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Depois dessa escapada pela minha vida pessoal (casamento é importante demais pra não ser mencionado aqui), vamos voltar ao assunto principal desse blog : comida. Durante minha lua de mel na Irlanda eu fiz bem mais do que observar ovelhas e vacas. Uma parte importante da minha vida é dedicada ao prazer de comer e quando viajo essa atividade ocupa um lugar ainda maior. Adoro descobrir novos sabores, provar pratos típicos e me deixar inspirar pela culinária local. Embora a Irlanda esteja longe de ser um paraíso vegetariano (vegano, então!), tive várias surpresas agradáveis durante a viagem.

Essa é a feira orgânica de Galway, a terceira maior cidade da Irlanda. Esse senhor vendia produtos orgânicos cultivados em sua fazendinha. Lá comprei as cenouras e beterrabas da primeira foto.

Já comeu folhas de beterraba? A parte verde lembra couve e a vermelha tem gosto de… beterraba. Além de lindas e deliciosas, são carregadas de nutrientes (proteína, cálcio, fibras, beta caroteno, vitaminas A e C e algumas vitaminas do complexo B) e ainda têm um benefício suplementar: purificam o fígado e o sangue. Uma pena a grande maioria das beterrabas serem vendidas sem as folhas, que acabam no lixo. Estou pensando seriamente em protestar contra esse absurdo.

Um tipo de rabanete e nabo (eu acho, não sou muito íntima das raízes tuberosas). O primeiro se come cru em saladas, o segundo, cozido na sopa. Reparou que na feira orgânica os legumes são vendidos com suas folhinhas? É mais econômico, já que os dois são comestíveis, e você ganha uma dose extra de nutrientes.

É um pássaro? É um avião? Não, é um aipo-rábano! Um parente do aipo que, depois de descascado, pode ser comido cru ou cozido. Embora eu adore descobrir legumes/frutas diferentes, esse bichinho era tão feio que não tive vontade de prová-lo. Depois me arrependi. Jurei pra mim mesma que da próxima vez que um aipo-rábano cruzar meu caminho serei menos preconceituosa.

Vou confessar algo que talvez surpreenda alguns: foi a primeira vez que comi vegetais orgânicos. Se eu pudesse só me alimentaria com produtos orgânicos mas onde moro é praticamente impossível. Já tinha ouvido falar que, além de ter mais vitaminas que vegetais “não-orgânicos” e nenhum resíduo de produtos químicos, vegetais orgânicos têm um gosto muito superior quando comparado aos outros. Pude confirmar essa afirmação com os produtos que comprei na feira de Galway. As maçãs eram tão perfumadas que perto delas as maçãs que costumo  comer pareceriam de plástico, as pêras tinham um incrível aroma de rosas e um sabor único, os tomates eram tão suculentos e saborosos que poderiam ser comidos como sobremesa. Depois de ter provado essas delícias ficou mais difícil voltar pros legumes de antes.

Aquele senhor de algumas fotos atrás também fazia pão orgânico, integral e cheio de sementes: meu tipo de pão preferido!

Meus dois lugares preferidos pra comprar comida são feiras e lojas de produtos naturais. Eu em loja de produtos naturais me emociono mais do que criança na Disney! Ainda em Galway visitamos duas lojas maravilhosas. Entre os inúmeros tesouros (destaque pros queijos veganos – sem leite de origem animal – salsichas e hamburguers vegetais, algas marinhas, grãos e iogurtes de soja), achamos esse substituto de café com cereais e guaraná. Comecei a tomar substitutos de café (bebidas solúveis que lembram um pouco café mas são feitas à base de cereais tostados) há dois anos e virei fã. Ainda aprecio (e muito) café de verdade, mas gosto de tomar meu “café falso” no café da manhã, com papa de aveia.

Também encontrei um velho amigo meu: leite de aveia, o mesmo que eu tomava em Paris. Delícia com granola! Uma pena a grande maioria dos veganos só tomar leite de soja quando tem tantos outros leites vegetais muito mais gostosos e saudáveis. Claro que em muitos lugares leite de soja é infelizmente o único leite vegetal disponível, por isso que faço o meu próprio leite. Quem quiser conferir a receita é só clicar aqui.

“Ginger beer” (cerveja de gengibre) é uma bebida de origem jamaicana, muito popular na Grã-Bretanha e Irlanda. Apesar do nome, é uma bebida sem álcool, uma mistura de gengibre, açúcar e fermento natural que fermenta durante várias semanas antes de ser degustada. Uma bebida celestial pros adoradores de gengibre como eu.

