Só pela subversão

Salada de funcho, toranja e tâmara

Desde que me mudei pra cá vi coisas extraordinárias acontecerem. Poderia escrever um livro (um dia, quem sabe), mas me contento, por hora, de escrever um post.

Alguns dias atrás minha grande amiga Johanna, que mora em Tel Aviv, ligou dizendo que tinha um amigo israelense precisando da minha ajuda e que era urgente. Ela não tinha tempo pra explicar, mas ele podia contar tudo direitinho. Fiquei surpresa, mas disse: “Pois não, pode falar pra ele me telefonar”. E fiquei matutando sobre esse pedido estranho. Por que cargas d’água um rapaz que não me conhecia precisava de minha ajuda? Conhecendo os amigos ativistas de Johanna, torci pra que não fosse algo ilegal, mesmo sabendo que meu espírito subversivo se deixaria convencer de qualquer coisa. Só confessei isso porque minha mãe não lê o blog e se lesse não entenderia, pois ela não sabe o que significa “subversivo”.

Poucos minutos depois o telefone tocou e essa foi a história que o amigo de Johanna me contou. Esse israelense judeu de Jerusalém, que chamarei de O., tinha um namorado palestino muçulmano, que chamarei de F.. Os dois se conheceram pela internet e namoram há algum tempo. Vou abrir um pequeno parêntese pra fazer algo que jurei nunca fazer aqui no blog: falar da ocupação israelense na Palestina.  Misturar comida com política pode dar indigestão, mas dessa vez não posso evitar. Os territórios palestinos estão hoje divididos entre a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental, todos sob ocupação e controle militar total israelense desde 1967. Um palestino de Belém (Cisjordânia) não pode entrar em Jerusalém Oriental, a menos que tenha uma autorização do governo israelense e é proibido de entrar em Israel. Israel também proíbe os civis israelenses de entrar nos territórios palestinos, ou seja,  nem O. pode visitar o namorado na Palestina, nem F. pode visitar O. em Jerusalém. O. entrou várias vezes (de maneira ilegal) na Palestina e sempre ficava hospedado na casa de F. A família de F. não tem nada contra os israelenses (como disse mais acima, é o próprio governo israelense que proíbe seus cidadãos de entrarem na Palestina, não os palestinos) e sempre receberam O. de braços abertos. Isso, claro, porque não sabem que ele é o namorado de F., eles acreditam que ele é só mais um amigo. A sociedade palestina ainda é extremamente conservadora e homossexualidade é um tema tabu por aqui. Já a família israelense de O. aceita o fato dele ser gay sem problemas, mas não sabe que O. tem um namorado palestino. Ser homossexual é algo tolerável, mas namorar o “inimigo” seria considerado uma alta traição na família dele. No dia anterior O. tinha pedido o carro dos pais emprestado, entrado (ilegalmente) na Cisjordânia e levado o namorado palestino pra Jerusalém (ilegalmente). Os dois acabaram sendo presos na mesma noite e por um milagre F. foi solto depois de apenas algumas horas de interrogatório. Palestinos que entram ilegalmente em Jerusalém ou em Israel podem ficar vários meses na cadeia israelense. Depois do ocorrido os pais de F. ficaram com medo de hospedar O., pois a poucos metros da casa tem duas torres militares israelenses e os soldados estão sempre rondando as terras da família. Se eles suspeitarem que tem um israelense na casa, toda a família pode ser acusada de ter “sequestrado” um israelense e será presa (não, infelizmente não é piada). Depois que F. foi detido em Jerusalém os soldados aparecem com mais frequência e a família teme pela segurança de seus membros. Por isso pediram que O. não viesse mais ali, para o seu próprio bem e para o bem de toda a família. Então naquele momento eles estavam na rua, precisando conversar pra resolver essa situação e querendo passar um pouco de tempo juntos, já que talvez essa fosse a última vez que eles se encontrariam. Entendi então por que O. precisava da minha ajuda e fiz o que qualquer pessoa com um pouco de sentimento e um muito de irresponsabilidade teria feito no meu lugar: convidei os dois pra passar a noite aqui em casa.

