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Alguns meses depois de ter criado o Papacapim um blogueiro brasileiro deixou um comentário aqui dizendo que tinha achado o meu blog muito bom e que tinha linkado do dele. Fui conferir o blog dele e a mesma coisa aconteceu: gostei do blog dele e linkei do meu. O blog, de direitos animais, se chama ‘Lobo Repórter’ (adoro esse nome) e o blogueiro em questão é Lobo Pasolini. Isso foi em 2010 e desde então acompanho o trabalho dele e vez ou outra trocamos mensagens. Apesar de nunca tê-lo encontrado pessoalmente, gosto de pensar que ele é um amigo virtual. Criei até uma receita especialmente pro aniversário dele em 2012. Nós temos várias coisas em comum (como ser ‘homus-sexuais’, por exemplo:) e fiquei muito feliz quando ele aceitou fazer parte da série ‘Porque me tornei vegano”. É uma honra imensa pra mim receber Lobo Pasolini aqui.

 

Quando você se tornou vegano e o que te levou a adotar esse estilo de vida?

Eu me tornei vegano em 2008, literalmente da noite para o dia após assistir o vídeo Meet Your Meat, produzido pela PETA. Hoje em dia eu até discordo dos métodos da ONG em alguns casos, e não assisto mais esse tipo de material, mas devo a eles esse tratamento de choque que, no meu caso, funcionou.

Quais foram as maiores dificuldades que você enfrentou durante a transição?

Não posso dizer que tive alguma. Talvez a administração da turbulência emocional que essa tomada de consciência ocasione tenha sido o mais difícil e, de certa forma, continua sendo. Como todo ativista por justiça, manter a serenidade diante de tanta crueldade e indiferença é um desafio. Mas é necessário para que sejamos felizes, conscientes e eficientes ao mesmo tempo.

Qual a parte mais difícil do veganismo pra você (equilibrar dieta, comer fora, eventos sociais…)? 

Eventos sociais são os mais difíceis, pois raramente eles têm comida vegana. Eu sempre como antes ou carrego algum tipo de castanha para lidar com a possível falta de comida em uma hora que provavelmente sentirei fome. Faltando isso, tomo muita água.

O que te inspira (pessoas/organizações/ações/movimentos) no terreno do veganismo/direitos dos animais?

Eu admiro muito o trabalho do Rancho dos Gnomos, da Anda, que eu participo, do Veddas, o Papacapim pelo ativismo lindo na área de culinária vegana. Gosto muito do trabalho da Friends of Animals nos Estados Unidos, dos santuários que acolhem animais refugiados de alguma situação de abuso e todos os veganos anônimos que juntos formam essa nova consciência civilizatória. O veganismo me inspira como ser humano e adoro a sensação de estar na vanguarda de um novo pensamento.

Desde que você se tornou vegano, teve algum momento (ou vários) em que você duvidou da pertinência do veganismo? Algum tipo de pensamento ou experiência que te deu vontade de jogar a toalha? Se sim, o que fez com que você continuasse achando o veganismo o melhor caminho pra você?

Nunca. Pelo contrário, minha convicção de que o veganismo é o caminho para um futuro harmônico fica cada vez mais forte.

Qual a sua opinião sobre laticínios orgânicos, happy meat, matar animais de maneira ‘humana’ e ovos de galinhas criadas em liberdade? 

Sou contra. Eles são o equivalente do greenwash no ambientalismo, a fachada falsa de sustentabilidade. É marketing puro e uma traição dos animais. Não existe exploração gentil.

Quais os conselhos que você daria pra quem está pensando em se tornar vegano?

Não perca tempo – faça isso agora! Leia bastante teoria vegana, informe-se sobre nutrição para dominar o básico e abra sua mente para novos sabores e combinações de comida. Comida vegana é deliciosa e variada, abrace a aventura gastronômica. Seja curioso e pense com a sua própria cabeça. Foque na ética.

 

Como você se relaciona com pessoas onívoras? Você evita falar de veganismo, ou, pelo contrário, leva o ativismo pra todos os lugares e não perde a oportunidade de sacudir o carnismo do pessoal?

Eu raramente toco no assunto. Em geral as pessoas me perguntam e daí eu falo da forma mais acessível e sofisticada possível. Eu reservo meu blog e as redes sociais para o discurso ativista. A gente tem que ser estratégico e evitar proselitizar. Quanto mais atraente e interessante formos, mais atraente e interessante o veganismo parecerá. Eu me preocupo muito com esse branding do veganismo através da minha inserção social.

Se eu pudesse passar um dia na sua cozinha, o que encontraria no seu prato (da hora que você acorda até a hora de ir pra cama)?

Eu começo o dia com aveia, que me dá muita energia. Consumo com algum tipo de leite vegetal, em geral soja ou amendoim. Como muita couve, abobrinha, abóbora, quiabo, vagens, verduras em geral e frutas. Cresci na roça, catando frutas em árvores e isso ficou comigo. Adoro grãos e sementes como quinoa, arroz integral, gergelim, linhaça e castanhas em geral. E, principalmente, sou um homus-sexual assumido. Não vivo sem, adoro o gosto, adoro a energia que me dá e sua versatilidade. O homus é, a meu ver, um dos melhores amigos nutricionais do vegano.

 

Você está no corredor da morte. Qual a sua última refeição (pode ser vegana ou não. Você vai morrer, então a polícia vegana te perdoa:)? 

Arroz integral e feijão preto. Nada bate essa combinação. Ou um bom suco verde com uma sobremesa crudívora a base de fruta. Ou ainda pão árabe com homus e uma rodela de limão.

