A polenta e os gatos

Polenta cremosa com feijão e tomate

Quando eu era criança Lila, minha irmã mais velha, gostava de fazer quarenta pra gente jantar. Quarenta é um prato à base de fubá, mas diferente do cuscuz que costumamos comer no Nordeste. O cuscuz é cozinhado no vapor, enquanto que quarenta é feito misturando o fubá com água e cozinhando em uma panela, mexendo sempre. Depois de cozido, Lila despejava a mistura em uma forma de bolo, daquelas com um furo no meio, e deixava amornar. Então era só desenformar e degustar fatias grossas do quarenta. Nunca vi ninguém preparar esse prato fora da minha família e depois que minha irmã saiu de casa* nunca mais comi quarenta. Ele virou uma memória empoeirada na gaveta dos sabores que fizeram parte minha infância (junto com, entre outros, uma fruta do sertão chamada “pêlo” que só comi uma vez quando tinha uns oito anos e desde então nunca mais vi). Até o dia que descobri polenta.

Pois não é que quarenta é o equivalente nordestino desse prato italiano! Polenta durinha, que é cortada em fatias e assada ou frita depois de cozinhada como o quarenta, é muito bom, mas acho polenta cremosa melhor ainda, pois é mais fácil e rápida de preparar. Quando uma certa amiga chegou aqui em casa com um carregamento de fubá do tipo “flocão”, um pedido dessa nordestina que estava sentindo falta de cuscuz (mas que não tem cuscuzeira), decidi fazer um cruzamento entre as duas receitas e preparar polenta cremosa com fubá. A farinha de milho usada pra fazer polenta é mais granulada do que o nosso fubá, mas descobri que usando flocão (que é o fubá em flocos) a polenta fica uma delícia e ainda tem a vantagem de cozinhar mais rápido.

Gosto de comer polenta com feijão branco cozinhado com tomate, mas com legumes refogados também fica ótimo. É um prato extremamente humilde, barato, simples de preparar e que alimenta por horas. O meu tipo de prato preferido.

*Depois de se separar, Lila voltou pra casa (o quartel general da família), mas por alguma razão misteriosa nunca mais preparou quarenta.

 

Polenta cremosa com feijão branco e tomate

É essencial usar fubá do tipo “flocão” (tem escrito na embalagem), pois ele cozinha mais rápido e rende uma polenta mais cremosa. Meu método pra fazer polenta é diferente, pois misturo a farinha de milho com a água fria, mesmo. Assim não tem perigo de emboloar. Quando fria, a polenta endurece, mas ela pode ficar cremosa novamente: junte mais um tiquinho de água e esquente no fogo baixo mexendo sempre. Sálvia é uma delícia com feijão branco, mas se não gostar dessa erva substitua por um punhado de salsinha ou manjericão fresco. Nesse caso polvilhe a erva picada sobre o prato pronto.

Polenta

1x de fubá em flocos (flocão)

3x de água

2cs de azeite

½ cubo de caldo de legumes

Pimenta do reino

Feijão

1 cebola, picadinha

2-4 dentes de alho, ralados/amassados

1 cenoura, em cubinhos

4 tomates bem maduros, picados

2x de feijão branco cozido

4 folhas de sálvia fresca (ou uma pitada de sálvia desidratada)

Sal com ervas (como esse), ou sal comum, pimenta do reino e azeite

Comece preparando o feijão. Refogue a cebola em 1cs de azeite até ficar dourada. Junte o alho e a cenoura e refogue mais dois minutos. Junte os tomates e deixe cozinhar coberto, em fogo baixo, até eles começarem a se desintegrar e a cenoura ficar macia. Acrescente o feijão, a sálvia, sal com ervas e pimenta do reino a gosto e deixe cozinhar mais alguns minutos, até a mistura ficar espessa. Prove, corrija o tempero e reserve.

Em uma panela média, misture o flocão com a água, junte o caldo de legumes e leve ao fogo alto. Quando ferver baixe o fogo e deixe cozinhar, mexendo frequentemente com uma colher de pau, até o fubá ficar bem macio e cremoso. Esfregue um pouco da mistura entre os dedos: o fubá está cozido quando não der pra sentir nenhum grãozinho inteiro (o meu levou 10 minutos, ao todo, pra ficar pronto). Se todo o líquido secar antes do fubá cozinhar, junte um pouco mais de água. A polenta deve fica espessa e bem cremosa. Corrija o sal (dependendo do caldo de legumes utilizado, você pode precisar de mais um pouco), tempere com pimenta do reino, regue com 2cs de azeite e misture bem.

Sirva uma porções de polenta cobertas com o feijão com tomate (se o feijão tiver esfriado, aqueça novamente antes de servir). Regue com um pouco de azeite e polvilhe com mais pimenta do reino (de preferência moída na hora). Rende 4 porções.

Como estou atualmente sozinha (Anne está viajando a trabalho), sobrou polenta e acabei servindo um pouco pros gatos da vizinha. E não é que eles gostaram? Falando nos gatos, que são da vizinha, mas que vivem aqui em casa, não pude resistir à vontade de mostrar essas fotos.

