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Vários leitores me perguntaram como passei de estudante em Paris pra voluntária em um campo de refugiados na Palestina e pediram dicas, pois também gostariam de fazer uma missão humanitária no exterior. Eu não sou uma expert no assunto, mas posso compartilhar minha história com vocês e dar algumas dicas pra quem gostaria de fazer um trabalho voluntário, no exterior ou no próprio país.

Desde que me mudei pra Palestina, cinco anos atrás, me tornei voluntária em tempo integral, mas comecei a fazer trabalhos voluntários bem antes disso. Eu saí do Brasil aos vinte anos e mentiria se dissesse que tinha alguma preocupação política/social na época. Comecei a trabalhar muito cedo e entre o trabalho e a escola, eu não tinha tempo pra mais nada. É difícil pensar nos problemas que afligem o mundo quando estamos constantemente lutando pra sobreviver. Difícil, mas não impossível. Percebo hoje que na verdade o que me faltou foi estímulo, algum exemplo (pessoa, grupo) que aguçaria o meu senso crítico e me sensibilizaria às questões sociais.

Na França minha vida não mudou tanto. Continuei estudando e trabalhando, mas pude desfrutar de um pouco mais de tempo livre e, mais importante, tive acesso a um mundo de informação (obrigada, bibliotecas públicas francesas!). Minha consciência adormecida começou a despertar. Eu lia jornais e revistas que mostravam opiniões diferentes, que chamavam minha atenção pra assuntos que eu nem imaginava existir e um certo desconforto foi se instalando em mim. Eu não sou o tipo de pessoa que aceita andar por aí com desconforto moral dentro do peito, por isso comecei a mudar várias coisas na minha vida. Foi nessa época que o longo caminho que me conduziria ao veganismo começou.

No final do meu segundo ano na França decidi mudar de universidade e fui estudar na melhor faculdade de linguística do país (muitos professores diziam que ela era a melhor da Europa inteira!). Quando vi que meu maior sonho (fazer faculdade no exterior) estava se realizando de uma maneira muito mais sensacional do que eu tinha imaginado, fiquei tão feliz que decidi fazer algo pra ajudar as pessoas daquele país que estava me tratando tão bem.

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Reconheço que eu estava na contramão: geralmente são os europeus (ocidentais, ricos) que ajudam o pessoal do terceiro mundo, não o contrário! Mas foi aí que aprendi minha primeira lição em matéria de voluntariado: tem gente precisando de ajuda em todos os lugares e não é preciso abandonar tudo e se tornar um médico sem fronteira na África pra transformar esse mundo em um lugar melhor.

Morria de pena quando via um velhinho carregando, com muita dificuldade, seu saco de compras, uma cena comum nas ruas de Paris, e sempre tive vontade de ajuda-los. Em frente à minha casa tinha uma ONG que cuidava de idosos em situações difíceis (vivendo na precariedade e/ou sozinhos) e passei por ela durante anos… até o dia em que tomei coragem de entrar. Esse foi o primeiro trabalho voluntário que fiz na vida. Todo sábado eu visitava idosos que moravam sozinhos e não tinham família, tomava chá e comia biscoitos com eles, enquanto contava e ouvia histórias. Quando eles adoeciam, eu ia visita-los no hospital.  O governo francês oferece moradia, cuidados médicos e uma ajudante pra limpar a casa deles, mas eles eram carentes de afeto e atenção. Meus “velhos amigos”, como a gente dizia na ONG, esperavam a semana inteira pela visita do sábado e guardavam sempre a melhor caixa de biscoitos pra mim. Fiz essas visitas durante quatro anos e vi muitos dos meus velhos amigos morrerem, mas me alegrava saber que eles não estavam sozinhos no final de suas vidas: eu estava ali do lado. Doar um pouco do meu tempo, atenção e carinho pra eles foi uma das melhores coisas que já fiz na vida e ainda carrego todos os meus velhinhos no coração.

Mas esse não foi o único trabalho voluntário que fiz na França. Um dia vi um cartaz na minha nova universidade que dizia “Precisamos de voluntários no Núcleo de Estudantes Deficientes”. Senti imediatamente vontade de me apresentar, mas meu dia-a-dia era tão ocupado (faculdade o dia inteiro, um trabalho fixo e inúmeros trabalhos ocasionais, as visitas aos velhinhos nos sábados…) que pensei que nunca teria tempo pra isso. Um ano depois a minha agenda continuava cheia, mas pensei: “Se eu continuar esperando ter tempo sobrando pra ajudar os outros, corro o risco de nunca ajudar ninguém.” E fui bater na porta do Núcleo de Estudantes Deficientes.

