Reflexões olhando uma coité

Na frente da casa onde moro hoje, aqui em Natal, tem uma coité (ou “cuieira”, se você é do Norte). Essa árvore, que já foi muito importante, se tornou rara por essas bandas, então quando visitei a casa pela primeira vez e descobri uma coité no jardim da frente e outra no quintal, me encantei. A da frente da casa é a maior e com a forma mais bonita. Seus galhos longos, cobertos de folhas até as pontas, se esticam pros lados, como se a árvore estivesse se espreguiçando. Os mais baixos quase tocam a terra. Pra completar a minha alegria, ela frutifica muito e vive cheia de lindas cuias, algumas muito grandes. É um deleite pros olhos ter essa escultura viva embelezando o jardim. E como a separação entre a minha casa e a calçada não é feita por um muro, mas sim por uma grade de ferro, minha coité também enfeita a vista de quem passa pela rua. 

Acontece que quase ninguém mais reconhece uma coité por aqui e isso causou algumas situações engraçadas.

Da mesa da sala, de onde trabalho na maior parte dos dias, eu vejo o jardim, a coité e também quem passa pela rua. Pouco tempos depois de ter me mudado pra cá escutei uma criança, que ia passando com o pai, perguntar o que eram aqueles frutos. Depois de refletir por um tempo, o pai disse que era fruta-pão. De dentro da sala, eu ri. A árvore que dá fruta-pão é imensa, com folhas muito grandes e rasgadas, lindíssimas! Mas pouca gente na minha cidade já viu uma árvore de fruta-pão, é verdade. Pensei em gritar daqui de dentro que aquilo eram “cuias”, mas não foi necessário. Um senhor idoso, vindo de um tempo onde a coité ocupava um lugar mais importante, passou naquele momento e desfez o mal-entendido. Desde então essa cena se repetiu outras vezes, com algumas variações. Pessoas passam pela minha casa e param, intrigadas, observando a coité. Se eu estiver no jardim, me chamam pra pedir explicações.

Dias atrás aconteceu de novo. Eu estava plantando umas mudinhas quando uma mulher, acompanhada do seu cachorro, me chamou no portão e disse: “Eu passo aqui todo dia e fico olhando pra essa árvore. Por favor, mate a minha curiosidade e me diga o que é isso aí!”.

Quando chamo um carro de aplicativo é quase certeza o motorista perguntar o que é aquilo crescendo na frente da minha casa. Sempre respondo assim: “Sabe a expressão ‘de mala e cuia’?” – onde moro todo mundo sabe – “Pois avalie, jovem, que isso aqui é um pé de cuia! Você pode chamar de ‘cuieira’ ou de ‘coité’.” Gosto de imaginar os motoristas chegando em casa e contando pra alguém o que aprenderam naquele dia: “Vi um pé de cuia pela primeira vez hoje! Cuia, como na expressão “de mala e cuia”, sabe?”

Se você não sabe do que estou falando, explico. Chegar “de mala e cuia” significa chegar com todos os seus pertences, logo, “chegar pra morar”. Exemplo: “Viesse passar quanto tempo em Natal?” “Dessa vez vim de mala e cuia!” E pra que serve a cuia? Antigamente ela era o prato onde se comia em casa e também a marmita pra levar o almoço pra roça (com um pano de prato amarrado ao redor, que além de protejer a comida facilita o transporte). Por isso coités eram tão importantes por aqui: elas ofereciam esse utensílio indispensável.

Felizmente ainda tem quem valorize as cuias. Um dia um senhor me chamou no portão e perguntou se eu venderia uma cuia pra ele. Respondi que não venderia minhas cuias: daria de presente quantas ele quisesse! Ele escolheu uma bem grande e saiu feliz da vida. Depois voltou umas semanas depois pra pedir outra. Foi ele quem me ensinou a preparar o fruto pra que ele se tornasse um utensílio. Graças a ele fiz várias cuias e utilizo bastante. Teve também um rapaz e uma moça que me chamaram no portão, me explicaram que eram do candomblé e que faziam instrumentos musicais com as cuias, pra tocar nos rituais. Me pediram uma e perguntaram como fazer pra ter um pé no terreiro. Fico muito feliz quando posso compartilhar cuias com a vizinhança. 

