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Ela apareceu aqui no blog muitas luas atrás, em um dos meus posts preferidos de todos os tempos, que eu acho que todos deveriam ler. Mas Sahar é uma das pessoas mais interessantes que eu tive a sorte de conhecer e eu poderia entrevistá-la todo mês e ela sempre teria coisas inspiradoras e corajosas pra contar. E como ela é vegana há anos, ela tinha que aparecer na série “Porque me tornei vegano/a”.

Eu já escutei tantas pessoas dizerem “Eu nunca poderia ser vegetariano/vegano porque ADORO carne”, como se a razão que nos leva a seguir esse caminho fosse um suposto despreço pelo sabor de carnes. Por isso eu acho que a história de Sahar com o veganismo é particularmente interessante. Ela conta que carne sempre foi sua comida preferida, mas que o imenso prazer gustativo que ela sentia ao comer animais não a impediu de enxergar as razões morais por trás do veganismo e adotar uma dieta que respeitasse seus valores mais profundos. Eu sei que isso pode surpreender alguns onívoros que se declaram (uns com orgulho, outros com desconforto) adoradores de carne, mas pra veganos preferência gastronômica não é um argumento moral.

Quando e por que você se tornou vegana?

Aos 13 anos eu entrei em um grupo político de jovens e nesse meio tinha muitos veganos e vegetarianos. Ser carnívoro então se tornou um ato ideológico e eu comecei a dar desculpas pra justificar minha paixão por carne. Mas os argumentos que eu usava (“É assim que as coisas são na natureza”, “Nós estamos no topo da cadeia alimentar” etc) começaram a soar fracos e não convenciam nem mais a mim mesma. Então me tornar vegetariana me pareceu lógico, era uma continuidade ao ato político no qual eu tinha me engajado. Se eu não quero machucar outros seres, então não quero machucar nem seres humanos nem animais em geral. Eu escolhi minha luta e pra mim ser ativista pelos direitos dos palestinos é mais importante, mas isso não me dá o direito de continuar ferindo animais, de continuar participando desse sistema. Então me tornei vegetariana no meu aniversário de 14 anos. Cortar a carne foi muito difícil, pois era algo que eu sempre adorei. Eu sabia que depois desse primeiro passo me tornar vegana seria muito mais fácil. Decidi fazer uma aposta com amiga: eu tentaria ser vegana e ela tentaria parar de fumar.

Você se tornou vegana no início da adolescência e muitos jovens que escolheram o mesmo caminho tiveram dificuldades pra fazer a família aceitar suas escolhas. Como foi a reação dos seus pais?

A esposa do meu pai não come carne (mas come peixe), então aceitar a minha escolha não foi difícil pra ele. A única preocupação dele era com a minha saúde, então prometi fazer exames de sangue de 6 em 6 meses até os 18 anos pra ter certeza que estava tudo bem. Eu prometi que se descobrisse que estava com algum tipo de deficiência eu cuidaria da saúde, tomando suplementos ou voltando a comer carne. Acabei desenvolvendo carência de ferro no início e tomei suplementos.

Qual foi a maior dificuldade que você enfrentou durante a transição?

Parar de comer carne. Definitivamente essa foi a parte mais difícil.

E quais são os aspectos mais difíceis do veganismo pra você hoje?

Não me incomodo com os comentários que as pessoas fazem sobre o meu veganismo. E faço sempre questão de deixar as pessoas à vontade com esse aspecto da minha vida. Antes eu achava que pra comer fora de casa eu tinha que procurar restaurantes especiais, que oferecessem comida vegana, mas agora sei que em qualquer lugar eu vou achar o que comer, nem que seja uma salada. Então comer em restaurantes com onívoros não é um problema. Isso é importante pra mim pois não quero ser um peso pras outras pessoas nessas situações.