E ainda falando em gatos, há dias que não consigo parar de cantar “nós gatos já nascemos pobres, porém já nascemos livres…” O engraçado é que na mesma época que Lila preparava quarenta pra gente, ela costumava nos levar ao cinema pra ver filmes dos Trapalhões e foi em um deles que escutei essa musiquinha pela primeira vez. Uma memória deve ter puxado a outra…

35 comentários em “A polenta e os gatos

  1. Pois eu na minha infância sempre comi polenta!!! Minha mãe veio de familia italiana e esse era um prato tipico la de casa….rs….polenta normal, frita, assada, mole, dura…..de qualquer jeito ela é muito boa!

    Que lindo o gatinho! Amo os felinos (alias amo todos os animais). Temos um aqui em casa que se chama Ozzy!

    Beijos e como sempre o blog está muito interessante.

  2. Nossa, que delícia! Atiçaste minha gula! Farei hoje mesmo (polenta com molho de tomate). Família de origem italiana…é uma constante. Depois de grande descobri que algumas pessoas consideram comida de “pobre” (e daí!) ou até mesmo comida de cachorro. Pra mim é comida deliciosa e humanos, cães e, no caso, gatos, todos têm direito de saboreá-la!

    Bjs

    Julio

      1. oi sandra, menina fiz a polenta, que delícia, nunca tinha comido polenta feita com flocão, só com fubá de milho(aquele bem fininho), achei um espetáculo, muito saboroso mesmo, pena eu não tinha feijão branco no momento, então fiz um refogado com tomate, cenoura e abobrinha e coloquei por cima e reguei com azeite, menina, QUE DELÍCIA!!! almocei como uma rainha!
        tirei uma foto pra vc ver, vou colocar lá no facebook na pagina do papacapim. bjs

  3. minha mãe faz pra mim fubá com couve rasgada, acho que é preparado quase da mesma forma, mas ele vira uma sopinha, sabe aquela coisa com gosto de mãe ? então é o fubá *-* adoro polenta de todas as formas !!

  4. Ai, Sandra, só de olhar para este prato de polenta já me senti super feliz! Adoro esta comida com cara de mãe(ou mana grande), conforta o estomago e a alma! Já fiz polenta aqui em Portugal, mas usei farinha de milho amarelo normal, esse fubá em flocos nunca vi por aqui…vou procurar melhor! Este prato também vou ter de fazer! Aqui em casa está a ser Papacapim quase todos os dias: ontem salada de feijão preto e manga, hoje fiz puré de feijão, com feijão de soja e couve flor, ficou uma delícia também, mas não melhor que o de feijão branco e brocólis! Viva o feijão!
    Ah! E o gatinho, que fofo! A última foto está linda, parece que vocês estão a hipnotizar-se um ao outro! Tenho uma gata preta, a Duquesa, que está na casa de minha mãe, onde tem campos para poder estar livre. Já tem 11 anos e está linda! Um dia destes vou publicar uma foto dela.

    1. Se você não encontrar flocão (não sei se é vendido em Portugal), pode usar a farinha de milho tradicional pra polenta. Nesse caso só vai precisar usar mais água e cozinhar mais tempo.

  5. Olá Sandra!
    Que bom, polenta”facinha”, e eu aqui quebrando a cabeça procurando alguma ideia gastronômica para variar o cardápio e nem lembrando desse prato delicioso e tão democraticamente baratinho! Obrigada por lembrar-me dele e inovar..polenta com feijão… opa! Nutricionalmente correto, eba!
    Na verdade acabei de ler todos os seus posts, li de trás para frente (parti do mais atual até o mais antigo), levou um tempinho considerável, mas, seilá, estou me sentindo tão mais bem informada! E com uma nova mania, a da refeição equilibrada em seus nutrientes. Do jeito como você ensina é tão mais fácil colocar em prática, não é dispendioso e estou adorando pensar na comida em termos de alimentação mesmo, e não só como distração. Se você visse a quantidade de “bobagens” que a gente comia antes de se tornar vegetariano! Hoje mesmo meu marido, Geovane, lembrou como perdíamos saúde não refletindo sobre o que ingeríamos…
    Obrigada, Papacapim!

    1. Jura que você leu todos os posts? Estou impressionadíssima (são quase 200!)! Fico tão feliz em saber que a leitura valeu a pena e que a alimentação de vocês está mais equilibrada hoje. Com certeza muita gente perde saúde porque come sem pensar no que está comendo, por isso acho que nutrição deveria ser ensinada nas escolas.

  6. Sandra, amo polenta de qualquer jeito, então já amei a receita, hehe 😛
    Mas tem um problema, sálvia é difícil de achar onde eu moro… será que não tem nenhum substituto? Abraço!

  7. Sobre frutas do sertão que a gente só come uma vez na vida… Até hoje lembro de uma frutinha menor que um limão pequeno, parecendo uma goiaba mas meio azedinha, com uma casca fininha, deliciosa, que comi quando era criança em Reduto/RN (ao lado de São Miguel do Gostoso). Lembro perfeitamente dela ser tirada do pé do terreno do meu tio-avô, mas quando pergunto ninguém sabe do que estou falando. Gostaria tanto de lembrar o nome dela e de prová-la de novo… 🙁

    E sobre a polenta: essa sua polenta deve ficar gostosa. Mas a polenta tradicional mesmo eu detesto. De todas as 2 ou 3 vezes que eu provei (em restaurantes self-service) sempre me arrependi.