Sentei em frente a uma moça sorridente e disse: “Faz muito tempo que vocês colocaram um cartaz na entrada da universidade procurando voluntários. Provavelmente várias pessoas apareceram, mas se vocês ainda precisam de uma mãozinha, eu terei prazer em ajudar.” Qual não foi a minha surpresa quando a moça respondeu: “Até hoje você foi a primeira pessoa que se ofereceu pra ajudar.” Fiquei tão feliz por ter ignorado a minha agenda cheia e ter tido a coragem de me tornar voluntária na faculdade! Descobri que tinha um número grande de estudantes especiais que precisavam muito de ajuda e me tornei a acompanhante deles.

Eu encontrava os estudantes cegos na frente da universidade e os acompanhava às salas de aula (faculdades são emaranhados de corredores e escadas, com gente se deslocando de um lado pro outro o tempo todo, então é difícil pros estudantes cegos se orientarem nesses espaços, principalmente quando eles têm aulas em 4 salas diferente em um mesmo dia). Também acompanhava os estudantes cadeirantes que não conseguiam empurrar as próprias cadeiras de rodas (alguns tinham problemas nos braços) e isso me fez perceber o quanto os espaços públicos são mal adaptados às necessidades dessas pessoas. A minha faculdade, que tinha vários andares e quatro blocos, só tinha um elevador no bloco 4, o mais isolado de todos, então perdíamos muito tempo indo de uma sala pra outra, pois sempre precisávamos passar pelo bloco 4.

No início de cada semestre eu explicava aos meus professores que chegaria sempre alguns minutos atrasada na aula, pois tinha que acompanhar estudantes especiais às suas salas respectivas, e precisaria sempre sair mais cedo, pra ir buscar os estudantes e conduzi-los às outras salas. Passei três anos correndo nos corredores da faculdade, mas saber que eu estava sendo útil era a maior das recompensas.

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Nos últimos dois anos de faculdade me tornei a tutora de um estudante cego argelino. Ele tinha ido fazer um mestrado em Direito na França e como poucos livros são publicados em Braille, eu lia os livros pra ele e gravava os textos mais importantes (ele sempre carregava um gravador na bolsa) pra ele escutar em casa. Amar (era assim que ele se chamava) se tornou meu amigo e sempre que podia eu ia visita-lo no quartinho da residência de estudantes onde ele morava (do lado da faculdade) pra ajuda-lo a estudar pro mestrado, revisar as lições de Inglês e às vezes eu até limpava o quartinho dele, pois sozinho ele não dava conta do trabalho. Acabei até recebendo algumas lições de Braille do meu amigo (já esqueci tudo).

Essas experiências foram extremamente enriquecedoras pra mim. Estar em contato com pessoas com necessidades diferentes me abriu os olhos pra muitas coisas que antes passavam despercebidas. Sem falar que ter exemplos tão grandes de força de vontade ao meu redor ajudava a relativizar os problemas e a encarar a vida de maneira muito mais positiva. Lembro que nessa época eu sempre dizia pros amigos, caso os surpreendesse reclamando de coisas miúdas: “Sua vida é ótima, quem tem vida difícil é Amar!”

Em 2007 abandonei o mestrado em Linguística e visitei a Palestina pela primeira vez. Duas semanas foram suficientes pra me convencer que o meu lugar era aqui e no início de 2008 me mudei pra Belém e comecei a trabalhar no campo de refugiados de Aida. Já falei sobre o meu trabalho atual nesse post e nesse outro, mas fui voluntária em diversos projetos aqui na Palestina. Trabalhei com crianças (nos campos de refugiados e nas cidades), adultos e crianças especiais, mulheres refugiadas, diabéticos…

Muitas pessoas me perguntam como consegui trabalho no campo, se eu tinha contatos antes de chegar aqui etc. A verdade é que visitei uma ONG no campo durante a viagem de 2007 e quando voltei pra cá, decidida a morar uns tempos em Belém, bati na porta dessa ONG e perguntei se eles aceitavam me receber como voluntária. Simples assim. Tive sorte de ter sido aceita logo na primeira organização e pude criar o meu próprio projeto (pagando tudo do meu bolso). Hoje trabalho de maneira independente e sou mais feliz assim. ONGs podem ser extremamente burocráticas e quando se tem tanta vontade de agir, isso pode ser muito frustrante.