Então o mais difícil pra mim é resistir a tentação, saber que posso entrar em um restaurante e pedir carne. Acabei me acostumando, mas ainda é algo difícil. Sempre me pergunto por que não estou comendo carne. E a resposta é: porque é imoral, porque um animal seria assassinado pro meu prazer. Eu sei que comer carne vai me dar prazer, mas isso não justifica o ato. Comer um bife não seria o fim do mundo pra mim. Eu ia me sentira mal depois, mas ia acabar superando. A razão que me faz não ceder à tentação é que tenho medo de provar esse sabor novamente e não conseguir mais parar. Comer carne tem um preço: alguém vai pagar com a vida pelo prazer que eu vou sentir. E eu não tenho direito de tirar a vida de um ser.

Quais são as pessoas ou organizações que te inspiraram e continuam te inspirando no terreno do veganismo ?

Meus amigos, meus colegas de escola e minha família eram todos onívoros, mas algumas pessoas da esquerda radical me inspiraram. Esses ativistas, que lutavam por direitos animais, contra a ocupação israelense na Palestina, por direitos LGBT, consideravam importante viver de acordo com suas convicções. Eles tinham feito a conexão entre todas essas lutas e decidiram agir. Foi isso que realmente me inspirou.

(O grupo ao qual Sahar se refere se chamava Maavak Ehad, que significa “Uma só luta” em Hebraico. Era um grupo de ativistas israelenses da esquerda radical anarquista que lutava por direitos animais e ressaltava a conexão entre os diferentes tipos de luta: feminismo, anti-chauvinismo, contra a ocupação militar israelense na Palestina, por justiça, liberdade, igualdade… O grupo acreditava que toda opressão é enraizada na mesma base ideológica e que o estado, governo e sistema militar existem não pra nos proteger ou nos servir, mas pra preservar a ordem social que permite aos que estão no poder de continuar nos utilizando.)

Depois de ter se tornado vegana, teve algum momento em que você duvidou que esse era o caminho certo pra você?

A produção de carne em Israel é terrível e a produção de laticínios é ainda pior. As vacas são manipuladas pra produzir quantidades absurdas de leite. Não existe uma indústria de carne/laticínios gentil. As etiquetas ‘orgânico’ ou ‘criado em liberdade’ não mudam isso. Aliás muitos dos produtos de origem animais que são ‘orgânicos’ e ‘criados em liberdade’ são produzidos nas colônias ilegais dentro Palestina e na parte do Golan ocupada por Israel.  Eu tenho amigos que têm frangos e consumem seus ovos, mas leite e ovos não me interessam de todo jeito. Honestamente o que sempre me interessou foi carne e não existe carne sem assassinato. Eu sou uma pessoa muito dogmática.

Então você não acredita que seja possível ter uma ‘carne feliz’ ou ‘produzida humanamente’?

Nos dois casos você vai matar o animal do mesmo jeito. Os animais são tratados como uma mercadoria, algo que vai te dar dinheiro ou prazer. Eu não vejo animais como instrumentos que estão ali pra servir os meus interesses pessoais.

Que conselhos você daria pras pessoas que gostariam de se tornar veganas, principalmente pros adolescentes lendo esse blog?

Pros jovens: tentem convencer os adultos a te darem a permissão pra se tornarem veganos mostrando que seu interesse e compromisso com o veganismo é sério. Aprendam a cozinhar, procurem receitas na internet (como nesse blog que você está lendo agora), façam esforços concretos pra que essa opção se torne possível. No meu caso também tive que fazer exames de sangue regularmente pra tranquilizar o meu pai.

É importante aumentar a variedade de alimentos que você consume. Eu tirei alguns alimentos da dieta, então precisei acrescentar outros.  Quando me tornei vegana meu pai não sabia o que cozinhar pra mim, então comecei a cozinhar. Na época eu praticamente só cozinhava tofu. Mais tarde comecei a preparar novos alimentos e me tornar vegana fez com que eu aprendesse a gostar de muitas coisas: abacate, berinjela, tahina, lentilha, falafel. Ainda penso em todo o abacate que deixei de comer, grande erro!  Graças ao veganismo comecei a cozinhar e descobri que é muito divertido. Eu recomendo demais.