    E eu sou fãaaaaaa de cuscuz de flocão embebido com leite de côco. Afffff, dá água na boca só de lembrar kkkkkkk.

      1. parecida com goiaba, menor, mais azedinha, nativa do nordeste e deliciosa – vc deve estar falando do araçá, cilene. dê uma googleada nesse nome pra ver se as fotos não batem com suas memórias.

  8. tava esperando encontrar um comentário do marido reclamando que ama polenta e a mulher odeia mimimi rsrs… está com serviço até a tampa mesmo!
    bom, eu confesso, achei linda, com cara de apetitosa, mas não sei que eu tenho, não gosto de polenta, deve ser um desvio de personalidade…
    vou experimentar do jeito que vc fez (feijão branco, tomate….) quem sabe né? eu ando tão aberta a novos sabores..
    amei suas memórias de infância! como marcam a gente por mais simples que sejam! eu aaaaaaaaaaaaaaamava esse filme “nós gatos já nascemos pobres…” lembro de ter ido com a família toda ver… sempre canto pras minhas gatas essa música rsrs beijinhus

  9. Olá Sandra, descobri seu blog a poucos dias e estou encantada… Tenho lido um pouquinho a cada dia!

    Gostaria de fazer uma pergunta não relacionada a este post, pode?!

    Queria saber se você já fez outros leites vegetais, semelhante ao de amêndoas… Aqui no Brasil amêndoas é meio caro e gostaria de saber se você indica alguma outra oleaginosa ou cereal para fazer leite… E o que que você acha do leite de arroz? Tem alguma receitinha especial?

    Muito obrigada, Cacau =)

    1. Eu sei que amêndoas custam caro aí no Brasil e faz tempo que gostaria de propor uma alternativa pro meu leite de amêndoas, mas confesso que ainda não tive sucesso com outras receitas. Uma vez usei castanha de caju e aveia e ficou bom (mas não delicioso), mas não anotei as medidas e acabei deixando pra lá. Mas esse é um dos meus projetos pro futuro: criar uma receita de leite vegetal que seja tão gostoso quando o de amêndoas. Só provei leite de arroz (de caixinha) uma vez e não gostei nem um pouco, achei muito aguado. Mas nunca testei uma receita caseira…

  10. amiga, esse prato é muito famoso aqui onde vivo, mas chamamos de polentina, hahaha. O que me chamou muito a atenção foi esse molho diferente, deu agua na boca, até parece que eu nasci pra ser vegetariana porque eu não trocaria um feijãosinho gostoso por carne,nem nos meus tempos de ‘onivora’. O que não consigo deixar ainda é o leite e os ovos pois tenho medo de ficar doente.
    Abraços 🙂

  11. Para mim polenta tem cheiro de infância, como diz vc, lembro da minha mãe fazendo – que graças a DEUS ainda está conosco. Agora quem curte muito a tal polenta é a minha caçula Maria Fernanda. Aqui comemos com molho de tomates – caseiro – e couve refogada. Bjs e obrigada por atiçar nossas lembraças.

  12. Nossa ameiii… meus pais são da Paraiba e lá na família do meu pai é lei comer quarenta. Pesquisei ve só seu blog fala do assunto.
    Quarenta é um dos melhores pratos… típico da Paraiba.

  13. Sou de Natal no Rio Grande do Norte e fui criada por minha irmã mais velha (sou a caçula) e meus irmãos todos são cearenses. Minha irmã fazia polenta pra gente (eu, ela e meu sobrinho) quando éramos mais novos. É um prato que sacia a fome mesmo. Foi o prato que 1º aprendi a fazer, na versão da minha irmã ela servia com carne no molho ao longo do tempo eu fui acrescentando uma pimentinha,rsrsrs, coisas do Nordeste. Meu marido…….peguei pelo estômago e foi a polenta (mesmo ele ñ gostando muito de comidas de milho) a grande vilã…..kkkkk. Se arrependimento matasse ele nunca teria provado da minha polenta. Adorei seu modo de fazê-la, pois é igualzinho ao meu, rsrsrs. Amo comê-la com feijão branco ou jalo ao molho de tomates, sempre acompanhada com uma boa pimenta. Aqui em Natal a Polenta é parente do Angu!

    http://metropole.rac.com.br/_conteudo/2013/07/capa/leia_mais/84658-nao-confunda-polenta-com-angu.html

  14. Cilene, boa tarde. SE POR ACASO,VOCÊ LER ESTE RECADO , o nome da fruta que vc comeu quando fcriança em guajerú RN, é bem provável ser ARAÇÁ…. muito parecida com Goiiaba pois exiiste aqui em nossa cidade João Câmara RN, CIDADE DOS TERREMOTOS, infelismente como ficou conhecida. UM abraço.

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