Eu recebo muitas perguntas pelo Instagram e algumas semanas alguém me perguntou o que eu acho de pessoas veganas consumirem alimentos de origem animal que seriam desperdiçados. Ela citou o caso (hipotético) de uma vegana que trabalha em um restaurante não-vegano e que, no final de cada expediente, tem a possibilidade de levar as sobras do dia pra casa. Caso funcionárias não queiram levar a comida pra casa, ela irá pro lixo. E aí? Nesse caso eu comeria os restos de origem animal pra evitar desperdício? 

Primeiro vamos combinar que é uma pergunta bem específica. Quantas pessoas veganas estão nessa situação? Não cola dizer: “Eu não posso ser vegana porque vivem me dando animais e seus derivados e se eu não comer vai pro lixo.”

Mas tratando o exemplo bem concreto da pessoa que escreveu: uma vegana que trabalha em restaurante que comercializa animais e seus derivados e que, no final do expediente, tem a possibilidade de levar as sobras do dia pra casa, sobras que, se não forem levadas dali, acabarão no lixo. 

1-Comer esses animais não vai aumentar o número de animais explorados e mortos pra serem comidos por humanas. Então se a questão for essa, você não estará patrocinando diretamente a exploração animal ao comer esses restos. MAS…

2- Veganismo, pra mim, nunca foi modo de consumo ou de alimentação. Veganismo é se opor à mercantilização e objetificação de corpos de animais não-humanos, boicotar sua exploração sob toda e qualquer forma e se comprometer com a luta por emancipação animal. Então se eu não considero corpos de animais (nem o que os corpos deles produzem) como uma mercadoria da qual eu posso dispor, nem como comida, por que eu os comeria? Eu me sentiria hipócrita, como vegana engajada na luta por emancipação animal, se sentasse na minha cozinha toda noite pra consumir seus corpos. Isso seria uma incoerência ética, pois veganismo é questão de princípios e princípios não podem ser flexibilizados. PORÉM…

3- Quem disse que só existem duas opções: ou a vegana come os corpos de animais ou essa “comida” (que pra mim não é comida) acaba sendo desperdiçada? Tem tanta gente precisando de um prato de comida ao nosso redor. Se eu estivesse nessa situação hipotética (que não aconteceria, pois me recuso a trabalhar em restaurantes que não sejam exclusivamente vegetais, ou melhor, me recuso a ganhar a vida participando da exploração e mercantilização de animais), mas se eu fosse a pessoa que me fez a pergunta eu faria marmitas com as sobras do restaurante e distribuiria tudo pras pessoas em situação de rua no meu bairro (ou no caminho entre o restaurante e minha casa), ou pra vizinhas que estivessem precisando, pra amigas, camaradas de coletivo. Toda vegana conhece muitas pessoas que comem animais, então eu montaria um esquema pra ser uma ponte entre essas pessoas e as sobras do restaurante 😉 

Uma última palavrinha. Embora comer pedaços de corpos de animais que iriam pro lixo não aumente o número de animais explorados/torturados/mortos, não podemos esquecer que o ato de come-los naturaliza e banaliza a exploração e violência das quais eles são vítimas. Você pode não ter dado seu dinheiro diretamente pro complexo industrial de exploração animal, mas sempre que você senta pra comer o corpo de um animal ou os produtos que seu corpo produziu, você reforça a ideologia especista. Você se torna participante na manutenção de uma estrutura de violência, exploração e dominação. 

Continuando a resposta da pergunta “o que você acha de uma pessoa vegana que come carne/derivados de animais num contexto em que eles seriam jogados fora?”, me surpreende nunca terem me perguntado sobre freeganismo. As definições podem variar ligeiramente, mas de maneira resumida, Freegans (free + vegan) são pessoas que boicotam o consumo em geral. Essas pessoas geralmente moram em ocupações (okupas, o que em outras línguas é conhecido como “squats”) e coletam comida no lixo (de feiras, supermercados). Talvez ninguém tenha me perguntado sobre isso porque o freeganismo nasceu no meio vegano anarquista e não seja muito conhecido fora dele. 

Então tem veganas anarquistas que consomem pedaços de corpos de animais ou o que é produzido por seus corpos se forem encontrados no lixo?

Primeiro deixa eu explicar que apesar de ter nascido no meio vegano, nem toda pessoa freegan é vegana. As pessoas que aderiram ao freeganismo ao longo dos anos não eram necessariamente veganas (na verdade de todas as pessoas freegans que conheço, só uma é vegana). Hoje em dia é mais sobre boicote ao consumo em geral do que sobre luta por libertação animal. Mas digamos que uma pessoa vegana e freegan me faz a pergunta acima. A resposta é exatamente a mesma pra pessoa vegana que trabalha em um restaurante onde animais são comercializados. Mas deixa eu dar um exemplo pessoal.

