Preciso confessar que eu não acreditava. Eu me tornei essa pessoa de pouca fé, é verdade. Passei as últimas semanas repetindo mentalmente que a queda era certa e o importante era se preparar pra levantar, sacudir a poeira e organizar a resistência. Então ainda não saí totalmente do estado de choque. Que alegria ter estado aqui no Brasil domingo passado, pra viver esse momento histórico junto com a minha família!
E aproveitando esse sopro de esperança (e sim, ainda é preciso organizar a resistência: a tarefa só ficou um pouco menos arriscada), vou compartilhar um texto que, embora fale da época mais difícil da minha vida, também mostra a importância de ter um horizonte e acreditar que o amor vai ser possível.

“Seria impossível dizer quantas vezes eu contei essa história. Desde que saí do Brasil, há mais de vinte anos, uma das perguntas que me fazem com mais frequência é: “Por que você decidiu ir morar no exterior?”, ou alguma variação disso. Respondo: “Porque sou lésbica”, o que é a mais pura verdade, só que minha resposta não satisfaz a curiosidade de ninguém, muito pelo contrário. Então sou obrigada a explicar os detalhes.
Eu tinha 13 anos quando me apaixonei pela primeira vez. Acontece que a criatura que passou a habitar o meu coração e os meus sonhos era uma menina. Estávamos nos anos 90 e até então eu tinha encontrado um total de zero pessoa homossexual na vida. Nem tinha encontrado na vida nem nos livros, nos filmes, nas músicas, nas novelas. Então, do alto dos meus 13 anos, concluí que era a única lésbica da minha cidade, apesar dela abrigar perto de 800 mil habitantes na época, e que por isso eu seria condenada a não ter vida romântica. Mas pior ainda do que a perspectiva de viver toda a minha vida sem ter uma boca pra beijar era a certeza de que a minha família, conservadora, nunca aceitaria quem eu era.
Os meses foram passando e eu continuava sem provas concretas da existência de outras lésbicas. No entanto eu tinha escolhido acreditar que o mundo, imenso como ele é, abrigava mais gente como eu, em algum lugar. Foi uma escolha de sobrevivência, pois era doído demais pensar que eu era a única da minha espécie. Porém essa mudança de perspectiva veio com um custo: um imenso dilema tinha se instalado dentro de mim. Por um lado, eu desejava ardentemente encontrar outras meninas como eu, idealmente dentro dos limites do meu município porque o que eu queria, mais que tudo, era uma namorada pra chamar de minha. Por outro lado, eu estava convencida de que a realização desse desejo implicaria a perda do amor da minha família.
Um dia uma colega da escola apareceu com uma revista de turismo. Naquela revista tinha uma reportagem sobre Amsterdã, recheada com fotos lindas. Mas não foram as fotos que me encantaram, foi uma anedota contada pela jornalista que escreveu a matéria. Ela dizia que estava num supermercado da cidade quando entrou uma drag queen de patins e fio dental e que ninguém, nem mesmo a senhora idosa que fazia compras do seu lado, parecia surpresa com a aparição. A conclusão da jornalista era que “Amsterdã é uma cidade extremamente tolerante”.
Meu coração disparou. Se existia uma cidade no mundo que acolhia drag queens de patins e fio dental, com certeza essa cidade acolheria uma menina lésbica. E ao mesmo tempo em que eu descobri que existia um lugar no mundo onde eu seria aceita, resolvi o dilema que me consumia dia e noite há meses. Eu poderia ter uma vida romântica, beijar na boca e ser feliz sem perder a minha família: bastava ir morar bem longe. O que os olhos não vêem…
À partir daquele dia me mudar pra Amsterdã se tornou meu objetivo de vida. No ano seguinte comecei a trabalhar e a economizar dinheiro pra realizar esse projeto, que eu mantive em segredo até poucas semanas antes de embarcar.
Muita água passou embaixo da minha ponte entre o momento em que decidi ir embora, aos 13 anos, e o momento em que entrei no avião no aeroporto de Natal, aos 20. Eu fui fazer o segundo grau na Escola Técnica do estado e, pra minha grande alegria, encontrei outras lésbicas muito antes do esperado. A consequência desse encontro, como eu tinha imaginado, foi inevitável e tive que confrontar a minha família pra ser quem eu era. As cicatrizes estão aqui até hoje. Também precisei atravessar violências lesbofóbicas sozinha e aos 16 anos, sentada num canto escuro da escola, tentando juntar forças pra enfrentar mais um episódio de lesbofobia, me dei conta que não tinha nenhuma pessoa adulta, amiga ou parente, do meu lado, me protegendo. Naquele momento me tornei adulta.
Mas apesar de não ter precisado me mudar pra provar as delícias do amor lésbico recíproco, o sonho de ir morar fora não desapareceu. Eu tinha decidido ir embora porque acreditava que era a única maneira de poder existir sendo eu mesma, mas ao descobrir que eu não precisaria mudar de país pra ser feliz, o projeto de fuga se tornou vontade de estudar no exterior, pra ver o mundo por outros ângulos. E foi assim que eu vim parar na França.
Uns dias atrás eu estava contando essa história mais uma vez quando percebi algo que tinha me escapado até então. Muito mais importante do que realizar o projeto de ir morar em Amsterdã, ou mesmo de ir morar no exterior, foi poder ter contado, durante toda a minha adolescência atravessada por lesbofobia, com a certeza de que existia um lugar no mundo onde eu seria acolhida. Quando tudo era hostilidade, solidão e violência ao meu redor, eu trincava os dentes e lembrava que Amsterdã existia e que um dia eu também seria livre.”
(Publicado originalmente em agosto de 2023, na newsletter que eu escrevi entre 2022 e 2025 pras pessoas que apoiam esse blog.)
PS Nunca morei em Amsterdã, mas acabei indo duas vezes lá. A segunda visita – pra encontrar minha ex mítica, rendeu um guia vegano da cidade.
