Continuo em Berlim, mudando de casa em média a cada três dias, me sentindo um macaquinho pulando de galho em galho. Só que de bicicleta e com uma mochila nas costas. Quando eu conseguir achar um apartamento que corresponda aos nossos critérios de busca vou beijar o chão, que nem o papa fazia.

Como minha vida está uma bagunça, está difícil manter o formato dos meus posts (história + receita), pois não ando cozinhando muito em casa. O post de hoje será diferente e picotado, como o momento que estou atravessando.

Descobri, uns meses atrás, o maravilhoso mundo dos podcasts. Sempre chego atrasada nessas coisas envolvendo tecnologia, porque geralmente elas não me interessam, aí nunca faço o esforço de ver como funcionam. Vim descobrir que Siri morava no meu celular, que me acompanha há dois anos, dia desses, graças à minha amiga Camila. Mas quando perguntei: “Siri, você é sionista?” e ela respondeu: “Eu não gosto muito dessas categorias arbitrárias.”, me dei conta que não tinha diálogo entre nós e mandei ela de volta pra sei lá que cyber-apartamento ela mora. Mas aí fiquei curiosa e trouxe ela de volta pra perguntar: “Siri, onde você mora?” e ela respondeu: “Eu moro na esquina da imaginação com a realidade.” Fiquei meio cabreira com a resposta. Perguntei se ela existia e ela respondeu: “Desculpe, Sandra, eu fui aconselhada a não discutir o meu estado existencial.” Caraca! Como ela sabia que era eu? Mandei ela de volta pra hibernação rapidinho porque Siri me dá medo.

Mas eu estava falando de podcasts. Estou encantada com as possibilidades de aprendizado. Lavar a louça e organizar coisas se tornou não somente um prazer imenso, mas também um momento pra me educar. Coloco os fones nos ouvidos, ponho um podcast pra tocar e digo: “Com licença, vou ali me instruir” e meia hora depois a cozinha está um brinco e eu estou mais sabida. Viajar também se tornou uma atividade prazerosa. Me refiro à parte da viagem que corresponde ao deslocamento de um ponto a outro, com todos os ônibus/metrôs, tempo de espera em aeroportos, filas de imigração, todas essa coisas chatíssimas que acontecem antes de você chegar no seu destino e começar a se divertir. Viajar de ônibus e trem? Delícia! Pra uma pessoa que viaja muito, mudou a minha vida. Mês passado fiz uma viagem longa (Paris-São Francisco) e fiquei quase 12 horas no ar a cada trecho e graças aos podcasts que eu tinha baixado antes de embarcar, nem vi o tempo passar e ainda desci do avião muito mais instruída do que a pessoa que eu era quando embarquei.

Pra quem ficou interessada, aqui vai a lista dos podcasts que escuto com mais frequência no momento: Philosophy Bites (o primeiro que descobri, dois anos atrás, quando eu nem sabia que era um podcast, e até hoje é o meu preferido), Which Side (anarquista e vegano), The Guilty Feminist (hilário!), Feminist Current, BBC Radio Food Programme, Intercepted (podcast do site independente de notícias “The Intercept”), London School of Economics: Public lectures (palestras sobre temas variados com grandes nomes da Academia), RSA Events (palestras e debates) e TED Talks (palestras incríveis sobre basicamente tudo). Todos em Inglês. Recentemente uma seguidora do meu IG recomendou dois em Português e fiquei muito, muito feliz: Salvo Melhor Juízo e AntiCast. Quem quiser recomendar seus preferidos nos comentários, fique à vontade.

E falando em recomendações, vou aproveitar a deixa pra recomendar dois filmes que vi no avião, durante a viagem citada acima. O primeiro, “Eu, Daniel Blake”, de Ken Loach, eu queria ver há meses. Foi um dos filmes que mais me tocaram na vida e provavelmente o que mais me fez chorar.  Eu estava chorando tão descontroladamente que decidi ver um filme de animação francês, “Minha vida de abobrinha”, logo depois, imaginando que ia me alegrar. Só que ele também era triste, mas belíssimo, aí chorei horrores de novo. Recomendo demais esses filmes, mas não um depois do outro, muito menos dentro de um avião com uma ruma de gente ao seu redor.

