Posts de categoria: Condimentos, molhos e temperos

Por alguma razão misteriosa (eu culpo as forças ocultas), até algumas semanas atrás eu nunca tinha feito pesto de verdade. Adoro meu molho de majericão com amêndoas, que já apareceu aqui no blog acompanhando meus nhoques, mas ele não é pesto. Um dia li um longo artigo sobre a arte de fazer pesto, picando tudo com uma faca grande (ou, melhor ainda, com uma mezzaluna) e pensei “Sou tão feliz com meus pesto cremoso falsificado, então por que me dar todo esse trabalho?”. Até que durante as férias na França uma vontade aguda de pesto me invadiu e como não tinha nenhum liquidificador por perto fui forçada a usar o método tradicional manual. Ô dia feliz!

manjericãopesto vegano2

Pensei que fosse exagero  essa história de que pesto feito manualmente é infinitamente melhor, mas como eu estava errada! Por alguma outra razão misteriosa os micro pedacinhos de manjericão oferecem um sabor superior, muito mais vivo e intenso, do que a pasta que eu obtenho quando trituro tudo no liquidificador.

Claro que a minha versão foi ligeiramente adaptada. Deixei o queijo de fora e usei castanhas do Pará no lugar dos caríssimos ‘pignoli’. No sul da França tem um molho gêmeo do pesto, chamado de ‘pistou’, que não leva queijo, sendo naturalmente vegano. Então pensei que se os franceses, os maiores adoradores de queijo do planeta, preferem deixá-lo de fora, deve haver um motivo. Acho que descobri: o queijo parmesão, com seu sabor intenso, acaba abafando o sabor de manjericão e, honestamente, com tanto azeite e oleaginosas (sejam elas pignoli, castanhas do Pará ou nozes), quem precisa de mais gordura no seu molho? Resultado: pesto sem queijo é mais vibrante, menos enjoativo e mais leve. Notem que eu não disse ‘light’, pois continua sendo bem calórico. A boa notícia é que essa versão é uma bomba de sabor e você só vai precisar de um pouquinho pra deixar sua comida deliciosa.

 batata nova

batata nova assada

As maneiras de degustar esse pesto são inúmeras. Você pode espalhar um pouco em uma fatia de pão tostado, usar como molho pra macarrão, servir sobre saladas de tomate, bruschetas, pizzas, na sopa… Mas acho esse molho particularmente espetacular com batatas assadas. Como está na época das batatinhas novas (pequeninas e deliciosas, com um leve sabor de avelãs, que a gente come com casca e tudo), servi os dois juntos várias vezes enquanto estive na França. Mas mesmo se suas batatas foram comuns, não deixe de experimentar essa mistura.

Meu pesto (vegano, sem glúten)

1 buquê de manjericão (aproximadamente 4cs depois de picado)

4-6 castanhas do Pará

1/2 dente de alho pequeno

5cs de azeite extra virgem

um pouco de suco de limão

sal e pimenta do reino

Usando uma faca grande e afiada, ou uma mezzaluna, pique finamente as folhas de manjericão. Elas devem ficar bem picadinhas (veja foto acima), então seja paciente. Rale as castanhas do Pará (tenho um super ralo microplane que as deixa com a textura de parmesão ralado, como vocês podem ver na foto acima) e pique (ou rale) o alho. Misture o manjericão picado, as castanhas raladas,o  alho picado (ou ralado), o azeite e um pouco de suco de limão (aproximadamente 1cc). Tempere com sal e pimenta do reino a gosto e misture bem. Prove e corrija o tempero, se necessário. Pode ser conservado na geladeira por alguns dias. É normal o azeite se separar um pouco do majericão. Pra resolver esse problema basta misturar tudo com uma colher antes de servir. Sirva com batatas assadas, macarrão, saladas…

geleia morango chia

Esse mês pretendo tratar da questão do açúcar na alimentação, mas antes de dividir com vocês todas as informações que juntei nos últimos anos (preparem-se que o negócio é pesado), achei que seria interessante publicar uma ou outra receita doce sem açúcar por aqui.

Faz tempo que o açúcar não faz mais parte da minha alimentação, mas mesmo depois de ter parado de consumi-lo, criei algumas sobremesas com açúcar pra agradar amigos e familiares. E, claro, pra agradar vocês, queridos leitores. Durante muito tempo fiquei com medo de banir de vez o açúcar aqui do blog e provocar reações negativas entre vocês. Já fui chamada de ‘radical’, ‘extremista’ e até ‘xiita’ por causa dos meus hábitos alimentares, que alguns consideram inutilmente excessivos. Mas quando publiquei algumas receitas sem açúcar a reação de vocês foi exatamente o oposto e muita gente me escreveu agradecendo. Descobri que alguns dos meus leitores também cortaram, ou estão tentando cortar, o açúcar do seu dia-a-dia, então hoje me sinto à vontade pra fazer esse anúncio: de agora em diante o açúcar virou persona non grata (eu deveria dizer ‘ingrediente non grato’?) nesse blog e não aparecerá mais no Papacapim (tirando, talvez, alguma rara exceção).