Como já falei, pra mim é importante deixar os amigos à vontade quando saímos pra comer juntos, explicando que não precisamos ir a um restaurante especial, que estarei ok em qualquer lugar, que não me importo se eles comerem carne na minha frente. Muitos veganos não concordam com isso e eu respeito, mas pra mim não ser um peso pros outros é mais importante. De todo jeito tem sempre gente comendo carne ao meu redor, que seja na rua ou na minha família.

Eu acredito que devemos tranquilizar as pessoas, deixando claro pros seus pais que não está faltando nada na sua alimentação, que você não está colocando a saúde em risco, que está acrescentando novos alimentos na dieta, participando da preparação das refeições… Tente se cercar de pessoas que te apoiam, virtualmente ou pessoalmente. É muito útil encontrar pessoas que te apoiam.

Como você fala de veganismo com os onívoros com quem convive?

Entre os 15 e 17 anos eu participei ativamente do movimento de defesa dos direitos animais. Eu participava de protestos, panfletava toda semana, tentava convencer as pessoas ao meu redor… Eu não escondo meu veganismo, mas hoje quando onívoros tentam me convencer das suas razões pra comer animais (na verdade eles estão tentando convencer eles mesmos) eu dou respostas frias porque sei que não vou fazer eles mudarem de ideia. No momento eu me interesso mais pelo ativismo que oferece alternativas. Alguns anos atrás trabalhei como voluntária num espaço ativista que tinha uma cozinha vegana. Na época era o único lugar vegano em Jerusalém. Acho importante criar um lugar pra comunidade da esquerda radical, LGBT e feminista e oferecer alternativas. Me sinto mais a vontade com esse tipo de ativismo.

O veganismo em Israel cresceu absurdamente nos últimos anos e em nenhum lugar que visitei encontrei tantos veganos e tantas opções vegetais nos restaurantes. Como você explica esse fenômeno?

Pra comunidade ativista radical em Israel é muito importante fazer a conexão entre as diferentes lutas. Talvez justamente porque a comunidade ativista é muito pequena lá as ideias se espalharam rápido. Tem as colônias de férias alternativas pros jovens de 14 à 20 anos (uma semana durante o verão, todos os anos), os objetores de consciência (que se recusam a servir o exército), os ativista contra a  ocupação, os ativistas pelos direitos LGBT… A maioria dessas pessoas são veganas e nos espaços alternativos a comida é sempre vegana.  Então mesmo os onívoros têm que comer comida vegana nesses lugares. Nós realizamos workshops sobre feminismo, identidade de gênero, liberação animal e contra a ocupação que oferecem informação, mas também formas de resistência. Eu cresci nesse meio, frequentando esses lugares, então o veganismo acabou se tornando algo natural. Nos centros e lugares onde os ativistas se encontram tentamos criar um espaço que seja o mais seguro possível pra todos. E isso significa não machucar ninguém, o que inclui não machucar animais.

(Isso é algo que sempre admirei nos ativistas israelenses. No Brasil e nos países europeus onde morei os ativistas pelos direitos humanos geralmente não veem a conexão entre as lutas, são completamente cegos pra opressão e injustiça por trás da indústria da carne.)

Então o veganismo se tornou popular primeiro dentro da comunidade radical e aos poucos foi se espalhando pelo resto da sociedade. E uns anos atrás um vídeo de Gary Yourofsky se tornou incrivelmente popular entre israelenses e acabou convencendo muita gente, que não fazia parte da comunidade ativista, a adotar o veganismo.

Falando em Gary Yourofsky (ativista americano pelos direitos animais), em uma entrevista concedida à televisão israelense em 2013, ele declarou que a razão da popularidade do veganismo em Israel é porque “povos que foram oprimidos, como os judeus (…), respondem melhor a esse tipo de revolução pois eles entendem o que é opressão.” E qual não foi a minha surpresa ao ouvir a mesma frase da boca de veganos de outros países! O que você, que é israelense e judia, tem a dizer sobre isso?