Eles chegaram por volta das sete da noite e eu ofereci chá, jantar, orelhas, conselhos e o colchão de hóspedes. Eles me contaram como se conheceram, o pesadelo da noite anterior, passada em uma delegacia de Jerusalém e como se sentiam perdidos. O., o israelense, faz teatro por paixão e faxinas pra pagar o aluguel. F., o palestino, é professor de Inglês em uma escola secundária, mas fez questão de dizer que O. ganha mais fazendo faxina do que ele ensinando.  Eles são dois dos rapazes mais doces que já tive o prazer de conhecer. Depois do jantar deixei os dois deitados (espremidos seria o termo adequado) no meu colchãozinho que já é pequeno pra uma pessoa sozinha, imagine então pra dois rapagões de mais de 1.80m. Antes de subir pro meu quarto passei pela sala pra dar boa noite e vi os dois abraçados naquele colchão estreito, conversando baixinho e sorrindo. Deitada na minha cama pensei nos riscos que nós três estávamos correndo (que não vou citar aqui porque imagina se minha mãe decide ler o blog!), mas o que predominava era a esperança que crescia no meu peito. Apesar de todos os check points, do muro, da propaganda e estratégias desenvolvidas pra que esses dois povos nunca se encontrem, pois é mais fácil justificar a necessidade de uma ocupação se o povo que ocupa não conhece o povo ocupado, apesar de todos esses obstáculos eles conseguem se encontrar. E se apaixonar. Israel e Palestina estavam se amando na minha sala. Ainda era possível ter esperanças.

Eles foram embora na manhã seguinte, cada um pra um lado diferente da fronteira. Depois de agradeceram a hospitalidade pela décima vez eu respondi “Imagina! Eu tenho que ajudar o meu povo”. Mas sei que mesmo se eu não fizesse parte desse “povo” eu teria ajudado os rapazes da mesma maneira. Só pela subversão.

Salada de funcho, toranja e tâmaras

Detesto publicar receitas que só pouca gente pode fazer, mas essa foi a salada que servi durante o jantar quando O. e F. estavam aqui e desde então ela me faz pensar neles. Funcho, também conhecido com erva-doce,  é um vegetal engraçado e com gosto de anis (veja foto acima). Toranja é uma laranja maior e mais amarga. Nessa receita ela pode ser substituída por laranja, mas gosto do amargor da toranja junto com a doçura das tâmaras. Essa receita também serve pra explicar como cortar gomos de laranja/toranja sem pele e sem sementes pra usar em saladas (ou tortas), então entre uma história, uma técnica e uma receita, todo mundo vai achar algo interessante nesse post.

1 funcho médio (erva-doce)
1 toranja (ou 2 laranjas pequenas)
1 tâmara
Azeite, sal e pimenta do reino

Corte o funcho em fatias finíssimas, depois pique bem miudinho. Corte a toranja, ou as laranjas, como mostrado nas fotos abaixo e misture com o funcho picado. Esprema a “carcaça” da toranja (com a mão) sobre a salada. Corte a tâmara em pedaços bem pequenos e junte à mistura funcho/toranja. Regue com um fio de azeite, tempere com uma pitada generosa de sal e pimenta do reino a gosto. Se quiser, decore com as folhinhas verdes do funcho. Rende 2-3 porções.

Corte uma fatia do topo e da base da fruta, expondo a polpa.
Retire a casca das laterais da fruta, seguindo seu contorno arredondado (você vai precisar de uma faca afiadíssima).
Toranja pelada.
Corte fatias da fruta, liberando os gomos. A pele branca funciona como paredes,  separando os gomos, e a faca deve passar o mais próximo possível delas.
Gomos sem pele e sem sementes (retire-as com os dedos) e a “carcaça” da fruta do lado.