Alguma receita simples e saborosa pra dividir com os meus leitores?

Como não poderia deixar de ser, vou dar uma receita básica de homus.

Ingredientes:

250g de grão de bico

2 dentes de alho

Água em que o grão de bico foi cozido

Limão

Tahine (que pode ser comprado pronto no supermercado)

3 colheres de sopa de tahine (pasta de gergelim)

Coentro

Sal

Azeite

Como fazer

Amacie o grão de bico deixando-o de molho em água na véspera da preparação. No dia seguinte cozinhe-o em panela de pressão por cerca de 20 minutos. Escorra-o e depois bata no liquidificador com um pouco da água em que foi cozido. A textura que buscamos é a de um patê. A partir daí vá experimentando com textura e sabor, acrescentando alho, azeite, tahine, gotas de limão, coentro e qualquer outro condimento que desejar (pimenta picada, por exemplo). Continue batendo no liquidificador e testando até atingir a consistência desejada. Tire do liquidificador e coloque em um recipiente adequado. Guarde na geladeira e consuma em até três dias. Pode acompanhar saladas, pão sírio, torradas etc.

 Aviso: vicia e impressiona visitas – ótimo para reuniões de amigos.

Acompanhem o trabalho de Lobo no blog Lobo Repórter, no Facebook ou Twitter.

 

Mês passado  comecei uma mini-série de posts sobre alimentação saudável pra crianças. Muitas leitoras me escrevem pedindo dicas pra melhorar a alimentação dos filhos e fazer as crianças comerem mais verduras, mas como eu não tenho filhos nem costumo cozinhar pros pequenos, resolvi pedir dicas a quem realmente entende do assunto: minhas amigas que são mães.

Conheci Suzy graças à uma amiga em comum. Ela disse que eu precisava conhece-la, que ela tinha tudo a ver comigo e que íamos nos entender muito bem. Nossa amiga estava certíssima! Suzy e eu temos em comum o amor por comida de verdade, principalmente folhas verdes, e sempre que nos encontramos a conversa gira em torno desse assunto.

Em 2011, depois de ter perdido o emprego, ela resolveu mudar radicalmente de profissão e hoje é ‘health coach’. O trabalho de Suzy é ajudar as pessoas, de maneira totalmente personalizada, a equilibrar a alimentação e perder peso pra que elas se sintam saudáveis e radiantes. Então vocês podem imaginar que ela é uma mina de informação pra quem quer ter uma alimentação saudável!

Suzy é inglesa e mora em Bruxelas com o companheiro e o filho de quase três anos, Edgar. Entrevistei Suzy nos útlimos dias de gravidez (ela estava esperando mais um menino), na sua cozinha linda, enquanto degustávamos essa sopa. Além de dividir a experiência de criar uma criança com uma alimentação totalmente natural e caseira, Suzy deu dicas muito preciosas pras mães que querem seguir por esse caminho.

Você sempre se interessou por comida e alimentação saudável? 

Cresci em uma família onde comida era importante, onde as refeições eram preparadas em casa e todo mundo sentava ao redor da mesa pra comer. Então acho que o interesse por comida sempre esteve presente. Quando eu tinha 10 anos minha irmã, que é dois anos mais velha que eu, decidiu se tornar vegetariana. Meus pais reagiram tão bem que decidiram que toda a família se tornaria vegetariana. Minha mãe entendeu imediatamente que teria que ampliar as técnicas culinárias e seu repertório de receitas e a partir daquele momento nossa alimentação ficou ainda melhor. Meus pais e eu comíamos peixe de vez em quando, mas tirando essas raras exceções, meus pais se alimentam de maneira vegetariana até hoje.

Mais tarde me tornei realmente vegetariana (depois vegana, depois novamente vegetariana) e durante os anos de faculdade comecei a fazer a minha própria comida. Ter visto minha mãe preparar sempre comida de qualidade me ajudou muito, pois minhas papilas estavam programadas pra apreciar comida saudável. Nessa época também comecei a me envolver com ativismo alimentar. O que as grandes empresas do agro-alimentar, como Nestlé, faziam (lembra do escândalo dos milhares de bebês que morreram por causa do leite em pó Nestlé?) me revoltava e isso começou a me sensibilizar com relação à comida que eu colocava no meu prato. Lembro que enquanto meus colegas de faculdade se contentavam em comprar comida industrializada em supermercados baratos eu preferia ir à feira e trazer vegetais frescos pra minha cozinha. Mas eu ainda não tinha muitos conhecimentos em nutrição e exagerava nas massas brancas, queijos e sobremesas. Como todo mundo, eu achava que aquelas barrinhas de cereal entupidas de açúcar eram saudáveis. E, claro, eu via a consequência disso no meu peso.

Desde aquela época até poucos anos atrás eu lutei pra emagrecer e manter um peso saudável. Testei todas as dietas que passaram pela minha frente, cortei carboidratos, cortei todo tipo de gordura… Mas eu sofria da síndrome do ioiô: emagrecia e engordava, emagrecia e engordava… Só quando comecei a estudar nutrição pra me tornar health coach consegui mudar radicalmente a maneira como me alimento, excluí o açúcar da minha vida e nunca mais tive problemas com a balança, apesar de não fazer mais dietas. Hoje me sinto ótima, meus hormônios se equilibraram e minha energia aumentou consideravelmente.

Como é a alimentação na sua casa e, mais especificamente, como é alimentação do seu filho? 