Que se a ocupação israelense na Palestina nos ensinou alguma coisa foi que o fato de ter sido oprimido no passado não impede um povo de oprimir outro povo.

À medida que o veganismo cresce em Israel a gente vê uma utilização cada vez maior desse movimento pra conquistar a simpatia dos veganos mundo afora e encobrir as violações dos direitos humanos cometidas pelo governo. Depois do ‘pink washing‘ (a utilização dos direitos LGBT pelo governo israelense pra desviar a atenção dos crimes cometidos contra os palestinos e normalizar a ocupação, colonialismo e apartheid), a nova estratégia de marketing de Israel é o ‘vegan washing’. O que você tem a dizer sobre isso?

Existe essa tendência em Israel e em outros lugares onde têm movimentos de justiça social (direitos LGBT, direitos animais etc.)… Quando Israel se mostra progressivo em alguns desses campos isso é usado como uma maneira de legitimar a ocupação. O fato de que nós somos morais em uma coisa não significa que nós temos uma justificativa pra sermos imorais em outras coisas. “Se nós somos bons pros animais, obviamente nós somos bons pros palestinos e é impossível que a ocupação seja algo errado.” E Israel usa isso com bastante frequência agora que o veganismo está se tornando muito popular no país. Direitos animais aqui se tornou algo importante, o que é uma grande conquista pra um movimento que trabalha há muitos anos pra que isso aconteça e é importante reconhecer essa conquista. Mas tem pessoas, principalmente pessoas no governo, que estão usando isso ao seu favor. Tel Aviv foi eleita a cidade mais ‘vegan friendly’ do mundo e algumas pessoas estão usando isso pra dizer: “Vejam o quão liberal e democrático é esse país e fechem os olhos pras coisas menos liberais e democráticas que esse país faz, como a ocupação.” Então é um discurso problemático. De um lado nós precisamos ter muito cuidado pra não destruir os esforços do movimento vegano e de direitos animais em Israel. Eles são realmente impressionantes e é muito bacana ver o que aconteceu por aqui nos últimos anos. Mas por outro lado dizer que isso é algo bom e positivo e que deve continuar não pode encobrir o fato de que a ocupação ainda exite e é algo ruim e negativo.

Num dia normal, o que aparece no seu prato?

Eu não tomo café da manhã. Geralmente almoço restos do dia anterior. Ou então como hummus e falafel ou comida etíope. Pro jantar eu gosto de preparar receitas rápidas porque nunca lembro de deixar ingredientes de molho no dia anterior. Macarrão com abobrinha, stir fry com os vegetais que eu encontrar na geladeira, tofu e arroz. Gosto muito de rechear legumes. Outro dia eu recheei um jerimum pequeno com triguilho, folhas do jardim e tomates secos. Também cozinho muita lentilha. E todas as refeições que preparo têm que ter uma salada crua.

Você está no corredor da morte e tem direito a pedir qualquer coisa, vegana ou não, pra sua última refeição. O que você pediria?

Abacate com cogumelos refogados, costelas, ervilha torta e os seus aspargos grelhados. E de sobremesa um cheesecake de frutas vermelhas.

Pode dividir a receita do abacate com cogumelos com os meus leitores?

Claro. Pique os cogumelos que você mais gostar (eu uso portobello e champignons) e refogue em um pouco de azeite. Tempere com tomilho fresco ou seco, sal e pimenta do reino. Corte um abacate ao meio e retire caroço. Faça cortes na polpa (criando um jogo da velha na diagonal), mas sem cortar a casca. Tempere o abacate com limão, sal e pimenta do reino. Recheie cada metade com os cogumelos quentes (preenchendo a cavidade antes ocupada pelo caroço e cobrindo toda a polpa) e sirva com uma colher. A colher é importante!