42 comentários em “Só pela subversão

  1. Sandra. Fiz ontem uma transferência no Banco do Brasil para receber teu e-book. Mandei um e-mail num endereço que havia no site do Vista-se hoje pela manhã. Não sei como recebo. Me mandas por e-mail? Estou ansiosa para recebê-lo. Beijo

  2. Raquel, seu livro já deve estar na sua caixa de emails. Mais uma vez obrigada.

    Stella, obrigada pela dica. Eu só vim conhecer esse vegetal aqui, tive que perguntar o nome dele ao google, que sabe de tudo:-)

  3. Que linda história.
    Adorei seu blog. É militante na medida (amigável para não vegans, como eu) e tua história é linda!
    Fale sim sobre política! A questão é importante, e de vez em quando não vai fazer mal não.

    Paz pra vcs aí

    1. Os não vegs são muito bem-vindos no Papacapim. Tenho medo de começar a falar da política no Oriente Médio e a coisa tomar proporções descontroladas e acabar ofuscando o tema principal desse blog, que é culinária vegetal. Mas vou tentar liberar uns fragmentos políticos de vez em quando, se niguém for contra. Mas claro que uma das coisas mais políticas de todas já é tratada aqui: comida. Comer é um ato político!

    1. Menina, você me descobriu! Sim, a Sandra Guimarães do texto sou eu. A jornalista da Folha me contactou alguns dias atrás perguntando um monte de coisa sobre a chia. Ficou bacana a matéria. Obrigada pelo aviso:-)

  4. Gente…

    você é dona da bolha!!! (Vide http://www.imdb.com/title/tt0476643/plotsummary)

    Na minha família, um bocado de gente teve de passar tempos fugindo por conta de ser “subversivo”. Naquele tempo, era o comunismo. Colocar o seu colchãozinho abençoado à disposição dos rapazes foi a subversão mais espraliciosa dos últimos tempos.

    PS.: Estou devendo um email, mas é por causa de muito trabalho nas últimas semanas. Vou ver se uso o carnaval pra me corresponder com essa Terra Sandra. Beijos

  5. Voltei e li o post!
    Dois corajosos apaixonados e vc, outra corajosa envolvida.
    Se ter um relacionamento é ter altos e baixos, com eles ainda tem a política, o preconceito, o medo de serem presos ou sofrerem violência…é triste esse tipo de coisa ainda existir, mas ainda bem que há pessoas como vc, que tem o coração aberto e ajudam tanto assim!

    Sobre a receita, eu acho essa fruta toranja linda, mas nunca experimentei.

    E imaginei que a matéria da Folha era vc mesmo 🙂

      1. Hahaha!! Se realmente for igual ao Chapolim, aí sim que devemos nos preocupar!!

        De toda forma, imagino como sejam difíceis as coisas por aí e como foi bonito o que vc fez! Espero que não seja a última vez que eles se vejam, e que um dia não precise mais ser escondido, na casa de uma “subversiva”!

  6. Parabéns pela atitude, antes de ser pela subversão, foi uma atitude de carinho e amor pelo próximo!!! São com atitudes assim que melhoramos o nosso mundo. Com pequenos fazemos a diferença!!!

  7. Nossa, ao terminar de ler a história de F.&O., me senti no final daqueles filmes que ficam com um final para ser concluído, suspenso no ar. Na expectativa de que algo bom tenha acontecido com eles. Daqui, fico na torcida de que eles possam se ver de novo em breve e curtir o amor que sentem um pelo outro 🙂

    Parabéns ninha, por acolher esse casal tão fofo.

    Xeru :*

  8. Oi Ninha, sou eu sua priminha Irinha, só to passando pra de elogiar é claro, a história é muito comovente e vc escrevendo dá ainda mais um ar de emoção, pois tudo em suas palavras tem o dom de comover quem lê; também gostaria de saber sobre toranja, que gosto tem mais ou menos? Achei a cor dele (ou dela) belíssima. Bj amor meu.