Edgar tem quase três anos e come exatamente a mesma coisa que os adultos da casa. Meu companheiro não é vegetariano, mas em casa as refeições são quase sempre vegetarianas (de vez em quando ele e Edgar comem peixe). Comemos muitas verduras e frutas frescas, muitas folhas verdes, cereais integrais (arroz, quinoa), leguminosas (principalmente lentilhas), todo tipo de  castanhas e frutas secas.

Começamos o dia, eu, meu companheiro e Edgar, com uma vitamina verde (green smoothie), feita com banana e outra fruta fresca, folhas verdes, principalmente kale (um tipo de couve frisada), castanhas do Pará, frutas secas, chia ou linhaça e água. Depois Edgar come muesli (flocos de aveia com frutas secas, sementes e castanhas) com leite de amêndoas. Eu faço o nosso leite de amêndoas em casa.

Edgar almoça na escola, mas leva a lacheirinha com a refeição de casa. Eu coloco cereais cozidos com legumes ou então um sanduíche feito com pão 100% integral e com sementes, tahina e um pouquinho de marmite (um condimento feito exclusivamente de extrato de levedura, muito apreciado pelos ingleses), mais vegetais crus, como palitinhos de cenoura e uma fruta fresca. E na garrafinha dele sempre tem água.

Quando ele chega em casa, por volta das três da tarde, ele lancha frutas secas, como damascos, figos e passas, e castanhas. Edgar é louco por frutas secas e castanhas. Ou então uma fruta fresca e alguns biscoitos sem açúcar que faço em casa.

No jantar geralmente tomamos sopa e o prato preferido de Edgar é sopa de abóbora com gengibre e leite de coco. Quando não tomamos sopa, o jantar é parecido com o almoço: cereais integrais, lentilha, legumes cozidos ou crus… No fim de semana podemos fazer uma pizza ou uma massa. Meu companheiro é metade francês e metade italiano, então ele adora massas e Edgar também.

O que nunca entra na alimentação de Edgar?

Carne, frango, nenhum tipo de comida industrializada (incluindo aqui biscoitos, bolinhos, iogurtes açucarados, sucos de caixinha e toda essa comida que geralmente é oferecida às crianças), açúcar, leite de vaca…

De vez em quando Edgar consome um pouquinho de iogurte natural (daqueles feitos unicamente com leite e bactérias). Não adoço com nada e ele gosta do sabor ligeiramente ácido. Ele também come queijo esporadicamente com o pai, que adora. Mas Edgar nunca tomou leite de vaca na vida, pois nenhuma criança (nem adulto) precisa dele. Eu sempre tinha brigas com o pediatra que queria me obrigar a dar leite de vaca ao meu filho. Ele foi amamentado até os 21 meses e nunca encostou em um copo (ou mamadeira) de leite de vaca.

Edgar não colocou nem um grama de açúcar (branco, mascavou ou outro) na boca até os dois anos de idade. Como é praticamente impossível controlar o que o meu filho come fora de casa, hoje pode acontecer dele comer um pedacinho de bolo ou torta durante os aniversários dos amigos e em ocasiões especiais, mas como ele cresceu sem açúcar ele tem um paladar muito diferente das outras crianças da idade dele. Outro dia os amiguinhos dele vieram brincar aqui em casa e trouxeram biscoitos industrializados. Edgar comeu os biscoitos feitos por mim, sem açúcar, mas os amiguinhos provaram um pedaço e rejeitaram os meus biscoitos com uma careta. Edgar provou os biscoitos dos amigos e teve a mesma reação: fez careta pros biscoitos industrializados e voltou a comer os meus, naturais e sem açúcar, feliz da vida!

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Você vê os benefícios dessa alimentação na saúde do seu filho?

Com certeza. Edgar vai fazer três anos e nunca ficou doente. Nunca! É comum nós combinarmos de sair com amigos que têm filhos e eles cancelarem de última hora porque uma das crianças adoeceu. Isso nunca aconteceu conosco. Edgar é alto pra idade dele, está crescendo forte e saudável e tem um temperamento super tranquilo. Outro dia a professora da escolinha dele me disse “Edgar é tão calmo, sempre tão sorridente! Nunca chega aqui de mau humor, como as outras crianças”.

Com certeza o fato de não tomar um café da manhã carregado de açúcar, como esses cereais matinais que tantas crianças comem, é responsável pelo bom humor matinal de Edgar! Deve ser o kale da vitamina verde dele.

Concordo totalmente.

Quando conheci Edgar fiquei impressionada em ver o quanto ele é calmo, atentivo e sorridente. Cheguei à seguinte conclusão: Kale makes you kinder! (tradução aproximada: ‘Couve te deixa mais gentil’)

(risos) Adorei! Kale makes you kinder.

Quais são as maiores dificuldades que você enfrenta nessa jornada?

Em casa tudo é muito simples e fácil. Algumas clientes me dizem “Cozinhar todas as refeições do seu filho dá muito trabalho!”. Eu acho que cuidar de uma criança doente dá muito mais trabalho. Então em casa tudo é muito tranquilo. O problema é quando estamos fora de casa. Às vezes estou em um café com Edgar e assim que o garçon vê que tem uma criança na mesa ele vem trazer um biscoito pra ele. Aí tenho que explicar que Edgar não come açúcar nem biscoitos industrializados. Se a pessoa sentada ao meu lado quiser saber o porquê eu sempre me disponho a explicar minhas razões, mas nem todo mundo entende. Nas festinhas de aniversário da escola Edgar volta pra casa com um saquinho cheiro de guloseimas industrializadas e abarrotadas de açúcar e aditivos. (Suzy se levanta e vai buscar uma caixinha com todas as porcarias que o filho trouxe da escola) Estou guardando tudo aqui nessa caixa porque não sei o que fazer. Não quero dar essas porcarias pra outra criança.

