Natal em Belém, Palestina

Eu não sigo nenhuma religião, mas passar o natal em Belém é algo especial, mesmo pra mim. Não é a data que me emociona, mas o lugar. Segundo contam por aqui, quando Jesus nasceu a estrela de Belém guiou os três reis magos até o lugar do nascimento. O caminho que eles fizeram virou uma rua, a rua da estrela. É nessa rua que moro. No lugar do estábulo hoje está a igreja da Natividade. Se eu caminhar até o final da minha rua, chego em frente à igreja. Gosto de caminhar devagarzinho, parando de vez em quando pra tocar com as pontas dos dedos as pedras que estão aqui desde aqueles tempos antigos. A foto acima é a minha rua, iluminada pro natal. Os reis magos não precisariam mais da estrela pra guia-los se passassem por aqui hoje…

Essa é a praça da Natividade, na frente da igreja do mesmo nome. O mais interessante é que tem uma mesquita do outro lado da praça, olhando a igreja.  Aqui cristãos e muçulmanos rezam lado a lado, depois vão tomar um café juntos na praça. As duas fotos acima foram feitas por Anne Paq.

No dia 24 de dezembro tem o tradicional desfile de natal, quando todos os escoteiros da cidade invadem a minha rua, tocando música durante horas. O mais impressionante são as gaitas de fole. Essas são algumas fotos do desfile, todas feitas por Anne.

Abaixo, palestinas vestindo trajes típicos, em frente à igreja da Natividade (outra foto de Anne). Hoje é raro ver mulheres usando esses vestidos no dia-a-dia, com exceção das senhoras idosas.

Mas é impossível esquecer que estamos em um país ocupado há mais de quarenta anos. Ativistas palestinos e estrangeiros se uniram pra alertar os turistas, que invadem a cidade nessa época do ano, sobre os crimes cometidos pela ocupação militar israelense contra o povo palestino. Aqui papai noel não estimula o consumismo, ele luta por uma causa justa. Free Palestine! (fotos de Anne)

Jesus é importante pro islamismo, então os muçulmanos também comemoram seu nascimento, embora de maneira bem mais discreta que os cristãos. Na véspera de natal organizamos um chá natalino com nossas amigas palestinas, na casa de uma delas. Se eu pudesse apresentar minhas amigas às pessoas que acham que mulher muçulmana é necessariamente submissa… Elas são fortes, abertas, algumas fumam, algumas não usam o véu, todas têm mestrado.

A noite jantamos com dois amigos, um francês e uma belga. Fiz (surpresa!) a tapenade e as tourtes de cogumelo e espinafre que sugeri no menu 4. Só a sobremesa foi diferente, pois não tem morango no inverno. Apesar do sucesso da receita com os meus convidados, ela não aparecerá por aqui tão cedo, pois acho que ninguém aguenta mais sobremesas com chocolate e banana nesse blog.

Tentei mostrar um pouco da magia de Belém nessa época do ano através dessas fotos, mas só andando por essas ruas, falando com os palestinos, pra sentir a alma dessa cidade tão linda, tão sagrada e tão castigada. Antes de ir, mais um fragmento do meu natal. Pensei em resistir, mas essa caneca papai noel, presente do meu amigo Tawfic  (o fornecedor oficial de especiarias e grãos do papacapim), implorou pra aparecer por aqui.

Essas bochechas…

26 comentários em “Natal em Belém, Palestina

  1. Sandra, fui criada na igreja católica. Minha mãe era cantora lírica e cantava lindamente, em latim, no coral da igreja do meu bairro.
    Dessa maneira, é claro, que até ‘anjinho’ já fui nessas apresentações natalinas.
    Mas, depois que cresci perdeu-se um pouco do encanto das igrejas para mim, num dia em que, depois de uma missa em que o padre disse que a Igreja era a Casa de Deus e eu não entendi porque a Casa de Deus não abrigava as pessoas e animaizinhos que viviam ao relento…
    Bem sem me estender (ainda mais! rs), digo que hoje acredito numa Força Maior; no Universo que conspira; no nosso Pensamento Positivo!
    E disse tudo isso para chegar ao que realmente me fez escrever: Você me emocionou muito com este post sobre a rua em que mora, sobre a Natividade. Sempre tive vontade de passar por aí. Acho que deva ser, independente da crença de cada um, uma experiência emocionante.

    Obrigada pelas maravilhosas sugestões de Natal. Você esteve presente na minha mesa e dos meus filhos este ano.

    Saúde, Amor, Paz e Bem para você e Anne. Sempre!
    Muito carinho,

    Luciana Cortazio.

  2. Pôxa…..deu saudades da época que estava por Gaza e fui passar o Natal aí!!! Muito obrigada por postar essas fotos! e, FREE PALESTINE!!!!!

  3. Conheci Belém em novembro deste ano, o lugar onde Jesus nasceu realmente é encantador. Acho que ninguém que pisa nessa terra consegue esquecê-la. O guia da nossa excursão dizia: “Em Belém todo dia é Natal”, e foi assim que eu me senti. Nem o “muro da vergonha” consegue apagar o encanto de Belém.
    Comecei a acompanhar o papacapim por causa das receitas veganas, mas saber que autora mora em Belém o deixou ainda mais especial!

    1. Que bom que você viu o “muro da vergonha”, pois tem muito turista que passa por aqui e nem percebe essa aberração (acham que é uma mera fronteira). Espero te ver outras vezes por aqui.

