Algumas pessoas que entram na minha cozinha ficam impressionadas com a quantidade de tempeiros, ervas e especiarias que possuo. Tem uma amiga de Anne, em particular, que adora bisbilhotar (ou “curiar” como a gente diz na minha terra) minhas prateleiras, gavetas e até mesmo a geladeira pra ver as “novidades”, como ela  diz. Não que isso me incomode, de jeito nenhum. Sinto o maior prazer em mostrar meus condimentos (e mantimentos) pois é uma desculpa pra fazer uma das coisas que mais gosto: conversar sobre comida. Os amigos que ficam na cozinha enquanto preparo um prato aproveitam pra perguntar como e onde usar tal tempeiro, onde comprar tal ingrediente e o que danado são esses floquinhos verdes dentro de um saco. Como acho o exercício instrutivo, e como vocês não podem vir até Belém, pensei em fazer um convite on-line pra inspecionar minha cozinha. Entrem e fiquem à vontade (como diz minha irmã, só não vale tirar a roupa). Senhoras e senhores, eu vos apresento as prateleiras de condimentos:

Na última vez que contei eu tinha cerca de 50 especiarias e ervas secas, sem contar os diferentes tipos de sal, vinagre, óleos e condimentos variados. Mas vamos por partes, ou melhor, por prateleiras. Vou descrever os ítens mais interessantes de cada uma:

Prateleira 1 (a primeira no alto): farinha de trigo sarraceno, farinha de grão de bico, glúten em pó, água de rosas, xarope de arroz integral, cacau, alfarroba em pó, barras de chocolate pra cozinhar…

Prateleira 2: pasta de avelã, óleo de gergelim, liquid smoke, melado de romã, mostarda de Dijon, shoyo, vinagre de arroz, xarope de malte, xarope de agave, xarope de bordo, concentrado de tamarindo…

Prateleira 3: all spices (mistura de especiarias árabe), curcuma, coentro em pó, cominho, páprica, curry, five spices (mistura de especiarias chinesa), erva doce, feno grego, gengibre em pó, cogumelos desidratados (cèpes), botões de rosa desidratados, açafrão, cardamomo, noz moscada, semente de mostarda, cravo, semente de papoula, zatar… OBS: O recipiente de plástico guarda 40 saquinhos com coisas tão estranhas que até eu fico com receio de olhar.

Prateleira 4: passas, tahine, favos de baunilha de Madagascar, levedo maltado, capim santo, verbena, cebola e alho desidratados, semente de gergelim, sumac, cogumelo seco (shiitake), meus dois pilões de madeira…

Graças a Taufic, que tem a melhor loja de especiarias da cidade e que é meu fornecedor oficial de tempeiros, meu vocabulário em Árabe não pára de aumentar. Ele tem a delicadeza de colocar etiquetas em Árabe e em Inglês nos potinhos. Pra quem estiver interessado, coentro em Árabe é “kôsbara”, “canela” é “karfa” e “cominho” é “kamun”.

Além dessas prateleiras, tenho uma gaveta de “ingredientes especiais”. Aqui guardo, na mais completa desordem,  ingredientes exotéricos, como pó de araruta, creme de leite de aveia, fermento pra iogurte de soja, algas marinhas desidratadas, óleo de trufa negra, agar-agar, patê vegano de champanhe e trufa, sementes de chia, extrato de baunilha natural…

Eu vivo falando aqui da importância de ter um bom caldo de legumes (sem conservantes e orgânico). Caldo de legumes é um ingrediente essencial em qualquer cozinha, mas ainda mais na cozinha vegana. Por isso eu tenho não um, caros leitores, mas sim 6 tipos diferentes:

Eu tenho uma confissão a fazer: tenho um fraco por sal. Não que eu goste de comida excessivamente salgada, não, não. É que desde que comecei a experimentar os diferentes tipos de sal nunca mais quis aquele pó branco processado e desvitalizado. Sabiam que sal pode ter um sabor especial? Sabiam que existe sal de diferentes cores? Sabiam que sal pode ser riquíssimo em minerais? Por enquanto só tennho 5 tipos diferentes, coitadinha de mim, mas sempre que posso aumento minha coleção. Na foto: sal marinho grosso (uso no moínho de sal), sal marinho de Guérande, fleur de sel de Guérande, sal rosa do Himalaia e sal defumado do país de Gales (obrigada, Welder!).

Meu sobrinho mais velho gosta de fazer piadas com minha mania de comprar coisas com origens estranhas. Xales bordados pelas virgens mancas das montanhas de pedregulhos quadrados do Tibet, geléias de morangos colhidos à meia noite de uma noite de lua cheia pelos monges cegos da ordem do guarda-chuva listrado, essas coisas. Esses são meus sais preferidos, cada um com uma história especial, como meu sobrinho gosta.

Sal rosa das montanhas do Himalaia. Sim, tem reservas de sal nas montanhas pois milhões de anos atrás o mar chegava até lá. Suave, delicado e lindo, ligeiramente rosado.

Sal defumado, o mais saboroso de todos. No país de Gales o sal recolhido do mar é desidratado e depois defumado  no carvalho. Adoro a textura, verdadeiros flocos de cristal, que além de acrescentar sabor aos pratos traz uma nota crocante.

Embora eu tenha um carinho especial por cada uma das minhas ervinhas, especiarias e afins, se eu fosse condenada a viver em um ilha deserta e tivesse que escolher só três ingredientes pra temperar meus pratos pelo resto da vida eu escolheria sal, pimenta do reino e azeite. Bem, se eu tivesse em uma ilha, o que significa água salgada por todos os lados, eu não precisaria de sal. Então escolheria pimenta do reino, azeite e sementes de mangericão pra plantar na ilha.

Acaba aqui o tour pela caverna de Ali Babá seção de especiarias da minha cozinha. Espero que vocês tenham aprendido coisas interessantes sobre ingredientes exóticos. Ou não. Mas é sempre divertido bisbilhotar a cozinha alheia. E precisando de botões de rosa secos, é só pedir.