Quando ele começou o jardim de infância eu fiquei muito apreensiva, mas até agora está indo tudo bem. Uma dificuldade que tive no início foi com relação aos sucos que todas as crianças levam pra acompanhar o almoço. Edgar não bebe sucos, ele bebe água, e tive medo dessa diferença ser uma fonte de conflito. Mas comprei uma garrafinha metálica pra ele, assim ninguém vê o que ele está bebendo e até hoje está funcionando muito bem.

Talvez o mais difícil seja a resistência de amigos e familiares. Às vezes sinto uma certa hostilidade da parte de amigos que têm filhos e que alimentam as crianças de uma maneira totalmente diferente. É como se eles se sentissem julgados, como se o fato de ter escolhido uma alimentação natural pro meu filho, tão diferente da maneira como eles alimentam os próprios filhos, significasse que estou acusando eles de serem pais ruins. Alguns amigos são muito compreensivos e se eu estiver indo visita-los com Edgar eles até me pedem receitas sem açúcar, assim vão poder nos oferecer algo pra comer. Mas tem também os amigos que se comportam como se eu estivesse torturando o meu filho, como se ele sofresse horrores por não comer comida porcaria. Esses amigos deixam escapar frequentemente coisas como: “Deixe essa criança se divertir um pouco!” ou “Relaxe! Você se estressa demais com a comida do menino.”

Minha família, por ter se interessado por alimentação saudável desde sempre, me apoia totalmente, mas a família do meu companheiro é mais resistente. No natal, por exemplo, minha sogra queria mandar um pacote cheio de chocolates pra ele. Edgar não come esses chocolate cheios de açúcar que as pessoas oferecem pras crianças e eu expliquei que não fazia sentido mandar o pacote, já que ele não ia comer nada. Ela se ofendeu e insistiu tanto que eu fui obrigada a dizer: “Você quer agradar quem nessa história? Edgar ou você mesma?”. As pessoas não entendem que comida porcaria não vai fazer Edgar feliz! Ele não pede nem tem vontade nenhuma de comer guloseimas açucaradas e, obviamente, não sofre nem se sente privado por elas não aparecerem na mesa. Quando ele tem vontade de comer doce, ele me pede damasco seco e come se deliciando.

O que te motiva a continuar nesse caminho e a não ceder às facilidades da comida industrializada?

Os resultados na minha saúde e na saúde do meu filho. Como eu falei, Edgar nunca adoeceu e eu nunca me senti tão bem. Durante essa segunda gravidez nem sequer tomei suplementos de ferro nem de ácido fólico. (Nesse momento fiz uma enorme cara de espanto, pois achava que suplementos durante a gravidez eras obrigatórios). Você precisa fazer exames de sangue regularmente e se tudo estiver OK, você não precisa tomar suplementos. Meus níveis de ácido fólico e ferro sempre foram ótimos, mas agora na última semana da gravidez o ferro baixou um pouco então estou tomando um suplemento de ferro pra me preparar pro parto e pra deixar o meu médico mais tranquilo.

Quando explico que Edgar nunca adoeceu as pessoas não aceitam que isso seja uma consequência direta da alimentação dele e dizem: “É uma questão de sorte.” Vamos ver como vai ser com o bebê que está pra chegar, se eles vão continuar dizendo que a saúde dos meus dois filhos é pura sorte.

Quais são as dicas que você daria pros pais que querem dar uma alimentação saudável pros filhos? 

Primeiro de tudo: nunca é tarde demais pra mudar os hábitos alimentares dos seus filhos (e os seus!). Muitas vezes eu vejo que a resistência à mudança é mais forte nos pais do que nas crianças. Antes mesmo de tentar, os pais já declaram que os filhos não vão querer mudar a alimentação.

O mais importante na minha opinião é ser o exemplo a ser seguido. Aqui em casa não tem essa história de comida de adulto e comida de criança. Tudo que eu coloco no meu prato aparece no prato de Edgar. Você não pode esperar que seus filhos comam verduras se você mesmo não come.

Cozinhe com suas crianças. Edgar está sempre na cozinha comigo, me ajudando a preparar as refeições. Ele tem até a própria faca, uma faquinha de madeira só dele. Ele corta as frutas da vitamina verde de manhã, me ajuda a fazer biscoitos… Ele sempre pede pra provar o que estou cortando e acaba se envolvendo na preparação da própria comida.

Se as papilas dos seus filhos já foram programadas pra só gostar de comida industrializada e carregada de açúcar, faça mudanças suaves e progressivas. Troque o iogurte aromatizado e açucarado por um iogurte natural adoçado com purê de frutas secas (bata passas ou tâmaras no liquidificador com um pouquinho de água). Assim a mistura fica docinha, mas sem açúcar e com as fibras e as vitaminas das frutas secas. Se seu filho só quer beber suco, comece a diluir a bebida com um pouco de água e aos poucos diminua a quantidade de suco e aumente a de água, até ele se acostumar a beber água pura. Se seu filho se recusa a comer vegetais puros, misture uma ou outra verdura com a comida preferida dele. Se for preciso, faça isso escondido, pra ele não perceber.

E nessa busca por uma alimentação saudável não prive seu filho de biscoitos e bolos! A internet está cheia de receitas de doces sem açúcar, feitos com ingredientes naturais e integrais. Frutas secas, por exemplo, são uma maneira deliciosa de substituir o açúcar em bolos, biscoitos e sobremesas em geral.