Mas a verdade é que, de acordo com minha pesquisa altamente rigorosa que consiste em conversar com motoristas de carro de aplicativo e escutar a conversa de passantes, pouquíssima gente saber reconhecer uma coité. Deixa eu contar uma história que mostra o ponto de “iletramento da natureza” em que chegamos. 

Semanas atrás abri o portão pra receber uma encomenda e o entregador, depois de me entregar o pacote, perguntou se aquilo era coco. COCO! Se morássemos num lugar do Brasil onde não tem coqueiro, eu até poderia entender. Mas estamos em Natal! No Nordeste! Coqueiro não falta por aqui. Inclusive tem alguns no meu quintal, que podem ser vistos da rua, e mais uma ruma do outro lado da rua. Respondi: “Que é isso, irmão! Nunca visse um coqueiro?” e mostrei o coqueiro mais próximo que fica, juro, a 20 metros do meu portão. Ele disse, apontando pra uma cuia: “É que isso aí é redondo e verde, que nem coco.” 

Me dá tristeza constatar, de novo e de novo, o quão alienadas estamos das outras formas de vida que nos cercam. Percebi isso enquanto guiava crianças da periferia de Paris pelos Jardins Operários. Eu ia mostrando as árvores frutíferas e os pés de verduras e pedindo pras crianças adivinharem e elas quase nunca acertavam. E isso acontece em muitos lugares. Tenho um sobrinho de 20 anos que mora na mesma rua que eu e quando o meu irmão mostrou o pé de romã no quintal da casa nova -cheio de romãs- e perguntou se ele sabia o que era aquilo, meu sobrinho chutou: “Cebola?”

Essa alienação afeta o nosso destino coletivo. Fica mais fácil pros “comedores de mundo” (expressão que aprendi com Davi Kopenawa Yanomami) destruirem a trama de existências que sustenta a vida no planeta quando já ninguém mais se importa com elas. Não se defende aquilo que não sabemos que existe. Não cuidamos do que não conhecemos.

Isso nos afeta também de maneira individual. 

Fiquei com pena daquele entregador (e das crianças da periferia de Paris e do meu sobrinho). Juro que não é condescendência! Não me sinto nem um pouco superior por saber diferenciar uma coité de um coqueiro (e ambos de um pé de fruta-pão): me sinto mais feliz. Eu sei, e essa é uma verdade que habita o meu corpo, não que aprendi em algum livro, que viver alienada das outras espécies, vegetais e animais, empobrece a experiência de existir nesse mundo.  E meu desejo é que todas as pessoas tenham uma existência rica.

Não consegui fotografar a coité inteira com minha câmera, que não é uma grande angular, então fiquem com uma foto menos bonita feita com o telefone.

7 comentários em “Reflexões olhando uma coité

  1. Moro no Rio, e no Jardim Botânico daqui temos uma cuieira. Um luxo! (Mas não é tão grande e bonita como a da frente da sua casa.) Eu levei muitas turmas de crianças para as quais eu dava aulas para conhecer o Jardim Botânico e sempre foi um deslumbre. O contato com a diversidade das espéciesvegetais e com a grande quantidade de pequenos animais livres e felizes com a fartura de alimentos disponíveis era oportunidade de muita aprendizagem e conexão com a natureza. E a coité também despertava muita curiosidade! Acho que a educação das crianças precisa promover essa expansão da experiência de existir nesse mundo, como você explica tão bem. E que bom que o menino que passou pela frente da sua casa perguntou ao pai o que era aquilo, e que bom que havia por perto o senhor mais velho que sabia a resposta! Quantas conversas podem começar ao redor de uma árvore…

  2. Ah, que legal, obrigada por esse recito tão interessante, Sandra. Cresci no Rio Grande do Sul. Pra mim, cuia sempre foi o recipiente no qual se toma o mate (mas nossa cuia cresce em uma planta da família da abóbora, o porongo). Então, quando eu ouvia a expressão de “mala e cuia” sempre imaginava que era pra poder levar o chimarrão – bebida indispensável – para onde quer que a gente fosse 🙂

    1. Nunca tinha pensando na cuia do sul… Olha, acho que embora a nossa cuia seja diferente da sua, ambas sÃo (eram) igualmente importante, então podemos combinar que a expressão se adapta. Cada qual leva a sua cuia 😉

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