Depois de Londres, fui pra França. Sempre sinto uma alegria especial quando coloco os pés nesse país. Sou extremamente grata à essa terra que me fez descobrir tantas coisas, abriu as portas de um mundo novo pra mim, me deu um diploma de linguista e, o mais importante, o amor da minha vida. A neve quase estraga a viagem novamente (durante alguns dias praticamente todos os trens pra França foram cancelados) mas cheguei inteira, ainda sem a mala mas com uma bolsa emprestada cheia de roupas de segunda mão compradas nas lojas de caridade de Londres. A viagem foi longa e o caminho estava totalmente branco.

Essa foto foi tirada de dentro do trem. A família de Anne mora no centro da França, em uma cidadezinha de menos de 2 mil habitantes. Meu sogro tem uma casa deliciosa, com um jardim enorme e lindo. Claro que no inverno não dá pra aproveitar do jardim, muito menos da piscina, mas a sala aconchegante e a lareira compensam.

Cada irmão de Anne mora em um país diferente então o pai dela esperou todos chegarem pra decorar a árvore. Tenho a impressão que cada ano ele compra um pinheiro maior. Na minha família não temos o costume de comemorar natal. Nada de árvore, nada de ceia, nada de presentes e isso me convém perfeitamente. Mas achei um barato participar de um natal tradicional francês, mesmo preferindo um final de ano um pouco mais discreto.

Decoramos não só o pinheiro, mas a casa inteira. Essa é minha concunhada com o filho, ao lado da nossa obra prima do kitsch natalino. Alguém ainda usa o termo “concunhada”?

Começou a nevar na noite da minha chegada e no dia seguinte, véspera de natal, o jardim estava manchado de branco. Passamos o natal ao lado da lareira, vendo a neve cair lá fora. Nevou o dia inteiro e na manhã do dia 25 o jardim estava coberto com um espesso manto de gelo. A pobre oliveira (no meio) estava tão triste…

Esse ano todo mundo estava gripado demais pra brincar na neve, mas dois anos atrás brincamos de ski-bunda. O princípio é muito simples: escolha um saco de lixo grande, daqueles pretos e bem resistentes (lembre-se de usar um saco limpo), suba em uma pequena colina coberta de neve, sente no saco e peça pra uma alma caridosa (ou não) te dar um empurrão. O que acontece depois é imprevisível, mas as chances de acabar a descida na posição contrária da partida são fortes.

A maior cidade perto do vilarejo de Anne se chama Clermont Ferrand. Uma cidade medieval cheia de charme, como muitas do interior da França. Quando a gente se cansa de tomar chá ao lado da lareira, damos uma escapulida pra Clermont pra ir ao cinema, comprar alguma coisa na super loja de produtos orgânicos do centro e passear pela praça principal, que em dezembro fica toda iluminada.

Como não podia deixar de ser, passei muitas, muitas horas na cozinha preparando pratos veganos pra minha família francesa. Lembram quando Roberto se gabava de ter um carro vermelho? Pois bem, o teto da cozinha do meu sogro é vermelho e isso sim é invocado!

Eu falei que eles são ultra carnívoros? Que na ceia de natal eles comeram salmão, ostras, vierias (coquilles saint-jacques, em francês), camarões, escargots e um pato assado? Felizmente eles não somente aceitam sem nenhum problema nosso regime vegano como adoram meus pratos e sempre pedem pra eu preparar algo pra eles. Embora nossa ceia tenha sido diferente, preparei uma sobremesa vegana pra todos. No almoço do dia 25 eu fiz o prato principal (risoto de cogumelo selvagem) e todos comemos juntos. Ok, a entrada foi foie gras, mas eles fazem o que podem. No ano novo de dois anos atrás preparei um jantar vegano pra família inteira: do aperitivo à sobremesa. Esse ano a festa foi na casa de uma das tias de Anne e minha contribuição foi uma entrada e uma sobremesa. Cozinhei bastante mas não tirei foto de nenhum prato, com excessão do bolo de chocolate do ano novo. Eu não sou muito fã de bolo de chocolate, mas esse foi o melhor bolo que já comi na vida! Imaginem uma massa leve, super úmida graças à calda de café e whisky, com uma generosa ganache de chocolate meio amargo. No paraíso só devem servir bolos de chocolate como esse.

Férias de fim de ano são sempre corridas. Foram tantos jantares, almoços, convidados, taças de champagne que faltou tempo pra visitar algumas pessoas queridas. Só conseguimos passar, correndo, pela casa da madrinha de Anne que é um amor de pessoa e mora em uma fazenda linda, linda. A próxima foto é a vista da sala dela. Eles têm até um lago na propriedade, um sonho… Ela sabe o quanto gosto de sorvete (mais precisamente, de gelato) e me deu um super presente de natal: uma máquina de fazer sorvete. Ainda não inaugurei o presente, mas assim que esquentar um pouco por aqui pretendo tentar reproduzir os maravilhosos gelati que provei na Itália.

Voltei pra casa com a mala cheia de comida, como sempre. Gosto de fazer o prazer (gastronômico) da viagem durar o máximo possível.

E enquanto me obrigo a voltar ao ritmo normal de trabalho, fico lembrando dos dias deliciosos passados com essa adorável família francesa da qual faço parte agora e sonhando com as paisagens dignas do mundo de Nárnia (no primeiro filme) que deixei pra trás.