Embora os irlandeses sejam grandes apreciadores de carne, tivemos algumas agradáveis surpresas em dois restaurantes. Em um restaurante “vegetarian-friendly” em Galway, entre pratos com carne, peixe e vegetarianos, achamos essa “shepherd’s pie” vegana. Shepherd’s pie é um prato anglo-saxão com carne moída e legumes, coberta com purê de batata e gratinada. A versão vegana era feita com proteína de soja. Anne gostou muito, eu achei boa mas nada espetacular. A sopinha de entrada e as saladas de feijão branco e rúcula complementaram a refeição.

Mas o melhor prato de restaurante que comemos durante a viagem foi esse delicioso “hamburguer” de feijão fradinho, cenoura e chirívia (uma prima da cenoura, mas bem mais pálida e de sabor mais intenso), com molho de tomate ligeiramente picante. Não esperava encontrar comida vegana (muito menos vegana e gostosa) na pequena cidade de pescadores que visitamos nesse dia. Uma descoberta surpreendente que pretendo reproduzir na minha cozinha algum dia. Difícil vai ser achar a tal da chirívia.

Muitas pessoas afirmam que não é possível ser vegano durante as viagens. Não vou mentir e dizer que não é verdade: realmente, manter um regime vegano na estrada não é fácil. Mas com um pouco de planejamento, organização e jogo de cintura essa não é uma missão impossível. Antes da viagem fiz um pouco de pesquisa na internet pra saber se tinha restaurantes vegetarianos por onde íamos passar e dei uma olhada no que os irlandeses comem normalmente pra ter uma idéia do que encontraríamos pelo caminho. Como alugamos uma casa, tratamos de passar pelas lojas de produtos naturais e feira logo no primeiro dia e compramos ingredientes pra preparar refeições veganas em casa, onde comemos a maior parte do tempo. Nos restaurantes, sempre explico pro garçon que sou vegana e pergunto o que ele sugere. Muitas vezes o chef fica feliz em preparar um prato vegano especialmente pra mim, de acordo com os ingredientes que ele tem nas mãos. Na pior das hipóteses sempre tinha alguma salada e sopa de legumes nos pubs e restaurantes convencionais. Mesmo quando as opções eram limitadíssimas, pedíamos o que estivesse disponível sempre pensando que aquilo era só uma refeição e que iríamos comer melhor mais tarde ou no dia seguinte. Ser prevenido é muito importante: sempre deixava um saquinho com nozes e frutas secas no carro pra casos de “emergencia”. Com um certo planejamento e mantendo uma atitude positiva, ao invés de se chatear porque não tem nada vegano no menu do restaurante, faz com que tudo se torne mais fácil.

Depois das aventuras gastronômicas na terra do U2, em breve escreverei contando o que fiz com aqueles maravilhosos tomates orgânicos.

Irlanda

Obrigada pelos comentários carinhosos (alguns emocionantes) sobre meu último post. Estou vivendo um dos momentos mais importantes da minha vida e a presença dos amigos, mesmo que seja virtual, conta muito.

Minha longa ausência tem uma justificativa: eu estava em lua de mel na Irlanda. Sempre senti uma forte atração por esse país e há muitos anos tinha planos de visitá-lo. Anne morou um ano lá, adorou e sempre quis voltar. Quando começamos a pensar na nossa lua de mel, a Irlanda pareceu a destinação mais lógica. Decidimos visitar uma parte ainda selvagem da ilha (Connemara, na costa oeste) e a viagem não poderia ter sido mais maravilhosa. Aqui vão algumas fotos pra provar. (Aviso: embora o tema desse blog tenha desviado um pouco nas últimas semanas, ele ainda é dedicado à cozinha vegetal. Muitas receitas virão. Aguardem.)

O “cottage” que alugamos no vilarejo de Tuly Cross. Devia ter menos de cem habitantes nesse lugar e tudo que ouvíamos ao redor era o barulho do mar e o mugido das vacas. Também alugamos esse carro pra poder explorar a região. Na Irlanda eles usam a “mão inglesa”, ou seja, dirigem do lado esquerdo da estrada. Anne se acostumou rápido, eu só precisava gritar de vez em quando “esquerda!” e ela se endireitava (ou melhor, se esquerdava). Mas eu fiquei tão desorientada que a primeira vez que peguei o carro não conseguia nem lembrar qual dos pedais era o freio e qual era a embreagem. E passar a marcha com a mão esquerda? A mudança foi demais pro meu cérebro e me embananei toda. Achei mais prudente deixar Anne dirigir. Ela se adaptou melhor à essa história de dirigir do lado “errado”, embora eu tenha flagrado ela tentando passar a marcha na porta algumas vezes (costume de passar a marcha com a mão direita).

A cozinha era um sonho. Pelo menos pras pessoas que, como eu, sonham com cozinhas. Toda equipada (o fogão era elétrico, o que eu detesto, mas esse era o único defeito), espaçosa e banhada em luz natural, graças as janelas que davam pro jardim. Preparei pratos ótimos nela e em breve dividirei alguns com vocês.