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O que aprendi em quase dez anos de voluntariado

Como falei no início do post, não sou uma expert no assunto e não posso oferecer um passo-a-passo, com dicas práticas e organizações a serem contactadas, pra quem quiser se lançar nessa aventura. Mas gostaria de dividir com vocês umas coisinhas que aprendi durante esses anos de trabalho e que podem ser úteis pra quem estiver pensando em seguir o mesmo caminho.

-Antes de qualquer coisa: não tenha uma atitude paternalista. Vi tantas vezes voluntários tratando as pessoas que eles estavam ajudando como se fossem seres incapazes de cuidar de si mesmos ou de saber o que é melhor pra eles… Pelas caridades, não tenha uma atitude do tipo “coitadinhos dos refugiados/velhinhos/deficientes etc.”! Trate as pessoas com o respeito que elas merecem e deixe a piedade em casa, pois ninguém gosta de ser tratado como um coitadinho.

-Outra atitude a ser evitada: idealizar o grupo de pessoas que você está ajudando só porque elas são vítimas (de preconceito, discriminação, injustiça). É uma espécie de discriminação ao avesso. Pra dar um exemplo concreto, vou falar de algo que conheço bem. Tem voluntários tão tocados pela situação na Palestina e tão revoltados com os crimes cometidos contra esse povo que eles chegam aqui cobrindo os palestinos de elogios, dizendo que são as pessoas mais corajosas, dignas, fantásticas (…) do mundo e os tratam como se fossem todos santos. Tem palestino honesto e desonesto, bom e ruim, exatamente como em todos os lugares do mundo. Se eu luto pela causa palestina é porque eles são seres humanos e merecem ter os seus direitos respeitados, exatamente como qualquer outro ser humano, não porque eles são as pessoas mais maravilhosas do planeta. Eu já senti na pele esse tipo de ‘descriminação ao avesso’. Algumas pessoas, ao descobrirem que sou lésbica, me falam em um tom emocionado (geralmente segurando o meu braço): “Sabe, eu tenho um amigo gay e ele é uma das pessoas mais maravilhosas que conheço!” Eu tenho vontade de responder: “Sabe, eu também preciso confessar uma coisa: meus três irmãos são héteros e eles são pessoas incríveis!” Minha impressão é que algumas pessoas, porque sabem que sofremos muita discriminação, acabam caindo no extremo oposto e se sentem obrigadas a dizer que AMAM os gays e os acham pessoas MARAVILHOSAS. Porém, vou repetir, nós merecemos ter os nossos direitos respeitados porque somos seres humanos e não porque supostamente somos pessoas maravilhosas. E isso é válido pra todos.

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-Antes de sair de casa pra salvar o mundo, pense se você está dando o melhor de si pras pessoas ao seu redor. Isso foi outra coisa que percebi depois que passei a viver entre voluntários. Tem gente que é capaz de dedicar a vida pra salvar as crianças africanas da pobreza (ou outro clichê do tipo), mas quando volta pra casa é incapaz de ajudar o vizinho a carregar um pacote pesado. Vi pessoas por aqui que se doam 100% pra causa palestina, mas tratam mal os pais. Ser um bom vizinho, um bom irmão, um bom filho, um bom amigo é tão nobre (e necessário) quanto abraçar uma causa e trabalhar como voluntário.

-Não é preciso abandonar tudo e cruzar continentes pra ajudar o próximo. Seu tempo, disposição, entusiasmo e atenção são tesouros pra muita gente que está bem perto de você. É só abrir os olhos e o coração e você enxergará mil maneiras de ser útil sem sair da sua cidade (talvez sem sair do seu bairro!).

-Existem muitas causas a serem defendidas e muitas batalhas que precisam de guerreiros, então escolha a que estiver mais próxima do seu coração. Todas as causas (justas) são importantes, mas você será mais eficaz se escolher algo que te toque profundamente.

-Independente da sua idade, do seu estilo de vida e do lugar onde você mora, sempre é possível ser útil. Você só precisa de uma coisa: motivação.