Visitem o site de Suzy (em Inglês), vejam o barrigão de nove meses dela nesse post e confiram a receita dos biscoitos de aveia e passas que alegram as tardes de Edgar e da vitamina verde que deixa ele mais gentil (e o sobrinho de Suzy, de sete meses, também!). Tudo em Inglês, claro, mas nada que Google Tradutor não resolva.

E pra quem perdeu o último post, o Guia Papacapim de Alimentação Saudável ainda está a venda!!!

Quando conheci Anne ela era onívora. Quando começamos a namorar eu propus um trato: eu não cozinharia nada não-vegano e não queria que ela preparasse carne em casa, mas ela poderia ter laticínios e ovos na geladeira e sempre que quisesse comer carne iríamos a um restaurante. Como ela não consumia laticínios e raramente comia ovos, Anne propôs ir ainda mais longe: ela decidiu que a alimentação em casa seria sempre vegana e só comeria carne em restaurantes e nas casas dos amigos. E nunca mais falamos no assunto. Menos de quatro meses depois ela decidiu (por livre e espontânea vontade) se tornar vegana. Esse mês faz cinco anos que ela abraçou o veganismo, então achei que seria o momento ideal pra convidá-la pra participar da série ‘Porque me tornei vegano’.

Então ontem, depois do jantar, conversamos sobre as razões que a levaram a tomar essa decisão, as dificuldades que ela encontrou pelo caminho e as vantagens e desvantagens de ser casada com uma cozinheira vegana. Queridos leitores, com vocês Anne Paq (em versão lusófona).

Podemos fazer a entrevista agora? (Adoro conversas post refeições. Os pratos sujos na minha frente me relaxam e ficar brincando com as migalhas de pão sobre a mesa estimula o meu lado filosófico).

 Você quer mesmo me entrevistar? Então tá certo. Mas isso terá um preço.

Quer dizer que você não vai lavar a louça do jantar? (olhares aflitos na direção da pia, que estava coberta de panelas sujas)

(Silêncio)

 OK. Passemos à entrevista. O que fez você se tornar vegana?

Eu cresci acreditando que carne e laticínios eram indispensáveis pra nossa saúde, que só tinha proteína na carne… Eu tinha assimilado essa noção cultural de que o certo era comer de tudo. A minha região é famosa por fazer alguns dos melhores queijos da França, então comer queijos era quase uma parte da minha identidade. Nunca questionei essas afirmações, em nenhum momento desconfiei que isso não passava de crenças, de hábitos puramente culturais. Mas desde que fui morar no exterior (Anne morou na Austrália, Irlanda e Palestina antes de vir pra Bélgica alguns meses atrás) comecei, sem nenhuma razão especial, a comer menos produtos de origem animal. Quase nunca preparava carne em casa, raramente comia ovos, parei de tomar leite quando saí da infância e os únicos laticínios que me interessavam eram os queijos franceses, que eu só degustava quando ia visitar a minha família. Em casa eu quase sempre comia macarrão, verduras, arroz… Eu comia ratatouille umas três vezes por semana. Carne só aparecia no meu prato quando eu comia fora.

Quando fui morar na Palestina comecei a encontrar vegetarianos e veganos. Muitos ativistas estrangeiros e a maioria dos ativistas israelenses que conheci por lá eram veganos/vegetarianos e fui exposta à uma nova realidade. Quando entrei pro coletivo de fotógrafos Activestills, todos eram veganos. Não tivemos conversas sobre esse assunto, mas ao mesmo tempo não achei estranho o fato deles terem uma alimentação diferente da minha. Quando começamos a namorar você não falava sobre veganismo diretamente comigo, mas lembro que o assunto sempre vinha à tona durante os jantares com os amigos. Todos queriam saber por que você tinha se tornado vegana, o que leva alguém a fazer uma escolha tão ‘radical’. Eu escutava as suas explicações e aquilo fazia sentido pra mim, seus argumentos ecoavam com os meus princípios. Eu lutava por direitos humanos e confesso que tinha problemas em aceitar o pessoal que lutava por direitos animais. Tinha tanta coisa mais grave, séria e urgente acontecendo no mundo. Eu achava que a prioridade eram os direitos humanos. Mas aos poucos fui percebendo que aquele discurso, que você era obrigada a repetir pacientemente a cada jantar, fazia muito sentido pra mim. Se eu não queria que meus atos causassem sofrimento, se queria viver respeitando a natureza e se queria lutar por um mundo mais justo, o veganismo me pareceu como uma maneira de alinhar minhas convicções com os meus atos.

Houve um momento preciso em que o veganismo deixou de ser somente algo que você compreendia e até concordava, mas não praticava e passou a ser uma escolha óbvia pra você?

Teve o episódio do peru de Thanksgiving. Aquele foi um momento decisivo pra mim.