Ano passado os participantes do tour Papacapim na Palestina tiveram a sorte de conversar com Sahar. Ela fez uma palestra ultra VIP sobre a militarização da sociedade israelense e ainda preparou um almoço vegano delicioso pra nós  (a moça cozinha muito bem). Espero que os grupos desse ano tenham a mesma oportunidade.  (Anúncio: Ainda tem vaga nos tours desse ano! Interessados, por favor escrevam pra papacapimveg@gmail.com)

 E se você perdeu os outros post da série ‘Porque me tornei vegana/o’, aqui estão:

“Me tornar vegana foi uma maneira de me tornar politizada”- Johanna

“Hoje eu acho fácil ser vegano, o difícil mesmo é amar, respeitar e aceitar a minha própria espécie” -João

“O veganismo foi uma maneira de alinhar minhas convicções com os meus atos” – Anne

“O veganismo talvez seja a alimentação do futuro” – Samira

“Manter a serenidade diante de tanta crueldade e indiferença é um desafio, mas é necessário” – Lobo

Em julho minha amiga Johanna contou as razões que a levaram a se tornar vegana e como a mudança aconteceu na sua vida e eu não imaginava que quatro meses passariam antes que outro post da série ‘Porque me tornei vegano’ aparecesse por aqui. Mas aqui estou com mais uma entrevista que vai inspirar e fazer refletir.

João Asfora Neto faz parte do grupo de amigos que conheci em Recife esse ano. Ele é um dos sócios do restaurante Papaya Verde, que oferece a melhor comida vegana que eu comi no Brasil. Ele também criou o Jornal Ganapati, que trata de vegetarianismo, ética, espiritualidade e meio ambiente. João e eu temos em comum, além da paixão por comida vegana, o envolvimento com a causa palestina. Então não precisa dizer que quando nos encontramos foi amizade a primeira vista. Admiro demais o trabalho que João faz no restaurante e fora dele (saiba mais sobre o Papaya Verde nesse post). Acho a iniciativa de servir comida vegana gourmet em um restaurante convencional extremamente louvável. É um dos maiores favores que alguém pode fazer aos veganos, além de oferecer a oportunidade aos onívoros de provar delícias vegetais sem precisar sair da sua zona de conforto. Quantos onívoros que nunca se aventurariam em um restaurante vegano provaram os maravilhosos pratos 100% vegetais de João? Por essas e outras ele é um dos meus heróis, um infatigável embaixador da culinária vegana, um ativista em vários campos e uma pessoa de uma generosidade sem fim. Senhoras e senhores, e aqueles que ainda não se decidiram, recebam com carinho o meu amigo João Asfora Neto.

Quando você se tornou vegano e o que te levou a adotar esse estilo de vida?

Faz 34 anos que me tornei vegetariano. O fato de comer animais mortos e vestir suas peles e couro sempre me pareceu inaceitável, porém não me incomodava muito que os outros não fossem vegetarianos, eu estava anestesiado. Até que um dia, quatro anos atrás, absolutamente por acaso, eu assisti o vídeo “Terráqueos”. Assisti de uma só vez e não consegui mais falar com ninguém durante alguns dias, era como se só agora eu tivesse despertado para a enormidade que era o crime que cometíamos contra os animais. Nesse dia tornei-me vegano e também nasceu a ideia do Jornal Ganapati. Sentia muito a necessidade de fazer alguma coisa. Pedi ao meu sócio para comprar a minha parte no restaurante, mas ele não aceitou. Negociei então 50 por cento do buffet vegano, e a liberdade de falar com as pessoas sobre o que significava o consumo de carnes e derivados, distribuindo os jornais e promovendo diálogos fraternos. O resultado foi bom, muitas pessoas começaram a mudar seus hábitos de consumo e até se tornaram veganas.

Quais foram as maiores dificuldades que você enfrentou durante a transição?