Comprei, enfim, um coletor menstrual. Mais um trem que peguei atrasada e que gostaria de ter pegado antes. Ainda estou no período de adaptação e pedi conselhos às minhas seguidoras no IG. Nunca imaginei que tantas pessoas responderiam. Foi lindo ler as dicas de tantas mulheres, a maioria nem sequer me conhece pessoalmente, sobre um assunto feminino tão íntimo. Me senti conectada com minhas irmãs que sangram e fazendo parte de uma grande sororidade.

Na busca por apartamento aqui em Berlim um amigo enviou um anúncio que um conhecido tinha postado no FB de um quarto livre em uma casa com várias pessoas. Até aí tudo tranquilo, dividir apartamento com muitas pessoas é bem comum em Berlim. Só que o anúncio dizia: “Só tem pessoas brancas morando aqui e gostaríamos de incluir mais diversidade no nosso lar, por isso estamos procurando uma pessoa de cor pra se juntar à nós.” O incômodo que senti ao ler aquelas linhas foi imediato. Fiquei de bobeira com a atitude do pessoal. A minha presença era desejada ali simplesmente pra fazer com que a casa e as pessoas que nela moram se tornassem mais “alternativas/cool” e me senti tokenizada. Pra quem não sabe o que é “tokenizar”, transcrevo aqui a conversa que tive com minha amiga Cibele sobre o anúncio. Cibele é uma das pessoas que mais admiro e explicou bem direitinho o que essa palavra significa, além de traduzir o meu sentimento de desconforto.  “Alguém pode argumentar que eles só agiram de acordo com a lógica das “cotas”. Só que não. “Cotas” são pra garantir a grupos sociais desprivilegiados o acesso à estruturas de poder como a universidade, que foram negadas historicamente a eles. Esse tipo de convite não visa a corrigir nenhuma diferença de privilégios, só visa a garantir a um grupo privilegiado que ele não vai ser acusado por esse privilégio. É só por um interesse deles, não das pessoas “de cor” (que é uma expressão que boa parte do movimento negro rejeita). Isso é tokenização. Privilegiados se protegendo de serem denunciados por esse privilégio sob o álibi de terem sido inclusivos.”

(Nota explicativa que talvez se faça necessária: apesar de ser considerada branca no Brasil e em muitas partes do mundo, na Europa eu sou vista como “latina”, logo “não-branca”. Aproveito pra informar ao povo do Brasil que nós não somos ocidentais. Quando vejo jornalistas se referindo à nós como “ocidentais” na mídia, de novo e de novo, me dá vontade de rir. “Ocidente” é um termo econômico, não geográfico, e significa: Europa, EUA, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. Foi uma surpresa pra mim também descobrir que “Ocidente” significa “país de primeiro mundo”, não “país onde os olhos das pessoas são arredondados”, como eu pensava até me mudar pra França, aos 20 anos. Pois é. Apesar de todo mundo aí achar que mora no Ocidente e que eu sou branca, esses são conceitos relativos que não são verdadeiros por aqui.)

E pra terminar, ver a situação no Brasil de tão longe, sem poder me juntar aos protestos, é agoniante. Fora Temer! Diretas já! Tudo isso acontecendo e eu aqui na praça, dando milho aos pombos.

Vou ali escutar mais um podcast enquanto como o resto da maravilhosa fritada de repolho e cogumelo, feita com farinha de grão de bico, que fiz pro almoço. (Receita no próximo post.)

*As fotos que aparecem nesse post foram feitas na ocupa/comunidade-anarquista-no-bosque onde eu morei semana passada. Foi uma experiência e tanto!