-Na hora de escolher um projeto, use seus talentos como guia. Se você gosta de estudar e tem boas notas, se ofereça pra ajudar os colegas que têm dificuldades na escola. Se você é paciente e sabe escutar, vá visitar idosos em abrigos. Se você é criativo e cheio de energia, trabalhar com crianças é uma boa opção. Se você é professor de algum esporte ou arte marcial, organize aulas gratuitas em lugares onde as pessoas não podem pagar por esses serviços. Se você é um gênio da informática, se ofereça pra ajudar pessoas que não sabem utilizar um computador. Você é fotógrafo? Pode organizar oficinas de fotografias pra oferecer um canal de expressão a grupos que não têm muitas oportunidades de se expressar. Você é médico? Ofereça algumas consultas gratuitas (pra quem realmente precisa e não pode pagar) por semana. Sua profissão e o seu talento podem beneficiar muitas pessoas.

-Participar de um projeto que já está estabelecido é mais fácil, mas se você não encontrar o que estiver procurando, crie você mesmo o seu projeto. Não precisa de um monte de dinheiro pra que isso aconteça. Comece com algo bem pequeno e sua força de vontade será suficiente. Você é gay e está cansado de sofrer bullying (ou ver os amigos gays sofrerem bullying) nos intervalos das aulas sem que ninguém te defenda? Crie um grupo de defesa dos direitos dos homossexuais na sua escola/universidade. Você é vegano pelos animais e gostaria que mais pessoas se alimentassem com compaixão, mas não tem nenhum grupo de direitos animais na sua cidade? Organize uma mostra de filmes-documentários sobre o assunto e se disponha a responder as perguntas dos participantes.

-Mesmo se o seu sonho é fazer um trabalho humanitário no exterior, comece sendo voluntário na sua própria cidade. Assim você adquire experiência e vai ser mais fácil escolher um projeto mais tarde.

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grupo de mulheres

-Pros que estão planejando ser voluntários no exterior: não espere que as ONGs paguem seu transporte/hospedagem/alimentação. A maioria das pessoas acha que se você está disposto a doar seu tempo pra uma causa, é normal que a organização pague suas despesas. Mas a realidade é bem diferente. Geralmente ONGs funcionam com pouco dinheiro e as doações que elas recebem são usadas pra criar projetos pra população local. Durante os anos que trabalhei na ONG palestina do campo de Aida recebemos dezenas de voluntários estrangeiros. Se o pessoal da ONG tivesse pagado pelo transporte e outras despesas de cada um deles, todas as doações que eles recebiam teriam sido usadas pra sustentar os voluntários estrangeiros e nada do que eles criaram nesse período (grupo de ginástica pras mulheres, sala de informática pras crianças, biblioteca e sala de jogos) teria se realizado. Tirando raras exceções, se prepare pra pagar tudo do próprio bolso. Pagar pra ser voluntário pode parecer absurdo, mas na verdade seria injusto usar o dinheiro doado pra ajudar a melhorar a situação dos palestinos refugiados (por exemplo) pra realizar o SEU sonho de viajar e ser voluntário no exterior.

Com o tempo eu percebi que ser voluntário não significa doar (tempo/dinheiro/atenção) e sim fazer uma troca. Quem decide seguir esse caminho com um coração aberto, sem discriminação (ao avesso ou não), sem paternalismo e sem idealizar as pessoas acaba percebendo que nesse processo recebemos muito mais do que doamos.

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*As fotos que ilustram esse post mostram alguns dos projetos dos quais participei aqui na Palestina. Fotos 1, 2, 3, 4 e 5: oficinas de arte e brinquedos e aulas de ecologia pras crianças do campo de Aida. Foto 6: projeto sorriso, onde levei um grupo de vinte crianças (do campo) ao dentista e, com ajuda dos amigos, pude oferecer o tratamento que elas precisavam. Passei tanto tempo nesse consultório que o dentista se tornou o meu melhor amigo palestino. Fotos 7 e 8: na associação Ayat, que cuida de crianças e adultos especiais no Monte das Oliveiras, em Jerusalém. Uma vez por semana eu passava a noite na associação pra cuidar das crianças que dormiam lá. Fotos 9 e 10: com o grupo de mulheres (refugiadas, mães de crianças especiais) do meu projeto atual. Foto 11: festival de cinema pras crianças do campo de Aida. Nesse dia a gente viu “Tempos modernos”.