O que nos leva à receita de hoje. Eu gostaria de dizer que a ideia de fazer geleia de frutas crua com chia saiu da minha cabeça, mas a verdade é que vi algo parecido em um blog canadense e imediatamente dei aquele tapão na testa que significa ‘por que não pensei nisso antes?’. Que ideia de gênio! Mas eu queria ver se deixava a receita ainda mais nutritiva e comecei a fazer modificações. Amigo(a)s, consegui transformar uma das coisas menos saudáveis que existe (geleia é praticamente só açúcar!) em algo rico em fibras (morango+passas+chia), sem um grama de açúcar (só o açúcar natural da fruta está presente aqui), rico em ferro (das passas) e em ômega 3 (da chia)! Se vocês estivessem aqui quando coloquei a primeira colherada de geleia na boca teriam me visto pinotando na cozinha…

geleia morango e chia3

Embora eu esteja eufórica (como quando criei os famosos omeletes veganos), preciso avisar que essa geleia não é exatamente como as geleias tradicionais. Embora eu tenha incluído uma foto da minha geleia espalhada em um pedaço de pão nesse post, era só pra mostrar a textura, pois acho que ela não é doce o suficiente pra ser comida assim. Mas as possibilidades são inúmeras. Desde que fiz essa receita degustei minha geleia em uma vitamina de banana (misturei uma banana, leite de amêndoa e uma colher de sopa de geleia de morango e além da vitamina ter ficado deliciosa, a cor ficou linda), misturada na minha papa de aveia matinal (acrescentei uma colher de sopa por porção à papa pronta) e pura, quando bate aquela vontade de comer algo doce depois das refeições. Mas imagino que ela ficaria perfeita como recheio de bolos e tortas, ou misturada à sobremesas com chocolate. Na próxima vez que fizer esse pavê trufado de chocolate usarei essa geleia substituindo os morangos macerados com açúcar. ‘Deliciosa’, ‘nutritiva’ e ‘versátil’ são os adjetivos que mais valorizo quando se trata de receitas e essa geleia reúne os três.

Vou aproveitar que a feira está inundada de morangos (a primavera sempre chega mais cedo por aqui) e durantes as próximas semanas não vai faltar geleia na minha geladeira!

(Se você estiver procurando uma geleia mais tradicional, mas igualmente sem açúcar, veja minha receita de geleia natural de ameixa.)

geleia morango e chia2

Geleia natural de morango e chia (sem açúcar, crua)

Essa receita é adoçada com passas então a quantidade utilizada vai depender da doçura dos seus morangos e da sua afinidade com doce. Meus morangos estavam bem doces e só precisei de 1/2x de passas, mas se os seus estiverem azedos (ou se você preferir uma geleia mais doce) você vai precisar de uma quantidade maior. Eu gosto de combinar morango com raspas de limão, pois acho que uma pontinha de acidez realça o sabor, mas baunilha fica ainda melhor com essa frutinha.

400g de morangos maduros

Entre 1/2x e 1x de passas

1cc de suco de limão

2cs de sementes de chia

1cc de extrato natural de baunilha (ou as sementes de 1 favo de baunilha) OU 1/3cc de raspas de limão (opcional)

Lave os morangos, retire os cabinhos e corte em pedaços miúdos. Coloque metade dos morangos picados no liquidificador junto com as passas (a quantidade vai depender da doçura dos seus morangos) e triture até virar um purê. Desligue o motor algumas vezes e mexa com uma colher pra facilitar o processo, mas não acrescente água. Prove e se achar que não está doce o suficiente junte mais um pouco de passas e volte a triturar. Despeje o purê de morango e passas sobre o resto dos morangos picados, junte o suco de limão, as raspas de limão ou a baunilha, se estiver usando, e a chia. Misture bem. Deixe a chia hidratar 15 minutos (mexa a cada 5 minutos) antes de degustar. Se conserva na geladeira por alguns dias (a geleia vai ficar mais espessa depois de descansar umas horas na geladeira). Rende aproximadamente 2x.

Em sentido horário, começando por baixo: camomila, alecrim, sálvia, verbena e tomilho. Tudo desidratado na minha cozinha.