A maior dificuldade para mim foi o preconceito, envolvendo amigos, família e clientes do restaurante. O preconceito cresceu de tal forma que até os nomes dos alimentos tiveram que ser trocados e não pude mais pôr a classificação “vegana”. Resolvi então sinalizar se tinha ovo, carne, leite, e glúten (para enrolar). O resultado foi excelente e até os preconceituosos passaram a comer veganamente sem se dar conta.

Se pudesse voltar no tempo em que você ainda estava engatinhando no veganismo, que conselho daria a si mesmo? Quais foram os erros que você cometeu e que poderiam ter sido evitados?

Muitos e muitos erros… O pior foi tentar veganizar o mundo de um só golpe e agir com precipitação. Problemas de saúde não tive, aliás ela só melhorou depois que abandonei os laticínios e os ovos. Hoje eu vejo que ainda não sei nada e vivo a tentar consertar erros que cometo todos os dias. Mas os piores foram a falta de amor com que eu às vezes respondia as críticas e a falta de paciência com muitos onívoros. Hoje eu acho fácil ser vegano, o difícil mesmo é amar, respeitar e aceitar a minha própria espécie.

Que pessoas/organizações te inspiraram e continuam te inspirando no terreno do veganismo?

Primeiramente você e o blog Papacapim, pois você junta as duas causas mais caras ao meu coração: o veganismo e a causa Palestina e o seu exemplo de vida desprendida e suas receitas são o que há de melhor na internet. O Vista-se, com de Fábio Chaves (onde encontrei o vídeo por acaso e tantas e tantas informações veganas). A determinação incansável de Marly Winckler na direção da SVB nacional. O trabalho maravilhoso de Nina Rosa na causa animal e muitos outros…

Não é fácil ser vegano em uma sociedade extremamente carnívora como a nossa. O que te dá força/coragem/motivação pra seguir nesse caminho?

A única coisa capaz de nos mover em terreno tão inóspito é o ideal amoroso e libertário. E a certeza que essa fase negra da humanidade vai passar, pois não existe futuro para o planeta fora do veganismo.

Quais os conselhos que você daria pra quem está pensando em se tornar vegano?

Simplifique de imediato a sua alimentação, derrube os preconceitos com as frutas, verduras e hortaliças. Conheça um pouco de nutrição. Desenvolva a felicidade nessa opção de vida, nós devemos ser felizes por ser veganos e não ser amargos por ter a alimentação restringida. Já conheci muitos veganos amargos aqui no restaurante e isso é muito triste. São pessoas que não acham nada bom, pra quem tudo é insuficiente e que assustam os possíveis candidatos ao veganismo com esse perfil.

Divida uma receita simples e saborosa com a gente.

O bobó de grão de bico. Segue a receita. (Eu tive o privilégio de provar o bobó de João na última vez que estive em Recife e posso garantir que essa receita é absolutamente deliciosa. Vocês não imaginam a minha alegria quando ele decidiu dividi-la conosco!)

* A foto de abertura foi feita por Romero Morais, que aceitou que eu a publicasse aqui no blog. Mais uma vez obrigada pela gentileza, Romero.

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Bobó de grão de bico

Quando João me mandou a receita não incluiu as algas, mas depois de verificar se era assim mesmo ou se tinha sido esquecimento, ele me escreveu “sim, uso algas para temperar e dar o gostinho do mar. Uso nori tostada picada ou wakame quando acabo o preparo e, quando tenho, uso kombo, aquela dos nozinhos, para fazer o molho.” João não indicou a quantidade das algas e suspeito que ele é um cozinheiro como eu, que vai acrescentando ingredientes de maneira intuitiva, provando e corrigindo o tempero durante o processo. Então use um punhadinho de algas, prove e decida se você quer usar mais. E não deixe de conferir as dicas de João no final da receita. Na foto acima o bobó está no canto superior esquerdo (peço perdão pela foto, ela não faz justiça a esse prato maravilhoso).

