Inventário

Faz algumas semanas que Gloria Steinem nos deixou. No início desse ano, prestes a completar 92 anos, ela deu essa entrevista e uma das frases que ela disse não me sai da cabeça: “Eu amo estar nesse mundo e quero ficar aqui o máximo que for possível.”

Admiro muito Gloria Steinem e depois de ver essa grande militante feminista, que lutou por mais de seis décadas pelos direitos das mulheres, dizer que segue amando estar no mundo, apesar do momento de violência e regressões que o país dela atravessa com Trump, me emocionou. 

Dentro de mim existe um equilíbrio delicado de sentimentos, que alguns dias vira uma queda de braço. De um lado, o sentimento de não querer estar aqui pra ver a grande merda que vai acontecer (fascismo no poder – aqui e mundo afora, colapso climático, Amazônia virar savana, Sertão virar deserto, a impossibilidade de uma vida boa na maior parte da Terra…). Do outro lado, o maravilhamento de existir num mundo repleto de encantos, dos mais espetaculares aos mais microscópicos. E é esse encantamento que anula o sentimento anterior: esse mundo, incluindo as diferentes formas de vida que ele abriga, precisa ser protegido e quero estar aqui pra cuidar do que e de quem eu puder. 

Tem uma prática que me acompanha já faz uns anos e sempre funciona como um antídoto nos momentos em que penso em desistir (de acreditar, de fazer o meu melhor): anoto num caderninho as pequenas alegrias do dia. Talvez pareça uma prática alienante, individualista demais e que pede pra gente se contentar com pouco. Longe disso!  Reparar que o que é bom e bonito nesse mundo ainda existe, mesmo em pequenas doses, nos relembra por que compramos a briga por uma vida boa e por um planeta habitável. A única condição é parar e prestar atenção. E isso significa desgrudar do celular e baixar no plano material. 

Há exatos três anos transcrevi algumas passagens desse meu caderno de alegrias e enviei como newsletter pras apoiadoras do blog. Eu estava morando na França, era final de verão e depois de ter plantando loucamente por meses, eu estava colhendo os últimos legumes e frutas da estação (na minha horta de quintal e na horta comunitária nos Jardins Operários, onde o coletivo do qual faço parte ainda cuida de um lote). Segue o texto – e uma galeria de pequenas alegrias daquela época.

Inventário

O segundo girassol da horta. As pétalas em degradê: vermelho no centro, laranja no meio, até chegar nas pontas, amarelas.

A luz do crepúsculo refletida no céu enquanto eu aguava a horta.

Satan ronronando no meu colo enquanto eu trabalhava no computador.

Um tomate muito gostoso, do lote.

Observar como cada variedade de tomate tem sementes diferentes. Secar sementes dos nossos tomates pra plantar no ano que vem e me sentir uma guardiã das sementes.

Dois mirtilos perfeitos, achados no lixo da loja de orgânicos. Delícia!

As pimentas biquinho colhidas no lote. Cheirar as pimentas cortadas e ser transportada pra casa. 

Sentar na varanda limpa e organizada, logo depois da faxina. 

Cheirar a cabeça de Pascu enquanto ele dorme na almofada e escutar seu ron-ron de felicidade.

O viço da minha samambaia. Tirar uma foto da samambaia e enviar pra Lu.

Escutar o som dos bichinhos se ativando dentro da composteira.

Intestino que funciona lindamente, logo de manhã cedo.

O vento geladinho no meu rosto enquanto pedalo pra academia. 

Duas meninas pequenas caminhando pra escola abraçadas. 

Um punhadinho de jasmim do Sri Lanka, oferecido pelo meu vizinho, que trouxe uma muda de lá e plantou no quintal.

Falar com Lu no telefone.

Duas borboletas jogando capoeira no ar.

O vento balançando os pés de tomate e os girassóis, visto da janela do banheiro.

O cacho de uva que a vizinha me deu, da horta dela, por cima da cerca.

Pão com pasta de amendoim e cacau, feita por mim, e geleia de amora, feita por uma amiga, que também colheu as frutas, junto com o pai.

As folhas da árvore do jardim dançando com o vento do outono.

O primeiro capítulo da nova temporada de Sex Education, com Anne.

Voltar a fazer kefir. Tomar o meu kefir.

Avistar a lua no quintal.

Um figo obscenamente lindo e delicioso, oferecido por um amigo novo.

A volta da academia, cheia de endorfinas, em cima da bicicleta.

Vérène remendando uma blusa minha, que ela pediu pra costurar.

Ler sobre um ritual antigo no Reino Unido pra garantir que a colheita de maçã seja abundante: cantar e beber sidra embaixo das macieiras no meio do inverno. Descobrir que tem gente que ainda faz isso todos os anos. 

Me maravilhar estudando as incríveis relações entre os viventes que compõem o ecossistema do solo.

A lua nascendo nas hortas operárias, por trás dos pés de milho de Slavi. 

A rosa oferecida por Mohamad, nosso vizinho de lote, colhida na horta dele. 

O figo que colhi no escuro e comi embaixo da figueira.

Roubar maçãs da macieira de um outro vizinho.

Encontrar Pascu dormindo dentro do cesto de roupa suja. 

O email de agradecimento de Vérène, depois de ter almoçado aqui em casa. 

Ler dentro da rede, no jardim. Satan pular pra dentro da rede e tirar um cochilo deitado na minha barriga enquanto leio. 

Cortar tomates da horta pro almoço e provar um pedacinho de cada antes de servir. 

Um tomate-tâmara absurdamente delicioso. O tomate mais gostoso que já comi. 

Deitar pra cochilar à tarde com Anne, mesmo se não consigo dormir.

Parar a bicicleta pra deixar um senhor idoso atravessar a rua fora da faixa e ser agradecida com um sorriso luminoso. 

Escutar música sentada na sala, olhando o dia ir embora pela janela. Não levantar pra acender a luz e continuar escutando música na penumbra, depois no escuro. 

Uma joaninha do quintal que parece estar vestida com uma estampa dos anos 70: marrom com bolinhas amarelas de tamanhos variados. 

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