(Explicação. Em novembro de 2008 Anne fez uma exposição no QG da ONU em Nova York, comemorando o Dia Internacional de Solidariedade à Palestina, e aproveitamos pra passar uns dias na cidade. Ficamos hospedadas na casa de uma amiga americana dela. A família da amiga nos convidou pro meu primeiro e até hoje único Thanksgiving – dia de Ação de Graças. Nesse dia os americanos comemoram coisas duvidosas e fazem uma orgia gastronômica que tem como prato principal um peru assado. Eu era a única vegana do grupo, mas a família de Trish foi extremamente atenciosa comigo, preparando alguns pratos veganos e até um bolo de chocolate 100% vegetal só pra mim! Enfim, chegamos lá no momento em que a mãe de Trish tirava o peru assado do forno. Perus assados nunca fizeram parte dos jantares da minha família, nem no natal, e a cena que vi me deixou paralisada: uma ave gigante, que parecia que tinha tomado esteroides durante todos os dias da sua curta vida, extremamente bronzeada e brilhante e com as perninhas amarradas. A mãe de Trish cortou o fio que unia as perninhas do peru, separou as coxas dele, o que expôs um buraco enorme que supurava a mistura estranha que eles chamam de recheio e, segurando uma colher, inseriu a mão na cavidade localizada entre as pernas do animal e começou a retirar colheradas da mistura marrom fumegante. Eu via a mão daquela senhora elegante desaparecer e reaparecer entre as coxas do peru, enquanto ela sorria candidamente e nos desejava as boas vindas, e fiquei extremamente chocada com a cena. Eu, que nunca faço comentários com relação aos animais mortos que aparecem na mesa da minha família e amigos, virei pra Anne, que assistia a tudo com cara de quem estava tão perturbada quanto eu, e disse: “Essa foi a cena mais obscena que já vi.” Naquela noite Anne decidiu não comer o peru obsceno e alguns dias depois, enquanto comia o que viria a ser seu último hamburguer, ela tomou a decisão de se tornar vegana.)

 Como foi a transição?

Foi muito fácil, pois eu já estava comendo comida vegana diariamente há alguns meses e o fato de ter acesso à uma culinária vegetal super variada e extremamente saborosa facilitou enormemente o processo. O teste de fogo foi ter ido visitar minha família três semanas depois de ter me tornado vegana. Lá eu fui confrontada com a comida que mais tinha significado emocional pra mim, os maravilhosos queijos da minha região. E como era natal, a mesa estava sempre repleta de pratos não-veganos que até então tinham feito parte da minha história. Mas minhas convicções eram profundas e nem precisei resistir aos intermináveis banquetes de final de ano: eu não tinha mais vontade nenhuma de comer aquilo.

O que mais te ajudou nesse período?

Ver documentários sobre a exploração animal e ter acesso à mais informações sobre o assunto reforçaram a minha escolha. Quanto mais coisas eu descobria, mais eu me dava conta a que ponto eu era ignorante sobre essa questão e mais certeza eu tinha de ter feito a escolha certa. Ter a sorte de morar com uma cozinheira maravilhosa e ter acesso à comida vegana saborosa diariamente deixou tudo muito mais fácil. E o fato de não me sentir sozinha, pois alguns dos meus amigos e meus colegas de trabalho israelenses eram veganos.

Qual foi a reação da sua família quando você anunciou que tinha se tornado vegana?

Eu segui um caminho diferente da maioria das pessoas ao meu redor, então eles já estavam acostumados com as minhas escolhas originais. Ninguém julgou a minha decisão. Eles não só respeitam a minha escolha como sempre fazem questão de preparar opções veganas quando estou por lá. Só meu pai ficou um pouco desorientado no início. Logo depois de ter anunciado o meu veganismo ele perguntou se eu ainda comia tomate. Desconfio que o choque fez com que ele esquecesse por alguns segundos o que era vegetal e o que era animal. Mas ele se acostumou rápido com minha mudança de regime e tirando uma ou outra piada sobre tofu ele aceita minha escolha sem problemas. (No início, sempre que o pai de Anne nos via comendo -podia ser um pedaço de pão com geleia, uma salada ou uma papa de aveia- ele perguntava se era tofu. Mas com o tempo ele acabou percebendo que a gente comia outras coisas também.) Minha saúde melhorou desde que me tornei vegana, perdi uns quilos supérfluos sem precisar fazer regime, então isso fez com que eles respeitassem minha decisão ainda mais.

Quais foram as maiores dificuldades que você encontrou pelo caminho?

Abandonar os queijos franceses, que eu sempre associei aos bons momentos passados com a minha família, às minhas raízes. Além do sabor, pra mim eles tinham uma conotação afetiva muito forte. Mas com o tempo descobri alimentos que hoje me fazem salivar tanto quanto os queijos que eu costumava comer. Isso me ajudou muito. Queijo de castanha fermentado, por exemplo, me dá tanto prazer hoje quanto os queijos que eu comia antigamente.

Outra dificuldade foi perceber que eu não teria mais tanto prazer ao comer em restaurantes. Antes de me tornar vegana eu ia pra restaurantes quando queria comer algo especial e delicioso. Depois que o veganismo entrou na minha vida percebi que as únicas opções veganas dos menus eram salada, hummus e batata frita. Tive que aceitar que a partir dali frequentar restaurantes significaria passar momentos agradáveis na companhia dos amigos, mas que na maior parte do tempo o prazer gastronômico não estaria presente. Claro que isso não é exatamente um problema quando você tem a possibilidade de comer pratos saboroso em casa, diariamente, como é o meu caso. O prazer gastronômico continua fazendo parte da minha vida, mas agora eu como muito melhor em casa do que em restaurantes.

A terceira maior dificuldade que encontrei foi ter que encarar a resistência e a ignorância de algumas pessoas que insistem em tirar sarro e fazer piadas com o meu veganismo. Tem sempre aquele momento em que você precisa escolher entre confrontar essas pessoas e correr o risco de se lançar numa discussão desgastante e vã, ou ficar calada e fingir que não é com você. Dependendo do contexto escolho a primeira ou a segunda opção, mas às vezes, quando me calo, fico com um gosto amargo na boca. Por que algumas pessoas sentem a necessidade de ridicularizar as minhas escolhas se eu respeito as escolhas delas?