5 ou mais xícaras de grão de bico cozido

1 kg de macaxeira

1 garrafinha (1/4 litro) de leite de coco

azeite de dendê a gosto

1 kg de tomates maduros sem pele (pode ser em lata)

3 cebolas batidinhas na faca

2 dentes de alho amassados

azeite de oliva a gosto

2 colheres de sopa de coentro picado

2 colheres de sopa de cebolinha picada

sal

pimenta do reino

pimenta vermelha

algas (nori tostada e picada, wakame ou kombu)

MODO DE PREPARO

Cozinhe a macaxeira. Leve ao fogo os tomates pelados e picados até virar um molho espesso (ponha água, se necessário). Numa panela grande coloque o azeite de oliva, o alho e leve ao fogo até dourar. Em seguida coloque a cebola e deixe ficar transparente.

Misture a cebolinha verde, o coentro fresco, os tomates cozidos, o grão de bico cozido, sal, pimenta do reino, pimenta vermelha e jogue tudo na panela em que está a cebola. Deixe levantar fervura. Faça um purê com a macaxeira cozida e o leite de coco (use um pouco de água se for preciso). Quando a mistura de grão de bico e verduras estiver fervendo junte o purê de macaxeira e deixe cozinhar mais um pouco. Tire do fogo e coloque o azeite de dendê, as algas e mexa bem. Leve ao fogo novamente. Prove o sal e corrija.

Dicas de João:

-Essa foi a receita inicial e já mudou bastante, pois aqui eu nunca faço do mesmo jeito. Normalmente uso mais leite de coco e gosto também de botar uma misturinha de tempero seco que existe aqui chamado ‘tempero baiano’. Quando quero mais espesso bato um pouco alguns grãos de bico no liquidificador.

-Quando faço em casa passo o coentro, a cebolinha e os tomates no liquidificador.

-Fica ótimo com arroz integral simples e um vinagrete bem azedinho com coentro, cebolinha, cebola e tomate.

Nesse último fim de semana eu estive em Paris pra participar do ‘Paris Vegan Day’, o maior evento vegano da França. Só dura um dia e reúne expositores de comida, cosméticos, marcas de roupas, sapatos e bolsas, tudo 100% vegano, além de várias associações vegs e de proteção aos animais. E não é tudo! Teve também palestras e aulas de culinária vegetal e como se isso não fosse suficiente pra deixar qualquer vegano com a impressão de ter morrido e ido direto pro paraíso, o local de evento, os Docks, nas margens do rio Sena, era lindo e tinha um restaurante vegano (MOB, especializado em hamburguers e outros sanduíches veganos) no térreo. O que mais pedir? Como não pude participar do VegFest em Curitiba, essa foi a minha consolação.

Paris Vegan day

Aqui vão algumas fotos do Paris Vegan Day pra vocês. Na ordem de aparição: croissants pra começar bem o dia, um dos stands mais disputados (todo tipo de delícia vegana à venda), posters explicando porque a alimentação vegetal é super inclusiva, marshmallows de vários sabores, burgers (de tofu) de vários sabores.

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Foi um dia muito especial pra mim, pois além de degustar todas essas delícias passei boa parte do dia com Carmelo, que eu conheci quando ele tinha apenas três meses, e Jean-Sé (o pai de Carmelo), um grande amigo de Paris. Eu cuidei de Carmelo durante muitos anos e sempre levo um susto quando nos encontramos: ele cresce numa velocidade estonteante! Foi lindo ter provado tanta coisa vegana com meu Carmelito, que já tem 11 anos, e entre uma mordida e outra ele me contava as novidades (“eu tenho um site onde só posto fotos dos meus pés”, “comecei a estudar a Talmud pra fazer minha Bar Mitzvah”, “não como mais carne”…). Fiquei impressionada com a quantidade de coisas que ele provou, de chips de kale e beterraba à queijo vegano, mortadela vegetal e granola crua de sarraceno, e no final do dia ele declarou: “Como é gostoso ser ecológico!”, o que eu achei hilário. Ele sempre foi um menino sensível e fez questão de assinar uma petição contra as touradas, que ele desaprova totalmente. Abaixo ele assinando a petição e provando todos os presuntos e mortadelas vegetais do evento:)