  9. Querida Sandra,

    virei fã do seu blog e vou comprar o livro tb. Vc já me salvou de ficar com fome quando adaptei a panqueca alemã conforme lembrava da sua receita, substituindo o ovo apenas por um pouco de maizena, quando fiquei na casa de uma amiga na Alemanha por 10 dias agora no fim de fevereiro. Assim sendo, já me sinto ligado a vc. Sou vegeta há uns 7 a 8 anos e vegano há 5 anos e apesar de não ter corrido todo blog sei que aqui tem muito do que preciso. Agora essa sua estória me pegou tanto que nem li ainda a receita (funcho = erva doce, que tb descobri o bulbo na Alemnha – do Brasil so conhecia a ramagem). Ser vegano é algo muito profundo e amplo, mas com certeza vc é uma vegana legitima, que concorre contra a tirania e opressão, dos animais e dos homens, com um sentimento libertário dos preconceitos de todo tipo, inclusive de gênero e orientação sexual. Veganismo é revolução… da mente e alma!

    Continue nos guiando!

    bjs

    Rômulo

  10. Olá!
    Seu blog foi indicado por um amigo. Adorei. Não sou vegano, mas gostei muito do blog.
    Você está de parabéns!
    Gostaria de saber se posso divulgar esse post no meu perfil do facebook (a história é realmente muito bonita).

    Um abraço,

    Roger.

    1. Roger, os não veganos são igualmente benvindos aqui no Papacapim:-) Claro que pode divulgar a história, fique à vontade. Peço somente que coloque um link pro post original (acho que no facebook é automático, né?).

      1. Eu tbm divulguei no Face e tbm não sou vegana, nem sequer vegetariana, mas devo confessar que por causa do blog (entre outras coisas) e suas receitas tenho comido muito menos carne. Adoro o blog! =)

    1. Ana, estou respondendo com vários dias de atraso, espero que você leia a minha resposta… Sempre tenho notícias de O. através da nossa amiga em comum, Johanna, e eles continuam juntos e felizes, sim. O. conseguiu levar F. várias vezes pra casa dele em Jerusalém (novamente cruzando ilegalmente as barragens militares israelenses) e graças aos céus eles nunca mais tiveram problemas com a polícia israelense. Não é uma situação estável, mas por enquanto é tudo que eles têm. Além do amor de um pelo outro, claro.

  11. Faz mais de um ano que acompanho seu blog e sempre há histórias super interessantes, que deixam o peito aquecido e reconfortado do lado de cá, contrapondo lindamente com as tristeza da anestesia, violência e covardia gerais que andam acontecendo pelo mundo… Só agora então escrevo um comentário, que na verdade é um elogio cheio de gratidão por você compartilhar tudo isso conosco.

    um grande abraço, com carinho.

  12. Oi, Sandra, há tempos leio teu Blog, ensaio comidinhas e me delicio com teu humor… Imaginar que deste aula na Aliança Francesa, aqui em Belém!!! Talvez sejamos primas de Xésimo grau, pois a família da minha mãe também é potiguar – de Ceará Mirim e adjacências… E eu também sou da Linguística.
    Gostei de ler esse post antigo, por essa salada, por tua delicadeza de espírito e por saber que tens um e-book. Aguardo a orientação para comprá-lo também. E, evidentemente, fiquei encantada com o post de hoje… e o anterior, e o anterior…
    Abração

    1. Eu dei aula na Aliança Francesa de Belém da Palestina, onde eu morava. Você também mora na Palestina, Leopoldina? Eu tenho dois ebooks e você encontra todas as informações na página ‘livros’, na parte superior do blog.

  13. Ainda estou encantada com a visão de Isarel e Palestina estarem simbolicamente se amando no chão da sua casa….No fim nem li a receita…rs…desculpe….
    Guerra estúpida….ninguém sabe quando começou e em pleno século XXI ainda impede as pessoas de serem felizes….

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