Quais foram os erros que você cometeu quando ainda estava engatinhando no veganismo e que poderiam ter sido facilmente evitados?

No início eu não me preparava o suficiente durante viagens, principalmente na França. No meu país é impossível encontrar comida vegana pela estrada, não existe nenhum sanduíche vegano nas lanchonetes. Outro erro que eu cometia assim que me tornei vegana: quando era convidada pra jantar na casa de alguém eu pensava ‘Ela já sabe que sou vegana, então não preciso relembra-la’. Eu ficava com receio de parecer desagradável e muitas vezes a pessoa acabava esquecendo o meu veganismo e me recebia com um prato de origem animal e nada mais. O constrangimento era muito maior do que se eu tivesse ligado pra pessoa na véspera pra refrescar a memória dela. Hoje eu sempre converso com as pessoas antes, explico o que como e o que não como e até dou sugestões de pratos se elas confessarem que não têm ideia do que preparar pra mim, o que acontece com frequência. É mais simples pra todos e você não corre o risco de constranger seu anfitrião.

Que pessoas ou organizações te inspiram no terreno do veganismo?

Fica muito piegas se eu responder ‘você’? Você me inspira todos os dias com a sua comida, que é deliciosa, variada e surpreendente. Eu adoro a maneira que você vive o seu veganismo, sem dar lições de moral e sem dizer como as pessoas devem se comportar, mas compartilhando o seu amor e entusiasmo pela culinária vegetal com os outros. Saber que você conseguiu fazer o meu pai, um francês do interior da França que se alimenta de maneira super tradicional, comer tofu e gostar me enche de esperanças. Fico pensando que é possível fazer as pessoas se abrirem à culinária vegetal e se convencerem que podemos comer muito bem sem precisar de produtos de origem animal.

O que faz você se manter vegana num mundo onde comer carne é uma opção muito mais fácil? 

A partir do momento em que descobri que podemos comer bem e manter a saúde sem consumir produtos de origem animal e que de quebra essa escolha era coerente com os meus valores mais profundos, não tinha como eu não me tornar vegana.  Eu não vejo como eu poderia voltar atrás hoje, isso iria radicalmente contra os meus princípios, seria uma violência contra mim mesma.

E embora seja mais fácil ser onívoro do que vegano, eu só tive a ganhar com a transição. Eu não só não precisei abrir mão do prazer gastronômico como vi o mesmo se multiplicar. Minha saúde está muito melhor hoje, tenho um peso mais saudável, me sinto mais leve e com mais energia. Sempre fico chocada nessa época do ano, quando a minha família prepara banquete atrás de banquete, e vejo meus familiares reclamarem do peso no estômago, problemas com a digestão e todo o mal estar causado pelo consumo exagerado de carnes e queijos. Eu era exatamente assim, mas hoje atravesso as festas de final de ano bem alimentada, leve e feliz. Meu corpo está mais leve, mas a minha consciência também. Foi uma das decisões mais importantes da minha vida.

Algumas dicas pra quem gostaria de se tornar vegano?

Primeiro de tudo: leia o blog Papacapim. Se informar é crucial. Nos últimos anos houve uma explosão de sites veganos e é possível encontrar todo tipo de informação importante na internet. A comunidade vegana virtual não para de crescer. Outra coisa importante: substituir a carne por tofu e o leite de vaca por leite de soja não é suficiente. Não abuse dos produtos veganos industrializados, como burguers, salsichas e outros embutidos, pois eles não são bons pra sua saúde. Você precisa sair do velho modelo de alimentação e repensar a maneira como se alimenta.  É possível ter uma alimentação variada e saborosa só com produtos naturais, então explore novos ingredientes e procure expandir seus horizontes gastronômicos. Na França, por exemplo, não temos costume de comer leguminosas nem aveia e hoje eu adoro as duas. (Antes de me conhecer, Anne nunca tinha comido feijão e achava que aveia era comida pra cavalo. Juro.)

Como é viver com uma cozinheira vegana?

Me sinto muito sortuda por ser sua cobaia e ser ‘obrigada’ a testar suas receitas todos os dias. Ter visto o seu talento passar de algo secreto pra algo público me enche de alegria. Fico muito feliz em ter testemunhado essa evolução. Teve uma época em que você tentava me convencer que era um micróbio e se contentava em criar receitas sozinha no seu cantinho, mas felizmente você decidiu ir mais além e dividir o seu talento e receitas com os outros. Eu tenho muito orgulho de ser sua esposa. E mais ainda quando leio os comentários que seus leitores escrevem no blog, pois vejo a que ponto você inspira e ajuda as pessoas.

(Eu ainda tenho certeza absoluta que não passo de um micróbio e isso não é complexo de inferioridade, pois estou convencida que somos todos micróbios. Quando penso no meu tamanho comparado à imensidão do universo e no tempo que vai durar a minha vida comparado aos bilhões de anos das galáxias, acho ridiculamente megalomaníaco pensar que sou algo mais que um micróbio. Mas sou um micróbio extremamente ativo 🙂 )

Quais são as desvantagens de viver comigo?

Tem sempre muita louça pra lavar, mas isso é um preço pequeno pra degustar os pratos que você faz. Acontece muito de você fazer um prato maravilhoso e nunca mais repetir, pois está sempre criando receitas novas. Isso é cruel. Mas a maior desvantagem de viver com uma cozinheira é que você passa muito tempo na cozinha e no final do dia está sempre cansada demais pra aproveitar a noite, ver um filme… Às vezes eu gostaria que a gente jantasse algo simples e rápido pra ter mais tempo pra ficar juntas à noite.

Qual o cardápio típico da casa Papacapim?

