A colheita de azeitonas durante o tour

Continuando o relato do Tour Papacapim na Palestina de outubro, dessa vez teve uma atividade que não fez parte da programação do ano passado: colher azeitonas. Outubro é a época da colheita de azeitonas aqui na Palestina e é, na minha opinião, o melhor mês pra estar aqui. Eu não sabia nada sobre o cultivo de azeitonas nem sobre a produção de azeite até ter me mudado pra cá, em 2008. Fiquei encantada quando descobri a parte fundamental que a oliveira tem na cultura e na vida dos palestinos. Talvez o mais impressionante pra mim foi descobrir que não existem ‘cultivadores de azeitonas’. Como oliveiras precisam de pouquíssimo cuidado e só recebem água da chuva, os ‘donos’ das oliveiras têm todos uma profissão, que eles exercem durante as outras cinquenta semanas do ano. Durante duas semanas, no início ou no final do mês (de acordo com o amadurecimento das azeitonas), professores, médicos, pedreiros, advogados, estudantes, psicólogos, sociólogos, eletricistas, cozinheiros… todos largam temporariamente suas ocupações e vão pro campo. A família inteira, muitas vezes três gerações juntas, participa da colheita. Uma parte das azeitonas será marinada durante várias semanas e elas serão degustadas acompanhando o café da manhã típico daqui. Mas a maior parte delas vai ser prensada e virará azeite, que aparece na mesa familial durante o ano inteiro.

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Aqui na Palestina a maioria das famílias tem oliveiras, que passa de geração em geração. Oliveiras são árvores de crescimento lento e elas vivem séculos. Não é raro ver oliveiras de 600, 800 anos (!!!!) aqui em Belém. E elas continuam dando frutinhas ano após ano. Algumas árvores têm mais de mil anos e a mais antiga do país tem mais de 4 mil anos. Quando a gente descobre isso entende porque os palestinos são tão apegados às suas oliveiras. Eles as receberam dos seus antepassados e será a herança que eles deixarão pros seus filhos.

Infelizmente desde o início da ocupação na Palestina, que começou em 1967, Israel destruiu mais de 800 mil oliveiras, afetando mais de 80 mil famílias. Isso representa uma perda de 12,3 milhões de dólares por ano. Oliveiras são arrancadas pra construçāo das colônias ilegais israelenses nos territórios palestinos, pra criar ‘zonas militares’, pra ceder o espaço pro muro de separação, também ilegal…  E se isso não fosse triste e revoltante o suficiente, todos os anos os colonos israelenses fazem o possível pra impedir as famílias que ainda tem oliveiras de colhe-las. Em Hebron uma senhora palestina nos explicou que os colonos roubam as azeitonas das árvores durante a noite. Por toda a Cisjordânia colonos colocam fogo nos campos e nas árvores, agridem fisicamente os palestinos que fazem a colheita, em alguns casos causando ferimentos graves e até a morte. Quando os soldados israelenses chegam nos locais, ao invés de oferecer proteção aos palestinos vítimas das agressões dos colonos israelenses, na melhor das hipóteses eles não fazem absolutamente nada, na pior, eles prendem os palestinos.

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Por isso todos os anos os palestinos fazem um pedido ao voluntários estrangeiros: acompanha-los durante a colheita. A presença de gente de fora não impede que os colonos israelenses agridam os palestinos, nem que eles destruam suas oliveiras, mas pelo menos faz com que o exército se comporte um tiquinho melhor e os palestinos acabam se sentindo um tiquinho mais protegidos. A solidariedade internacional nesse época do ano, que é tão importante pros palestinos, é extremamente bem-vinda. Por isso levei o grupo pra colher azeitonas com uma família daqui da região de Belém. As oliveiras da família ficam do lado de uma estrada utilizada pelos colonos e todo ano eles causam problemas. No dia em que estivemos no campo, ajudando a família, foi tudo tranquilo e não fomos perturbados pelos colonos nem pelo exército. Foi um dia lindo e cheio de alegria, como vocês podem ver nessas fotos. E colhemos 100 kg de azeitonas (três árvores e meia)! E segundo as crianças da família que estávamos ajudando, Nadja ganhou o prêmio da melhor ‘colhedora’ de azeitonas do grupo. Em algumas das fotos dá pra ver uma mancha vermelha por trás da folhagem ou em cima das oliveiras. É ela!

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Falei mais sobre a colheita de azeitonas na Palestina nesse post e mostrei como o azeite é feito nesse outro post.

10 comentários em “A colheita de azeitonas durante o tour

  1. Bacana demais vc estar indo a um pais desconhecido e se integrar à cultura local;isso sim ,na minha opiniao é VIAJAR! De todos os modos,Papacapim,vc é muita pessoa muito diferente e especial!Desconhecia este tipo de agressao aos cultivadores de oliveiras em Israel,triste!

    1. Marinez, os cultivadores de oliveiras são palestinos e as agressões acontecem dentro da Palestina. Como o nome indica, o tour que organizo é inteiramente na Palestina, não visitamos Israel em momento algum.

  2. Sandra, visitar esse seu cantinho e aprender com a riqueza de sentimento o que você expõem me emociona.
    Você consegue nos mostrar pessoas ‘reais’ e situações tão vivas que nos aproxima destas pessoas e me faz sentir como se estivessem aqui ao meu lado, como vizinhos!
    Uma cultura tão diferente da nossa e lutas diárias que não imaginamos, nos tiram o olhar do umbigo para pensar no que acontece além do horizonte…
    Você é uma linda <3
    Beijos de carinho

  3. Muito interessante a história da colheita. Uma pena as pessoas, trabalhadores sofrerem este tipo de agressão. Porém é mais um motivo para valorizarmos ainda mais este fruto e seus derivados.
    Parabéns pela matéria e obrigada por compartilhar com a gente.

  4. Oi Sandra! Sou uma feliz leitora e fã de suas histórias – e receitas, claro. Estou muito interessada no tour vegano que vc fará em 2017, mas vc não pensa em fazer um em outubro? Participar de uma colheita de azeitonas seria algo inesquecível… Um abraço

    1. Oi, Stella
      A colheita de azeitonas é realmente um momento mágico, mas por enquanto só vai ter dois tours em 2017, em fevereiro e março.

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