E se, na gramática, o genérico fosse feminino?

Sempre soube que a maioria das pessoas que acompanham o meu trabalho é mulher. Não tenho como saber exatamente quem é quem me lendo aqui no blog, mas no Instagram isso é possível e adivinha?  Menos de 15% das pessoas que acompanham o meu trabalho lá são homens. 

Naomi Mayer, cozinheira, cientista social e mestranda em antropologia, levantou uma questão importante essa semana no perfil dela no Instagram (Fome de Entender): homens têm dificuldade em aprender com mulheres. Quando perguntei às amigas que também produzem conteúdo informativo na internet, a resposta foi a mesma: o público delas é quase exclusivamente feminino.

Então estava eu indagando, como é meu costume, sobre essas coisas quando recebi uma mensagem de um dos representante dos 14,5% no meu perfil. Ele dizia o seguinte: “Percebo que você (quase) sempre se refere ao seu público no feminino. Talvez porque seu público seja majoritariamente feminino ou porque você queira se dirigir somente às mulheres, não sei. Talvez homens não se sentem incluídos? Talvez, só fiquei aqui pensando que possivelmente isso pudesse influenciar no tipo de publico que te acompanha.”

Não é verdade que eu “quase sempre me refiro ao meu público no feminino”. É sempre, mesmo. E, contrariamente ao que o autor da mensagem sugeriu, não é porque meu público é, na sua maioria, feminino. Nem porque quero me dirigir às mulheres. Essas duas sugestões merecem ser analisadas mais na frente, mas de cara deixa eu explicar o seguinte.

Eu escolhi usar o feminino como neutro. A gramática do Português (e aqui me refiro à gramática aprendida na escola, pois “gramática” pra nós, linguistas, é outra coisa) ensina… Ensina, não. Dita. A gramática dita que na língua portuguesa o gênero gramatical masculino deve ser usado pra representar homens e mulheres. É o “neutro”. Mas por que o gênero masculino seria mais “neutro” do que o feminino? 

No meu primeiro ano de universitária aqui em Paris eu fui babá de uma menina que estava sendo alfabetizada. Um dia ela voltou da escola muito contrariada. Antes mesmo de me cumprimentar ela falou: “Sandra, você sabia que se 100 meninas estiverem em uma sala e chegar um menino, um só, a gente vai ter que falar tudo no masculino?” Ela tinha acabado de descobrir o “neutro” na gramática e estava inconformada. Em Francês a regra é: “Le masculin l’emporte sur le féminin”. O que significa “O masculino prevalece sobre o feminino”. O que pelo menos tem a vantagem de explicitar o que é defendido aqui, ao invés de se esconder atrás de uma suposta neutralidade. 

O que mais me marcou foi o fato dela achar que eu, menina como ela, não sabia, já que na cabeça dela tamanho absurdo não podia existir com o nosso acordo. Ninguém tinha perguntado se ela concordava com isso e ela não entendia a existência de uma norma de gramática que afirmasse a superioridade dos meninos sobre as meninas. 

Não foi sempre assim em Francês. A regra foi criada no século XVII e dizia: “O gênero mais nobre se impõe quando os dois gêneros estão juntos.” Pois é. Nunca se tratou de “neutralidade”, sempre foi uma história de dominação. 

Tanto que em 2017 300 professoras francesas (olha eu usando o feminino pra expressar o plural de novo) assinaram uma carta aberta explicando que não ensinariam mais que “o masculino prevalece sobre o feminino” nas escolas. 

Uns anos atrás decidi que usaria o feminino pra me referir ao plural. Sempre.

“Mas Sandra, por que usar o feminino e não o neutro?”

A língua é um reflexo da sociedade e se ela avança, mudanças na “norma culta” são feitas. Acredito que o ideal seria realmente ter um gênero gramatical neutro, afinal se gênero na vida já é uma construção que serve os interesses do patriarcado, gênero gramatical é uma aberração total. O que faz uma cadeira ser “feminina” e um tamborete ser “masculino”? É tão arbitrário que coisas que são femininas em uma língua podem ser masculinas em outra. 

Mas mesmo acreditando que o ideal é o gênero neutro (ou a abolição de gênero gramatical), no momento eu prefiro usar o feminino pra expressar o plural. A razão é simples e está contida na mensagem que o rapaz me enviou.

Sabe quando ele falou que achava que eu usava sempre o feminino porque estava me dirigindo especificamente às mulheres que acompanham meu trabalho aqui? É sobre isso. Sobre homens verem uma frase no plural feminino e nem sequer cogitar que aquilo ali pode ser dirigido a eles. Afinal o “natural”, o “gramaticalmente correto” é que nós, mulheres, nos sintamos representadas pelo masculino, NUNCA o contrário. A segunda suposição dele, que eu usava o feminino plural porque queria comunicar especificamente com as mulheres, só reforça essa ideia de que é inconcebível pra um homem se sentir incluído ou representado num plural que é feminino.