Os pratos são muito variados, estou sempre descobrindo coisas novas. Não tem cardápio típico, mas eu sei que todo dia vai ter algo que eu vou gostar. Em cinco anos talvez só duas vezes não gostei muito de algo que você preparou. Começamos o dia com um bom café (orgânico e fair trade), às vezes com um café de cereal, mais papa de aveia, pão com queijo de castanha ou hummus, ou só com azeite e levedo maltado. No almoço tem sempre uma salada crua e um prato mais consistente. Às vezes almoçamos restos do jantar, mas quase sempre é um prato novo. No jantar, porque é inverno agora, quase sempre tem sopa. Às vezes a sopa é o prato principal, às vezes tomamos uma sopa leve como entrada e outro prato quente. A gente tenta comer legumes de época e produzidos localmente, então no momento comemos muita abóbora, couve, beterraba, repolho, maçã…

 Qual é o seu prato preferido?

Macarrão. O molho varia de acordo com o dia. Nisso eu tenho muita sorte, pois suas receitas de macarrão são ótimas. Acho que seu molho carbonara é o meu preferido.

Você está no corredor da morte e pode pedir qualquer coisa, vegana ou não, pra sua última refeição. O que você pede?

Antipasto tricolor (com manjericão), aquela massa com creme de trufas e sálvia que você preparou na Itália (mais uma delícia que você preparou uma única vez e nunca mais tive o prazer de comer!) e, como sobremesa, crumble cru de pêssego ou seu sorvete de banana e amêndoas tostadas. Mas você concorda que eu não preciso ir pro corredor da morte pra ter direito a esse menu, não é?

 (Ah, essa massa com creme de trufas e sálvia… Anos atrás Anne e eu alugamos uma casinha na Toscana e passamos duas semanas deliciosas, visitando feiras, comendo pratos suculentos, enchendo a pança de gelato e admirando os girassóis. Durante uma das nossas andanças vespertinas, que sempre incluía visitas à mercearias locais, achei um potinho minúsculo com uma quantidade ridícula de trufa negra, aquele fungo mega caro e mega saboroso, e levei pra casa. Não tinha como fazer um jantar com aqueles míseros gramas de trufa, então tive a ideia de usar o ingrediente pra perfumar um molho cremoso e misturar com macarrão. Num relampo de inspiração resolvi acrescentar ao prato umas folhinhas da sálvia que crescia no jardim da nossa casa italiana. A mistura ficou sublime, mas tenho certeza que o fato de estar de férias, curtindo uma noite morna e perfumada em um vilarejo perdido na Toscana e do jantar ter sido servido à luz de velas e sob um teto de estrelas contribuiu muito pra transformar aquele prato em algo inesquecível. A mesma massa servida sem todo aquele romantismo, na cozinha do nosso apartamento em Bruxelas, teria um sabor muito inferior.)

Obrigada por ter se dado o trabalho de vir até aqui me dar essa entrevista. Foi muita gentileza sua.

O prazer foi todo meu. Adorei o seu apartamento. Mas ficamos falando, falando e agora está tarde demais pra voltar pra casa. Posso passar a noite aqui?

Só se você lavar a louça.

 anne

Sempre peço pros meus entrevistados dividirem uma receita simples conosco. Como Anne adora macarrão, ela tinha que dividir uma receita de massa com vocês. Outro dia ela teve que fazer o jantar, o que acontece quando estou muito atarefada ou muito cansada (ou doente), e decidiu fazer macarrão com brócolis. Eu, sem tirar os olhos da tela do computador, disse: “Não vai dar certo.” Porque outra desvantagem de morar com uma cozinheira é que sempre acho que minhas ideias são melhores do que as delas. Ela respondeu que ia dar certo, sim. E realmente deu, só que a receita podia ser melhorada. Mais uma desvantagem de morar comigo: eu sempre acho que posso melhorar as receitas dela (e de todo mundo). Então uns dias depois usei a receita dela como base, mas mudei a técnica, acrescentei um tiquinho disso e outro daquilo… No final ela concordou que minha versão era melhor (HÁ!) e é essa que vamos dividir com vocês.

Macarrão com pesto de brócolis

Lave e corte um buquê médio de brócolis: o talo deve ficar bem picado e as flores devem ser cortadas em pedaços maiores. Cozinhe no vapor até o brócolis ficar extremamente macio e se desintegrando. Reserve. Em uma panela grande aqueça 1cs de azeite e doure 6 dentes de alho grandes picados (ou mais, se seu alho for pequeno). Não tenha medo de usar bastante alho, ele é indispensável aqui. Coloque o brócolis cozido na panela do alho frito, deixe aquecer alguns instantes e esmague com um garfo, formando um purê (alguns pedaços inteiros são bem-vindos). Desligue o fogo e junte um punhado de manjericão fresco picado e mais 4cs de azeite. Tempero com sal e bastante pimenta do reino moída na hora.

Cozinhe (em bastante água salgada) macarrão suficiente pra duas pessoas, de preferência do tipo espaguete ou linguine. Reserve 1/2 xícara da água de cozimento e escorra a massa cozida. Jogue imediatamente o macarrão na panela onde está o molho de brócolis, junte a água de cozimento que foi reservada e misture bem. Prove e acrescente mais sal, pimenta, azeite e/ou manjericão, se achar necessário. Sirva polvilhado com castanhas do Pará raladas e levedo de cerveja maltado, se você tiver a sorte de ter esse ingrediente em casa (se não tiver, não tem problema, ainda assim seu prato ficará delicioso). Rende 2 porções grandes.