Faz um mês que cheguei em Paris. É estranho falar “cheguei” porque se trata de uma volta, mas ao mesmo tempo será que posso falar de volta quando deixei essa cidade 11 anos atrás?

Chegada/volta que foi estranha nos primeiros dias, principalmente porque eu estava vindo do Brasil e o choque de realidades é sempre grande. Mas bastou a primeira semana passar que já parecia que eu nunca tinha saído daqui.

Mas apesar da familiaridade com a cidade, minha vida atual aqui não poderia ser mais diferente dos meus anos de universitária, quando chamei a cidade luz de casa pela primeira vez. Cheguei aqui em 2002, aos 20 anos, e meus dias eram ocupados com a faculdade, das 9h às 15h, e com o trabalho, eu era babá das 16h às 20h. Pelo menos 3 vezes por semana eu emendava com baby-sittings pra outras famílias do bairro, das 20h30 até os pais voltarem, geralmente depois da meia-noite. Eu combinava isso com o trabalho voluntário na faculdade, na célula de apoio aos estudantes com deficiência. Eu acompanhava estudantes cadeirantes e cegas até a sala de aula delas, depois corria pra minha aula e em época de provas eu lia o material de estudo pras estudantes cegas (que faziam anotações em Braile durante a leitura), pois não tinha quase nada em Braile na biblioteca. Aos sábados eu era voluntária em uma associação que ajuda pessoas idosas em situação de isolamento. Então todo sábado eu passava a tarde com uma pessoa idosa que morava sozinha e não tinha família por perto pra fazer companhia. A gente tomava chá, comia biscoitos e conversava sobre a vida. Eu adorava essas tardes com as minhas amigas da terceira idade, a maioria de mais de 90 anos, e acredito que muito do meu Francês certinho veio delas. Uma vez um jovem daqui me disse que quando eu falava ficava evidente que eu não era nativa porque ninguém da minha idade falava assim, tão certinho. Naquele momento me dei conta que falava Francês como uma senhorinha de 90 anos e confesso que a descoberta não me desagradou nem um pouco.

Mas muitos anos se passaram, saí do meio acadêmico e hoje minha prosa é bem menos rebuscada.

Minha vida atual em Paris se resume ao trabalho em casa, com o projeto Baladi, escritura desse blog e de um livro que pretendo lançar no meio do ano que vem e às atividades militantes. Em poucas semanas pude encontrar pessoas da esquerda radical, conhecer feministas fazendo um trabalho de denúncia ao feminicídio no país, participar de reuniões de partidos anticapitalistas e me juntar às milhares de pessoas que tomaram as ruas da capital pra protestar contra o colapso climático e exigir uma mudança de sistema. Também fui a alguns eventos veganos e pude perceber que embora as ONGs de direitos animais aqui adotem condutas neoliberais (assim como no Brasil), como focar na expansão do mercado de produtos ultraprocessados veganos e ver como uma vitória o fato de grandes corporações que lucram em cima da exploração animal quererem uma fatia desse mercado, percebi que mesmo nesses espaços a dimensão política do veganismo está presente. Nos dois eventos que fui, embora ainda focados no consumo vegano, vi palestras sobre a situação dos migrantes e refugiados que morrem no mar Mediterrâneo tentando chegar na Europa, sobre desobediência civil e sobre a necessidade de politizar o veganismo e se posicionar claramente como anticapitalista. Longe das ONGs, as pessoas veganas com quem conversei pareciam ainda mais determinadas a fazer do veganismo um movimento social anticapitalista.

Ainda estou descobrindo o cenário da militância, esquerda radical e antiespecista, aqui, mas já fiquei bem animada com o que vi.

E se minha vida atual é muito diferente dos meus anos de universitária aqui, o lugar onde estou morando agora não poderia ser mais diferente do meu antigo endereço parisiense. Durante todos os anos que morei em Paris estive no mesmo lugar, uma quitinete minúscula (14m2), mas em um bairro nobre, cercada por famílias francesas elegantes. Hoje moro na periferia de Paris, mas embora o município de Aubervilliers seja colado à cidade, é um mundo completamente diferente. Em 2013 esse município foi declarado o quarto mais pobre da França inteira, com 42% da população vivendo na pobreza. As condições de vida aqui são ainda mais difíceis hoje, pois cerca de 2 mil refugiados e migrantes se encontram na rua, na fronteira desse município com Paris. Felizmente a prefeita, Meriem Derkaoui, comunista e filha de um argelino com uma marroquina, parece estar fazendo uma boa administração. E, algo que achei bem bacana, recebe a população em seu gabinete todas as sextas-feiras à tarde. Só chegar e trocar uma ideia com ela. Mas Aubervilliers é uma cidade de indústrias, onde a maior parte da população é operária, e as condições de trabalho e de vida continuam bem difíceis.

Isso tudo pra dizer que estou feliz aqui. Não sabia se ia gostar de voltar a morar em Paris e talvez justamente por não estar morando em Paris, mas num município vizinho, com uma população em sua maioria proletária e imigrante, mas organizada e politizada, estou começando a me sentir em casa. O fato de ter alugado um apartamento cheio de luz, no décimo oitavo andar de um alojamento social, na base da solidariedade e ajuda entre mulheres LGBT, me deixou ainda mais feliz.

Consegui, enfim, desfazer a mala e me assentar por um tempo. E acho que estou exatamente onde deveria estar agora.