Quando eu fazia os tours políticos na Palestina sempre escrevia tudo no feminino e perdi a conta dos homens que me escreveram perguntando por que homens não eram aceitos nos grupos. Veja que eu sempre falava tudo de maneira aberta, nunca dizia “mulheres”, e nada dava a entender que era um tour pra mulheres. Mas o plural estava sempre no feminino e isso era suficiente pra que homens concluíssem que eles não estavam inclusos naquele grupo. 

Na minha mente o plural feminino também está fazendo o acordo com “pessoas”, que é um termo neutro. Então se você, homem, se incomoda com o meu uso do feminino plural, pois não consegue se sentir representado pelo feminino, imagine que estou me referindo a pessoas. O que é a mas pura verdade. (A mesma coisa é válida pra pessoas não-binárias me lendo.)

Mas eu te pergunto, homem. Se isso sempre foi a regra pra mulheres e nunca te incomodou, por que o estranhamento no sentido inverso? 

Então é isso. Sou apoiadora da abolição de gênero na linguagem e do uso do neutro pra tudo, mas por ora acho necessário passar por uma etapa intermediária onde o plural e as colocações genéricas são construídas no feminino. Sempre. 

Não se trata de uma vingança, de um “agora o feminino domina o masculino!” E essa conversa não tem nada a ver com o gênero (ou a abolição dele) nas pessoas. Não é sobre não respeitar a escolha de pronomes de cada pessoa, isso é algo que não tem absolutamente nada a ver com o que estou falando aqui.

É sobre achar importante passar por uma etapa onde escolho conscientemente usar o feminino como plural e como não-específico pra tirar da zona de conforto aquela metade da humanidade que foi ensinada a se ver como representação do “neutro”. Pra incitar questionamentos e, espero, fazer avançar o pensamento. Quero que homens também adotem o neutro em algum momento, mas antes disso quero que eles se perguntem por que acharam tão “natural” isso do masculino prevalecer sobre o feminino e se questionem sobre a ideologia que criou essa regra gramatical.

8 comentários em “E se, na gramática, o genérico fosse feminino?

  1. Oi Sandra, descobri seu trabalho há poucos meses e estou aprendendo muito com o seu blog, muito obrigada! Também tive a mesma indignação da menina francesa quando descobri essa imposição. No meu caso, eu li um bilhete da escola cujo título dizia “Reunião de pais e mestres”. Perguntei à uma colega de classe o que era e ela me disse que era a reunião regular da nossa escola. Então eu pensei que estava errado, pois são as mães e as avós que vão, não os pais. Também não entendi quem eram “os mestres”. Fiquei (e continuo) inconformada quando me explicaram que o “certo” é escrever assim. Você resumiu muito bem ao dizer que não é sobre gênero neutro, sempre foi sobre dominação.

  2. Em uma cidade pequena do estado de São Paulo, minha vô materna tem 6 filhas e 1 filho, e a família chama essas pessoas de eles/filhos; sempre achei estranho chamarem assim e acho que poderiam chamar de elas/filhas/filhes.

    Me lembrou do vídeo As 5 fases do veganismo do canal Caca Souza, a apresentadora do canal começa o vídeo assim: Virei vegane e agora. Algumas pessoas comentaram nesse vídeo que o certo é vegano ou vegana, mas elas não entenderam que ela quis falar em gênero neutro.

    Também, me lembrou que no esperanto, o único artigo definido (para masculino, feminino, singular e plural) é la. Sobre o esperanto, conheci um esperantista; e ele falou que o esperanto não é língua universal, porque não é língua de nenhum povo e os países que foram/são potências (como EUA, Reino Unido e França) não se interessam que todo o mundo fale esperanto.

    Você está certa no que você disse!
    Eu não acho ruim você usar o gênero feminino/neutro!

  3. Tento ao máximo escrever de maneira neutra e se preciso de termos que acabem denotando gênero, uso no feminino.

    Outra coisa que me irrita profundamente: o uso de Homem como sinônimo de Humanidade. Outro sinal claro de dominação.

  4. Uma coisa que chamou muito minha atenção quando comecei a estudar espanhol foi o gênero das palavras água, sangue e leite, que é exatamente o inverso do português, sendo línguas tão próximas. E são os três líquidos mais importantes para a humanidade. Nascemos inundados deles…ou delas, por que não?

  5. Como alguém disse por aqui, voce sempre quebra os paradigmas na nossa cabeça… mas, se posso, 99% dos homens nao entendem que estao incluídos quando voce usa o feminino… assim como, 99% das mulheres tb nao… não nos é natural pensar assim.. foi ditado, como voce mesma referiu… beijo!

  6. Oi, Sandra. Eu também sou da área de Linguística e entendo toda essa questão. Eu entendia o plural masculino como neutro e já me questionei sobre isso, mas sem muito senso crítico até recentemente. Esses dias estava pensando no termo sujeito em referência à mulher, em expressões do tipo “a constituição da mulher como sujeito ” . Eu me senti bem incomodada por não ter o termo sujeita, aliás, tem, mas o sentido muda completamente, fica pejorativo. Então, sim, precisamos pensar em linguagem e representatividade.

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