Talvez algumas pessoas não saibam, mas é muito fácil secar ervas aromáticas e medicinais em casa. Tenho potinhos de alecrim e manjericão no pátio e a vizinha cultiva algumas ervas medicinais no jardim que divide conosco. Além disso, o mercado de Belém, com toda a sua abundância de sálvia e tomilho, entre outras ervas, fica pertinho de casa e vez ou outra trago lindos buquês verdes de lá. Aqui na Palestina a bebida tradicional é uma mistura de chá preto e sálvia (às vezes chá preto e hortelã), por isso os buquês vendidos na feira são bem grandes. Por mais que eu adore ervas frescas, às vezes minha cozinha fica inundada de ervas (buquês comprados na feira, presentes da vizinha, ramos das minhas plantinhas que precisaram ser podados…) e é impossível usar aquilo tudo nas minhas receitas antes que elas apodreçam na geladeira. A solução é transformá-las em ervas secas, pois assim elas se conservam por muito mais tempo.

Uso ervas secas em sopas, molhos, massas e ensopados, mas também pra perfumar sal marinho e fazer chá (infusão). Pra secar as ervas em casa é muito simples. Geralmente lavo os ramos com água e deixo secar sobre um pano de prato. Quando toda a água tiver evaporado, junto os ramos em um buquê e penduro em algum lugar da cozinha onde não bate sol. Tenho uma fruteira de metal, com vários andares, e na cestinha de cima tem sempre ervas secando. Algumas pessoas aconselham envolver os buquês com papel toalha ou papel de seda, antes de pendurá-las, pra ajudar a absorver a umidade das folhas. Embora eu nunca tenha usado esse método, e sinceramente minhas folhinhas secam perfeitamente sem precisar de papel, acho que devo isso ao clima da Palestina, que é extremamente seco. Se o lugar onde você mora é úmido, provavelmente o papel vai ser útil. Percebi também que essa dica é boa pra proteger as ervas de poeira, que pode se acumular durante os dias (as ervas precisam de vários dias pra secar). A minha cozinha não tem janela, infelizmente, mas a vantagem é que justamente por causa disso quase não entra poeira aqui.

Então fica a dica: amarre as ervas limpas, sem nenhuma gota da água da lavagem, formando um pequeno buquê (um buquê grande demoraria mais pra secar e as folhas do meio podem mofar) e pendure em algum lugar da sua cozinha onde não bata sol direto (um varal, um gancho, um porta chaves), envolvido ou não em uma folha de papel toalha ou papel de seda. Depois é só separar as folhas dos galhos e guardar em um pote bem fechado (fora da geladeira). Eu deixo as ervas nos galhos, como mostram essas fotos, e vou arrancando folhinhas conforme a minha necessidade. Mas atenção: nem todas as ervas podem ser desidratadas em casa. Ervas como manjericão, hortelã, salsinha e coentro, por exemplo, geralmente apodrecem antes de secar. As que já sequei em casa com sucesso são as seguintes: sálvia, tomilho, alecrim, camomila e verbena.

Sugestões de uso de algumas dessas ervas:

-Sálvia: combina muito bem com jerimum (abóbora), batata doce, feijão branco e cogumelos. Quer mais inspiração? Veja essa receita de quiche com cogumelo, limão e sálvia que publiquei aqui ano passado. Sálvia também pode ser consumida na forma de infusão. Ela é ótima pra ajudar a resolver problemas intestinais como digestão difícil, dores no estômago e diarreia. Ferva uma xícara de água e junte uma colher de sobremesa de sálvia seca. Deixe descansar alguns minutos, coberta, e coe antes de beber. Aprendi essa “receita” com minhas amigas palestinas e ela me ajudou várias vezes.

-Alecrim: perfeito com batatas. Também fica ótimo com qualquer legume assado. Mais inspiração: risoto de alecrim e limão com tomate cereja assado e salada de batata, tofu defumado e uva. As duas receitas usam alecrim fresco, mas você pode substituí-lo por alecrim seco no risotto.

-Tomilho: gosto de usar em legumes assados e sopas. O sabor é bem intenso, então uma dose pequena é suficiente pra perfumar o prato. Tomilho é a base do condimento mais famoso na Palestina e que faz parte do café da manhã de todo mundo aqui: za’atar (um dia posto a receita).

-Verbena e camomila são deliciosas como infusão. Verbena é calmante e digestiva (além de ter um sabor ótimo) e uma xícara de infusão de camomila meia hora antes de deitar é garantia de espantar qualquer insônia. Lembre-se que pra aproveitar o poder medicinal das ervas é imprescindível cobrir a xícara, ou chaleira, enquanto a erva descansa na água quente e tomar as infusões SEM AÇÚCAR.

Sal marinho com tomilho.

Folhas delicadas, que não podem secar ao ar livre, podem ser desidratadas no forno, como expliquei no post sobre como fazer sal de salsão. E falando em sal de ervas, aqui vai mais uma sugestão deliciosa. Misture uma parte de sal marinho com a mesma medida de tomilho seco e triture bem. Você pode usar um pilão ou um mini processador pra fazer isso. Depois é só guardar em um pote bem fechado e usar pra temperar sopas, feijão, arroz e ensopados.