minha vinagrete preferida. Apesar da receita francesa usar mais azeite do que vinagre, eu gosto de usar quantidades iguais desses ingredientes, pois prefiro vinagretes mais leves (e mais ácidas). A receita abaixo deve servir de guia, mas sinta-se livre pra adaptar as quantidades de acordo com o seu gosto. Mas vou logo avisando que os sabores aqui são intensos. Se quiser fazer a vinagrete sem missô (por que? POR QUE??), lembre de juntar uma pitada de sal no final.

1/2 cs de missô escuro

1/2 cs de mostarda de Dijon (cremosa ou com os grãos inteiros)

4cs de vinagre balsâmico

4cs de azeite

1/2cs de linhaça moída

Uma pitada de pimenta do reino moída na hora

Misture o missô e a mostarda. Acrescente metade do vinagre e mexa bem pra dissolver tudo. Junte o resto do vinagre, o azeite e a linhaça moída e misture vigorosamente com a colher. Tempere com a pimenta do reino. Nesse ponto você deve provar a vinagrete e se quiser um sabor mais suave acrescente um pouco mais de azeite. Rende molho suficiente pra temperar uma salada grande, ou duas pequenas. Se quiser dobre a receita e guarde o resto na geladeira, em um recipiente de vidro bem fechado (se conserva uns 4 dias). A vinagrete vai engrossar um pouco (a linhaça vai continuar absorvendo líquido), mas nada que altere o sabor. Se quiser, junte 1cs de água pra que ela fique na consistência ideal.

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E enquanto escrevia esse post no meu escritório fiz uma pausa pra degustar mais uma das minhas saladas com sementes. Essa aqui tem quantidades iguais de funcho (erva doce) e maçã, mais sementes de girassol tostadas e minha vinagrete preferida.