As Brigadas de Solidariedade Popular, o coletivo do qual faço parte na periferia de Paris, não tem um local próprio, então organizamos muitas das nossas atividades em duas okupas (squats) da cidade. Nos reunimos semanalmente em uma das okupas, onde também guardamos nosso estoque de material (roupas, produtos de higiene, fraldas, comida… que distribuímos pros migrantes em situação de rua e mulheres dos dois abrigos pra migrantes com crianças que antes estavam na rua). Na outra okupa organizamos as distribuições de cestas alimentares pra famílias em situação de vulnerabilidade, a cada duas semanas. 

Nos dois locais, as habitantes se alimentam exclusivamente de comida coletada no lixo (da feira e dos dois supermercados do quarteirão). Numa das okupas, por questões econômicas (as pessoas não tem dinheiro pra comprar alimentos). Mas na outra, tanto por questões econômicas quanto ecológicas. Na primeira okupa a galera come corpos de animais em qualquer contexto, mas na segunda, por razões ecológicas, as habitantes comem corpos de animais e seus derivados apenas se forem coletados no lixo. É essa okupa que abriga nosso coletivo (e mais alguns coletivos da cidade) e por todos os lugares colaram cartazes dizendo: “Não tragam alimentos feitos com animais ou derivados pra cá. Nesse espaço nós preferimos deixar os animais em paz. Aproveite que você está aqui e experimente por um tempo fazer o mesmo”. Por causa dos cartazes, no começo achei que a galera era toda vegana, até que comecei a me aproximar das moradoras e uma delas me explicou que ela é contra a mercantilização de animais, mas os come se os pedaços de seus corpos forem coletados no lixo. Mas apenas nessa situação. Importante dizer que ela não se considera vegana.

Nosso coletivo passa muito tempo nesse espaço e como as pessoas ali coletam muito mais alimentos do que precisam no lixo dos supermercados (muitas vezes coisas que venceram no dia anterior, ou que ainda nem venceram, legumes ligeiramente murchos…ou seja, comida perfeitamente segura pra ser consumida, mas que é descartada), elas sempre compartilham conosco. Na entrada da okupa tem um balcão onde colocam o excesso de alimentos coletados pra que o pessoal dos coletivos que usam o espaço pra fazer reuniões possam se servir. Anne e eu sempre pegamos coisas vegetais, mas como quase todo mundo no nosso coletivo come corpos de animais, a galera leva presunto, leite, queijo e afins pra casa. E assim tanto economizam grana (tem camaradas no coletivo que precisam dessa comida) como, no caso de quem tem condições pra comprar comida em supermercado, isso faz com que dêem menos dinheiro pra indústria da exploração animal. 

Tenho uma relação de muito respeito pelas camaradas anarquistas que abriram (e ainda moram) nessa okupa. São elas que acolhem as migrantes (mulheres) sozinhas, muitas vezes grávidas ou com um bebê, que encontramos nos campos de migrantes da nossa periferia durante as ações. Graças às militantes dessa okupa conseguimos colocar várias mulheres em um local seguro (na rua elas correm um risco enorme). Hoje essas migrantes são moradoras da okupa e graças ao freeganismo da galera, todo mundo come muito bem, apesar de ninguém ter dinheiro nem um trabalho remunerado. 

Agora deixa eu contar sobre a outra okupa. A cada duas semanas, camaradas do nosso coletivo vão com o pessoal da okupa coletar comida na feira (o que não foi vendido no final). Os feirantes já nos conhecem e já deixam tudo separado. Em seguida separamos uma parte menor, que vai alimentar as moradoras da okupa, e uma parte maior que vai ser distribuída entre as famílias vulneráveis da nossa periferia. Não todas, porque são muitas, mas temos uma rede de solidariedade que abraça mais de 80 famílias. Como coletamos comida na feira, distribuímos apenas alimentos vegetais pras famílias, mas é o que mais nos pedem: comida fresca. Algumas vezes os açougueiros do bairro doaram alguns pedaços de corpos animais, mas isso é raro. E muitas das famílias que estão na nossa rede de solidariedade são ovo-vegetarianas (tem uma população indiana importante na nossa periferia). 

Pra terminar a conversar, deixa eu falar sobre o que faço, pois essa é uma situação real na minha vida. Eu coleto comida no lixo regularmente desde que me mudei pra periferia norte de Paris. Mas só levo pra casa (e pra barriga) o que é vegetal. Pedaços de corpos de animais e o que seus corpos produzem não são comida pra mim. Da mesma maneira que se eu achar um cachorro ou um gato morto no lixo não vai nem me passar pela cabeça a idea de comê-lo. Mas exatamente como no caso da pessoa vegana que trabalha em restaurante não vegano e tem a possibilidade de levar as sobras pra casa, tem muitas pessoas ao meu redor que comem corpos de animais e sempre tenho a possibilidade de deixar esse tipo de “comida” pra elas. 

Descobri que, na periferia de Paris, mesmo quando a pessoa não tem um tostão e se alimenta exclusivamente de coleta nos lixos dos supermercados e nas feiras podemos escolher comer apenas vegetais. E é o que as duas pessoas freegans veganas que conheço fazem.