  4. Colega,
    Preciso mesmo conhecer um pouco mais dessa história… E visitá-la tb 🙂
    Em Belém tb há comemorações do Hannukah?
    Ei, quem te disse que não há mais espaço para sobremesas de banana e chocolate?
    Bjs

  5. SUA POSTAGEM SOBRE O NATAL NA PALESTINA ME DEIXOU EMOCIONADA, ALÉM DE MOSTRAR ÓTIMAS FOTOS E SER UM BELO TEXTO É BASTANTE OBJETIVO, QUE EVIDENCIA A REALIDADE DO LOCAL ,RESSALTANDO TB O ASPECTO CULTURAL DAS MULHERES PALESTINAS,

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    UM ABRAÇO FRATERNO, COM VOTOS DE MUITAS REALIZAÇÕES NO NOVO ANO
    FATIMA YASBECK ASFORA

    e-mail: y.asfora@terra.com.br

  6. Boa tarde Sandra,
    Sou frequentador do seu Blog, gosto das suas receitas e materias, ao qual posto na página do facebook do nosso grupo Ganapati.
    Estou lhe escrevendo para endossar o convite que vc recebeu do Grupo Estado da Palestina, através de Fatima Yasbeck Asfora, que ficou encantada com a sua postagem “Natal em Belém/Palestina”.

    Abraço fraterno,
    Romero Câmara

    1. Romero, fiquei muito feliz com o convite de Fátima e já escrevi pra ela aceitando. Eu não tenho facebook, mas podemos manter contato por email. Já falei pra Fátima e vou repetir pra você, se vocês precisarem de artigos e fotos da Palestina pro site, podem contar comigo. Abraços

  7. Obrigada pelo extraordinário presente: a sua rua, o caminho percorrido pelos Três Reis Magos, a Igreja da Natividade,,ugar sagrado, antes manjedoura, onde nasceu o Menino Deus. No seu texto,além de focalizar a magia do lugar,vocêdeu pinceladas sobre os aspectos político culturais da nossa Palestina. Não a conheço,lamentavelmente, ,mas o seu texto com as fotos belíssimas,todo ele impulsionou a minha alma para esse lugar e senti como se estivesse caminhando em direção ao lugar onde há mais de 2000 anos naceu o Divino/Homem que tornou o nosso mundo interior e exterior viável pela força do Amor.

  8. Estive aqui para buscar aquela receita maravilhosa do pão integral e centeio, mas quem consegue entrar/pegar receita/sair?

    Reli vários posts e morri de rir das suas colocações em muitos deles.
    Não bastava ter uma criatividade gastronômica invejável ainda tem um senso de humor aguçadíssimo!

    Sandra, geograficamente você mora onde eu amaria estar/conhecer.
    E ainda por cima na rua da Estrela?
    Sua estrela brilha minha amiga…
    Crenças e misticismos a parte, imagino a energia que corre por esta rua.

    Como acontece aí na Palestina o apelo ao consumo na época do Natal?
    Entendi que ha um movimento de ativistas palestinos e estrangeiros aproveitando um maior fluxo de turistas na cidade para uma conscientização à libertação do estado da PAlestina.
    A população civil é engajada nesta luta?

    Você falou de suas amigas mulçumanas e lembrei-me de um vídeo que assisti de um pai (palestino) acompanhando a reabilitação de uma filha de 6 anos vítima de uma explosão onde só quem sobrevivera forarm os dois. Mostrava toda a sua dedicação desde estimulá-la nos exercícios, até fazer penteados e pintar as suas unhas; o modo carinhoso como ele se referia a ela quebrou aquela imagem de que o homem palestino seria sempre um indiferente às necessidades femininas.

    Puxa, as senhoras idosas da Palestina são bem transadas hã!? Achei as roupas muito legais!
    Adorei as fotos do jantar, curto cada detalhe do açucareiro(?), copo, petisqueiras, banco, mesinha de apoio…
    Também as ruas de belém, muros de pedras, chão de pedras, formato das janelas, portas…

    Quero desejar-lhes que 2012 seja um ano de muitas conquistas, vitórias!

    Grande abraço *)

    1. Flor, você sabe que o convite pra me visitar aqui continua de pé.
      Sim, a população civil é muito engajada por aqui (não teria como ser diferente). O movimento de resistência popular não violenta cresce mais a cada dia que passa. Uma pena esse tipo de notícia não chegar na mídia brasileira. O açúcareiro que você mencionou é o de prata? Sim, é um açucareiro, mas não estava no jantar aqui em casa e sim no chá com minhas amigas. A dona da casa, minha amiga Azhar, tem esse conjunto de chá lindo, de prata pura (nem te conto o peso). Um abraço e tudo de bom pra você.

      1. Mesmo que as notícias não cheguem até a nós é um alento saber desta “luta pacífica” gerada por uma conscientização popular.
        Sim Sandra, vontade é o que não me falta em pisar em terras Palestinas e seu convite me cai muito docemente, dá até pontadinha no coração. Espero que quando chegue a oportunidade de fazer a viagem dos meus sonhos consiga também estar encontrando vocês.
        Muito obrigada.
        É ele mesmo, o açucareiro rendado fazendo conjuntinho com o porta-copo, lindos!!!

        Beijos e PAZ*)

  9. Já estive em Belém em 2012, fiquei muito triste em perceber que Jerusalém e Belém são separada por um muro, saber que a cidade que Jesus nasceu e a outra onde foi morto e sepultado não tem acesso livre. Amei saber que os palestinos também comemora o nascimento do Senhor Jesus.

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