“Se Flávio Bolsonaro for eleito a gente perde a perspectiva de futuro”

Semana passada Lula veio à Natal e decidimos, Anne e eu, entrevistar pessoas durante o ato, com o objetivo de montar uma reportagem prum veículo de mídia francês com quem já trabalhamos no passado. Nossa ideia era fazer uma única pergunta: O que vai mudar na sua vida se Flávio Bolsonaro for eleito presidente?

No fim das contas a reportagem não foi publicada na França, que está em polvorosa há semanas por causa do maior movimento social jovem desde maio de 68. Mas as respostas que escutei sábado passado merecem ser ouvidas, então gostaria de deixar registrado aqui.

“Se Flávio Bolsonaro for eleito eu não vou conseguir realizar o meu sonho, o sonho da minha família, de ser a primeira mulher da família a ter um diploma de nível superior. Eu não vou realizar o sonho de dar dignidade pra quem lutou tanto pra que eu tivesse dignidade.” Natália Pereira, 20 anos, estudante de pedagogia na UFRN.

“Se Flávio Bolsonaro for eleito tudo vai mudar na minha vida. Vai ter menos educação, menos saúde, menos ciência, menos segurança e corremos o risco de perder a democracia porque Bolsonaro não representa a direita, ele representa o fim da democracia.” Pedro Vítor Bezerra, 26 anos, biólogo, trabalha na rede de saúde pública.

“Mulheres morreram pra que eu, mulher, LGBT, tivesse voz. Se Flávio Bolsonaro ganhar, eu e todas as outras mulheres, sejam elas brancas, pretas, indígenas, vamos perder nossa voz, porque ele é contra as mulheres.” Maria Monalisa, 21 anos, estudante de engenharia sanitária e ambiental no IFRN.

“Flávio Bolsonaro é uma pessoa que não é a favor da educação. Se ele for eleito eu vou sentir a mudança tanto no IF quanto na universidade federal, da qual eu preciso.” Ana Clara Teixeira, 17 anos, estudante de mecânica no IFRN.

“Se Flávio Bolsonaro for eleito ele vai vender o Brasil. Na verdade, ele já vendeu o Brasil. Se for eleito, vai só entregar. Ele diz que vai acabar com as universidades, que vai privatizar tudo… Eu consegui me aposentar, mas não vou ver meus filhos se aposentarem, muito menos meus netos.” Teresa Neuma de Arruda, 85 anos, aposentada.

“Eu sou CLT e talvez os acordos entre empregados e patrões venham a mudar, talvez o regime de horas não seja favorável (aos trabalhadores). Eu não penso só em mim, que posso trabalhar como autônoma, penso no resto da população. O acesso à saúde talvez mude pra todo mundo. Hoje tem programas de moradia, tem Farmácia para Todos, tem tanta coisa boa pros mais humildes, mas com essa política devastadora de Flávio Bolsonaro talvez esses direitos serão perdidos.” Andrea Carla de Arruda, 53 anos, psicóloga.

“Dado o meu histórico de produção jornalística, talvez eu seja censurado e talvez eu receba represália por alguma coisa que já escrevi. Como eu também trabalho no sindicato (de jornalistas), talvez ele seja fechado, coisa que o pai de Flávio tentou fazer e não conseguiu. Sem contar que o mundo que me cerca tem pessoas que são diretamente afetadas por políticas sociais e se Flávio Bolsonaro for eleito, esse mundo vai ruir.” Maurício Melo, 47 anos, jornalista.

“Se Flávio Bolsonaro for eleito o Brasil vai voltar no tempo e ficar congelados no passado. Só vai ter agro, financeiro e crime organizado. E se os únicos trabalhos disponíveis são aqueles que não precisam de estudo pra serem feitos, então não vai ter valorização da educação. Pra que estudar, pra que investir em boas escolas, IFs, universidades? Se Flávio Bolsonaro for eleito a gente perde a perspectiva de futuro.” Lauro da Silveira, 36 anos, professor de sociologia na rede municipal.

A imagem acima, da menina segurando a constituição aqui em Natal, acabou viralizando e inspirando outras ações semelhantes Brasil afora, nas manifestações seguintes. Sábado fiquei um bom tempo olhando pra ela e pensando que o risco de ter o futuro roubado também é o que mais me assusta.

(Todas as fotos foram feitas por Anne Paq.)

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