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O stand dos queijos veganos da marca Vegusto ( o nome da linha é uma graça: ‘No-Muh”) fez muito sucesso e até escutei uma senhora telefonar pra alguém dizendo empolgadíssima: “Você não vai acreditar, tem queijos veganos maravilhosos aqui! IMPRESSIONANTE!” Nas outras fotos: mais queijo e presunto veganos, calda de caramelo e chocolate à base de agave e cosméticos veganos.

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Falando em cosméticos veganos, fiquei feliz em encontrar a marca brasileira Surya por lá. E como o açaí está na moda por aqui, assisti à uma aula de culinária sobre esse ingrediente. Além dos shakes e cremes tradicionais, o chef preparou um ‘caviar de açaí’ com castanha de caju e shoyo muito interessante.

PVD14PVD14.1Mais coisas interessantes que encontrei por lá: camisetas com mensagens veganas, sacolas com uma eco-cutucada que eu adorei e guias vegetarianos de cidades europeias.

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Aproveitei a viagem pra rever os amigos que moram na cidade e testar restaurantes veganos. Quando eu morava lá, Paris estava longe de ser veg-friendly, mas os tempos mudaram e hoje tem vários estabelecimentos veganos na cidade. Dessa vez testei dois restaurantes: Le potager du Marais e Bob’s kitchen. O primeiro serve comida gourmet de lamber os beiços e tive um almoço memorável com alguns amigos onívoros que saíram tão impressionados quanto eu. Provamos: croquete de quinoa com molho de cogumelo e assado de avelãs, ambos acompanhados de purê de batata, brócolis com creme e pera. Sublime. Uma das minhas amigas pediu o ‘bourguignon de seitan e cogumelo’, de um realismo impressionante, mas a foto não ficou nítida o suficiente pra aparecer aqui. As sobremesas foram: crème brulée de gengibre e fondant de chocolate com creme inglês. Vai lá: 24, Rue Rambuteau, pertinho do Centro Pompidou.

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Já o restaurante Bob’s kitchen oferece uma comida mais simples, vegetariana e vegana, mas o smoothie e o maki que pedi estavam ótimos. Minha amiga Simone, que me acompanhava, também adorou o sanduíche dela. Vai lá: 74, Rue de Gravilliers.

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Antes de voltar pra Bruxelas passei por um dos meus endereços preferidos na época em que a cidade luz era o meu lar doce lar. Laura Todd só vende cookies (orgânicos), mas eles são os melhores da cidade. Na verdade eles são os melhores cookies do mundo, na minha humilde opinião. Eles não são crocantes, têm uma textura macia incrível e são servidos mornos, assim os pedaços de chocolates permanecem derretidos. Quando me tornei vegana fiquei triste em abandonar esse prazer, mas qual não foi a minha alegria ao descobrir que Laura Todd (adorada, idolatrada, salve, salve, Laura Todd) começou a vender um cookie 100% vegetal e tão gostoso quanto os outros. Se você passar por Paris, não deixe de experimentar esse cookie pra lá de especial (um cookie custa 2 euros, mas prometo que vale a pena) . Fica em frente aos “Halles”, na rua Pierre Lescot. Pra ver os endereços das outras lojas, visite o site.

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E assim foi o meu fim de semana, cheio de surpresas boas, delícias, encontros, tempo passado ao lado de amigos queridos e caminhadas solitárias em uma das cidades mais belas do mundo, que um dia já foi minha. Paris é pra mim uma espécie de ex namorada com quem tive uma relação maravilhosamente intensa, que deixou só memórias boas (o tempo se encarregou de apagar as ruins), e a cada vez que a reencontro ela consegue me seduzir novamente e penso que seria uma delícia me perder nos seus braços mais uma vez.

Paris2Paris3Paris4Paris, je t’aime.

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