John, o proprietário da casa, deixou um vasinho com flores em cima da mesa de jantar pra nos acolher. Ele me ensinou tudo sobre ovelhas (a Irlanda é cheia delas) e eu o ensinei a fazer legumes assados com alecrim fresco. Ele confessou depois, meio sem jeito, que pretendia comer meus legumes com ovelha. Eu disse que isso não me incomodava, contanto que ele não me pedisse pra degolar a ovelhinha e cozinhá-la.

A vista da sala de jantar. Todo os dias de manhã comíamos aveia irlandesa (falarei mais sobre ela outro dia) olhando o mar ao longe. Várias vezes avistamos golfinhos.

Esse é um cantinho da sala. Fizemos tanto fogo nessa lareira que no último dia a sala estava completamente defumada. Se alguém fechasse os olhos e cheirasse a poltrona, juraria que aquilo era um provolone gigante. Mas nada melhor do que sentar em frente à uma lareira e curtir o calor das chamas ao lado de quem se ama. Uma das experiências mais românticas e aconchegantes que se pode ter.

Essa era a vista da sala (e o nosso vizinho mais próximo).

Clifden, a capital do Connemara. Uma cidade de 1900 habitantes, muitos pubs, restaurantes e fachadas coloridas. Tinha até uma loja de produtos naturais com tofu, tempeh, iogurte de soja e afins. Comprei lá um pacotinho de uma alga marinha chamada “dulse” e estou louca pra experimentar. Perguntei ao vendedor como preparar a alga e acabamos conversando durante quase uma hora sobre a situação na Palestina. Eu consigo ser a embaixadora da Palestina em qualquer circunstância, até quando compro alga marinha no interior da Irlanda.

Vimos praias lindas, com areia branca e águas cristalinas. Se a temperatura tivesse aumentando uns 15 graus eu teria me sentido em um país tropical.

Mas em algumas praias no lugar da areia tinha pedacinhos de corais (pelo menos é o que eu acho que era). Fiquei fascinada com essas coisinhas de formas tão variadas e até pensei em trazer um pouco pra casa de lembrança. Depois pensei que essa não era uma idéia muito ecológica e me contentei em tirar uma foto.

Adoro ver Anne em ação. Quando ela está de férias ela faz o estilo “fotógrafa rebelde que tira foto com os cabelos na cara”.

Encontramos tantas casinhas (“cottages”) mimosas pelo caminho… Algumas com cara de casa da vovó de Chapeuzinho Vermelho, outras com cara de casa de bruxa, outras que pareciam com a casa de Asterix.

Também encontramos muitos animais interessantes, inclusive algumas ovelhas com tendências punk.  Essa apostou no azul, mas tinha ovelha tingida de laranja, outras de vermelho, outras de verde…

Ovelhas eram às vezes as únicas criaturas que cruzavam nosso caminho. Reparem a rebeldia dessa ovelhinha:  ela anda no lado direito da estrada, desafiando a mão inglesa! Decididamente as ovelhas irlandesas são invocadas.

Um dia fizemos um passeio pelas colinas e no começo da caminhada esse cachorrinho decidiu nos seguir. Ele nos acompanhou durante horas, subiu e desceu a colina conosco, mostrando sempre o melhor caminho. Em um arroubo de originalidade eu o batizei de Totó e ele até respondia quando eu chamava. Na volta Totó ficou exatamente no lugar onde o achamos, como se estivesse esperando outras pessoas passarem. Suspeitamos que Totó era um cão guia turístico.

Eu adoro vacas, acho que são um dos animais mais zen do planeta. Tenho uma vaca chamada Macabéa, mas ela mora no sítio dos meus pais e quase nunca a vejo. Na Irlanda as vacas são tão gordas e grandes que Macabéa se sentiria anoréxica (mas eu prefiro você, Macabéazinha). Outra coisa que chamou minha atenção foi o capim. Tão verde que era quase fosforescente. Fiquei tão impressionada com esse capim que tive que conter um impulso de me abaixar e comê-lo. Um capim assim graúdo, suculento, cheiroso e verdíssimo deve ser cheio de antioxidante. Deu quase vontade de ser uma vaca irlandesa e passar o dia pastando.

Espiei tanto o capim que esse bezerro começou a me olhar meio desconfiado. Será que ele ficou com medo que eu roubasse o almoço dele?

Nove dias de caminhadas pela natureza, se perdendo em estradinhas desertas, admirando paisagens belíssimas, de noites passadas em frente à lareira, de encontros inusitados… e, como não podia deixar de ser, uma viagem rica em prazeres gustativos. No próximo post mostrarei minhas descobertas gastronômicas na “Ilha Esmeralda” (ou, “o que o irlandês consume além de cerveja Guinness e ovelha”). Descubram o que é que a Irlanda tem.